SACRAMENTOS
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BATISMO |
Nossos pais nos deram a vida
natural do corpo, mas Deus nos dá a alma e nos destina, além disso, a uma vida
sobrenatural; nascemos privados dela pelo pecado original, herdado de Adão.
O batismo apaga o pecado
original, nos dá a fé e a vida divina, e nos torna filhos de Deus. A Santíssima
Trindade toma posse da alma e começa a nos santificar.
Segundo o plano de amor do
Senhor, o batismo é necessário para a salvação.
O que é o batismo?
É o sacramento pelo qual
nascemos para a vida e nos tornamos filhos de Deus.
Por que o batismo é o
primeiro dos sacramentos?
É o primeiro dos sacramentos
porque é a porta que dá acesso aos demais sacramentos, e sem ele não se pode
receber nenhum outro.
Que efeitos produz o batismo?
Os efeitos que o batismo produz
são: perdoa o pecado original, e qualquer outro pecado, com as penas devidas
por eles. Nos dá as três divinas pessoas junto com a
graça santificante. Infunde a graça santificante, as virtudes sobrenaturais e
os dons do Espírito a graça santificante, as virtudes sobrenaturais e os dons
do Espírito Santo. Imprime na alma o caráter sacramental que nos faz cristãos
para sempre e somos incorporados à Igreja.
O Batismo é necessário
para a salvação?
Segundo o plano do Senhor o
batismo é necessário para a salvação, assim como a própria Igreja, à qual o
batismo introduz.
Quem pode batizar?
Ordinariamente podem batizar o
bispo, o sacerdote e o Diácono, mas em caso de necessidade qualquer pessoa que
tenha intenção de fazer o que a Igreja faz.
Como se batiza?
O batizado se realiza
derramando água sobre a cabeça e dizendo: "Eu te Batizo
O que é o Catecumenato?
É a preparação que devem
receber aqueles que serão batizados tendo alcanço o uso da razão.
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MATRIMÔNIO |
O Matrimônio foi instituído por
Deus quando criou o homem e a mulher. Para os cristãos, Jesus Cristo o elevou à
dignidade de sacramento; um sacramento que dá aos esposos uma graça especial
para serem fiéis um ao outro e santificar-se na vida matrimonial e familiar, já
que o matrimônio cristão é uma autêntica vocação sobrenatural.
O matrimônio religioso é
estabelecido com o consentimento livre de cada um dos dois contraentes
manifestado ao representante da igreja.
O Matrimônio por sua natureza
está ordenado à geração e à educação dos filhos, ao amor e ajuda entre os
esposos e a sua santificação pessoal.
O que é o Matrimônio?
O Matrimônio é o sacramento que
santifica a união indissolúvel entre um homem e uma mulher cristão, e
concede-lhe a graça para cumprir fielmente seus deveres de esposos de pais.
Quais são as
propriedades essenciais do Matrimônio?
As propriedades essenciais do
Matrimônio são: unidade, indissolubilidade e abertura à fecundidade.
Que pecado comete o
cristão que, vivendo seu consorte, une-se a outra pessoa?
Comete o grave pecado de
adultério.
Cometem pecado os
convivientes e os unidos apenas no matrimônio civil?
Os convivientes e os unidos apenas
no matrimônio civil encontram-se em permanente estado de pecado e não podem
receber os sacramentos.
Qual é a idade mínima
para se casar?
Na maioria das nações, a idade
mínima para se casar é de 18 anos. Em qualquer caso, requer-se uma permissão da
autoridade eclesiástica para fazê-lo antes da idade mínima estabelecida.
Como o sacramento do
matrimônio deve ser recebido ?
O sacramento do matrimônio deve
ser recebido em estado de graça e com a devida preparação; por isso
recomenda-se que os contraentes se confessem antes.
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RECONCILIAÇÃO |
Jesus
comunica seu poder de perdoar a seus Apóstolos.
Assim como Deus Pai deu tudo a Jesus, assim também Jesuscomunica à Igreja, esse
poder de perdoar que dEle emanava para regenerar os homens.
"Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados"
(Jo 20, 23).
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PERGUNTAS E
RESPOSTAS SOBRE O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA |
1. O que é o sacramento
da Penitência?
O sacramento da Penitência, ou
Reconciliação, ou Confissão, é o sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus
Cristo para apagar os pecados cometidos depois do Batismo. É, por conseguinte,
o sacramento de nossa cura espiritual, chamado também sacramento da conversão,
porque realiza sacramentalmente nosso retorno aos braços do pai depois de que
nos afastamos com o pecado.
2. É possível obter o
perdão dos pecados mortais sem a confissão?
Depois do Batismo não é
possível obter o perdão dos pecados mortais sem a Confissão, embora seja
possível antecipar o perdão com a contrição perfeita acompanhada do propósito
de confessar-se.
3. E se depois de feita
a constrição a pessoa não se confessa?
Quem se comporta desta maneira
comete uma falta grave. Pois todos os pecados mortais cometidos depois do
batismo devem ser acusados na Confissão.
4. O que se requer para
fazer uma boa confissão?
Para fazer uma boa confissão
é necessário: fazer um cuidadoso exame de consciência,
arrepender-se dos pecados cometidos e o firme propósito de não cometê-los
mais (contrição), dizer os outros pecados ao sacerdote (confissão), e cumprir a
penitência (satisfação).
5. O que é o exame de
consciência?
O exame de consciência é a
diligente busca dos pecados cometidos depois da última Confissão bem feita.
6. No exame de
consciência é necessário ter exato o número dos pecados?
Dos pecados graves ou mortais é
preciso acusar também o número, porque cada pecado mortal deve ser dito
na confissão.
7. O que é a dor dos
pecados?
A dor dos pecados é o sincero
pesar e a repulsa dos pecados cometidos.
8. De quantos tipos é a
dor?
A dor é de dois tipos: dor
perfeita (ou contrição) e dor imperfeita (ou atrição).
9. Quando se tem dor
perfeita ou contrição?
Tem-se a dor perfeita ou
contrição quando se arrepende dos próprios pecados porque se ofendeu a Deus,
imensamente bom e digno de ser amado: quando a dor nasce do amor desinteressado
a Deus, quer dizer, da caridade.
10. Quando se tem a dor
imperfeita ou atrição?
Tem-se a dor imperfeita ou
atrição quando o arrependimento, assim que inspirado pela fé, tem motivações
menos nobres: por exemplo, quando nasce da consideração da desordem causada
pelo pecado, ou pelo temor da condenação eterna (Inferno) e das penas que o
pecador pode receber.
11. Pela dor dos pecados
obtém-se imediatamente o perdão?
A dor perfeita unida ao
propósito de confessar-se obtém imediatamente o perdão; a dor imperfeita só se
obtém, pelo contrário, na confissão sacramental.
12. É necessário
arrepender-se de todos os pecados cometidos?
Para a validez da confissão é
suficiente arrepender-se de todos os pecados mortais, mas para o progresso
espiritual é necessário arrepender-se também dos pecados veniais.
13. Um verdadeiro
arrependimento requer também o propósito de abandonar o pecado?
O arrependimento certamente
olha para o passado, mas implica necessariamente um empenho para o futuro com a
firme vontade de não cometer jamais o pecado.
14. Pode-se ter um
verdadeiro arrependimento se a gente prevê que antes ou depois tornará a cair
em pecado?
A previsão do pecado futuro não
impede que se tenha o propósito sincero de não cometê-lo mais, porque o
propósito depende só do conhecimento que nós temos de nossa fraqueza.
15. O que é a confissão?
A confissão é a manifestação
humilde e sincera dos próprios pecados al sacerdote confessor.
16. Quais pecados são
obrigatórios confessar?
Estamos obrigados a confessar
todos e cada um dos pecados graves, ou mortais, cometidos depois da última
confissão bem feita.
17. Quais são os pecados
mortais mais freqüentes?
As faltas objetivamente mortais
mais freqüentes são (seguindo a ordem dos mandamentos): praticar de qualquer
modo a magia; blasfemar; perder a Missa dominical ou as festas de preceitos sem
um motivo sério; tratar mau aos próprios pais ou superiores; matar ou
ferir gravemente a uma pessoa inocente; procurar diretamente o aborto; procurar
o prazer sexual e solitário ou com outras pessoas que não sejam o próprio
cônjuge; para os cônjuges, impedir a concepção no ato conjugal; roubar alguma
soma relevante, inclusive desviando ou subtraindo no trabalho; murmurar
gravemente sobre o próximo ou caluniá-lo; cultivar voluntariamente pensamentos
ou desejos impuros; faltar gravemente com o próprio dever; aproximar-se
da Sagrada Comunhão em estado de pecado mortal; omitir voluntariamente um
pecado grave na confissão.
18. Se a pessoa esquece
um pecado mortal, obtém igualmente o perdão na confissão?
Se a pessoa esquecer um pecado
mortal, pode obter igualmente o perdão, mas na confissão seguinte deve
confessar o pecado esquecido.
19. Se a pessoa omitir
voluntariamente um pecado mortal obtém o perdão dos outros pecados?
Se uma pessoa, por vergonha ou
por outros motivos, omite um pecado mortal, não só não obtém nenhum perdão, mas
também comete um novo pecado de sacrilégio, o de profanação de uma coisa
sagrada.
20. Há obrigação de
confessar os pecados veniais?
A confissão dos pecados veniais
não é necessária, mas é muito útil para o progresso da vida cristã.
21. O confessor deve dar
sempre a absolvição?
O confessor deve dar sempre a
absolvição se o penitente estiver bem disposto, quer dizer, se estiver
sinceramente arrependido de todos seus pecados mortais. Se pelo contrário, o
penitente não está bem disposto, não tendo a dor ou o propósito de emenda,
então o confessor não pode e não deve dar a absolvição.
22. O que deve fazer o
penitente depois da absolvição?
O penitente depois da
absolvição deve cumprir a penitência que lhe foi imposta e reparar os danos que
seus pecados eventualmente tiverem causado ao próximo (por exemplo, deve
restituir o roubado).
23. Quais são os efeitos
do sacramento da Penitência?
São a reconciliação com Deus e
com a Igreja, a recuperação da graça santificante, o aumento das forças
espirituais para caminhar para a perfeição, a paz e a serenidade da consciência
com uma viva consolação do espírito.
24. Como se pode superar
a dificuldade que se sente para confessar-se?
Que tem dificuldades para
confessar-se deve considerar que o sacramento da Penitência é um dom
maravilhosos que o Senhor nos deu. No "tribunal" da Penitência o
culpado jamais é condenado, mas sempre absolvido. Pois quem se confessa não se
encontra com um simples homem, mas com Jesus, o qual, presente em seu
ministro, como fez um tempo com o leproso do Evangelho (Mc 1, 40ss.) também
hoje nos toca ou nos cura; e, como fez com a menina que jazia morta nos toma
pela mão repetindo aquelas palavras: "Talita kumi, menina, eu te
digo, levante-te!" (Mc 5, 41).
A confissão é um meio
extraordinariamente eficaz para progredir no caminho da perfeição. Com efeito,
além de nos dar a graça "medicinal" própria do sacramento, faz-nos
exercitar as virtudes fundamentais de nossa vida cristã. A humildade acima de
tudo, que é a base de todo o edifício espiritual, depois a fé em Jesus Salvador
e em seus méritos infinitos, a esperança do perdão e da vida eterna, o amor
para Deus e para o próximo, a abertura de nosso coração à reconciliação com
quem nos ofendeu. Enfim, a sinceridade, a separação do pecado e o desejo
sincero de progredir espiritualmente.
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DOCUMENTOS
ECLESIAIS |
Exortação
apostólica pos-sinodal Reconciliatio et Paententia de Sua Santidades João Paulo
II Ao Episcopado, Ao clero e aos fieis sobre a Reconciliação e a Penitencia na
missão da Igreja Hoje
INTRODUÇÃO
Origem e significado do Documento
1. Falar de RECONCILIAÇÃO e PENITÊNCIA, para os homens e
mulheres do nosso tempo, é convidá-los a reencontrar, traduzidas na sua
linguagem, as próprias palavras com que o nosso Salvador e Mestre Jesus Cristo
quis iniciar a sua pregação: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho», (1) ou
seja, acolhei o anúncio jubiloso do amor, da adopção como filhos de Deus e,
consequentemente, da fraternidade.
Porque é que a Igreja propõe de novo este tema e este
convite?
A ânsia de conhecer melhor e de compreender o homem de
hoje e o mundo contemporâneo, de lhe decifrar o enigma e desvendar o seu
mistério, de discernir os fermentos de bem ou de mal que nele se agitam, leva
muitos, de há um certo tempo a esta parte, a fixar no mesmo homem e neste mundo
um olhar interrogativo. É o olhar do historiador e do sociólogo, do filósofo e
do teólogo, do psicólogo e do humanista, do poeta e do místico; e é, sobretudo,
o olhar preocupado, se bem que carregado de esperança, do pastor.
Um tal olhar revela-se, de modo exemplar, em cada uma das
páginas da importante Constituição pastoral do Concílio Vaticano II Gaudium et
Spes sobre a Igreja no mundo contemporâneo, particularmente na sua ampla e
perspicaz introdução. Esse olhar revela-se, de igual modo, em alguns Documentos
emanados da sabedoria e da caridade pastoral dos meus veneráveis Predecessores,
cujos luminosos pontificados ficaram marcados pelo acontecimento histórico e
profético que foi esse Concílio Ecuménico.
Como os outros olhares, também o olhar do pastor descobre,
infelizmente, entre diversas características do mundo e da humanidade do nosso
tempo, a existência de numerosas, profundas e dolorosas divisões.
Um mundo despedaçado
2. Estas divisões manifestam-se nas relações entre as
pessoas e entre os grupos, como também ao nível das colectividades mais amplas:
Nações contra Nações, e blocos de países contrapostos, numa árdua busca de
hegemonia. Na raiz das rupturas não é difícil identificar conflitos que, em vez
de serem resolvidos mediante o diálogo, se agudizam no confronto e na oposição.
Ao indagar sobre os elementos geradores de divisão,
observadores atentos apontam os mais variados: desde a crescente disparidade
entre grupos, classes sociais e países, aos antagonismos ideológicos, nem por
sombras extintos; desde a contraposição dos interesses económicos às
polarizações políticas; desde as divergências tribais às discriminações por
motivos sócio-religiosos. De resto, algumas realidades, bem à vista de todos,
constituem como que o rosto lastimoso da divisão, de que são fruto e de que
acentuam a gravidade, com irrefutável realismo. Podem recordar-se, entre tantos
outros dolorosos fenómenos sociais do nosso tempo:
o espezinhar dos direitos fundamentais da pessoa humana,
sendo o primeiro entre eles o direito à vida e a uma digna qualidade de vida; e
isso apresenta-se mais escandaloso, na medida em que coexiste com uma retórica,
nunca antes conhecida, sobre os mesmos direitos;
as insídias e as pressões contra a liberdade dos indivíduos e das colectividades,
sem excluir a liberdade de manter, professar e praticar a própria fé, que é
mesmo das mais atingidas e ameaçadas;
as várias formas de discriminação: racial, cultural, religiosa, etc.;
a violência e o terrorismo;
o uso da tortura e as formas injustas e ilegitimas de repressão;
a acumulação de armas convencionais ou atómicas, a corrida aos armamentos, com
despesas bélicas que poderiam servir para aliviar a miséria imerecida de povos
social e economicamente em condições deprimentes;
a distribuição iníqua dos recursos do mundo e dos bens da civilização, que
atinge o seu cúmulo num tipo de organização social, por força da qual a
distância entre as condições humanas dos ricos e dos pobres aumenta cada vez
mais. (2) A potência avassaladora desta divisão faz do mundo em que vivemos um
mundo despedaçado, (3) até mesmo nos seus fundamentos.
Por outro lado, uma vez que a Igreja, sem se identificar com o mundo, nem ser
do mundo, está inserida no mundo e está em diálogo com o mundo, (4) não é para
admirar que se notem na sua própria estrutura repercussões e sinais da divisão
que dilacera a sociedade humana. Para além das cisões entre as Comunidades
cristãs que de há séculos a contristam, a Igreja experimenta hoje no seu seio,
aqui e além, divisões entre as suas próprias componentes, causadas pela
diversidade de pontos de vista e de escolhas, no campo doutrinal e pastoral.
