LITURGIA DAS HORAS
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CAPÍTULO I INSTRUÇÃO GERAL SOBRE A LITURGIA DAS HORAS |
CAPITULO I
IMPORTÂNCIA DA LITURGIA DAS HORAS
OU OFÍCIO DIVINO NA VIDA DA IGREJA
1. A oração pública e comunitária do povo
de Deus é com razão considerada uma das principais funções da Igreja. Daí que,
logo no princípio, os batizados «eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união
fraterna, à fração do pão e às orações» (At 2, 42).
Da oração unânime da comunidade cristã nos dão repetidos testemunhos os Atos
dos Apóstolos.1
Que também os fiéis se costumavam entregar à
oração individual em determinadas horas do dia, provam-no igualmente os
documentos da primitiva Igreja. Depois foi-se
introduzindo muito cedo, aqui e além, o costume de consagrar à oração
comunitária alguns tempos especiais, por exemplo, a última hora do dia, ao
entardecer, no momento em que se acendiam as luzes, e a primeira hora da manhã,
quando, ao despontar o astro do dia, a noite chega ao seu termo.
Com o decorrer dos tempos, foram-se ainda
santificando pela oração comunitária outras horas, que
os Padres viam insinuadas na leitura dos Atos dos Apóstolos. Assim, os Atos
falam-nos dos discípulos reunidos [para a oração] à terceira hora;2 o
Príncipe dos Apóstolos «sobe ao terraço da casa para orar, por volta da sexta
hora» (10, 9); «Pedro ... e João sobem ao templo, para
a oração da hora nona» (3, 1); «a meio da noite, Paulo e Silas, em oração,
entoavam louvores a Deus» (16, 25).
2. Estas orações, feitas em comunidade, foram-se
progressivamente organizando, até que vieram a constituir um ciclo horário bem
definido. Esta Liturgia das Horas, ou Ofício Divino, embora enriquecida de
leituras, é antes de mais oração de louvor e de súplica: oração da Igreja, com
Cristo e a Cristo.
I. A
ORAÇÃO DE CRISTO
Cristo, Orante do Pai
3. Vindo ao mundo para comunicar aos homens a
vida divina, o Verbo que procede do Pai como esplendor da sua glória, «Sumo
Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, Cristo Jesus, ao assumir a natureza humana,
introduz nesta terra de exílio o hino que eternamente se canta no Céu».3 Desde
aquele momento, ressoa no coração de Cristo o louvor divino expresso em termos
humanos de adoração, propiciação e intercessão. E
tudo isto Ele apresenta ao Pai, como Cabeça da nova humanidade, Mediador entre
Deus e os homens, em nome de todos, para benefício de todos.
4. O próprio Filho de Deus, que é «um com o Pai»
(cf. Jo 10, 30) e que, ao entrar no mundo, disse: «Eu
venho, ó Deus, para cumprir a tua vontade» (Hebr 10,
9; cf. Jo 6, 38), quis-nos deixar também exemplos da
sua oração. E assim é que os Evangelhos no-l’O
apresentam com muita frequência a orar: quando pelo
Pai é revelada a sua missão,4 antes de
chamar os Apóstolos,5 quando
bendiz a Deus na multiplicação dos pães,6 no monte,
aquando da sua transfiguração,7 quando
opera a cura do surdo-mudo8 e
ressuscita a Lázaro,9 antes da
confissão de Pedro,10 quando
ensina os discípulos a orar11 ao
regressarem os discípulos da sua missão,12 ao
abençoar as criancinhas,13 quando
roga por Pedro.14
A sua atividade quotidiana vemo-la
estreitamente ligada à oração, como que nasce da oração;15
levanta-Se alta madrugada16 ou
fica pela noite além, até à quarta vigília,17 entregue
à oração a Deus.18
Temos, além disso, justos motivos para crer
que tomava parte nas orações que publicamente se faziam nas sinagogas, onde
«tinha por costume» 19 ir aos
sábados, ou no templo, ao qual chamava casa de coração,20 e bem
assim nas orações que os piedosos israelitas costumavam fazer diariamente em
particular. Recitava também às refeições as tradicionais «bênçãos» a Deus, como
expressamente vem narrado na multiplicação dos pães,21 na
última Ceia,22
na ceia de Emaús;23 e (na
última Ceia) cantou os salmos com os discípulos24.
