HISTÓRIA DE SÃO JOÃO
DE BRITO
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SÃO JOÃO DE BRITO MÁRTIR (1647 – 1693) |
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Era natural de Lisboa, onde
nasceu no 1º de Março de 1647, filho de Salvador Pereira de Brito e Brites Pereira.
Muito menino ainda, perdeu o pai, que alguns anos depois da restauração de 1640
fora mandado por D. João IV governar o Brasil, onde faleceu.
Sua mãe consagrou-se totalmente
aos três filhos que o marido lhe deixara. João, o mais novo, foi educado na
corte, entre os pajens do Infante D. Pedro. Já desde essa tenra idade começou a
cultivar desejos de vida mais perfeita, abrigando aspirações de completo
sacrifício e imolação a Deus.
Mas nem todos os companheiros lhe
sabiam apreciar devidamente a virtude e talentos; e com palavras ofensivas
fizeram-lhe pagar às vezes os pequeninos triunfos conquistados. Desde então,
começou a corte a dar-lhe o cognome de mártir.
Assaltou-o nessa ocasião uma
gravíssima doença. Chegaram os médicos a perder a esperança de lhe salvar a
vida; não a perdeu, porém sua piedosa mãe. E Sua fez promessa a S. Francisco
Xavier que, se o filho recobrasse a saúde, o traria vestido durante um ano
inteiro com a roupa da Companhia. Deus atendeu favoravelmente a piedosa
súplica. Trajando humilde batina negra, acompanhava João o infante D. Pedro.
Começou a ser conhecido na corte pelo nome de Apostolinho, alusão ao nome
glorioso de Apóstolos, com que em Portugal eram conhecidos os membros da
Companhia de Jesus, graças ao zelo e fervor empregados pelos Padres Simão
Rodrigues e S. Francisco Xavier.
Ao expirar o prazo da promessa,
com grande mágoa sua, João largou a batina da Companhia, conservando, porém,
muito gravado no coração, o desejo de podê-la um dia revestir para não mais a
largar. Começados os 14 anos, sem demora se apresentou na casa professa de S.
Roque a solicitar ser admitido entre os noviços. Era, porém, necessário vencer
antes as dificuldades, que certamente haviam de surgir. Com prudente e sábia
destreza, logrou João de Brito declinar as honorificas seduções.
Apresentou-se depois à mãe e
expôs-lhe as razões que o moviam a entrar na Companhia. Sua mãe, ainda que
amasse ternamente o filho, compreendendo que o amor de Deus está acima do amor
das criaturas, generosamente concedeu a João a suspirada licença.
Aos 17 de Dezembro de 1662
iniciava finalmente João de Brito o seu noviciado em Lisboa. Distinguiu-se
muito pela piedade e observância religiosa. Com não menor ardor entrou na
carreira dos estudos. Uma idéia o dominava e absorvia. Anelava conquistar almas
para Jesus Cristo e sacrificar-se, a exemplo de S. Francisco Xavier, na
evangelização da Índia. Implorou esta graça em repetidas cartas ao Geral da
Companhia de Jesus. Em 1669 via coroadas de feliz êxito as suas ardentes súplicas.
Ao chegar ao conhecimento de D.
Brites que seu filho ia partir para a Índia, não houve pedra que não movesse
para impedi-lo. Recorreu primeiramente ao padre Provincial; dirigiu-se depois
ao Rei e ao Núncio. E decerto conseguiria retê-lo se ele estivesse certo de sua
vontade.
Em Março de 1673, João de Brito,
ordenado sacerdote pouco tempo antes, podia enfim sair de Lisboa, em companhia
de uma expedição de 17 missionários. Durante os seis meses de travessia, foi
apóstolo da tripulação.
Nas costas da Guiné houve grande
número de enfermidades. Apesar de muito abatido, o padre João de Brito
prodigalizou aos enfermos toda a sorte de socorros espirituais e temporais. Mas
sendo Deus servido que o mal cessasse dentro em pouco, chegaram Goa em Setembro
do mesmo ano.
Em Goa terminou os estudos de
teologia, e os Superiores pensaram encarregá-lo de reger uma cadeira de
filosofia. Em Abril de 1674 partia para o colégio de Ambalacate, no qual os
missionários se preparavam, no Sul da Índia, com o estudo das línguas nativas.
E durante quase vinte anos havia de dar os exemplos mais admiráveis de zelo e
fortaleza.