(5) Também estas divisões podem, por vezes, parecer irremediáveis.
Por mais impressionantes que se apresentem tais lacerações
à primeira vista, só observando-as em profundidade se consegue individuar a sua
raiz: esta encontra-se numa ferida no íntimo do homem. À luz da fé chamamos-lhe
pecado, começando pelo pecado original, que cada um traz consigo desde o
nascimento, como uma herança recebida dos primeiros pais, até aos pecados que
cada um comete, abusando da própria liberdade.
Nostalgia de reconciliação
3. E, no entanto, o mesmo olhar indagador, se é
suficientemente perspicaz, captará no seio da divisão um desejo inconfundível,
da parte dos homens de boa vontade e dos verdadeiros cristãos, de recompor as
fracturas, de cicatrizar as lacerações e de instaurar, a todos os níveis, uma
unidade essencial. Este desejo comporta, em muitos casos, uma verdadeira
nostalgia de reconciliação, mesmo quando não é usada tal palavra.
Para alguns, trata-se como que de uma utopia, a qual
poderia tornar-se a alavanca ideal para uma verdadeira transformação da
sociedade; para outros, apresenta-se, ao contrário, como o objecto de uma árdua
conquista e, portanto, uma meta a atingir, através de um sério empenhamento de
reflexão e de acção. Em qualquer caso, a aspiração a uma reconciliação sincera
e consistente é, sem sombra de dúvida, um móbil fundamental da nossa sociedade,
como que reflexo de um irreprimível desejo de paz; e é-o tão vigorosamente —
por mais paradoxal que pareça — quanto mais perigosos são os próprios factores
de divisão.
A reconciliação, todavia, não poderá ser menos profunda do
que se apresenta a divisão. A nostalgia da reconciliação e a própria reconciliação
serão plenas e eficazes, na medida em que atingirem — para a curar — aquela
dilaceração primordial, que é a raiz de todas as outras, ou ou seja, o pecado.
A visão do Sínodo
4. Portanto, todas as instituições ou organizações, que se
destinam ao serviço do homem e interessadas em salvá-lo nas suas dimensões
fundamentais, hão-de volver um olhar penetrante para a reconciliação, para
aprofundar o seu significado e todo o seu alcance e tirar daí as necessárias
consequências para a acção.
A um olhar assim não podia eximir-se a Igreja de Jesus
Cristo. Com dedicação de Mãe e inteligência de Mestra, ela, solícita e atenta,
aplica-se em captar na sociedade, com os sinais da divisão, também aqueles
outros não menos eloquentes e significativos da busca de uma reconciliação. A
Igreja sabe, de facto, que lhe foi dada, especialmente a ela, a possibilidade e
lhe está confiada a missão de tornar conhecido o sentido verdadeiro,
profundamente religioso, e as dimensões integrais da reconciliação,
contribuindo assim, já só com isso, para esclarecer os termos essenciais da
questão da unidade e da paz.
Os meus Predecessores não cessaram de pregar a
reconciliação e de convidar a pô-la em prática a humanidade inteira, bem como
cada sector e cada parcela da comunidade humana que viam dilacerada e dividida.
(6) E eu próprio, por um impulso interior, que obedecia ao mesmo tempo — estou
certo disso — à inspiração do Alto e aos apelos da humanidade, em dois momentos
diversos, ambos solenes e bem importantes, quis pôr em foco a tema da
reconciliação: em primeiro lugar, convocando a VI Assembleia Geral do Sínodo
dos Bispos; e, em segundo lugar, fazendo dele o ponto central do Ano Jubilar,
proclamado para celebrar o 1950° aniversário da Redenção. (7) E quando houve de
designar um tema para o Sínodo encontrei-me plenamente de acordo com o que
tinha sido sugerido por muitos dos meus Irmãos no Episcopado, ou seja, quanto
ao tão fecundo tema de reconciliação, em estreita ligação com o da penitência.
(8)
O termo e o próprio conceito de penitência são bastante
complexos. Se a relacionarmos com a metánoia, a que se referem os Sinópticos, a
penitência significa então a íntima mudança do coração sob o influxo da Palavra
de Deus e na perspectiva do Reino. (9) Mas penitência quer dizer também mudar
de vida, em coerência com a mudança do coração; e, neste sentido, o fazer
penitência completa-se com o produzir frutos condignos de arrependimento: (10)
é a existência toda que se torna penitêncial, aplicada numa contínua caminhada
em tensão para o que é melhor. Fazer penitência, no entanto, só será algo de
autêntico e eficaz se se traduzir em actos e gestos de penitência. Neste
sentido, penitência significa, no vocabulário cristão teológico e espiritual, a
ascese, isto é, o esforço concreto e quotidiano do homem, amparado pela graça
de Deus, por perder a própria vida, por Cristo, como único modo de a ganhar:
(11) esforço por se despojar do homem velho e revestir-se do novo; (12) por
superar em si mesmo o que é carnal, para que prevaleça o que é espiritual; (13)
e esforço por se elevar continuamente das coisas de cá de baixo para as lá do
alto, onde está Cristo. (14) A penitência, portanto, é a conversão que passa do
coração às obras e, por conseguinte, à vida toda do cristão.
Em cada um destes significados, a penitência anda
intimamente ligada com a reconciliação, uma vez que reconciliar-se com Deus,
consigo mesmo e com os outros pressupõe que se supera a ruptura radical, que é
o pecado; ora isto só se realiza através da transformação interior ou conversão,
que frutifica na vida mediante os actos de penitência.
O documento-base do Sínodo (chamado também Lineamenta =
Esboço), preparado só com a finalidade de apresentar o tema, acentuando alguns
dos seus aspectos fundamentais, permitiu às Comunidades eclesiais, que existem
pelo mundo, reflectir durante quase dois anos, sobre estes aspectos de uma
questão — qual é a da conversão e da reconciliação — que interessa a todos; e,
além disso, de a ela ir buscar um renovado dinamismo para a vida e para o
apostolado cristão. A reflexão foi mais aprofundada depois, na preparação
imediata para os trabalhos sinodais, graças ao Documento de trabalho
(«Instrumentum laboris»), enviado a seu tempo aos Bispos e aos seus
colaboradores. E, por fim, durante um mês inteiro, os Padres sinodais,
assistidos por todos aqueles que foram chamados para a Assembleia propriamente
dita, com grande sentido de responsabilidade trataram do mesmo tema e dos
problemas, numerosos e variados, com ele conexos. Do debate, do estudo em comum
e da assídua e cuidadosa indagação promanou um amplo e precioso tesouro, que as
Propostas («Propositiones») finais resumem na sua essência.
A visão do Sínodo não ignora os actos de reconciliação
(alguns dos quais passam quase inobservados na sua verificação quotidiana) que,
embora em graus diversos, servem para acabar com as muitas tensões, para
superar os muitos conflitos e para vencer as pequenas e grandes divisões,
restabelecendo a unidade. A preocupação principal do Sínodo, porém, era a de
encontrar, no âmago destes actos dispersos, a raiz escondida, uma reconciliação
«fontal», por assim dizer, operante no coração e na consciência do homem.
O carisma e, simultaneamente, a originalidade da Igreja,
no que respeita à reconciliação, qualquer que seja o nível em que deva ser
posta em prática, residem no facto de a mesma Igreja ir sempre buscar a sua
origem àquela reconciliação fontal. Em virtude da sua missão essencial, a
Igreja sente-se, de facto, no dever de chegar até às raizes da laceração
primordial do pecado, para aí operar o saneamento e restabelecer como que uma
reconciliação, também ela primordial, que seja o princípio eficaz de toda a
verdadeira reconciliação. Foi isto que a Igreja teve em vista e propôs,
mediante o Sínodo.
Desta reconciliação nos fala a Sagrada Escritura,
convidando-nos a fazer todos os esforços para alcançá-la; (15) mas diz-nos, por
outro lado, que ela é, primeiro que tudo, um dom misericordioso de Deus ao
homem. (16) A história da Salvação — a salvação de toda a humanidade, como a de
cada homem, em qualquer momento — é a história admirável de uma reconciliação:
aquela reconciliação pela qual Deus, que é Pai, no Sangue e na Cruz do Seu
Filho feito homem, reconciliou consigo o mundo, fazendo nascer assim una nova
família de reconciliados.
A reconciliação torna-se necessária porque se deu a
ruptura do pecado, da qual derivaram todas as outras formas de ruptura no
íntimo do homem e à sua volta. A reconciliação, portanto, para ser total exige
necessariamente a libertação do pecado, rejeitado nas suas raízes mais
profundas. Por isso, há uma estreita ligação interna, que une conversão e
reconciliação: é impossivel dissociar as duas realidades, ou falar de uma sem
falar da outra.
O Sínodo falou, ao mesmo tempo, da reconciliação de toda a
família humana e da conversão do coração de cada pessoa, do seu regresso a
Deus, querendo confirmar e proclamar que a união entre os homens não se poderá
realizar sem a mudança interior de cada um. A conversão pessoal é o caminho
necessário para a concórdia entre as pessoas. (17) Quando a Igreja anuncia a
boa nova da reconcilação ou se propõe torná-la realidade através dos
Sacramentos, desempenha um verdadeiro papel profético, denunciando os males do
homem na sua nascente contaminada indicando a raiz das divisões e infundindo a
esperança de poder superar as tensões e os conflitos, para chegar à
fraternidade, à concórdia e à paz, em todos os níveis e em todas as camadas da
sociedade humana. Ela transforma uma condição histórica de ódio e de violência
numa civilização de amor; ela proporciona a todos o princípio evangélico e
sacramental daquela reconciliação «fontal», da qual brotam todos os outros
gestos ou actos de reconciliação, mesmo a nível social. É desta reconciliação,
fruto da conversão, que trata a presente Exortação Apostólica.
Com efeito, como já aconteceu depois das três precedentes
Assembleias sinodais, também desta vez os próprios Padres quiseram deixar nas
mãos do Bispo de Roma, Pastor universal da Igreja e Chefe do Colégio episcopal,
na sua qualidade de Presidente do Sínodo, as conclusões do próprio trabalho.
Aceitei, como grave e grato dever do meu ministério, a tarefa de colher na
imensa riqueza do Sínodo para apresentar ao Povo de Deus, qual fruto do mesmo
Sínodo, uma mensagem doutrinal e pastoral sobre o tema da penitência e da
reconciliação. Tratarei, pois, na primeira parte, da Igreja no desempenho da
sua missão reconciliadora e na actividade de conversão dos corações, pelo
abraço renovado entre o homem e Deus, entre o homem e o seu irmão e entre o
homem e tudo o que foi criado; na segunda parte, será indicada a causa radical
de todas as dilacerações ou divisões entre os homens e, antes de mais,
O Documento que agora confio aos filhos da Igreja, bem
como a todos aqueles que, crentes ou não, olham a mesma Igreja com interesse e
ânimo sincero, pretende ser a resposta que se impõe a tudo aquilo que o Sínodo
me pediu. Entretanto, ele é também — faço questão de o declarar, para
satisfazer a um imperativo de verdade e de justiça — obra do mesmo Sínodo. O
conteúdo destas páginas, de facto, dele é proveniente: da sua preparação remota
ou próxima, do Documento de trabalho, das intervenções na «Sala Sinodal», nas
reuniões de grupo («circuli minores») e, sobretudo, das sessenta e três
Propostas («Propositiones»): encontra-se aqui o fruto do trabalho conjunto dos
Padres, entre os quais não faltavam os representantes das Igrejas Orientais,
cujo património teológico, espiritual e litúrgico é tão rico e venerável,
também pelo que respeita à matéria que aqui nos interessa. Além disso, o
Conselho da Secretaria do Sínodo, em duas importantes sessões, avaliou os
resultados e as orientações da Assembleia sinodal, logo que esta terminou, pôs
em evidência a dinâmica das referidas Propostas («Propositiones») e traçou as
linhas julgadas mais idóneas, para a estrutura do presente Documento. Estou
grato a todos aqueles que realizaram este trabalho, enquanto, fiel à minha
missão, quero aqui transmitir aquilo que, no tesouro doutrinal e pastoral do
Sínodo, me parece providencial para a vida de tantos homens, nesta hora, a um
tempo magnífica e difícil, da história.
Convém fazê-lo — e afigura-se algo especialmente
significativo — enquanto está ainda viva a recordação do Ano Santo, todo ele
vivido sob o signo da penitência, conversão e reconciliação. Que esta minha
Exortação, confiada aos Irmãos no Episcopado e aos seus colaboradores
Presbíteros e Diáconos, aos Religiosos e Religiosas, a todos os Fiéis e aos
homens e mulheres de consciência recta, possa constituir não apenas um
instrumento de purificação, de enriquecimento e aprofundamento da própria fé
pessoal, mas também um fermento capaz de estimular no coração do mundo, a paz e
a fraternidade, a esperança e a alegria, valores que brotam do Evangelho
acolhido, meditado e vivido, dia a dia, olhando para o exemplo de Maria, Mãe de
nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual aprouve a Deus reconciliar consigo todas
as coisas. (18)
PRIMEIRA PARTE
CONVERSÃO E RECONCILIAÇÃO: TAREFA E
COMPROMISSO DA IGREJA
CAPÍTULO PRIMEIRO
UMA PARÁBOLA DA RECONCILIAÇÃO
5. Ao iniciar esta Exortação Apostólica, vem-me à mente
aquela página extraordinária de São Lucas, que já procurei ilustrar num
Documento precedente. (19) Refiro-me à parábola do filho pródigo. (20)
Do irmão que se tinha perdido...
«Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao Pai:
"Pai, dá-me a parte da herança que me compete", conta Jesus ao
apresentar as dramáticas vicissitudes daquele jovem: a aventurosa partida da
casa paterna, a dissipação de todos os seus bens numa vida dissoluta e vazia,
os dias tenebrosos da distância e da fome e, pior ainda, da dignidade perdida,
da humilhação e da vergonha; e, por fim, a nostalgia da própria casa, a coragem
de regressar e o acolhimento do pai. Este, certamente, não tinha esquecido o
filho; ao contrário, conservara intactos o afecto e a estima para com ele. E
assim, esperara-o sempre; e agora abraça-o, enquanto inicia a grande festa do
regresso «daquele que estava morto e voltou à vida, se tinha perdido e foi
encontrado».
O homem, — cada um dos homens — é este filho pródigo:
fascinado pela tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a
própria existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o
tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que tenta
construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria
miséria, pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o pai da parábola,
Deus fica à espreita do regresso do filho, abraça-o à sua chegada e põe a mesa
para o banquete do novo encontro, com que se festeja a reconciliação.
O que nesta parábola sobressai mais é o acolhimento
festivo e amoroso do pai ao filho que regressa: imagem da misericórdia de Deus
sempre pronto a perdoar. Assentemos desde já nisto: a reconciliação é
principalmente um dom do Pai celeste.
...ao irmão que ficara em casa
6. Mas a parábola faz entrar em cena também o irmão mais
velho, que recusa ocupar o seu lugar no banquete. Reprocha ao irmão mais novo
os seus extravios e ao pai o acolhimento que lhe dispensou, enquanto a ele, morigerado
e trabalhador, fiel ao pai e à casa, nunca foi permitido — diz ele — fazer uma
festa com os amigos. Sinal de que não compreende a bondade do pai. Enquanto
este irmão, demasiado seguro de si mesmo e dos próprios méritos, ciumento e
desdenhoso, cheio de azedume e de raiva, não se converteu e se reconciliou com
o pai e com o irmão, o banquete ainda não era, no sentido pleno, a festa do
encontro e do convívio recuperado.
O homem — cada um dos homens — é também este irmão mais
velho. O egoísmo torna-o ciumento, endurece-lhe o coração, cega-o e leva-o a
fechar-se aos outros e a Deus. A benignidade e a misericórdia do pai irritam-no
e incomodam-no; a felicidade do irmão reencontrado tem um sabor amargo para
ele. (21) Também sob este aspecto ele precisa de se converter para se
reconciliar.