Até aos derradeiros momentos da sua vida —
próximo já da Paixão,25 na
última Ceia,26
na agonia,27
na Cruz28
— o Divino Mestre apresenta-nos a oração como sendo a alma do seu ministério
messiânico e do termo pascal da sua vida. Assim, «nos dias da sua vida mortal,
apresentou orações e súplicas, entre clamores e lágrimas, Àquele que O podia
livrar da morte, e foi atendido pela sua piedade» (Hebr
5, 7); e, mediante a oblação perfeita consumada na ara da cruz, «realizou a
perfeição definitiva daqueles que são santificados» (Hebr
10, 14); finalmente, ressuscitado de entre os mortos, continua sempre vivo a
interceder por nós.29
II. ORAÇÃO
DA IGREJA
Preceito da oração
5. Aquilo que Jesus fez, isso mesmo ordenou fizéssemos nós. «Orai» — diz
repetidas vezes — «rogai», «pedi»,30 «em meu
nome».31
E até nos deixou, na oração dominical, um modelo de oração.32 Inculca
a necessidade da oração,33 oração
humilde,34
vigilante,35
perseverante e cheia de confiança na bondade do Pai,36 feita
com pureza de intenção, consentânea com a natureza de Deus.37
Os Apóstolos, por sua vez, apresentam-nos com frequência, em suas Epístolas, fórmulas de oração, mormente
de louvor e ação de graças, e exortam-nos a orar no Espírito Santo,38 pela
mediação de Cristo,39 ao
Pai,40
com perseverança e assiduidade;41
sublinham a eficácia da oração para alcançar a santidade;42
exortam à oração de louvor,43 de
ação de graças,44 de
súplica,45
de intercessão por todos os homens.46
A Igreja continuadora da oração de Cristo
6. Vindo o homem
inteiramente de Deus, é seu dever reconhecer e confessar a soberania do seu
Criador. Assim o fizeram, através da oração, os homens piedosos de todos os
tempos.
Mas a oração dirigida a Deus tem de estar
ligada a Cristo, Senhor de todos os homens, único Mediador,47 o
único por quem temos acesso a Deus.48 Ele
une a Si toda a comunidade dos homens,49 e de
tal forma que entre a oração de Cristo e a de toda a humanidade existe uma
estreita relação. Em Cristo, e só n’Ele, é que a
religião humana adquire valor salvífico e atinge o
seu fim.
7. É totalmente peculiar
e profunda a união que existe entre Cristo e aqueles que, pelo sacramento da
regeneração, Ele assume como membros do seu Corpo que é a Igreja. Deste modo,
partindo da Cabeça, por todo o Corpo se difundem todas as riquezas pertencentes
ao Filho: a comunicação do Espírito, a verdade, a vida, a participação na sua
filiação divina, que se manifestava em toda a sua oração enquanto viveu no meio
de nós.
O sacerdócio de Cristo é também participado
por todo o Corpo da Igreja. Os batizados, mediante a regeneração e a unção do
Espírito Santo, são consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo;50 e por
esta forma, ficam habilitados a exercer o culto da Nova Aliança, culto este
proveniente, não das nossas forças, mas dos méritos e dom de Cristo.