Destinou-o os superiores para a
missão do Maduré, uma das mais trabalhosas. Oferecia especiais dificuldades à
evangelização, tanto por causa do clima quente, das viagens através de areais,
de pântanos, de bosques e de serras, como principalmente pela condição dos
hindus e pelas suas idéias a respeito dos europeus. Tinham-nos na conta de
parias por verem que tratavam com estes "fora de castas", aos quais
"os de castas" não consentem morar em suas povoações nem deles se
servem para qualquer mister. Neste afastamento os envolvem não só a eles, mas a
todos os que com eles tratam.
A caridade de Cristo ensinou,
porém, aos missionários a maneira de vencer estas dificuldades, à primeira
vista insolúveis. Conservando em tudo a pureza da doutrina cristã, procuraram
amoldar-se ao caráter dos hindus, adotando os trajes, os costumes e o modo de
viver dos brâmanes saniássis, espécie de religiosos letrados.
Que vida levava João de Brito,
criado entre os mimos da corte de Lisboa! O seu alimento era arroz, legumes,
algumas ervas e leite, sem jamais tocar em carne ou peixe. Dormia sobre a terra
nua ou, quando muito, sobre uma pele de tigre estendida no chão. O calçado
reduzia-se a uma espécie de sola de madeira, presa ao pé com um botão. Os
vestidos eram tão pobres que um dos seus biógrafos, que os viu em Portugal,
lhes chama andrajos. Tal foi o modo de vida, constantemente observado durante
treze anos consecutivos.
Depois de atravessar a pé o
continente índico, desde Tanar na costa ocidental até Colei na oriental,
estando a ponto de perder a vida, percorreu várias vezes toda a missão. Os
frutos recolhidos não podiam deixar de suscitar perseguições, especialmente dos
brâmanes.
Em 1686 esteve a ponto de perder
a vida o zeloso missionário, que viera pressuroso a socorrer os cristãos do
Maravá, sobre os quais se desencadeara tremenda tempestade. Passaram de dois
mil os catecúmenos batizados; administrou, além disso, os santos sacramentos a
todos os cristãos que para lá se dirigiram.
Alegre com os frutos
consoladores, dirigia-se para as províncias do Norte, em companhia de alguns
catequistas, quando se encontrou com o comandante das tropas do Maravá frente
de mais de 1.000 soldados e grande número de gente da corte. Preso, juntamente
com os catequistas, fê-los o comandante açoitar de modo muito cruel, querendo
obrigá-los a invocar um deus dizendo Shiva, Shiva.
Por fim, carregando-os de
grilhões, amarraram o P. Brito no meio da praça ao cepo dos parias, e assim
ficou, toda aquela noite e o dia seguinte, até depois do meio-dia, exposto às
vaias. Depois os levaram a uma fortaleza, usando os gentios de grandíssima
crueldade durante o caminho. Chegados aí, quiseram outra vez obrigá-los a dizer
Shiva, Shiva; em caso contrário, condená-los-iam à morte, o que de fato
aconteceu.
Alegres esperavam o momento de
receber a palma do martírio, e para essa hora se preparavam, entoando cânticos
e rezando a ladainha de Nossa Senhora e outras orações. Foram interrompidos
pelos algozes que, levando-os para fora da prisão, novamente os açoitaram.
Depois conduziram o padre Brito a um lugar onde havia uma grande pedra com
muitas pontas agudas, e sobre a qual dardejava o solo dia inteiro. Nela o
deitaram e sobre ela o arrastaram, até que, por fim, cansados, o abandonaram
com o corpo
Mas alguns dias depois, mandou o
régulo que o missionário e os catequistas fossem levados à corte, distante mais
de
Pouco tempo depois, uma carta do
padre. Provincial Manuel Rodrigues chamava-o à costa da Pescaria, onde recebeu
ordem de voltar à Europa, a fim de, em Lisboa e Roma, tratar negócios para o
bem das cristandades. Em 08 de Setembro de 1688 voltava a Lisboa. Apenas
constou na cidade a vinda do heróico missionário, foi extraordinária a
quantidade de gente para ver e venerar aquele esforçado confessor da fé, que
ainda conservava visíveis no corpo as cicatrizes dos tormentos suportados por
amor de Cristo.
D. Pedro II recebeu-o com a maior
benevolência; quis ouvir de sua boca a exposição minuciosa dos trabalhos no
Maduré e prometeu acudir com magnificência às necessidades das missões.
Alcançada a benevolência do Rei, e não lhe sendo possível passar a Roma, quis o
Santo missionário percorrer os principais Colégios da Companhia em Portugal,
despertando a sua vista santo entusiasmo em toda a parte. Sem esquecer nesta
ocasião as obrigações para com a mãe e os irmãos, soube, contudo, dar repetidas
mostras de quanto era sobrenatural o seu amor.