A parábola do filho pródigo é, antes de mais, a história
inefável do grande amor de um Pai — Deus — que oferece ao filho, que a Ele
retorna, o dom da reconciliação plena. E ao evocar, na figura do irmão mais
velho, o egoísmo que divide os irmãos entre si, ela torna-se também a história
da família humana: mostra a nossa situação e indica o caminho a percorrer. O
filho pródigo, com a sua ânsia de conversão, de regresso aos braços do pai e de
perdão, representa aqueles que pressentem no fundo da própria consciência a
nostalgia de uma reconciliação a todos os níveis e sem reserva, e têm a
intuição, com íntima certeza, de que ela só será possível, se derivar de uma
primeira e fundamental reconciliação: aquela reconciliação que leva o homem da
distância à amizade filial com Deus, do qual reconhece a misericórdia infinita.
Lida, porém, na perspectiva do outro filho, a parábola retrata a situação da
família humana dividida pelos egoísmos, põe em evidência a dificuldade em
secundar o desejo e a nostalgia de uma só família reconciliada e unida; e, por
conseguinte, apela para a necessidade de uma profunda transformação dos
corações, pela redescoberta da misericórdia do Pai e pela vitória sobre a
incompreensão e a hostilidade entre irmãos.
À luz desta inesgotável parábola da misericórdia que apaga
o pecado, a Igreja, acolhendo o apelo que nela está contido, compreende a sua
missão de empenhar-se, seguindo as pegadas do Senhor, pela conversão dos
corações e pela reconciliação dos homens com Deus e entre si, duas realidades
que estão intimamente conexas.
CAPÍTULO SEGUNDO
NAS FONTES DA RECONCILIAÇÃO
À luz de Cristo Reconciliador
7. Como se deduz da parábola do filho pródigo, a
reconciliação é um dom de Deus e uma iniciativa sua. Mas a nossa fé ensina-nos
que esta iniciativa se concretiza no mistério de Cristo redentor e
reconciliador, que liberta o homem do pecado sob todas as suas formas. O
próprio São Paulo não hesita em resumir em tal tarefa e função a incomparável
missão de Jesus de Nazaré, Verbo e Filho de Deus feito homem.
Também nós podemos partir deste mistério central da
economia da salvação e ponto-chave da cristologia do Apóstolo. «Se, de facto,
sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus, mediante a morte do Seu Filho
— escreve ele aos Romanos — muito mais, agora que estamos reconciliados,
seremos salvos pela sua vida. E não só isto; mas também nos gloriamos em Deus
por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual, agora, obtivemos a reconciliação».
(22) Sendo assim, uma vez que «Deus nos reconciliou consigo por meio de Cristo»
Paulo sente-se inspirado a exortar os cristãos de Corinto: «Reconciliai-vos com
Deus». (23)
De tal missão reconciliadora mediante a morte na Cruz,
falava noutros termos o evangelista João, ao observar que Cristo devia morrer
«para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus que andavam
dispersos». (24)
São Paulo permite-nos, ainda, alargar a nossa visão da
obra de Cristo a dimensões cósmicas, quando escreve que n'Ele o Pai reconciliou
consigo todas as criaturas, as do céu e as da terra. (25) Pode dizer-se de
Cristo Redentor, justamente, que «no tempo da ira foi feito reconciliação»,
(26) e que, se Ele é «a nossa paz», (27) é também a nossa reconciliação.
É com toda a razão que a sua paixão e morte,
sacramentalmente renovadas na Eucaristia, são chamadas pela Liturgia
«sacrifício de reconciliação»: (28) reconciliação com Deus e com os irmãos,
dado que o próprio Jesus ensina que a reconciliação fraterna deve realizar-se
antes do sacrifício. (29)
A partir destas e de outras significativas passagens do
Novo Testamento, é legitimo, portanto, fazer convergir as reflexões sobre todo
o mistério de Cristo, em torno da sua missão de Reconciliador. Há que
proclamar, portanto, mais uma vez, a fé da Igreja no acto redentor de Cristo,
no mistério pascal da sua morte e ressurreição, enquanto causa da reconciliação
do homem, no seu duplo aspecto de libertação do pecado e de comunhão de graça
com Deus.
E exactamente perante o quadro doloroso das divisões e das
dificuldades da reconciliação entre os homens, convido a olhar para o mistério
da Cruz («mysterium Crucis»), como para o drama mais alto, no qual Cristo
conhece e sofre profundamente o drama da divisão do homem
A Igreja reconciliadora
8. Mas — como dizia São Leão Magno, ao falar, da paixão de
Cristo — «tudo aquilo que o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do
mundo, nós não o conhecemos somente pela história das suas acções passadas, mas
sentimo-lo, também, na eficácia do que Ele realiza no presente». (32) Sentimos
a reconciliação, operada na sua humanidade, na eficácia dos sagrados mistérios
celebrados pela sua Igreja, pela qual Ele se entregou a si mesmo,
constituindo-a sinal e, conjuntamente, instrumento de salvação. É isto que
afirma São Paulo, ao escrever que Deus deu aos Apóstolos de Cristo uma
participação na sua obra reconciliadora. «Deus - diz ele - confiou-nos o
ministério da reconciliação ... as palavras da reconciliação». (33)
Nas mãos e na boca dos Apóstolos, seus mensageiros, o Pai
depôs misericordiosamente um ministério de reconciliação, que eles exercem de
maneira singular, em virtude do poder de agir «in persona Christi». Mas também
a toda a comunidade dos fiéis, à inteira estrutura da Igreja, é confiada a
mensagem da reconciliação, ou seja, a obrigação de fazer todo o possível para
testemunhar a reconciliação e para a actuar no mundo.
Pode dizer-se que também o Concílio Vaticano II, ao
definir a Igreja como «sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com
Deus e da unidade de todo o género humano», e ao indicar como sua função
própria a de obter a «plena unidade em Cristo» para os «homens, hoje mais
intimamente ligados por vários vínculos», (34) reconhecia que a mesma Igreja
deve tender, sobretudo, para reconduzir os homens à plena reconciliação.
Em íntima conexão com a missão de Cristo, a missão da
Igreja, assaz rica e complexa, pode, portanto, resumir-se na tarefa, central
para ela, da reconciliação do homem: com Deus, consigo mesmo, com os irmãos e
com toda a criação; e isto de maneira permanente, porque — como já disse uma
outra vez — «a Igreja é, por sua natureza, sempre reconciliadora». (35)
A Igreja é reconciliadora, na medida em que proclama a
mensagem da reconciliação, como sempre fez na sua história, desde o Concílio
apostólico de Jerusalém (36) até ao último Sínodo dos Bispos e ao recente
Jubileu da Redenção. A originalidade desta proclamação está no facto de que,
para a Igreja, a reconciliação está estreitamente ligada à conversão do
coração: é esta a via necessária para o entendimento entre os seres humanos.
A Igreja é reconciliadora, ainda, na medida em que mostra
ao homem os caminhos e lhe oferece os meios para a referida reconciliação
A Igreja reconciliada
9. O meu venerável Predecessor Paulo VI teve o mérito de
esclarecer que, para ser evangelizadora, a Igreja deve começar por se mostrar
ela própria evangelizada, isto é, aberta ao anúncio pleno e integral da Boa
Nova de Jesus Cristo, para a escutar e pôr em prática. (37) Também eu,
coligindo num documento orgânico as reflexões da IV Assembleia Geral do Sínodo,
falei de uma Igreja que se catequiza na medida em que faz catequese. (38)
Não hesito agora em retomar, aqui neste ponto, o
paralelismo, porquanto ele se aplica ao tema que estou a tratar, para afirmar
que a Igreja, para ser reconciliadora, deve começar por ser uma Igreja
reconciliada. Nesta expressão simples e linear está subjacente a convicção de
que a Igreja, para anunciar e propôr de modo cada vez mais eficaz ao mundo a
reconciliação, deve tornar-se cada vez mais uma comunidade (ainda que fosse o
«pequeno rebanho» dos primeiros tempos) de discípulos de Cristo, unidos no
empenho em se converterem continuamente ao Senhor e em viverem como homens
novos no espírito e na prática da reconciliação.
Perante os nossos contemporâneos, tão sensíveis à prova
dos testemunhos concretos de vida, a Igreja é chamada a dar o exemplo da
reconciliação, antes de mais no seu interior; e para isto, todos devemos
esforçar-nos por apaziguar os ânimos, moderar as tensões, superar as divisões,
sanar as feridas eventualmente infligidas entre irmãos, quando se agudiza o
contraste entre opções no campo do opinável, e procurar de preferência estar
unidos naquilo que é essencial para a fé e a vida cristã, segundo a antiga
máxima: In dubiis libertas, in necessariis unitas, in omnibus caritas
(liberdade naquilo que é duvidoso, unidade no que é necessário e caridade em todas
as coisas).
É segundo este mesmo critério, que a Igreja deve actuar
também no que se refere à sua dimensão ecuménica. De facto, para ser
inteiramente reconciliada, a Igreja sabe que deve prosseguir na busca da
unidade entre aqueles que se prezam de chamar-se cristãos, mas se encontram
separados entre si, mesmo como Igrejas ou Comunhões, e da Igreja de Roma. Esta
procura uma unidade que, para ser fruto e expressão de verdadeira
reconciliação, não quer seja fundamentada nem na dissimulação dos aspectos que
dividem, nem em compromissos tão fáceis quanto superficiais e frágeis. A
unidade deve ser o resultado de uma verdadeira conversão de todos, do perdão
recíproco, do diálogo teológico e das relações fraternais, da oração e da plena
docilidade à acção do Espírito Santo, que é também Espírito de reconciliação.
Por fim, a Igreja, para poder dizer-se plenamente
reconciliada, sente o dever de se aplicar cada vez mais
Em qualquer caso, a Igreja promove uma reconciliação na
verdade, pois sabe bem que não são possíveis nem a reconciliação nem a unidade,
fora ou contra a verdade.
CAPÍTULO TERCEIRO
A INICIATIVA DE DEUS E O MINISTÉRIO
DA IGREJA
10. Comunidade reconciliada e reconciliadora, a Igreja não
pode esquecer que na origem do seu dom e da sua missão de reconciliação se
encontra a iniciativa, cheia de amor compassivo e de misericórdia, daquele Deus
que é amor (41) e que por amor criou os homens: (42) criou-os, com o fim de
viverem
A reconciliação vem de Deus
Deus é fiel ao seu desígnio eterno mesmo quando o homem,
induzido pelo Maligno (43) e arrastado pelo seu orgulho, abusa da liberdade que
lhe foi dada para amar e procurar generosamente o bem, recusando a obediência
ao seu Senhor e Pai; mesmo quando o homem, em vez de responder com amor ao amor
de Deus, se opõe a Ele como a um seu rival, iludindo-se e presumindo das suas
forças, com a consequente ruptura das relações com Aquele que o criou. Não
obstante esta prevaricação do homem, Deus permanece fiel no amor. A narração do
jardim do Éden leva-nos, certamente, a meditar sobre as consequências funestas
da rejeição do Pai, que se traduz na desordem interna do homem e na ruptura da
harmonia entre o homem e a mulher e entre irmão e irmão. (44) Também é
significativa a parábola evangélica dos dois filhos que se afastam do pai, de
maneira diversa, cavando um abismo entre si. A recusa do amor de Deus e dos
seus dons de amor está sempre na raiz das divisões da humanidade.
Mas nós sabemos que Deus, «rico em misericórdia» (45) tal
como o pai da parábola, não fecha o coração a nenhum dos seus filhos.
Espera-os, procura-os, vai alcançá-los precisamente no ponto em que a recusa da
comunhão os aprisiona no isolamento e na divisão e chama-os a reunirem-se à
volta da sua mesa, na alegria da festa do perdão e da reconciliação.
Esta iniciativa de Deus concretiza-se e manifesta-se no
acto redentor de Cristo, que se irradia no mundo mediante o ministério da
Igreja.
De acordo com a nossa fé, de facto, o Verbo de Deus fez-se
carne e veio habitar a terra dos homens, entrou na história do mundo, assumindo-a
e recapitulando-a em si. (46) Ele revelou-nos que Deus é amor e deu-nos o
«mandamento novo» (47) do amor, comunicando-nos, ao mesmo tempo, a certeza de
que o caminho do amor está aberto a todos os homens, de tal modo que não é vão
o esforço para instaurar a fraternidade universal. (48) Vencendo, com a sua
morte na Cruz, o mal e a força do pecado, pela sua obediência cheia de amor
trouxe a salvação a todos e tornou-se para todos «reconciliação». N'Ele, Deus
reconciliou o homem consigo.
A Igreja, continuando o anúncio de reconciliação que
Cristo apregoou nas aldeias da Galileia e de toda a Palestina, (49) não cessa
de convidar a humanidade inteira a converter-se e a acreditar na Boa Nova; ela
fala
Quem aceita este apelo entra na economia da reconciliação
e faz a experiência da verdade contida naquele outro anúncio de São Paulo,
segundo o qual Cristo «é a nossa paz, ele que fez de dois povos um só,
destruindo o muro de separação, isto é, de inimizade que constituía a barreira
(...) estabelecendo a paz para reconciliar uns e outros com Deus». (51) Embora
este texto diga directamente respeito à superação da divisão religiosa entre
Israel, como povo eleito do Antigo Testamento, e os outros povos, todos
chamados a fazer parte da Nova Aliança, ele contém, todavia, a afirmação da
nova universalidade espiritual, querida por Deus e por Ele realizada, mediante
o sacrifício do seu Filho, o Verbo feito homem, sem limites nem exclusões de
qualquer género, para todos aqueles que se convertem e acreditam em Cristo.
Todos, portanto, somos chamados a usufruir dos frutos desta reconciliação
querida por Deus: todos e cada um dos homens, todos e cada um dos povos.
A Igreja, grande sacramento de reconciliação
É-o, acima de tudo, pela sua própria existência de
comunidade reconciliada, que testemunha e representa no mundo a obra de Cristo.
É-o, depois, pelo seu serviço de guardiã e intérprete da
Sagrada Escritura, que é Boa Nova de reconciliação, na medida em que faz
conhecer de geração em geração o desígnio de amor de Deus e indica a cada um as
vias da reconciliação universal em Cristo.
É-o, por fim, pelos sete Sacramentos que, de um modo
peculiar a cada um deles, «perfazem a Igreja». (52) Efectivamente, uma vez que
comemoram e renovam o mistério da Páscoa de Cristo, todos os Sacramentos são
fonte de vida para a Igreja e, nas mãos dela, instrumento de conversão a Deus e
de reconciliação dos homens.
Outros caminhos de reconciliação
A primeira via desta acção salvadora é a oração. Sem
dúvida a Virgem Santíssima, Mãe de Cristo e da Igreja, (53) e os Santos, que já
chegaram ao termo da caminhada terrena e à posse da glória de Deus, sustentam,
com a sua intercessão, os seus irmãos peregrinos no mundo, no empenho de
conversão, de fé, de recuperação após cada queda, de actividade para fazer
crescer a comunhão e a paz na Igreja e no mundo. É no mistério da Comunhão dos
Santos, que a reconciliação universal é actuada na sua forma mais profunda e
mais frutuosa para a salvação de todos.
Há, depois, uma outra via: a da pregação. Discípula do
único Mestre Jesus Cristo, a Igreja, por sua vez como Mãe e Mestra, não se
cansa de propor aos homens a reconciliação e não hesita em denunciar a maldade
do pecado, em proclamar a necessidade da conversão, em convidar e em pedir aos
homens que «se deixem reconciliar». Na realidade, é essa a sua missão profética
no mundo de hoje, como no de ontem: é a mesma missão do seu Mestre e Cabeça,
Jesus. Como ele, a Igreja há-de realizar sempre tal missão com sentimentos de
amor misericordioso e levar a todos as palavras do perdão e o convite à
esperança, que vêm da Cruz.
Há ainda a via, tantas vezes difícil e árdua, da acção
pastoral para trazer cada um dos homens — sejam eles quem forem e onde quer que
se encontrem — ao caminho, por vezes longo, do retorno ao Pai na comunhão com
todos os irmãos.
Há, por fim, a via do testemunho, quase sempre silencioso,
que nasce duma dupla consciência da Igreja: a de ser em si «indefectivelmente
santa», (54) mas ao mesmo tempo necessitada de continuar «a purificar-se, dia a
dia, até que Cristo a faça comparecer na sua presença, gloriosa, sem mancha nem
ruga», dado que, por causa dos nossos pecados, por vezes «o seu rosto
resplandece menos» aos olhos de quem a vê. (55) Este testemunho não pode deixar
de assumir duas manifestações fundamentais: ser sinal daquela caridade
universal que Jesus Cristo deixou como herança aos seus seguidores, como prova
da pertença ao seu Reino; e traduzir-se em factos sempre novos de conversão e
de reconciliação no interior e no exterior da Igreja, com a superação das
tensões, com o perdão recíproco e com o crescimento no espírito de fraternidade
e de paz, que tem de ser propagado no mundo inteiro. Percorrendo esta via a
Igreja poderá actuar validamente para fazer com que nasça aquilo a que o meu
Predecessor Paulo VI chamava «a civilização do amor».