«Nenhum dom poderia Deus ter feito aos homens mais valioso do que este: ter-lhes dado por Cabeça o
seu Verbo pelo qual criou todas as coisas, e tê-los unido a Ele como membros
seus; ter feito com que Ele seja ao mesmo tempo Filho de Deus e Filho do homem,
um só Deus com o Pai e um só homem com os homens. Deste modo, quando falamos a
Deus na oração, não podemos separar d’Ele o Filho; e, quando ora o Corpo do
Filho, não pode separar de Si mesmo a Cabeça. E assim, é Ele próprio, o
Salvador único do seu Corpo, Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, quem ora
por nós, ora em nós e a Ele nós adoramos. Ora por nós, como nosso Sacerdote;
ora em nós, como nossa Cabeça; a Ele oramos, como
nosso Deus. Reconheçamos, pois, n’Ele a nossa voz, e a
voz d’Ele em nós».51
E é nisto que assenta a dignidade da oração
cristã: em participar da piedade mesma do Filho Unigênito para com o Pai e
daquela oração que Ele, durante a sua vida cá na terra expressou por palavras e
continua agora, sem interrupção,
Ação do Espírito Santo
Caráter comunitário da oração
9. O exemplo e o preceito
do Senhor e dos Apóstolos, de orar incessantemente, hão de considerar-se, não
como regra puramente legal, mas como um elemento que faz parte da mais íntima
essência da própria Igreja, enquanto esta é uma comunidade e deve expressar, inclusive
pela oração, a sua natureza comunitária. Daí que, quando nos Atos dos Apóstolos
se fala, pela primeira vez, da comunidade dos fiéis, esta nos aparece reunida
precisamente em oração, «com as mulheres, com Maria, Mãe de Jesus, e seus
irmãos” (At 1,14). «A multidão dos crentes era um só
coração e uma só alma» (At 4,31); e esta unanimidade
assentava na palavra de Deus, na comunhão fraterna, na oração e na Eucaristia.53
É certo que a oração feita a sós no quarto,
portas fechadas,54 é
necessária e recomendável,55 e não
deixa nunca de ser oração de um membro da Igreja, por Cristo, no Espírito
Santo. Todavia, a oração comunitária possui uma dignidade especial, baseada
nestas palavras de Cristo: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome,
Eu estou no meio deles» (Mt
18,20).
III. A LITURGIA
DAS HORAS
Consagração do tempo
10. Cristo disse: «É
preciso orar sempre, sem desfalecimento” (Lc 18,1). E
a Igreja, seguindo fielmente esta recomendação, não cessa nunca de orar, ao mesmo tempo que nos exorta com estas palavras: «Por Ele
(Jesus), ofereçamos continuamente a Deus o sacrifício de louvor» (Hebr 13,15). Este preceito é cumprido, não apenas com a
celebração da Eucaristia, mas também por outras formas, de modo particular com
a Liturgia das Horas.
Entre as demais ações litúrgicas, esta, segundo
a antiga tradição cristã, tem como característica peculiar a de consagrar todo
o ciclo do dia e da noite.56
11. Ora, uma vez que o fim
da Liturgia das Horas é a santificação do dia e de toda a atividade humana, a
sua estrutura teve que ser reformada, no sentido de repor cada uma das Horas,
tanto quanto possível, no seu tempo verdadeiro, tendo em conta o condicionalismo da vida moderna.57
Por isso, «já para santificar realmente o dia,
já para rezar as próprias Horas com fruto espiritual, importa recitá-las no
momento próprio, quer dizer, naquele que mais se aproxime do tempo verdadeiro
correspondente a cada Hora canônica”.58
Relação entre a Liturgia das Horas e a Eucaristia
vida da comunidade cristã».60
A própria celebração eucarística tem na
Liturgia das Horas a sua melhor preparação, porque esta suscita e nutre da
melhor maneira as disposições necessárias para uma frutuosa celebração da
Eucaristia, quais são a fé, a esperança, a caridade, a devoção, o espírito de
sacrifício.