Já se preparava para se fazer de
novo à vela para a Índia, quando surgiu da parte do Rei um impedimento
inesperado. Queria D. Pedro 11 retê-lo, a todo o custo, na corte para o cargo
de preceptor do Príncipe e dos infantes. A tudo resistiu e de tudo triunfou a
humanidade e constância do servo de Deus, que anelava somente a palma do
martírio.
Poucos meses depois de chegar à
Índia, encontrava-se de novo evangelizando entre os povos do Maravá; houve dias
em que passou de 3.000 o número dos regenerados em Cristo pelo batismo. Entre
os convertidos contava-se um príncipe chamado Tariadevém.
Foi esta conversão à causa última
da morte do nosso S. João de Brito. Antes de receber o sagrado batismo, quebrou
o cristão-novo generosamente os laços da poligamia. Entre as mulheres
repudiadas, contava-se uma sobrinha do rei do Maravá. Menos se necessitava para
enfurecer o tirano. Sob pretexto de vingar sua sobrinha, não se atrevendo a
descarregar a ira sobre o esforçado príncipe, voltou-se contra o Saniássis
europeu. Mandou, pois, saquear as igrejas dos cristãos e trazer à sua presença
o missionário. Correm os ministros à povoação de Muni; sai-lhes ao encontro o
Padre João de Brito, manifestando o gozo que experimenta vendo finalmente
chegada à hora do martírio. Poucos dias depois, dava entrada nos cárceres do
Maravá em companhia de alguns cristãos.
Somente 23 dias depois foi com
seus companheiros apresentados ao rajá, em cuja presença estiveram mais de duas
horas de pé, expostos às injúrias, escárnios e vitupérios dos cortesãos. Pouco
depois, assistindo o Padre ao interrogatório de dois dos cristãos presos,
advertiu ao bárbaro que, se era crime aqueles jovens serem cristãos, ele era o
culpado desse crime, pois os instruíra e batizara. Irritados com esta
observação, o tirano e os que o assistiam lançaram-se ao missionário e descarregaram
sobre ele tantas bofetadas e pancadas, que os circunstantes julgaram que não
sairia dali com vida. Ali mesmo esteve para ser morto a tiros de arcabuz, mas,
quando tudo estava já preparado para a execução, o régulo, temendo algum motim
do povo, apartou o missionário da companhia dos outros cristãos e mandou-o a um
seu irmão para que o degolasse. Foi à sentença executada a 4 de Fevereiro de
1693, perto de Urgur, sobre um outeiro. Na véspera, dirigindo-se ao Superior da
Missão, assim interpretava o martírio que iria sofrer: "Quando a culpa é
virtude, o padecer glória".
Chegado ao lugar do martírio,
ajoelhou-se o missionário para se encomendar pela última vez a Deus, no meio do
silêncio da multidão atônita. Vacila o verdugo ao aproximar-se, não se
atrevendo a interromper-lhe a fervente oração. Vozes de indignação e despeito
quebram de repente a solenidade daquele silêncio: era o filho do primeiro
ministro que vinha correndo a estimular o verdugo à execução da sentença.
Hesita, não obstante. Nesse momento, os circunstantes viram assombrados o Santo
Mártir levantar-se e, abraçando-se ao algoz, dizer-lhe: <<Amigo, da minha
parte cumpri o meu dever; tu cumpres a ordem que te foi dada». E, de joelhos em
terra, espera o golpe. Separam-lhe o bárbaro os vestidos, mas, ao notar o
relicário que lhe pendia ao peito, novamente o invade o terror, julgando ver
algum encantamento ou sortilégio. Retrocedendo um pouco, corta dum golpe o
cordão, abrindo larga ferida no ombro e peito do Mártir; e com segundo e terceiro
golpe lhe desprende inteiramente a cabeça do tronco. Decepadas em seguida
também as mãos e os pés, o tronco juntamente com a cabeça foram atados a um
poste, levantado no mesmo local
Ficou o local do martírio guardado
por soldados, para impedirem os cristãos apoderarem-se das relíquias. Na noite
de 4 para 5 de Fevereiro e nos dias seguintes, pairou sobre o poste uma luz
misteriosa. Vieram depois as feras, que devoraram quase por completo os
despojos sagrados.
Algumas poucas relíquias, que a
piedade dos cristãos pôde ainda salvar, foram depois conduzidas a Goa e com
muita honra guardadas no Colégio de S. Paulo.
Pio IX inscreveu João de Brito no
catálogo dos Bem-aventurados a 17 de Fevereiro de 1852, e Pio XII canonizou-o a
22 de Junho de 1947.