SEGUNDA PARTE
O AMOR MAIOR DO QUE O PECADO
O drama do homem
13. Como escreve o Apóstolo São João «se dissermos que não
temos pecado, enganamo-nos a nós próprios e a verdade não está em nós. Se
confessarmos os nossos pecados, Ele que é fiel e justo perdoar-nos-á os
pecados». (56) Estas palavras inspiradas, escritas nos alvores da Igreja,
introduzem melhor do que qualquer outra expressão humana a reflexão sobre o
pecado, que está intimamente relacionada com o discurso sobre a reconciliação.
Elas apreendem o problema do pecado no seu horizonte antropológico, enquanto
parte integrante da verdade acerca do homem, mas inserem-no imediatamente no
horizonte divino, no qual o pecado é confrontado com a verdade do amor de Deus,
justo, generoso e fiel, que se manifesta sobretudo pelo perdão e pela redenção.
Por isso, o próprio São João escreve pouco depois que «se (o nosso coração) de
alguma coisa nos acusa, Deus é maior do que o nosso coração». (57)
Reconhecer o próprío pecado, ou melhor — indo mais ao
fundo na consideração da própria personalidade — reconhecer-se pecador, capaz
de pecar e de ser induzido ao pecado, é o princípio indispensável do retorno a
Deus. É a experiência exemplar de David, que depois de «ter feito o mal aos
olhos do Senhor», repreendido pelo profeta Natan, (58) exclama: «Reconheço a
minha culpa, o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra Vós, só
contra Vós; pratiquei aquilo que é mal aos vossos olhos». (59) De resto, Jesus
põe na boca e no coração do filho pródigo aquelas palavras significativas:
«Pai, pequei contra o Céu e contra ti». (60)
Na realidade, reconciliar-se com Deus supõe e inclui o
apartar-se com lucidez e determinação do pecado, no qual se caiu. Supõe e
inclui, portanto, o fazer penitência no sentido mais pleno do termo:
arrepender-se, manifestar o arrependimento, assumir a atitude concreta do
arrependido, que é a de quem se coloca no caminho do regresso ao Pai. Isto é
uma lei geral, que cada um deve seguir na situação particular em que se
encontra. A exposição sobre o pecado e a conversão, de facto, não pode ser
desenvolvida somente em termos abstractos.
Na condição concreta do homem pecador, em que não pode
haver conversão sem reconhecimento do próprio pecado, o ministério de
reconciliação da Igreja intervém, em qualquer hipótese, com uma finalidade
claramente penitêncial, isto é, para levar o homem ao «conhecimento de si»,
segundo a expressão de Santa Catarina de Sena, (61) ao desapego do mal, ao
restabelecimento da amizade com Deus, à reordenação interior e à nova conversão
eclesial. Acrescente-se que, para além do âmbito da Igreja e dos fiéis, a
mensagem e o ministério da penitência são dirigidos a todos os homens, uma vez
que todos têm necessidade de conversão e de reconciliação. (62)
Para exercitar adequadamente tal ministério penitencial,
será também necessário avaliar, com os «olhos iluminados» (63) pela fé, as
consequências do pecado, que são motivo de divisão e de ruptura, não só no
interior de cada homem, mas também nos vários círculos em que ele vive:
famíliar, ambiencial, profissional e social, como tantas vezes se pode
verificar pela experiência, em confirmação da página bíblica referente à cidade
de Babel e à sua torre. (64) Tendo a intenção de construir aquilo que devia
ser, a um tempo, símbolo e foco de unidade, aqueles homens encontraram-se mais dispersos
do que antes, confundidos na linguagem, divididos entre si e incapazes de
consenso e de convergência.
Porque falhou o ambicioso projecto? Porque «se afadigaram
em vão os construtores»? (65) Porque os homens tinham colocado como sinal e
garantia da desejada unidade unicamente uma obra das suas mãos, esquecidos da
acção do Senhor. Calcularam apenas com a dimensão horizontal do trabalho e da
vida social, descurando a dimensão vertical, pela qual se teriam encontrado
radicados em Deus, seu Criador e Senhor, e voltados na direcção dele como fim
último do seu caminho.
Ora, pode dizer-se que o drama do homem de hoje, como o do
homem de todos os tempos, consiste precisamente no seu carácter babélico.
CAPÍTULO PRIMEIRO
O MISTÉRIO DO PECADO
14. Se lermos a página bíblica da cidade e da torre de
Babel à luz da novidade evangélica e a confrontarmos com a outra página da
queda dos primeiros pais, podemos tirar daí elementos preciosos para uma tomada
de consciência do mistério do pecado. Esta expressão, na qual se repercute o
que São Paulo escreve acerca do mistério da iniquidade (66) tem em vista
fazer-nos perceber o que se esconde de obscuro e de inexplicável no pecado.
Este, sem dúvida, é obra da liberdade do homem; mas por dentro da realidade
desta experiência humana agem factores, pelos quais ela se situa para além do
humano, na zona limite onde a consciência, a vontade e a sensibilidade do homem
estão em contacto com forças obscuras que, segundo São Paulo, agem no mundo até
ao ponto de quase o senhorearem. (67)
A desobediência a Deus
Da narração bíblica relativa à construção da torre de
Babel emerge um primeiro elemento, que nos ajuda a compreender o pecado: os
homens pretenderam edificar uma cidade, reunir-se numa estrutura social, ser
fortes e poderosos sem Deus, se bem que, talvez, não contra Deus. (68) Neste
sentido, a narração do primeiro pecado no Éden e a narração de Babel, não
obstante as diferenças notáveis, de conteúdo e de forma, têm um ponto de
convergência: em ambas nos encontramos diante de uma exclusão de Deus, pela
oposição frontal a um mandamento seu, por uma atitude de rivalidade
Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus:
é isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a ser,
sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à negação de Deus e da sua
existência: é o fenómeno chamado ateísmo.
Desobediência do homem, que — com um acto da sua liberdade
— não reconhece o senhorio de Deus sobre a sua vida, pelo menos naquele momento
determinado em que viola a sua lei.
A divisão entre os irmãos
15. Nas narrações bíblicas acima recordadas a ruptura com
Deus desemboca dramaticamente na divisão entre os irmãos.
Na descrição do «primeiro pecado», a ruptura com Javé
espedaçou, ao mesmo tempo, o fio da amizade que unia a família humana; tanto
assim que as páginas do Génesis que se seguem nos mostram o homem e a mulher,
como que a apontarem com o dedo acusador um contra o outro; (70) depois o irmão
que, hostil ao irmão, acaba por tirar-lhe a vida. (71)
Segundo a narração dos factos de Babel, a consequência do
pecado é a desagregação da família humana, que já começara com o primeiro
pecado e agora chega ao extremo na sua forma social.
Quem quiser indagar sobre o mistério do pecado não pode
deixar de considerar esta concatenação de causa e efeito. Como ruptura com
Deus, o pecado é o acto de desobediência de uma criatura que, pelo menos
implicitamente, enjeita Aquele do qual proveio e que a mantém em vida; é,
portanto, um acto suicida.
E dado que com o pecado o homem se recusa a submeter-se a
Deus, também se transtorna o seu equilíbrio interior; e, precisamente no seu
íntimo, irrompem contradições e conflitos. Assim dilacerado, o homem produz,
quase inevitavelmente, uma laceração no tecido das suas relações com os outros
homens e com o mundo criado. É uma lei e um facto objectivo, que têm
confirmação em muitos momentos da psicologia humana e da vida espiritual, como
aliás na realidade da vida social, onde é fácil observar as repercussões e os
sinais da desordem interior.
O mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que
o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso, pode
falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e
todo o pecado sob um outro aspecto é social, enquanto e porque tem também
consequências sociais.
Pecado pessoal e pecado social
16. 0 pecado, no sentido próprio e verdadeiro, é sempre um
acto da pessoa, porque é um acto de um homem, individualmente considerado, e
não propriamente de um grupo ou de uma comunidade. Este homem pode ser
condicionado, pressionado, impelido por numerosos e ponderosos factores
externos, como também pode estar sujeito a tendências, taras e hábitos
relacionados com a sua condição pessoal. Em não poucos casos, tais factores
externos e internos podem atenuar, em maior ou menor grau, a sua liberdade e,
consequentemente, a sua responsabilidade e culpabilidade. No entanto, é uma
verdade de fé, também confirmada pela nossa experiência e pela nossa razão, que
a pessoa humana é livre. E não se pode ignorar esta verdade, para descarregar
em realidades externas — as estruturas, os sistemas, os outros - o pecado de
cada um. Além do mais, isso seria obliterar a dignidade e a liberdade de
pessoa, que se revelam — se bem que negativa e desastrosamente — também nessa
responsabilidade do pecado cometido. Por isso, em todos e em cada um dos
homens, não há nada tão pessoal e intransferível como o mérito da virtude ou a
responsabilidade da culpa.
Como acto da pessoa, o pecado tem as suas primeiras e mais
importantes consequências no próprio pecador; ou seja, na relação dele com Deus,
que é o próprio fundamento da vida humana; e também no seu espírito,
enfraquecendo-lhe a vontade e obscurecendo-lhe a inteligência.
Chegados a este ponto, devemos perguntar-nos: a que
realidade se referiam os que, na preparação do Sínodo e no decorrer dos
trabalhos sinodais, mencionaram não poucas vezes o pecado social? A realidade
que está subjacente a tal expressão e conceito faz com estes tenham, na
verdade, diversos significados.
Falar de pecado social quer dizer, primeiro que tudo,
reconhecer que, em virtude de uma solidariedade humana tão misteriosa e
imperceptível quanto real e concreta, o pecado de cada um se repercute, de
algum modo, sobre os outros. Está nisto uma outra faceta daquela solidariedade
que, a nível religioso, se desenvolve no profundo e magnífico mistério da
Comunhão dos Santos, graças à qual se pode dizer que «cada alma que se eleva,
eleva o mundo». (72) A esta lei da elevação corresponde, infelizmente, a lei da
descida, de tal modo que se pode falar de uma comunhão no pecado, em razão da
qual uma alma que se rebaixa pelo pecado arrasta consigo a Igreja, e, de certa
maneira, o mundo inteiro. Por outras palavras não há nenhum pecado, mesmo o
mais íntimo e secreto, o mais estritamente individual, que diga respeito
exclusivamente àquele que o comete. Todo o pecado se repercute, com maior ou
menor veemência, com maior ou menor dano, em toda a estrutura eclesial e em
toda a família humana. Segundo esta primeira acepção, a cada pecado pode
atribuir-se indiscutivelmente o carácter de pecado social.
Há certos pecados, no entanto, que constituem, pelo seu
próprio objecto, uma agressão directa ao próximo e — mais exactamente, com base
na linguagem evangélica — ao irmão. Estes são uma ofensa a Deus, porque ofendem
o próximo. A tais pecados costuma dar-se a qualificação de sociais; e é esta a
segunda acepção do termo. Neste sentido, é social o pecado contra o amor do
próximo, que é tanto mais grave na Lei de Cristo, porquanto está em jogo o
segundo mandamento, que é «semelhante ao primeiro». (73) É igualmente social
todo o pecado cometido contra a justiça, quer nas relações de pessoa a pessoa,
quer nas da pessoa com a comunidade, quer, ainda, nas da comunidade com a
pessoa. É social todo o pecado contra os direitos da pessoa humana, a começar
pelo direito à vida, incluindo a do nascituro, ou contra a integridade física
de alguém; todo o pecado contra a liberdade de outrem, especialmente contra a
suprema liberdade de crer em Deus e de o adorar; todo o pecado contra a
dignidade e a honra do próximo. É social todo o pecado contra o bem comum e
contra as suas exigências, em toda a ampla esfera dos direitos e dos deveres
dos cidadãos. Pode ser social tanto o pecado de comissão como o de omissão: da
parte dos dirigentes políticos, económicos e sindicais, por exemplo, que,
embora podendo, não se empenhem com sabedoria no melhoramento ou na
transformação da sociedade, segundo as exigências e as possibilidades do
momento histórico; como também da parte dos trabalhadores, que faltem aos seus
deveres de presença e de colaboração, para que as empresas possam continuar a
proporcionar o bem-estar a eles próprios, às suas famílias e à inteira
sociedade.
A terceira acepção de pecado social diz respeito às
relações entre as várias comunidades humanas. Estas relações nem sempre estão
em sintonia com a desígnio de Deus, que quer no mundo justiça, liberdade e paz
entre os indivíduos, os grupos, os povos. Assim, a luta de classes, seja quem
for o seu responsável ou, por vezes, o sistematizador, é um mal social. Assim,
a contraposição obstinada dos blocos de Nações e duma Nação contra a outra e de
grupos contra outros grupos no seio da mesma Nação, é igualmente um mal social.
Em ambos os casos, pode fazer-se a pergunta, se é possível atribuir a alguém a
responsabilidade moral de tais males e, por conseguinte, o pecado. Ora, deve
admitir-se que realidades e situações como as que acabam de ser indicadas, ao
generalizarem-se e até mesmo ao agigantarem-se como factos sociais, quase
sempre se tornam anónimas, assim como são complexas e nem sempre identificáveis
as suas causas. Por isso, ao falar-se aqui de pecado social, a expressão tem um
significado claramente analógico. Em todo o caso, falar de pecados sociais,
mesmo que seja em sentido analógico, não deve induzir ninguém a subestimar a
responsabilidade individual das pessoas; mas tem em vista constituir um alerta
para as consciências de todos, a fim de que cada um assuma as próprias
responsabilidades, no sentido de serem séria e corajosamente modificadas essas
realidades nefastas e essas situações intoleráveis.
Dito isto, de maneira clara e inequívoca, como premissa, é
preciso acrescentar imediatamente que não é legítima nem aceitável uma acepção
do pecado social, não obstante esteja muito em voga nos nossos dias nalguns
ambientes, (74) a qual, ao opôr, não sem ambiguidade, pecado social a pecado
pessoal, mais ou menos inconscientemente leva a diluir e quase a eliminar o
pessoal, para admitir somente as culpas e responsabilidades sociais. Segundo
esta concepção, que revela com facilidade a sua derivação de ideologias e
sistemas não cristãos — hoje, talvez, já postos de parte por aqueles mesmos que
a certa altura foram os seus fautores oficiais — praticamente todos os pecados
seriam sociais, no sentido de serem imputáveis não tanto à consciência moral
duma pessoa, quanto a uma entidade vaga e colectividade anónima, que poderia
ser a situação, o sistema, a sociedade, as estruturas, a instituição etc.
Pois bem: a Igreja, quando fala de situações de pecado ou
denuncia como pecados sociais certas situações ou certos comportamentos
colectivos de grupos sociais, mais ou menos vastos, ou até mesmo de Nações
inteiras e blocos de Nações, sabe e proclama que tais casos de pecado social
são o fruto, a acumulação e a concentração de muitos pecados pessoais. Trata-se
dos pecados pessoalíssimos de quem gera ou favorece a iniquidade ou a desfruta;
de quem, podendo fazer alguma coisa para evitar, ou eliminar, ou pelo menos
limitar certos males sociais, deixa de o fazer por preguiça, por medo e temerosa
conivência, por cumplicidade disfarçada ou por indiferença; de quem procura
escusas na pretensa impossibilidade de mudar o mundo; e, ainda, de quem
pretende esquivar-se ao cansaço e ao sacrifício, aduzindo razões especiosas de
ordem superior. As verdadeiras responsabilidades, portanto, são das pessoas.
Uma situação — e de igual modo uma instituição, uma
estrutura, uma sociedade — não é, de per si, sujeito de actos morais; por isso,
não pode ser, em si mesma, boa ou má.