Exercício da função sacerdotal de Cristo na
Liturgia das Horas
13. «A obra da redenção e
da perfeita glorificação de Deus»61 realiza-a Cristo no Espírito Santo por meio da Igreja. E
isto, não somente na celebração da Eucaristia e na administração dos
Sacramentos, mas também, e dum modo primacial, na Liturgia das Horas.62 Nela
está Cristo presente, quando a assembléia está reunida, quando é proclamada a
palavra de Deus, quando «ora e salmodia a Igreja».63
Santificação do homem
14. Na Liturgia das Horas,
opera-se a santificação do homem64 e presta-se
culto a Deus, por forma a estabelecer uma espécie de intercâmbio, um diálogo
entre Deus e o homem: «Deus fala ao seu povo, ... e o povo responde a Deus no canto e na oração».65
Aqueles que tomam parte na Liturgia das Horas
podem colher dela abundantíssimos frutos de
santificação, em virtude da palavra de Deus que nela ocupa lugar
importantíssimo. Efetivamente, é da Escritura Sagrada que são tiradas as
leituras; aos salmos se vão buscar as palavras de Deus cantadas na sua
presença; duma forte inspiração bíblica estão repassadas todas as preces,
orações e cânticos.66
Não só quando se lê «aquilo que foi escrito
para nossa edificação» (Rom
15,4), mas também quando a Igreja ora e canta, é alimentada a fé dos
participantes e os seus corações elevam-se para Deus, a fim de Lhe oferecerem a
homenagem espiritual e d’Ele receberem a graça em maior abundância.67
Louvor prestado a Deus, em união com a Igreja
celeste
15. Na Liturgia das Horas,
a Igreja exerce a função sacerdotal da sua Cabeça, «oferecendo
ininterruptamente 68 a Deus
o sacrifício de louvor, ou seja, o fruto dos lábios que glorificam o seu nome».69
Esta oração é «a voz da Esposa a falar ao
Esposo, e também, a oração que o próprio Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao
Pai”.70 Consequentemente, «todos os que assim rezam desempenham,
por um lado, o
ofício da própria Igreja, e,
por outro, participam da excelsa honra da Esposa de Cristo, enquanto estão,
16. Cantando os louvores
de Deus nas Horas canônicas, a Igreja associa-se àquele hino de louvor que por
toda a eternidade é cantado na celeste morada.72 Ao
mesmo tempo antegoza as delícias daquele celestial louvor que João nos descreve
no Apocalipse e que ressoa ininterruptamente diante do trono de Deus e do
Cordeiro. Realiza-se a nossa estreita união com a Igreja celeste, quando
«concelebramos em comum exultação os louvores da Divina Majestade, quando todos
os que fomos resgatados no sangue de Cristo, de todas as tribos, línguas, povos
e nações (cf. Ap 5, 9),
congregados numa só Igreja, engrandecemos a Deus, uno e trino, no mesmo cântico
de louvor».73
Esta liturgia celeste, já os profetas a
anteviram na vitória do dia sem noite, da luz sem trevas: «Já não será o sol a
tua luz durante o dia, nem a claridade da lua será a tua luz durante a noite,
porque o Senhor será a tua luz eterna» (Is 60,19; cf. Ap 21,23.25). «Será um dia contínuo, conhecido
somente do Senhor, sem alternância do dia e da noite; ao entardecer, brilhará a
luz» (Zac 14,7). Ora, «a última fase dos tempos
chegou já para nós (cf. 1 Cor 10,11); a restauração do mundo encontra-se
irrevogavelmente realizada e, em certo sentido, antecipada já no tempo presente».74 Pela
fé somos instruídos acerca do sentido da própria vida temporal, de tal modo que
vivemos, com a criação inteira, na expectativa da manifestação dos filhos de
Deus.75
Na Liturgia das Horas, proclamamos a nossa fé, exprimimos e fortalecemos a
nossa esperança, e tomamos parte já, de certo modo, na alegria do louvor
perene, do dia que não conhece ocaso.