No fundo de cada situação de pecado, porém, encontram-se
sempre pessoas pecadoras. Isto é tão verdadeiro que, se tal situação vier a ser
mudada nos seus aspectos estruturais e institucionais pela força da lei, ou —
como acontece com mais frequência, infelizmente — pela lei da força, a mudança
revela-se, na realidade, incompleta, de pouca duração e, no fim de contas, vã e
ineficaz — para não dizer mesmo contraproducente — se não se converterem as
pessoas directa ou indirectamente responsáveis por essa mesma situação.
Pecado mortal e pecado venial
17. Mas há no mistério do pecado uma outra dimensão, sobre
a qual a inteligência do homem, nunca deixou de meditar: a da sua gravidade. É
um problema inevitável, ao qual a consciência cristã nunca se esquivou de dar
uma resposta: porquê e em que medida o pecado é grave na ofensa que faz a Deus
e na sua repercussão sobre o homem? A Igreja tem uma doutrina própria a
propósito disto e reafirma-a nos seus elementos essenciais, sabendo embora que
nem sempre é fácil, no concreto das situações, fazer delimitações nítidas de
fronteiras.
Já no Antigo Testamento e para numerosos pecados — os
cometidos com deliberação, (75) as várias formas de impureza, (76) de
idolatria, (77) de culto dos falsos deuses (78) — se declarava que o réu devia
ser «eliminado do seu povo», o que podia significar mesmo ser condenado à
morte. (79) A estes contrapunham-se outros pecados, sobretudo os cometidos por
ignorância, que eram perdoados mediante um sacrifício. (80)
Com referência também a esses textos, a Igreja, já há
séculos, fala constantemente em pecado mortal e pecado venial. Mas esta
distinção e estes termos recebem luz sobretudo do Novo Testamento, no qual se
encontram muitos textos que enumeram e reprovam, com expressões enérgicas, os
pecados particularmente merecedores de condenação, (81) além e na continuidade
da confirmação dos do Decálogo feita pelo próprio Jesus. (82) Quereria
referir-me aqui, especialmente, a duas páginas significativas e
impressionantes.
Numa passagem da sua primeira Carta, São João fala de um
pecado que leva à morte (pròs thánaton) em contraposição a outro pecado que não
leva à morte (mè pròs thánaton). (83) No conceito de morte, aqui, como é óbvio,
subentende-se espiritual: trata-se da perda da verdadeira vida ou «vida
eterna», que, para São João, é o conhecimento do Pai e do Filho (84) e a
comunhão e a intimidade com eles. O pecado que leva à morte parece ser, nesta
passagem, a negação do Filho, (85) ou o culto de falsas divindades. (86) Seja
como for, com essa distinção de conceitos, São João parece querer acentuar a
incomensurável gravidade daquilo que é a essência do pecado, a recusa de Deus,
actuada sobretudo na apostasia e na idolatria; ou seja, no repúdio da fé na
verdade revelada e na equiparação a Deus de certas realidades criadas,
erigindo-as em ídolos ou falsos deuses. (87) Mas o Apóstolo, nessa mesma
página, quer também pôr em evidência a certeza que provém para o cristão do
facto de ser «nascido de Deus» pela vinda do Filho: há nele uma força que o
preserva da queda no pecado; Deus guarda-o «e o Maligno não o toca». No caso de
pecar por fraqueza ou ignorância, subsiste nele a esperança da remissão, também
pelo apoio que lhe advém da oração feita em conjunto pelos irmãos.
Noutra página do Novo Testamento, no Evangelho de São
Mateus, (88) o próprio Jesus fala duma «blasfémia contra o Espírito Santo», que
é «irremissível», porque, nas suas manifestações, ela aparece como uma
obstinada recusa de conversão ao amor do Pai das misericórdias.
Trata-se, é claro, de expressões extremas e radicais:
rejeição de Deus, rejeição da sua graça e, portanto, oposição ao próprio
princípio da salvação, (89) pela qual o homem parece fechar voluntariamente a
si mesmo o caminho da remissão. Há que ter esperança, porém, que bem poucos queiram
obstinar-se até ao fim nesta atitude de rebelião ou até de desafio a Deus, o
qual, aliás, no seu amor misericordioso é maior do que o nosso coração, como
nos ensina ainda São João. (90) Deus pode, de facto, vencer todas as nossas
resistências psicológicas e espirituais, de tal modo que — como escreve Santo
Tomás de Aquino — «não há que desesperar da salvação de ninguém nesta vida,
consideradas a omnipotência e a misericórdia de Deus». (91)
Mas, diante do problema do embate de uma vontade rebelde
com Deus infinitamente justo, não se pode deixar de nutrir sentimentos de
salutar «temor e tremor», como sugere São Paulo; (92) e o aviso de Jesus sobre
o pecado que não é «remissível» confirma a existência de culpas que podem
trazer para o pecador, como pena, a «morte eterna».
À luz destes e de outros textos da Sagrada Escritura, os
doutores e teólogos, os mestres espirituais e os pastores de almas distinguiram
os pecados em mortais e veniais. Santo Agostinho, entre outros, fala de letalia
ou mortifera crimina, opondo-os a venialia, levia ou quotidiana. (93) O
significado que ele atribui a estes qualificativos influirá posteriormente no
Magistério da Igreja. Depois dele seria Santo Tomás de Aquino a formular, nos
termos mais claros que foi possível, a doutrina que se tornou constante na
Igreja.
Na definição e distinção dos pecados mortais e veniais,
não podia estar ausente para Santo Tomás e para a Teologia do pecado que nele
se foi inspirar, a referência bíblica e, portanto, o conceito da morte
espiritual. Segundo o Doutor Angélico, para viver espiritualmente, o homem deve
permanecer em comunhão com o princípio supremo da vida, que é Deus, enquanto
fim último de todo o seu ser e do seu agir. Ora o pecado é uma desordem
perpetrada pelo homem contra este princípio vital. E quando, «por meio do
pecado, a alma provoca uma desordem que vai até à separação do fim último —
Deus — ao qual se encontra ligada pela caridade, então há pecado mortal; de
outro modo, todas as vezes que a desordem fica aquém da separação de Deus,
então o pecado é venial». (94) Por esta razão, o pecado venial não priva da
graça santificante, da amizade com Deus, da caridade, nem, por conseguinte, da
bem-aventurança eterna; ao passo que tal privação é exactamente consequência do
pecado mortal.
Considerando o pecado, ademais, sob o aspecto da pena que
implica, Santo Tomás com outros doutores, chama mortal ao pecado que, se não
for remido, faz contrair uma pena eterna; venial, ao pecado que merece uma
simples pena temporal (quer dizer, parcial e expiável na terra ou no
Purgatório).
Se se atender, depois, à matéria do pecado, as ideias de
morte, de ruptura radical com Deus, sumo bem, de desvio do caminho que leva a
Deus ou de interrupção da caminhada em direcção a ele (tudo modos de definir o
pecado mortal) conjugam-se com a ideia da gravidade do conteúdo objectivo; por
isso, o pecado grave identifica-se praticamente, na doutrina e na acção
pastoral da Igreja, com o pecado mortal.
Atingimos aqui o núcleo do ensino tradicional da Igreja,
recordado muitas vezes e com vigor no decorrer do recente Sínodo. Este, de
facto, não só reafirmou tudo aquilo que foi proclamado no Concílio de Trento
sobre a existência e a natureza dos pecados mortais e veniais, (95) mas quis
ainda lembrar que é pecado mortal aquele que tem por objecto uma matéria grave
e que, conjuntamente, é cometido com plena advertência e consentimento
deliberado. E impõe-se acrescentar — como se fez também no mesmo Sínodo — que
alguns pecados, quanto à sua matéria, são intrinsecamente graves e mortais.
Quer dizer, há determinados actos que, por si mesmos e em si mesmos,
independentemente das circunstâncias, são sempre gravemente ilícitos, por
motivo do seu objecto. Esses actos, se forem praticados com suficiente
advertência e liberdade, são sempre culpa grave. (96)
Esta doutrina, fundamentada no Decálogo e na pregação do
Antigo Testamento e retomada no kérigma dos Apóstolos, e que faz parte do mais
antigo ensino que a Igreja tem vindo a repetir até hoje, tem uma comprovação
cabal na experiência humana de todos os tempos. O homem sabe bem, por
experiência, que na caminhada da fé e da justiça, que o leva ao conhecimento e
ao amor de Deus nesta vida e à perfeita união com ele na eternidade, pode parar
ou distrair-se, sem abandonar, no entanto, o rumo de Deus: neste caso há
efectivamente pecado venial. Este, porém, não deverá ser atenuado, como se,
automaticamente, se tratasse de algo que pudesse ser transcurado ou de um
«pecado de pouca monta».
Sucede também que o homem igualmente sabe, por dolorosa
experiência, que com um acto consciente e livre da sua vontade pode inverter a
marcha, caminhar no sentido oposto à vontade de Deus e, desse modo, afastar-se
dele (aversio a Deo), recusando a comunhão de amor com ele, afastando-se do
princípio de vida que ele é, e escolhendo, por isso mesmo, a morte.
Com toda a tradição da Igreja, chamamos pecado mortal a
este acto pelo qual um homem, com liberdade e advertência, rejeita Deus, a sua
lei, a aliança de amor que Deus lhe propõe, preferindo voltar-se para si mesmo,
para qualquer realidade criada e finita, para algo contrário ao querer divino
(conversio ad creaturam). Isto pode acontecer de modo directo e formal, como
nos pecados de idolatria, apostasia e ateísmo; ou de modo equivalente, como em
todas as desobediências aos mandamentos de Deus
Durante a Assembleia sinodal foi proposta por alguns
Padres uma distinção tripartida entre os pecados, que haveriam de passar a ser
classificados com veniais, graves e mortais. A tripartição poderia pôr em
realce o facto de que entre os pecados graves existe uma gradação. Mas
permanece sempre verdadeiro que a distinção essencial e decisiva é a que existe
entre pecados que destroem a caridade e pecados que não matam a vida
sobrenatural: entre a vida e a morte não há lugar para um meio termo.
De igual modo, há-de evitar-se reduzir o pecado mortal a
um acto de «opção fundamental» contra Deus — como hoje em dia se costuma dizer
— entendendo com isso um desprezo explícito e formal de Deus e do próximo.
Dá-se, efectivamente, o pecado mortal também quando o homem, sabendo e
querendo, por qualquer motivo escolhe alguma coisa gravemente desordenada. Com
efeito, numa escolha assim já está incluído um desprezo do preceito divino, uma
rejeição do amor de Deus para com a humanidade e para com toda a criação: o
homem afasta-se a si próprio de Deus e perde a caridade. A orientação
fundamental pode, pois, ser radicalmente modificada por actos particulares.
Podem, sem dúvida, verificar-se situações muito complexas e obscuras sob o
ponto de vista psicológico, que influem na imputabilidade subjectiva do
pecador. Mas da consideração da esfera psicológica não se pode passar para a
constituição de uma categoria teológica, como é precisamente a da «opção
fundamental», entendendo-a de tal modo que, no plano objectivo, mudasse ou
pusesse em dúvida a concepção tradicional do pecado mortal.
Se bem que sejam de apreciar todas as tentativas sinceras
e prudentes de esclarecer o mistério psicológico e teológico do pecado, a
Igreja tem no entanto o dever de recordar a todos os estudiosos desta matéria:
a necessidade, por um lado, de serem fiéis à Palavra de Deus, que nos elucida
também sobre o pecado; e, por outro, o risco que se corre de contribuir para
atenuar ainda mais, no mundo contemporâneo, o sentido do pecado.
Perda do sentido do pecado
Este sentido tem a sua raiz na consciência moral do homem
e é como que o seu termómetro. Anda ligado ao sentido de Deus, uma vez que
deriva da consciência da relação que o homem tem com o mesmo Deus, como seu
Criador, Senhor e Pai. E assim como não se pode apagar completamente o sentido
de Deus nem extinguir a consciência, também não se dissipa nunca inteiramente o
sentido do pecado.
Entretanto, não raro no decurso da história, por períodos
mais ou menos longos e sob o influxo de múltiplos factores, acontece ficar
gravemente obscurecida a consciência moral em muitos homens. «Temos nós uma
ideia justa da consciência?» - perguntava eu há dois anos num colóquio com os
fiéis - «Não vive o homem contemporâneo sob a ameaça de um eclipse da
consciência, de uma deformação da consciência e de um entorpecimento ou duma
"anestesia" das consciências?». (97) Demasiados sinais indicam que no
nosso tempo existe tal eclipse, tanto mais inquietante quanto esta consciência,
definida pelo Concílio como «o núcleo mais secreto e o sacrário do homem», (98)
anda «estreitamente ligada à liberdade do homem (...). Por isso, a consciência,
com relevância principal, está na base da dignidade interior do homem e ao
mesmo tempo, da sua relação com Deus». (99) É inevitável, portanto, que nesta
situação fique obnubilado também o sentido do pecado, o qual está intimamente
ligado à consciência moral, à procura da verdade e à vontade de fazer um uso
responsável da liberdade. Conjuntamente com a consciência, fica também
obscurecido o sentido de Deus, e então, perdido este decisivo ponto de referência
interior, desaparece o sentido do pecado. Foi este o motivo por que o meu
Predecessor Pio XII, com palavras que se tornaram quase proverbiais, pôde
declarar um dia que «o pecado do século é a perda do sentido do pecado». (100)
Porquê este fenómeno no nosso tempo? Uma vista de olhos de
algumas componentes da cultura contemporânea pode ajudar-nos a compreender a
atenuação progressiva do sentido do pecado, exactamente por causa da crise da
consciência e do sentido de Deus, acima realçada.
O «secularismo», que, pela sua própria natureza e
definição, é um movimento de ideias e de costumes, o qual propugna um humanismo
que abstrai de Deus totalmente, concentrado só no culto do empreender e do
produzir e arrastado pela embriaguez do consumo e do prazer, sem preocupações
com o perigo de «perder a própria alma», não pode deixar de minar o sentido do
pecado. Reduzir-se-á este último, quando muito, àquilo que ofende o homem. Mas
é precisamente aqui que se impõe a amarga experiência a que já aludia na minha
primeira Encíclica; ou seja, que o homem pode construir um mundo sem Deus, mas
esse mundo acabará por voltar-se contra o mesmo homem. (101) Na realidade, Deus
é a origem e o fim supremo do homem e este leva consigo um gérmen divino. (102)
Por isso, é a realidade de Deus, que desvenda e ilumina o mistério do homem. É
inútil, pois, esperar que ganhe consistência um sentido do pecado, no que
respeita ao homem e aos valores humanos, quando falta o sentido da ofensa
cometida contra Deus, isto é, o verdadeiro sentido do pecado.
Desvanece-se este sentido do pecado na sociedade
contemporânea também pelos equívocos em que se cai ao apreender certos
resultados das ciências humanas. Com base nalgumas afirmações da psicologia, a
preocupação de não tachar alguém como culpado nem pôr freio à liberdade leva a
nunca reconhecer uma falta. Por indevida extrapolação dos critérios da ciência
sociológica acaba-se — como já aludi — por descarregar sobre a sociedade todas
as culpas, de que o indivíduo é declarado inocente. E uma certa antropologia
cultural, por seu lado, à força de aumentar os condicionamentos e influxos
ambientais e históricos, aliás inegáveis, que agem sobre o homem, limita-lhe
tanto a responsabilidade que não lhe reconhece já a capacidade de fazer verdadeiros
actos humanos e, por consequência, a possibilidade de pecar.
O sentido do pecado decai facilmente, ainda, sob a
influência de uma ética que deriva dum certo relativismo historicista. Pode
tratar-se da ética que relativiza a norma moral, negando o seu valor absoluto e
incondicionado e negando, por consequência, que possam existir actos
intrinsecamente ilícitos, independentemente das circunstâncias em que são
realizados pelo sujeito. Trata-se de uma verdadeira «reviravolta e derrocada
dos valores morais»; e «o problema não é tanto de ignorância da ética cristã»,
«mas sobretudo do sentido dos fundamentos e critérios das atitudes morais».
(103) O efeito desta reviravolta ética é sempre também o de mitigar a tal ponto
a noção de pecado, que se acaba quase por afirmar que o pecado existe, mas não
se sabe quem o comete.
Esvai-se, por fim, o sentido do pecado quando — como pode
acontecer no ensino aos jovens, nas comunicações de massa e na própria educação
famíliar — esse sentido do pecado é erroneamente identificado com o sentimento
morboso da culpa ou com a simples transgressão das normas e preceitos legais.
A perda do sentido do pecado, portanto, é uma forma ou um
fruto da negação de Deus: não só da negação ateísta, mas também da negação
secularista. Se o pecado é a interrupção da relação filial com Deus para levar
a própria existência fora da obediência a ele devida, então pecar não é só
negar Deus; pecar é também viver como se ele não existisse, bani-lo do próprio
quotidiano. Um modelo de sociedade mutilado ou desequilibrado num ou noutro
sentido, como é frequentemente veiculado pelos meios de comunicação, favorece
bastante a progressiva perda do sentido do pecado. Em tal situação, o
ofuscamento ou a debilitação do sentido do pecado resulta: seja da recusa de qualquer
referência ao transcendente, em nome da aspiração à autonomia pessoal; seja da
sujeição a modelos éticos impostos pelo consenso e costume generalizado, mesmo
quando são condenados pela consciência individual; seja das dramáticas
condições sócio-económicas, que oprimem grande parte da humanidade, causando a
tendência para se verem erros e culpas apenas no âmbito do social; seja, por
fim e sobretudo, do obscurecimento da ideia da paternidade de Deus e do seu
domínio sobre a vida do homem.
Até mesmo no campo do pensamento e da vida eclesial,
algumas tendências favorecem inevitavelmente o declínio do sentido do pecado.
Alguns, por exemplo, tendem a substituir posições exageradas do passado por
outros exageros; assim, da atitude de ver o pecado em toda a parte, passa-se a
não o vislumbrar em lado nenhum; da demasiada acentuação do temor das penas
eternas, à pregação dum amor de Deus, que excluiria toda e qualquer pena
merecida pelo pecado; da severidade no esforço para corrigir as consciências
erróneas, a um pretenso respeito pela consciência, até suprimir o dever de
dizer a verdade. E por que não acrescentar que a confusão criada na consciência
de muitos fiéis pelas divergências de opiniões e de ensinamentos na teologia,
na pregação, na catequese e na direcção espiritual, acerca de questões graves e
delicadas da moral cristã, acaba por fazer diminuir, quase até à sua extinção,
o verdadeiro sentido do pecado? E não podem deixar-se em silêncio alguns
defeitos na prática da Penitência sacramental: tal é a tendência a ofuscar o
significado eclesial do pecado e da conversão, reduzindo-os a factos meramente
individuais, ou vice-versa, a anular o valor pessoal do bem e do mal para
considerar nestes exclusivamente a dimensão comunitária; tal é também o perigo,
que nunca foi totalmente esconjurado, do ritualismo rotineiro, que tira ao
Sacramento o seu significado pleno e a sua eficácia formativa.
Restabelecer o justo sentido do pecado é a primeira forma
de combater a grave crise espiritual que impende sobre o homem do nosso tempo.
Mas o sentido do pecado só se restabelecerá com uma chamada a atenção clara
para os inderrogáveis princípios de razão e de fé, que a doutrina moral da
Igreja sempre sustentou.
É lícito esperar que, sobretudo no mundo cristão eclesial,
reaflore um salutar sentido do pecado. A isso levarão uma boa catequese,
iluminada pela teologia bíblica da Aliança, a escuta atenta e o acolhimento
confiante do Magistério da Igreja, que não cessa de proporcionar luz às
consciências, e uma prática cada vez mais cuidada do Sacramento da Penitência.
CAPÍTULO SEGUNDO
«MYSTERIUM PIETATIS»
19. Para conhecer o pecado, era necessário fixarmos o
olhar na sua natureza, tal como a revelação da economia da Salvação no-la deu a
conhecer: ele é o mistério da iniquidade («mysterium iniquitatis»). Mas nesta
economia o pecado não é protagonista nem, menos ainda, vencedor. Contrasta,
antes, como antagonista, com um outro princípio operante, que — usando uma bela
e sugestiva expressão de São Paulo — podemos chamar o mistério ou sacramento da
piedade («mysterium», ou «sacramentum pietatis»). O pecado do homem seria
vencedor e, por fim, destruidor, e o desígnio salvífico de Deus ficaria
incompleto ou mesmo vencido, se este mistério da piedade não se tivesse
inserido no dinamismo da história para vencer o pecado do homem.
Encontramos esta expressão numa das Cartas Pastorais de
São Paulo, a primeira a Timóteo. Aparece aí, repentina, como por uma inspiração
impetuosa! O Apóstolo, na verdade, consagrara em precedência longos parágrafos
da sua mensagem ao discípulo predilecto, para explicar o significado da
organização da comunidade (litúrgica e, ligada a esta, hierárquica); falara
depois do papel dos chefes da comunidade, para se referir em seguida ao
comportamento do próprio Timóteo na «Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo
da verdade». E depois, no final da passagem, evoca quase ex abrupto, mas com
intuito profundo, aquilo que dá significado a tudo o que escrevera: «É grande,
sem dúvida, o mistério da piedade...». (104)
Sem trair minimamente o sentido literal do texto, podemos
alargar esta magnífica intuição teológica do Apóstolo a uma visão mais completa
do papel que a verdade por ele anunciada tem na economia da Salvação. «É
verdadeiramente grande — repitamos com o mesmo Apóstolo — o mistério da
piedade», porque vence o pecado.
Mas o que é, na concepção paulina, esta «piedade»?
É o próprio Cristo
20. É profundamente significativo que, para apresentar
este «mistério da piedade», São Paulo transcreva simplesmente, sem estabelecer
uma ligação gramatical com o texto precedente, (105) três linhas de um Hino
cristológico, que — segundo a opinião de autorizados estudiosos — era usado nas
comunidades helénico-cristãs.
Com as palavras desse Hino, densas de conteúdo teológico e
ricas de nobre beleza, esses cristãos do século primeiro professavam a sua fé
no mistério de Cristo, pelo qual
Ele se manifestou na realidade da carne humana e foi pelo
Espírito Santo constituído como o Justo, que se oferece pelos injustos;
Ele apereceu aos Anjos, tornado maior que eles, e foi pregado aos povos, como
portador de salvação;
Ele foi acreditado no mundo, como enviado do Pai, e pelo mesmo Pai assumido no
céu, como Senhor. (106)
O mistério ou sacramento da piedade, portanto, é o próprio mistério de Cristo, E,
numa síntese bem densa, ele é o mistério da Encarnação e da Redenção, da plena
Páscoa de Jesus, Filho de Deus e Filho de Maria: mistério da sua paixão e
morte, da sua ressurreição e glorificação. O que São Paulo, ao referir as
frases do Hino, quis recordar foi que este mistério é o recôndito princípio
vital que faz da Igreja a casa de Deus, a coluna e o fundamento da verdade. E
na peugada do ensino paulino, nós podemos afirmar que este mesmo mistério da
infinita piedade de Deus para connosco é capaz de penetrar até às raízes
escondidas da nossa iniquidade, para suscitar na alma um movimento de
conversão, para redimi-la, e fazê-la de vela em direcção à reconciliação.
Referindo-se sem dúvida a este mistério, também São João, com a sua linguagem
característica, que é diversa da de São Paulo, pôde escrever que «aquele que
nasceu de Deus, não peca»: o Filho de Deus salva-o e «o Maligno não o toca».
(107) Nesta afirmação joanina há uma indicação de esperança, fundada sobre as
promessas divinas: o cristão recebeu a garantia e as forças necessárias para
não pecar. Não se trata, pois, de uma impecabilidade adquirida por virtude
própria e, menos ainda, ínsita no homem, como pensavam os Gnósticos. É um
resultado da acção de Deus. Para não pecar, o cristão dispõe do conhecimento de
Deus, recorda São João nesta passagem. Mas, pouco antes, já tinha escrito:
«Todo o que nasceu de Deus não comete pecado, porque habita nele uma semente
divina». (108) Se por esta «semente de Deus» entendermos — como propõem alguns
comentadores — Jesus, o Filho de Deus, então podemos dizer que para não pecar —
ou para libertar-se do pecado — o cristão dispõe da presença em si do próprio
Cristo e do mistério de Cristo, que é mistério de piedade.
O esforço do cristão
21. Mas há no mistério da piedade um outro aspecto: à
piedade de Deus para com o cristão há-de corresponder a piedade do cristão para
com Deus. Nesta segunda acepção, a piedade (eusébeia) significa exactamente o
comportamento do cristão, que à piedade paterna de Deus corresponde com a sua
piedade filial.
Também neste sentido podemos afirmar com São Paulo que «é
grande o mistério da piedade»; e ainda, que esta piedade, qual força de
conversão e de reconciliação, combate a iniquidade e o pecado. Neste caso,
ainda, os aspectos essenciais do mistério de Cristo são objecto da piedade,
enquanto o cristão acolhe o mistério, o contempla e a ele vai buscar a força
espiritual necessária para modelar a sua vida segundo o Evangelho. Também aqui
se deve dizer que «quem nasceu de Deus não comete pecado»; mas a expressão tem
sentido imperativo: sustentado pelo mistério — e pelos mistérios — de Cristo,
como por uma nascente interior de energia espiritual, o cristão é avisado para
não pecar e, mais ainda, recebe o mandamento de não pecar: há-de comportar-se
dignamente «na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo», (109) sendo como é
um filho de Deus.
Para una vida reconciliada
22. Assim a Palavra da Escritura, ao revelar-nos o
mistério da piedade, abre a inteligência humana para a conversão e para a reconciliação,
entendidas não como abstracções, mas como valores cristãos concretos a
conquistar no dia a dia.
Insidiados pela perda do sentido do pecado, tentados,
algumas vezes, pela ilusão bem pouco cristã de impecabilidade, também os homens
de hoje precisam de ouvir de novo, como dirigida a cada um deles, pessoalmente,
a advertência de São João: «Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a
nós mesmos e a verdade não está em nós»; (110) e mais ainda, que «todo o mundo
jaz sob o jugo do Maligno». (111) Cada um, pois, é convidado pela voz da
Verdade divina a ler realisticamente na própria consciência e a confessar que
foi gerado na iniquidade, como dizemos no Salmo Miserere. (112)
Ameaçados pelo medo e pelo desespero, os homens de hoje
podem, no entanto, sentir-se consolados pela promessa divina, que os abre à
esperança da plena reconciliação.
O mistério da piedade, da parte de Deus, é a misericórdia
de que o Senhor e nosso Pai — repito-o mais uma vez — é infinitamente rico. (113)
Como disse na Encíclica dedicada ao tema da misericórdia divina, (114) esta é
um amor mais poderoso do que o pecado, mais forte do que a morte. Quando nos
damos conta de que o amor que Deus nos dispensa não se detém diante do nosso
pecado, não retrocede diante das nossas ofensas, mas se torna ainda mais
solícito e generoso; quando nos apercebemos de que este amor chegou a causar a
paixão e a morte do Verbo feito carne, que aceitou remir-nos pagando com o seu
Sangue, então prorrompemos em reconhecimento: «Sim, o Senhor é rico em
misericórdia», e dizemos mesmo: «O Senhor é misericórdia».
O mistério da piedade é o caminho aberto pela misericórdia
divina à vida reconciliada.
TERCEIRA PARTE
A PASTORAL DA PENITÊNCIA E DA
RECONCILIAÇÃO
Promoção da penitência e da reconciliação
23. Suscitar no coração do homem a conversão e a
penitência e proporcionar-lhe o dom da reconciliação é a missão conatural da
Igreja, como continuadora da obra redentora do seu divino Fundador. Trata-se de
uma missão que não será cumprida só com algumas afirmações teóricas e com a
proposta de um ideal ético não acompanhado por energias operativas; mas está
destinada a expressar-se em funções ministeriais bem precisas, em ordem à
prática concreta da penitência e da reconciliação.
A este ministério, fundado e iluminado pelos princípios de
fé acima ilustrados, orientado para objectivos precisos e apoiado em meios
adequados, podemos dar o nome de pastoral da penitência e da reconciliação. O
seu ponto de partida é a convicção da Igreja, de que o homem, a quem se
destinam todas as formas de pastoral, mas principalmente a pastoral da
penitência e da reconciliação, é o homem marcado pelo pecado, retratado no
exemplo significativo do rei David. Repreendido pelo profeta Natan, David
aceita olhar de frente as suas próprias torpezas, confessando: «Pequei contra o
Senhor». (115) E proclama: «Reconheço os meus pecados, tenho sempre diante de
mim as minhas culpas». (116) Mas também suplica: «Purificai-me, Senhor, e
ficarei limpo; lavai-me e ficarei mais branco do que a neve»; (117) e recebe a
resposta da misericórdia divina: «O Senhor perdoou o teu pecado, não morrerás».
(118)
A Igreja encontra-se, pois, diante do homem — de todo um
mundo humano — ferido pelo pecado e por ele atingido naquilo que tem de mais
íntimo, na profundidade do seu ser; mas, ao mesmo tempo, movido interiormente
por um incontível desejo de libertação do pecado e também, especialmente se for
cristão, consciente de que o mistério da piedade, Cristo Senhor, já está a
actuar nele e no mundo com a força da Redenção.
A função reconciliadora da Igreja deve desenvolver-se,
pois, segundo aquele nexo íntimo que conjunge estreitamente o perdão e a
remissão dos pecados de cada homem com a reconciliação plena e fundamental da
humanidade, que foi realizada pela Redenção. Este nexo leva-nos a compreender
que, sendo o pecado o princípio activo da divisão — divisão entre o homem e o
Criador, divisão no coração e no ser do homem, divisão entre os indivíduos e
entre os grupos humanos, divisão entre o homem e a natureza criada por Deus —
só a conversão do pecado é capaz de operar uma reconciliação profunda e
duradoura onde quer que a divisão tenha penetrado.
Não é necessário repetir tudo o que já disse a respeito da
importância deste ministério da reconciliação (119) e da correspondente
pastoral que o põe em prática na consciência e na vida da Igreja. Esta, de
facto, falharia num aspecto essencial do seu ser e deixaria por realizar uma
sua função inabdicável, se não apregoasse, com clareza e firmeza, a tempo e
fora de tempo, a «palavra da reconciliação» (120) e não proporcionasse ao mundo
o dom da reconciliação. Mas, convém repeti-lo, a importância do serviço
eclesial da reconciliação estende-se para além das fronteiras visíveis da
Igreja, ao mundo inteiro.
Falar de pastoral da penitência e da reconciliação,
portanto, equivale a referir-se ao conjunto das tarefas de que a Igreja está
incumbida, a todos os níveis, para a promoção de uma e outra. Mais
concretamente, falar desta pastoral significa recordar todas as actividades
práticas, mediante as quais a Igreja, em todas e cada uma das suas componentes
— Pastores e fiéis, a todos os níveis e em todos os campos — e com todos os
meios à sua disposição — palavra e acção, ensino e oração — procura levar os
homens, individualmente ou em grupo, à verdadeira penitência e introduzi-los
assim no caminho da plena reconciliação.
Os Padres do Sínodo, como representantes dos seus Irmãos
Bispos, guias do povo que lhes está confiado, debruçaram-se sobre esta pastoral
nos seus elementos mais práticos e concretos. E é para mim motivo de alegria
fazer-me eco deles, associando-me às suas inquietudes e esperanças, acolhendo
os frutos dos seus esforços de procura e experiências e encorajando-os nos seus
planos e realizações. Que eles possam encontrar nesta parte da Exortação
Apostólica a contribuição que deram para o Sínodo, cuja utilidade desejaria
tornar extensiva, mediante estas páginas, à Igreja inteira.
Desejaria, pois, pôr em evidência o essencial da pastoral
da penitência e da reconciliação, salientando nela, com a Assembleia do Sínodo,
os dois pontos seguintes:
Os meios usados e as vias seguidas pela Igreja para
promover a penitência e a reconciliação,
O Sacramento por excelência da penitência e da reconciliação.
CAPÍTULO PRIMEIRO
MEIOS E VIAS PARA A PROMOÇÃO DA
PENITÊNCIA E DA RECONCILIAÇÃO
24. Para promover a penitência e a reconciliação, a Igreja
tem ao seu dispor dois meios, principalmente, que lhe foram confiados pelo seu
próprio Fundador: a catequese e os Sacramentos. A utilização destes meios,
considerada sempre pela Igreja plenamente conforme às exigências da sua missão
salvífica e igualmente susceptível de corresponder às exigências e necessidades
espirituais dos homens de todos os tempos, pode ser levada a efeito seguindo
formas e modos antigos e novos, entre os quais será bom recordar,
especialmente, o que, em continuidade com o meu Predecessor Paulo VI, podemos
designar por método do diálogo.