Súplica e intercessão
17. Mas, na Liturgia das
Horas, a par do louvor divino, a Igreja expressa igualmente os votos e anseios de
todos os cristãos; mais ainda: roga a Cristo e, por Ele, ao Pai pela salvação
do mundo inteiro.76 E esta
voz não é somente a voz da Igreja; é também a voz de Cristo, uma vez que todas
as orações são proferidas
Isto diz respeito principalmente a todos
aqueles que receberam mandato especial de celebrar a Liturgia das Horas, isto
é: os bispos e presbíteros, que têm por dever de ofício orar pela grei que lhes
está confiada e por todo o povo de Deus,79 os
outros ministros sagrados e os religiosos.80
Ápice e fonte da atividade pastoral
18. Aqueles que tomam
parte na Liturgia das Horas contribuem, através duma misteriosa fecundidade
apostólica, para o incremento do povo de Deus.81
Efetivamente, o objetivo do trabalho apostólico é conseguir que «todos aqueles
que pela fé e pelo batismo se tornaram filhos de Deus se reúnam em assembléia,
louvem a Deus na Igreja, participem no sacrifício, comam a Ceia do Senhor».82
Por esta forma, os fiéis exprimem na sua vida
e manifestam aos outros «o mistério de Cristo e a genuína natureza da
verdadeira Igreja, que tem como característica peculiar o ser
... visível e dotada de riquezas invisíveis,
ardorosa na ação e dedicada à contemplação, presente no mundo e, todavia,
peregrina».83
Por outro lado, as leituras e as preces da
Liturgia das Horas são fonte de vida cristã. Esta vida alimenta-se na mesa da
Escritura Sagrada e nas palavras dos Santos e robustece-se na oração. O Senhor,
sem o qual nada podemos fazer,84 quando
O invocamos, dá eficácia e incremento às nossas obras;85 e
assim, dia após dia, vamos sendo edificados como templo de Deus no Espírito,86 até
atingirmos a medida da idade perfeita de Cristo;87 ao
mesmo tempo, vamos robustecendo as nossas energias para podermos anunciar
Cristo àqueles que estão fora.88
Que a mente concorde com a voz
19. Para que esta oração
seja própria de cada um daqueles que nela tomam parte, seja fonte de piedade e
da multiforme graça divina e sirva também de alimento à oração pessoal e à
atividade apostólica, importa celebrá-la com dignidade, atenção e devoção, e
fazer com que o espírito concorde com a voz.89 É
necessário que todos cooperem com a graça divina, para que não a recebam em
vão. Buscando a Cristo e esforçando-se por aprofundar o seu mistério na oração,90 louvem
a Deus e elevem as suas súplicas com o mesmo espírito com que orava o Divino
Salvador.
IV. QUEM
CELEBRA A LITURGIA DAS HORAS
a) Celebração comunitária
21. As outras assembleias de fiéis, entre as quais há que destacar as
paróquias como células da diocese, localmente constituídas sob a presidência
dum pastor como substituto do Bispo, e que «dalgum modo representam a Igreja
visível estabelecida por toda a terra»,94
celebrem as Horas principais, quanto possível, na igreja e em forma comunitária.
22. Sempre que os fiéis
são convocados e se reúnem para celebrar a Liturgia das Horas, pela união das
vozes e dos corações manifestam a Igreja que celebra o mistério de Cristo.95
23. É função daqueles que
receberam as ordens sacras ou foram investidos dalguma
especial missão canônica96 organizar
e dirigir a oração da comunidade. «Devem, por isso, esforçar-se para que todos
aqueles que estão entregues aos seus cuidados sejam unânimes na oração».97
Procurarão convidar os fiéis e formá-los mediante uma catequese adequada para a
celebração comunitária das partes mais importantes da Liturgia das Horas,
mormente nos domingos e festas.98 Hão-de ensiná-los a fazer desta participação uma oração
autêntica.99
Para isso, terão que os ajudar, através duma formação apropriada, a penetrar no
sentido cristão dos salmos, por forma a serem levados, pouco a pouco, a
saborear e utilizar mais amplamente a oração da Igreja.100
24. As comunidades de
cônegos, de monges, de monjas e de outros religiosos, que, por força da Regra
ou das Constituições, celebram integral ou parcialmente a Liturgia dasHoras, quer segundo o rito
comum quer segundo o seu rito particular, representam a Igreja orante dum modo muito especial. Estas comunidades
reproduzem de uma forma mais completa a imagem da Igreja a cantar
ininterruptamente, numa só voz, os louvores divinos; além disso, cumprem também
o dever de «trabalhar», antes de mais pela oração, «para a edificação e
crescimento de todo o Corpo Místico de Cristo e para o bem das igrejas particulares».101 Isto
se aplica de modo especial aos que se entregam à vida contemplativa.
25. Os ministros sagrados
e todos os clérigos não obrigados por outro título à celebração comunitária,
quando vivam em comunidade ou se encontrem juntos, procurem celebrar em comum
pelo menos algumas das partes da Liturgia das Horas, mormente Laudes pela manhã e Vésperas à tarde.102
26. Aos religiosos de
ambos os sexos não obrigados à celebração comunitária e aos membros de qualquer
Instituto de perfeição, recomenda-se encarecidamente que se reúnam em comum, ou
entre si ou juntamente com o povo, para celebrar a Liturgia das Horas ou alguma
parte da mesma.