O Diálogo
25. O diálogo é para a Igreja, em certo sentido, um meio e
sobretudo um modo de desenvolver a sua acção no mundo contemporâneo.
De facto, o Concílio Vaticano II, depois de ter proclamado
que «a Igreja, em virtude da missão que tem de iluminar todo o mundo com a
mensagem evangélica e reunir num só Espírito todos os homens (...), torna-se
sinal daquela fraternidade que permite e robustece um diálogo sincero»,
acrescenta que a mesma Igreja deve ser capaz de «estabelecer um diálogo cada
vez mais frutuoso entre todos os que constituem o único Povo de Deus», (121)
assim como de «estabelecer um diálogo com a sociedade humana». (122)
O meu Predecessor Paulo VI dedicou ao diálogo uma parte
notável da sua primeira Encíclica Ecclesiam Suam, na qual o descreve e
caracteriza significativamente como diálogo da salvação. (123)
Na verdade, a Igreja usa o método do diálogo para melhor
conduzir os homens — aqueles que pelo Baptismo e a profissão de fé se
reconhecem membros da comunidade cristã e aqueles que lhe são estranhos — à
conversão e à penitência, pelos caminhos de uma profunda renovação da própria
consciência e da própria vida à luz do mistério da Redenção e da Salvação,
realizadas por Cristo e confiadas ao ministério da sua Igreja. O diálogo
autêntico, por conseguinte, tem em vista, antes de mais, a regeneração de cada
um, mediante a conversão interior e a penitência, sempre com profundo respeito
pelas consciências e com a paciência e o processo gradual requeridos pelas
condições dos homens do nosso tempo.
O diálogo pastoral, em vista da reconciliação, continua a
ser hoje uma solicitude fundamental da Igreja em diversos âmbitos e a vários
níveis.
Antes de mais, a Igreja promove um diálogo ecuménico, ou
seja, um diálogo entre Igrejas e Comunidades eclesiais que se atêm à fé
Como base desse diálogo com as outras Igrejas e
Comunidades eclesiais e com as outras religiões, e como condição da sua
credibilidade e eficácia, deve haver um sincero esforço de diálogo permanente e
renovado no interior da própria Igreja católica. Esta tem a consciência de ser,
por natureza, sacramento da comunhão universal de caridade; (124) mas também
sabe que existem no seu seio tensões que correm o risco de se transformar em
factores de divisão.
A exortação dorida e firme, feita a seu tempo pelo meu
Predecessor, com vista ao Ano Santo de 1975, (125) continua válida ainda no
momento actual. Para se obter a superação dos conflitos e fazer com que as normais
tensões não resultem nocivas para a unidade da Igreja, é preciso que todos nos
confrontemos com a Palavra de Deus e, postas de parte as próprias maneiras de
ver subjectivas, procuremos a verdade onde ela se encontra, ou seja, na mesma
Palavra divina e na interpretação autêntica que dela nos dá o Magistério da
Igreja. Sob esta luz, a escuta recíproca, o respeito e a abstenção de todo o
juízo apressado, a paciência, a capacidade de evitar que a fé, que une, seja
subordinada às opiniões, às modas e às opções ideológicas, que dividem, são
outras tantas qualidades de um diálogo que, no interior da Igreja, deve ser
assíduo, cheio de boa vontade e sincero. E é claro que não o seria, nem se
tornaria num factor de reconciliação, sem a atenção ao Magistério e a aceitação
do mesmo.
Aplicada deste modo, efectivamente, na busca da sua
própria comunhão interna, a Igreja católica pode dirigir o apelo à
reconciliação - como de há tempos já vem fazendo - às outras Igrejas com as
quais não se verifica plena comunhão, bem como às outras religiões e até mesmo
a quem simplesmente procura Deus com coração sincero.
À luz do Concílio e do Magistério dos meus Predecessores,
cuja preciosa herança recebi e me esforço por conservar e pôr em actuação,
posso afirmar que a Igreja católica, com todas as suas componentes, se empenha
com lealdade no diálogo ecuménico, sem optimismos fáceis, mas também sem
desalento e sem hesitações ou perdas de tempo. As regras fundamentais que ela
procura seguir nesse diálogo são: por um lado, a persuasão de que somente um
ecumenismo espiritual — ou seja, fundado na oração comum e na comum docilidade
ao único Senhor — permitirá corresponder sincera e seriamente às outras
exigências da acção ecuménica; (126) e, por outro lado, a convicção de que um
certo irenismo em matéria doutrinal e sobretudo dogmática, poderia talvez levar
a um a forma de convivência superficial e não duradoura, mas nunca àquela
comunhão profunda e estável que todos desejamos. Chegar-se-á a esta comunhão,
no momento em que a divina Providência quiser; mas para se chegar lá, a Igreja
católica, pelo que lhe diz respeito, sabe que deve estar aberta e sensível a
todos «os valores verdadeiramente cristãos, que promanam do património comum e
se encontram também entre os irmãos de nós separados»; (127) mas sabe
igualmente que deve colocar na base de um diálogo leal e construtivo a clareza
na posição dos problemas, a fidelidade e a coerência com a fé transmitida e
definida na esteira da tradição perene pelo seu Magistério. Apesar da ameaça
dum aparente derrotismo e malgrado a inevitável lentidão que a inconsideração
não poderá nunca corrigir, a Igreja católica continua a procurar com todos os
outros Irmãos cristãos as vias da unidade, e com os seguidores das outras
religiões um diálogo sincero. Que este diálogo inter-religioso possa fazer
chegar pelo menos à superação das atitudes de hostilidade, de desconfiança, de
mútua condenação e quiçá de mútuas invectivas. Nisto está uma condição
preliminar para que possamos encontrar-nos pelo menos na fé num Deus único e na
certeza da vida eterna para a alma imortal. Que o Senhor faça, em particular,
com que o diálogo ecuménico leve a uma sincera reconciliação centralizada em
tudo aquilo que já possamos ter em comum com as outras Igrejas cristãs: a fé em
Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, Salvador e Senhor, a escuta da
Palavra, o estudo da Revelação e o sacramento da Baptismo.
Na medida
Com a consciência da imensa gravidade da situação criada
pelas forças da divisão e da guerra, que constitui hoje uma séria ameaça, não
só para o equilíbrio e a harmonia das Nações, mas também para a própria
sobrevivência da humanidade, a Igreja sente-se no dever de oferecer e propor a
sua colaboração específica para a superação dos conflitos e para o
restabelecimento da concórdia.
Trata-se de um complexo e delicado diálogo de
reconciliação, no qual a Igreja está empenhada, antes de mais, mediante a
actividade da Santa Sé e dos seus diversos Organismos. A Santa Sé esforça-se
quer por intervir junto dos governantes das Nações e dos responsáveis das
várias Instituições internacionais, quer por associar-se a eles, dialogando com
eles ou estimulando-os a um diálogo entre si, em favor da reconciliação no meio
dos numerosos conflitos. E faz isto não com segundos fins ou interesses ocultos
— dado que os não tem — mas «por uma preocupação humanitária», (129) pondo a
sua estrutura institucional e a sua autoridade moral, absolutamente singulares,
ao serviço da concórdia e da paz. Fá-lo na convicção de que, assim como «na
guerra há duas facções que se levantam uma contra a outra», assim também «na
questão da paz há sempre duas partes que necessariamente devem saber
empenhar-se»; e nisto «se encontra o verdadeiro sentido do diálogo para a paz».
(130)
No diálogo em favor da reconciliação, a Igreja também se
empenha por intermédio dos Bispos, com a competência e a responsabilidade que
lhes é própria, quer individualmente na orientação das respectivas Igrejas
particulares, quer reunidos nas Conferências Episcopais, com a colaboração dos
Presbíteros e de todas as componentes das Comunidades cristãs. Eles desempenham
regularmente essas suas tarefas, quando promovem o diálogo que é indispensável
e proclamam as exigências humanas e cristãs de reconciliação e de paz. Em
comunhão com os seus Pastores, os leigos, que têm como «campo próprio da sua actividade
evangelizadora o mundo vasto e complicado da politica, da realidade social e da
economia (...), da vida internacional», (131) são chamados a empenhar-se
directamente no diálogo ou em favor do diálogo para a reconciliação. Por
intermédio deles, é ainda a Igreja que desenvolve a sua acção reconciliadora.
Na regeneração dos corações, mediante a conversão e a
penitência, portanto, está o pressuposto fundamental e a base segura para toda
e qualquer renovação social e para a paz entre as Nações.
Há que relembrar, por fim, que da parte da Igreja e dos
seus membros, o diálogo, seja qual for a forma sob a qual ele se desenrole — e
existem e podem existir formas muito diversas, pois o próprio conceito de
diálogo tem valor analógico — não poderá nunca partir de uma atitude de
indiferença em relação à verdade; mas tem de ser, sobretudo, uma apresentação
da verdade, feita serenamente e com respeito pela inteligência e pela
consciência dos outros. O diálogo da reconciliação não poderá nunca substituir
ou atenuar o anúncio da verdade evangélica, que tem como objectivo preciso a
conversão, abandonando o pecado, e a comunhão com Cristo e com a Igreja; mas
deverá servir para a sua transmissão e realização, através dos meios deixados
por Cristo à Igreja para a pastoral da reconciliação: a catequese e a
Penitência.
A Catequese
26. Na vasta área
Na base desta recomendação do Sínodo, tão oportuna,
encontra-se um pressuposto fundamental: aquilo que é pastoral não se opõe ao
doutrinal, e a acção pastoral não pode prescindir do conteúdo doutrinal; pelo
contrário, a ele vai buscar a sua substância e a sua validade real. Ora, se a
Igreja é «coluna e sustentáculo da verdade» (132) e está posta no mundo como
Mãe e Mestra, como poderia ela descurar a tarefa de ensinar a verdade que
constitui um caminho de vida?
Dos Pastores da Igreja espera-se, pois, antes de mais, uma
catequese sobre a reconciliação. Esta não pode deixar de fundamentar-se no
ensino bíblico, em especial no do Novo Testamento, sobre a necessidade de
reconstituir a aliança com Deus em Cristo Redentor e Reconciliador; e, à luz
desta nova comunhão e desta nova amizade e no seu prolongamento, sobre a
necessidade de reconciliar-se com o irmão, mesmo à custa de ter de interromper
a oferta do sacrifício. (133) Jesus insiste muito neste tema da reconciliação
fraterna, quando, por exemplo, convida a oferecer a outra face a quem nos
bateu, ou a deixar também a capa a quem já se apossou da túnica; (134) ou
quando inculca a lei do perdão, que cada um recebe na medida em que sabe
perdoar, (135) perdão a oferecer também aos inimigos, (136) perdão a conceder
setenta vezes sete, (137) ou seja, na prática, sem limite algum. Com estas
condições, que só são realizáveis num clima genuinamente evangélico, é possível
uma verdadeira reconciliação, quer entre os indivíduos, quer entre as famílias,
as comunidades, as Nações e os povos. Destes dados bíblicos sobre a
reconciliação promanará, naturalmente, uma catequese teológica, que integrará
também na sua síntese os dados da psicologia, da sociologia e das outras ciências
humanas, os quais podem servir para esclarecer as situações, enquadrar bem os
problemas e persuadir os ouvintes ou leitores a tomarem resoluções concretas.
Dos Pastores da Igreja espera-se, ainda, uma catequese
sobre a penitência. Também aqui a riqueza da mensagem bíblica deve ser a fonte.
Esta mensagem acentua na penitência, primeiro que tudo, o seu valor de
conversão, termo com o qual se procura traduzir a palavra do texto grego
metánoia, (138) que literalmente significa um reviramento do espírito para o
fazer voltar-se para Deus. São estes, aliás, os dois elementos fundamentais que
emergem da parábola do filho perdido e reencontrado: o «cair em si» (139) e a
decisão de voltar para o pai. Não pode haver reconciliação sem estas atitudes
primordiais de conversão, e a catequese deve explicá-las com conceitos e
expressões adaptados às várias idades e às diversas condições culturais, morais
e sociais.
Trata-se de um primeiro valor da penitência, que se
prolonga no segundo: penitência significa também arrependimento. Os dois
sentidos da metánoia aparecem na significativa norma dada por Jesus: «Se o teu
irmão se arrepender ( = voltar a ti), perdoa-lhe. E se te ofender sete vezes ao
dia e sete vezes voltar a ti, dizendo: "Estou arrependido", hás-de
perdoar-lhe». (140) Uma boa catequese deverá mostrar que o arrependimento,
assim como a conversão, bem longe de ser um sentimento superficial, é uma
verdadeira reviravolta da alma.
Um terceiro valor está contido ainda na penitência;
trata-se do movimento pelo qual as anteriores atitudes de conversão e
arrependimento se manifestam externamente: é o fazer penitência. Este
significado é bem perceptível no termo metánoia, como é usado pelo Precursor,
segundo o texto dos Sinópticos. (141) Fazer penitência quer dizer, além do
mais, restabelecer o equilíbrio e a harmonia alterados pelo pecado, mudar de
direcção mesmo à custa de sacrifícios.
Em suma, uma catequese sobre a penitência, o mais completa
e adequada possível, é impreterível, num tempo como o nosso, em que as atitudes
dominantes na psicologia e nos comportamentos sociais contrastam abertamente
com o tríplice valor que foi ilustrado: mais do que nunca, o homem
contemporâneo parece encontrar dificuldade em reconhecer os seus próprios erros
e em decidir voltar atrás para retomar o caminho exacto, fazendo uma
rectificação de marcha; parece experimentar grande relutância em dizer:
«arrependo-me» ou «tenho muita pena»; parece recusar instintivamente, e muitas
vezes irresistivelmente, tudo aquilo que é penitência, no sentido do sacrifício
aceito e praticado para se corrigir do pecado. A este respeito, desejo
sublinhar que, embora mitigada de há algum tempo a esta parte, a disciplina
penitencial da Igreja não pode ser abandonada sem grave prejuízo, quer para a
vida interior dos cristãos e da comunidade eclesial, quer para a sua capacidade
de irradiação missionária. Não é raro que alguns não-cristãos fiquem
surpreendidos com o fraco testemunho de verdadeira penitência da parte dos
discípulos de Cristo. É claro, de resto, que a penitência cristã será
autêntica, se for inspirada pelo amor, e não pelo mero temor; se consistir num
sério esforço para crucificar o «homem velho», a fim de que possa renascer o
«novo», por obra de Cristo; se seguir como modelo o mesmo Cristo, que, embora
fosse inocente, escolheu o caminho da pobreza, da paciência, da austeridade e,
pode dizer-se, da vida penitente.
Dos Pastores da Igreja espera-se ainda — como recordou o
Sínodo — uma catequese sobre a consciência e a sua formação. É um tema de viva
actualidade, também este, visto que, no meio dos abalos a que está sujeita a
cultura do nosso tempo, com muita frequência é agredido, posto à prova,
perturbado e obscurecido esse santuário interior, ou seja, o eu mais íntimo do
homem: a sua consciência. Para uma catequese sapiente sobre a consciência podem
encontrar-se indicações preciosas, quer nos Doutores da Igreja, quer na
teologia do Concílio Vaticano II e, especialmente, em dois dos seus Documentos:
sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo (142) e sobre a Liberdade Religiosa.
(143) Nesta mesma linha, o Sumo Pontífice Paulo VI pronunciou-se muitas vezes,
para recordar a natureza e o papel da consciência na nossa vida. (144) Eu
próprio, seguindo as suas pegadas, não deixo passar ocasião alguma para fazer
luz sobre esta altíssima componente da grandeza e dignidade do homem, (145)
sobre esta «espécie de sentido moral, que nos leva a distinguir o bem do mal
(...), como que os olhos da alma, capacidade visual do espírito, em condições
de guiar os nossos passos no caminho do bem; e insisto na necessidade de
«formar cristãmente a própria consciência pessoal», a fim de esta não se tornar
«numa força destruidora da humanidade verdadeira (da pessoa), mas ser sempre o
lugar sagrado onde Deus lhe revela o seu verdadeiro bem». (146)
Também se espera que a catequese dos Pastores da Igreja
incida sobre outros pontos, de não menor relevância para a reconciliação:
Sobre o sentido do pecado, que — como disse — não pouco se
tem vindo a atenuar no nosso mundo.