27. Os grupos de leigos,
onde quer que se encontrem reunidos, seja qual for o motivo destas reuniões —
oração, apostolado ou outro motivo — são igualmente convidados a desempenhar
esta função da Igreja,103
celebrando alguma parte da Liturgia das Horas. Importa, de fato, que aprendam
acima de tudo a adorar a Deus Pai em espírito e verdade104 na
ação litúrgica, e se lembrem que, através do culto público e da oração, eles
podem atingir todos os homens e contribuir muito para a salvação do mundo inteiro.105
Convém, finalmente, que a família, qual santuário
doméstico da Igreja, não se contente com a oração feita em comum, mas, dentro
das suas possibilidades, procure inserir-se mais intimamente na Igreja, com a
recitação dalguma parte da Liturgia das Horas.106
b) Mandato de celebrar a Liturgia das Horas
O Bispo é, de modo
eminente, o representante visível de Cristo e o sumo sacerdote do seu rebanho.
Dele, em certo sentido, deriva e depende a vida dos seus fiéis em Cristo.108 Portanto,
deve ser ele, entre os membros da sua Igreja, o primeiro na oração. E esta sua
oração, quando recita a Liturgia das Horas, é feita sempre
Os presbíteros, unidos ao Bispo e a todo o
presbitério, fazem também, dum modo especial, as vezes
de Cristo sacerdote, 110 e
participam da mesma função, orando por todo o povo a eles confiado e pelo mundo
inteiro.111
Todos estes desempenham o ministério do bom
Pastor que roga pelos seus para que tenham a vida e sejam consumados na unidade.112 Na Liturgia
das Horas, que a Igreja lhes propõe, não somente encontrarão uma fonte de
piedade e alimento para a oração pessoal,113 mas
também um meio de alimentar e desenvolver, pela riqueza da contemplação, a sua
ação pastoral e missionária, para alegria de toda a Igreja de Deus.114
29. Por conseguinte, os
bispos, os presbíteros e todos os outros ministros sagrados, que receberam da
Igreja o mandato (cf. n. 17) de celebrar a Liturgia das Horas, estão obrigados
a celebrar diariamente o ciclo completo destas mesmas Horas, guardando, quanto
possível, a sua correspondência com a respectiva hora do dia.
Primeiramente, darão a devida importância
àquelas Horas que constituem, por assim dizer, o fulcro desta Liturgia, isto é,
Laudes e Vésperas. Estas Horas procurem não as
omitir, a não ser por motivo grave.
Serão também fiéis
Para melhor santificarem o dia, terão a peito
rezar também a Hora Média, bem como Completas, com as quais terminam o «serviço
divino» e se encomendam ao Senhor antes de recolher ao leito.
30. É da máxima
conveniência que os diáconos permanentes recitem todos os dias pelo menos parte
da Liturgia das Horas, conforme a Conferência Episcopal determinar.116
E cada um dos membros destes cabidos, além das
Horas que são obrigatórias para todos os ministros sagrados, está obrigado a
recitar individualmente aquelas Horas que são celebradas pelo respectivo cabido.117
b) As comunidades religiosas obrigadas à Liturgia
das Horas, e cada um dos respectivos membros, celebrarão as Horas segundo o que
estiver determinado pelo seu direito particular, salvo o prescrito no n. 29
para os que receberam as Ordens sacras.
As comunidades obrigadas ao coro, essas
celebrarão diariamente o ciclo integral das Horas.118 Fora
do coro, os membros (destas comunidades) recitarão as Horas em conformidade com
o seu direito particular, salvo sempre o prescrito no n. 29.
32. Às restantes
comunidades religiosas e a cada um dos seus membros, recomenda-se que, tanto
quanto lho permitirem as condições em que se encontram, celebrem algumas partes
da Liturgia das Horas, porque esta é a oração da Igreja, que faz de todos os
que andam dispersos um só coração e
uma só alma.119 Igual
recomendação é feita aos leigos.120
c) Estrutura da celebração
Tanto na celebração comunitária como na
recitação individual, a estrutura essencial é sempre a mesma: diálogo entre
Deus e o homem. Todavia, a celebração comunitária manifesta mais claramente a
natureza eclesial da Liturgia das Horas. Pelas aclamações, pelo diálogo, pela salmodia
alternada, etc., favorece
também a participação ativa de todos, segundo a condição de cada um. Além
disso, respeita melhor as diferentes formas de expressão.121 Consequentemente, sempre que seja possível uma celebração
comunitária, com a assistência e participação ativa dos fiéis, esta deve
preferir-se à celebração individual e como que privada. 122 Além
disso, na recitação coral e comunitária, convém, quanto possível, que o Ofício seja
cantado de acordo com a natureza e função de cada uma das suas partes.
Deste modo se porá em prática a recomendação
do Apóstolo: «A palavra de Cristo permaneça em vós em toda a sua riqueza, para
vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com
salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa
gratidão » (Col 3,16; cf. Ef
5,19-20).
1 Cf. At 1,14; 4,24; 12,5. 12; cf. Ef 5, 19-21.
2 Cf. At 2,1-15.
3 Conc. Vat. II, Const.
Sacrosanctum Concilium,
n.° 83.
4 Lc
3, 21-22.
5 Lc
6, 12.
6 Mt
14, 19; 15, 36; Mc 6, 41; 8, 7; Lc 9, 16; Jo 6, 11.
7 Lc
9, 28-29.
8 Mc 7, 34.
9 Jo
11, 41 ss.
10 Lc 9, 18.
11 Lc 11, 1.
12 Mt
11 25 ss.; Lc 10, 21 ss.
13 Mt
19, 13.
14 Lc 22, 32.
15 Mc 1, 35; 6, 46; Lc 5, 16; cf. Mt 4, 1 par.; Mt 14, 23.
16 Mc 1, 35.
17 Mt
14, 23. 25; Mc 6, 46. 48.
18 Lc 6, 12.
19 Lc 4, 16.
20 Mt
21, 13 par.
21 Mt
14, 19 par.; 15, 36 par.
22 Mt
26, 26 par.
23 Lc 24, 30.
24 Mt
26, 30 par.
25 Jo 12, 27 s.
26 Jo 17, 1-26.
27 Mt
26, 36-44 par.
28 Lc 23, 34. 46; Mt 27, 46; Mc 15, 34.
29 Cf. Hebr 7, 25.
30 Mt
5, 44; 7, 7; 26, 41; Mc 13, 33; 14, 38; Lc 6, 28; 10,
2; 11, 9; 22, 40. 46
31 Jo 14, 13 s.; 15,
16; 16, 23 s. 26.
32 Mt
6, 9-13; Lc 11, 2-4.
33 Lc 18, 1.
34 Lc 18, 9-14.
35 Lc 21, 36; Mc 13,
33.
36 Lc 11, 5-13; 18, 1-8; Jo 14, 13; 16, 23.
37 Mt
6, 5-8; 23, 14; Lc 20, 47; Jo
4, 23.
38 Rom
8, 15. 26; 1 Cor. 12, 3; Gal
4, 6; Jud 20.
39 2 Cor 1, 20; Col. 3, 17.
40 Hebr 13, 15.
41 Rom
12, 12; 1 Cor 7, 5; Ef 6, 18; Col
4, 2; 1 Tess 5, 17; 1 Tim 5, 5; 1 Pedro 4, 7.
42 1 Tim 4, 5; Tiago
5, 15 s.; 1 Jo 3, 22; 5, 14
s.
43 Ef 5, 19 s.; Hebr 13, 15; Ap
19, 5.
44 Col 3, 17; Fil 4, 6; 1 Tes
5, 17; Tim 2, 1.
45 Rom
8, 26; Fil 4, 6.
46 Rom
15, 30; 1 Tim 2, 1 s.; Ef
6, 18; 1 Tess 5, 25; Tiago 5, 14. 16.
47 1 Tim 2, 5; Hebr 8, 6; 9, 15; 12, 24.
48 Rom
5, 2; Ef 2, 18; 3, 12.
49 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n.° 83.
50 Conc. Vat. II, Const. Lumen
gentium, n.° 10.
51 S. Agostinho, Enarrat.
in Psalm. 85, 1: CCL 39,
1176.
52 Cf. Lc 10, 21,
quando Jesus «exultou no Espírito Santo e disse: Eu te bendigo, ó Pai...».
53 Cf. At 2, 42 gr.
54 Cf. Mt
6, 6.
55 Cf. Conc. Vat II,
Const. Sacrosanctum Concilium,
n.° 12.
56 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
nn. 83-84.
57 Cf. Ibid., n. 88.
58 Cf. Ibid., n. 94.
59 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis,
n. 5.
60 Conc. Vat. II, Decr. Christus
Dominus,
n. 30.
61 Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum
Concilium, n. 5.
62 Cf. Ibid., nn.
83 e 98.
63 Ibid., n. 7.
64 Ibid., n. 10.
65 Ibid., n. 33.
66 Ibid., n. 24.
67 Cf. Ibid., n. 33.
68 1 Tess. 5, 17.
69 Cf. Hebr 13, 15.
70 Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum
Concilium, n. 84.
71 Ibid., n. 85.
72 Cf. Ibid., n. 83.
73 Conc. Vat. II, Const. Lumen
gentium, n. 50; cf. Const. Sacrosanctum
Concilium, nn. 8 e 104.
74 Cf. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n.
48.
76 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 83.
77 Cf. Hebr 5, 7.
78 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis,
n. 6.
79 Cf. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n.
41.
80 Cf. infra, n. 24.
81 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Perfectae Caritatis,
n. 7.
82 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctam Concilium,
n. 10.
83 Ibid., n. 2.
84 Cf. Jo 15, 5.
85 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 86.
86 Cf. Ef 2, 21-22.
87 Cf. Ef 4, 13.
88 Cf. Conc. Vat. II, Sacrosanctum
Concilium, n. 2.
89 Ibid., n. 90; cf. S. Bento, Regula
Monasteriorum, c. 19.
90 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis,
n. 14; Decr. Optatam totius,
n. 8.
91 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 26.
92 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 41.
93 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Christus Dominus,
n. 11.
94 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 42: cf. Decr. Apostolicam Actuositatem, n. 10.
95 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
nn. 26 e 84.
96 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Ad gentes,
n. 17.
97 Conc. Vat. II, Decr. Christus
Dominus, n. 15.
98 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 100.
99 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis,
n. 5.
100 Cf. infra, nn.
100-109.
101 Conc. Vat. II, Decr. Christus
Dominus, n. 33; cf. Decr. Perfectae
Caritatis, nn. 6. 7.
15; cf. Decr. Ad gentes, n. 15.
102 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 99
103 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 100.
104 Cf. Jo 4, 23.
105 Cf. Conc. Vat. II, Decl.
Gravissimum educationis,
n. 2: Decr. Apostolicam Actuositatem,
n. 16.
106 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam Actuositatem,
n. 11.
107 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis,
n. 13.
108 Cf. Conc. Vat. II, Sacrosanctum
Concilium, n. 41; Const. Lumen
gentium, n. 21.
109 Cf. Conc. Vat. II, Lumen
gentium, n. 26; Decr. Christus
Dominus, n. 15.
110 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis,
n. 13.
111 Cf. Ibid., n. 5.
112 Cf. Jo 10, 11;
17, 20, 23.
113 Cf. Conc. Vat. II, Sacrosanctum
Concilium, n. 90.
114 Cf. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n.
41.
115 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dei Verbum, n. 25; Decr. Presbyterorum
Ordinis, n. 13.
116 Paulo VI, Motu
proprio Sacrum Diaconatus Ordinem, 18 de
Junho de 1967, n. 27: A.A.S. 59 (1967), p.
703.
117 Cf. S. Cong. dos Ritos, Instr. Inter Oecumenici, n. 78: A.A.S.
56 (1964), p. 895.
118 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 95. 119 Cf. At. 4, 32.
120 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium,
n. 100.
121 Cf. Ibid., nn.
26. 28-30.
122 Cf. Ibid., n. 27.