Sobre a tentação e as tentações: o próprio Senhor Jesus, Filho de Deus,
«provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado», (147) quis ser
tentado pelo Maligno, (148) para indicar que, assim como ele, também os seus
discípulos seriam submetidos à tentação; e, ainda, para mostrar como é
necessário comportar-se na tentação. Para quem implora do Pai não ser tentado
acima das próprias forças (149) e não sucumbir à tentação, (150) para quem não
se expõe às ocasiões de pecado, o facto de ser submetido à tentação não
significa ter pecado; mas é, prevalentemente, uma ocasião para crescer na
fidelidade e na coerência, pela humildade e pela vigilância.
Sobre o jejum: este pode praticar-se em formas antigas e novas, como sinal de
conversão, de arrependimento e de mortificação pessoal; e, ao mesmo tempo,
sinal de união com Cristo crucificado e de solidariedade com os que passam fome
e que sofrem.
Sobre a esmola: trata-se de um meio para tornar efectiva a caridade,
partilhando aquilo que se possui com aqueles que sofrem as consequências da
pobreza.
Sobre o nexo íntimo que concatena a superação das divisões no mundo com a
comunhão plena com Deus e entre os homens, finalidade escatológica da Igreja.
Sobre as circunstâncias concretas em que a reconciliação (na família, na
comunidade civil, nas estruturas sociais) se deve realizar; e, particularmente,
sobre as quatro reconciliações que consertam as quatro fracturas fundamentais:
reconciliação do homem com Deus, consigo mesmo, com os irmãos e com o mundo
criado.
E a Igreja não pode omitir, ainda, sem grave mutilação da sua mensagem
essencial, uma constante catequese sobre as realidades que a linguagem cristã
tradicional designa como os quatro novíssimos do homem: morte, juízo
(particular e universal), inferno e paraíso. Numa cultura que tende a encerrar
o homem nas suas vicissitudes terrestres, mais ou menos bem sucedidas, aos
Pastores da Igreja é solicitada uma catequese que abra e ilumine, com as
certezas da fé, o além da vida presente: para lá das misteriosas portas da
morte, delineia-se uma eternidade de alegria na comunhão com Deus, ou de pena
no afastamento d'Ele. Somente nesta visão escatológica é possível ter a medida
exacta do pecado e sentir-se resolutamente impelido para a penitência e a
reconciliação.
Não faltarão nunca aos Pastores de almas zelosos e dotados
de inventiva as ocasiões para ministrar esta catequese assim, ampla e variada,
tendo em conta a diversidade de cultura e de formação religiosa daqueles a quem
se dirigem. Com frequência, proporcionam essas ocasiões as próprias leituras
bíblicas e os ritos da Santa Missa e dos outros Sacramentos, bem como as
próprias circunstâncias em que estes são celebrados. Muitos outras iniciativas
podem ser tomadas com o mesmo objectivo, tais como: pregações, palestras,
debates, encontros e cursos de cultura religiosa, etc., o que já sucede
Dada a grande importância que tem a reconciliação, fundada
sobre a conversão, no campo delicado da relações humanas e da convivência
social a todos os níveis, incluindo o internacional, não pode faltar à
catequese o precioso contributo da doutrina social da Igreja. O atento e
preciso ensino dos meus Predecessores, a partir do Papa Leão XIII, ao qual veio
unir-se a contribuição substanciosa da Constituição pastoral Gaudium et Spes do
Concílio Vaticano II e juntar-se a dos vários Episcopados, solicitados por
diversas circunstâncias dos respectivos países, constitui um vasto e sólido
corpo de doutrina a respeito das múltiplas exigências inerentes à vida da
comunidade humana, às relações entre os indivíduos, famílias e grupos nos seus
diversos âmbitos, e à própria constitução de uma sociedade que queira ser
coerente com a lei moral, que é fundamento da civilização.
Na base deste ensino social da Igreja encontra-se,
obviamente, a luz que ela vai buscar à Palavra de Deus: a respeito dos direitos
e deveres dos indivíduos, da família e da comunidade; a respeito do valor da
liberdade e das dimensões da justiça; a respeito do primado da caridade; a
respeito da dignidade da pessoa humana e das exigências do bem comum, que deve
ser tido em vista pela política e pela própria economia. É sobre estes
princípios fundamentais do magistério social, que confirmam e reapresentam os ditames
universais da razão e da consciência dos povos que se apoia, em grande parte, a
esperança duma solução pacífica de tantos conflitos sociais e, em definitivo,
da reconciliação universal.
Os Sacramentos
27. O segundo meio de instituição divina, que é oferecido
pela Igreja à pastoral da penitência e da reconciliação, é constituído pelos
Sacramentos.
No misterioso dinamismo dos Sacramentos, tão rico de
simbolismos e de conteúdos, é possível perceber um aspecto nem sempre posto em
realce: cada um deles, além da sua graça própria, é também sinal de penitência
e reconciliação; e, por isso, em cada um deles, é possível reviver estas
dimensões espirituais.
O Baptismo é, certamente, uma ablução salvífica que — como
diz São Pedro — tem valor «não (como) purificação das impurezas do corpo, mas
pela que consiste
Paralelamente, o Crisma, também como confirmação do Baptismo
e, juntamente com ele, como Sacramento de iniciação, ao conferir a plenitude do
Espírito Santo e ao encaminhar a vida cristã à idade adulta, significa e
realiza, por isso exactamente, uma maior conversão do coração e uma mais íntima
e efectiva inserção na assembleia dos reconciliados, que é a Igreja de Cristo.
A definição que dá Santo Agostinho da Eucaristia, como
sacramento de piedade, sinal de unidade e vínculo da caridade («sacramentum
pietatis, signum unitatis, vinculum caritatis»), (155) põe em evidência os
efeitos de santificação pessoal (piedade) e de reconciliação comunitária
(unidade e caridade), que derivam da própria essência do Mistério eucarístico,
como renovação incruenta do sacrifício da Cruz e fonte de salvação e de
reconciliação para todos os homens. É necessário, todavia, recordar que a
Igreja, guiada pela fé neste augusto Sacramento, ensina que nenhum fiel
cristão, consciente de estar em pecado grave, pode receber a Eucaristia sem ter
obtido antes o perdão de Deus. Assim se lê na Instrução Eucharisticum
Mysterium, a qual, devidamente aprovada pelo Papa Paulo VI, confirma todo o
ensino do Concílio de Trento: «a Eucaristia há-de ser proposta aos fiéis
"como antídoto que nos liberta das culpas de cada dia e nos preserva dos
pecados mortais", e seja-lhes indicada a maneira conveniente para se
utilizarem das partes penitênciais da liturgia da Missa. "A quem quiser
comungar, seja recordado... o preceito: examine-se cada qual a si mesmo (1 Cor
11, 28). E a prática da Igreja demonstra que esse exame é necessário, para que
ninguém, consciente de estar em pecado mortal, por mais contrito que se julgue,
se aproxime da Sagrada Eucaristia antes da Confissão sacramental". E se
alguém vier a encontrar-se em caso de necessidade e não tiver a possibilidade
de se confessar, faça antes (de comungar) um acto de contrição perfeita». (156)
O Sacramento da Ordem destina-se a dar à Igreja os
Pastores, os quais, além de mestres e guias, são chamados a ser também
testemunhas e operadores de unidade, construtores da família de Deus,
defensores e preservadores da comunhão desta família contra os fermentos de
divisão e de dispersão.
O Sacramento do Matrimónio, exaltação do amor humano sob a
acção da graça, é sinal, sim, do amor de Cristo pela Igreja, mas também da vitória
que Ele concede aos esposos obterem sobre as forças que deformam e destroem o
amor, de tal forma que a família, nascida deste Sacramento, se torna sinal
também da Igreja reconciliada e reconciliadora, para um mundo reconciliado em
todas as suas estruturas e instituições.
Por fim, a Unção dos Enfermos, na provação da doença e da
velhice, especialmente na hora derradeira do cristão, é sinal da definitiva
conversão ao Senhor, bem como da total aceitação da dor e da morte como
penitência pelos pecados. E nisto actua-se a suprema reconciliação com o Pai.
Entre os Sacramentos, porém, há um, que, muito embora
frequentemente chamado confissão, por motivo da acusação dos pecados que nele
se faz, mais propriamente pode considerar-se o Sacramento da Penitência por
antonomásia, como de facto se chama; e, por isso, é o Sacramento da conversão e
da reconciliação. Foi deste Sacramento que a recente Assembleia do Sínodo
tratou, em particular, dada a importância que ele tem para a reconciliação.
CAPÍTULO SEGUNDO
O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA E DA
RECONCILIAÇÃO
28. Em todas as fases e a todos os níveis do seu decurso,
o Sínodo considerou com a máxima atenção aquele sinal sacramental que
representa e ao mesmo tempo realiza a penitência e a reconciliação. Este
Sacramento não esgota em si mesmo, certamente, os conceitos de conversão e
reconciliação. A Igreja, de facto, desde as suas origens, conhece e valoriza
numerosas e variadas formas de penitência: algumas litúrgicas ou
paralitúrgicas, que vão do acto penitencial da Missa às funções propiciatórias
e às peregrinações; outras, de carácter ascético, como o jejum. No entanto, de
todos esses actos nenhum é mais significativo, mais divinamente eficaz e mais
elevado e ao mesmo tempo acessível no seu rito, do que o Sacramento da Penitência.
Desde a sua preparação e, sucessivamente, nas numerosas
intervenções que se sucederam no seu decorrer, nos trabalhos de grupo e nas
Propostas («Propositiones») finais, o Sínodo teve em conta a afirmação
pronunciada muitas vezes em tons diversos e com diverso conteúdo: o Sacramento
da Penitência está em crise; e desta crise tomou a devida nota. Recomendou uma
aprofundada catequese, mas também, uma não menos aprofundada análise de
carácter teológico, histórico, psicológico, sociológico e jurídico acerca da
penitência em geral e do Sacramento da Penitência em particular. Com tudo isso
teve a intenção de esclarecer os motivos da crise e abrir caminhos no sentido
de uma sua solução positiva, para benefício da humanidade. Entretanto, do
próprio Sínodo a Igreja recebeu uma confirmação clara da sua fé no que respeita
ao Sacramento, pelo qual é dada a cada cristão e a toda a comunidade dos fiéis
a certeza do perdão graças ao poder do Sangue redentor de Cristo.
É bom renovar e reafirmar esta fé num momento em que
poderia debilitar-se, perder algo da sua integridade ou entrar numa zona de
penumbra e de silêncio, ameaçada como se encontra pela já mencionada crise, no
que ela tem de negativo. Insidiam, de facto, o Sacramento da Confissão: por um
lado, o obscurecimento da consciência moral e religiosa, a atenuação do sentido
do pecado, a adulteração do conceito do arrependimento, a escassa propensão
para uma vida autenticamente cristã; por outro lado, a mentalidade, às vezes
difundida, de que se poderia obter o perdão directamente de Deus, mesmo de modo
ordinário, sem receber o Sacramento da Reconciliação, bem como a rotina de uma
prática sacramental algumas vezes destituída de verdadeiro fervor e sem
espontaneidade espiritual, originada, talvez, por uma consideração errada e
degenerada dos efeitos do Sacramento.
Convém, portanto, recordar os principais aspectos deste
grande Sacramento.
«A quem perdoardes»
29. O primeiro dado fundamental é-nos proporcionado pelos
Livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento, no que diz respeito à
misericórdia do Senhor e ao seu perdão. Nos Salmos e na pregação dos Profetas o
nome de misericordioso é talvez o que mais frequentemente se atribui ao Senhor,
em oposição ao persistente cliché, segundo o qual o Deus do Antigo Testamento é
apresentado sobretudo como severo e punidor. Assim, nos Salmos, um longo
discurso sapiencial, remontando à tradição do Êxodo, reevoca a acção benigna de
Deus no meio do seu povo. Tal acção, apesar da sua representação
antropomórfica, é talvez uma das mais eloquentes proclamações
vetero-testamentárias da misericórdia divina. Basta aqui recordar o versículo:
«E Ele, misericordioso, perdoava-lhes a falta e não os exterminava; antes,
muitas vezes conteve a sua cólera e não deixou acender-se o seu furor, recordando
que eram simples carne, sopro que se esvai e não volta». (157)
Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus, vindo como o
Cordeiro que tira e carrega sobre si o pecado do mundo, (158) aparece como
aquele que tem poder, quer de julgar, (159) quer de perdoar os pecados (160) e
que veio não para condenar, mas para perdoar e salvar. (161)
Ora este poder de perdoar os pecados Jesus confere-o,
mediante o Espírito Santo, a simples homens, sujeitos também eles próprios à
insídia do pecado, isto é, aos seus Apóstolos: «Recebei o Espírito Santo: a
quem perdoardes os pecados ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os
retiverdes ficar-lhes-ão retidos».(162) Esta é uma das mais formidáveis
novidades evangélicas! Jesus confere tal poder aos Apóstolos também como transmissível
— assim o entendeu a Igreja desde o seu dealbar — aos seus sucessores,
investidos pelos mesmos Apóstolos na missão e na responsabilidade de continuar
a sua obra de anunciadores do Evangelho e de ministros da obra redentora de
Cristo.
Aqui aparece em toda a sua grandeza a figura do ministro
do Sacramento da Penitência, chamado, por antiquíssimo costume, o confessor.
Como no altar onde celebra a Eucaristia e como em cada um
dos Sacramentos, o Sacerdote, ministro da Penitência, age «in persona Christi».
O mesmo Cristo, por ele tornado presente e que por meio dele actua o mistério
da remissão dos pecados, é Aquele que aparece como irmão do homem, (163)
pontífice misericordioso, fiel e cheio de compaixão, (164) pastor decidido a
procurar a ovelha perdida, (165) médico que cura e conforta, (166) mestre único
que ensina a verdade e indica os caminhos de Deus, (167) juiz dos vivos e dos
mortos, (168) que julga segundo a verdade e não segundo as aparências. (169)
Trata-se, sem dúvida, do ministério mais difícil e
delicado, do mais cansativo e exigente; mas também de um dos mais belos e
consoladores ministérios do Sacerdote; e, precisamente por isto, atendendo à
vigorosa chamada do Sínodo, nunca me cansarei de pedir aos meus Irmãos, Bispos
e Presbíteros, o seu fiel e diligente desempenho. (170)
Perante a consciência do fiel, que a ele se abre, com um
misto de tremor e de confiança, o confessor é chamado a uma tarefa sublime que
é serviço à causa da penitência e da reconciliação humana: conhecer as
fraquezas e as quedas, de um determinado fiel, avaliar o seu desejo de
recuperação e os esforços para a conseguir, discernir a acção do Espírito
santificador no seu coração, comunicar-lhe o perdão que só Deus pode conceder,
«celebrar» a sua reconciliação com o Pai representada na parábola do filho
pródigo, reinserir esse pecador resgatado na comunhão eclesial com os irmãos e
advertir paternalmente esse penitente com um firme, encorajador e amigável
«doravante não tornes a pecar». (171)
Para o exercício eficaz de tal ministério, o confessor tem
de possuir necessariamente qualidades humanas de prudência, discreção,
discernimento e firmeza temperada pela mansidão e bondade. Deve ter, ainda,
séria e cuidada preparação, não fragmentária mas integral e harmónica, nos
diversos ramos da teologia, na pedagogia e na psicologia, na didáctica
catequética, na metodologia do diálogo e, sobretudo, no conhecimento vivo e
comunicativo da Palavra de Deus. Mas é mais necessário ainda que ele viva uma
vida espiritual intensa e genuína. Para guiar os outros pelos caminhos da
perfeição cristã, o ministro da Penitência deve percorrer, ele próprio,
primeiro, este caminho; e mais com obras do que com palavras exuberantes, dar
mostras de real experiência da oração vivida, de prática das virtudes evangélicas
teologais e morais, de fiel obediência à vontade de Deus, de amor à Igreja e de
docilidade ao seu Magistério.
Todo este aparato de dotes humanos, de virtudes cristãs e
de capacidades pastorais não se improvisa nem se adquire sem esforço. Para o
ministério da Penitência sacramental cada Sacerdote deve ser preparado desde os
anos do Seminário: juntamente com o estudo da teologia dogmática, moral,
espiritual e pastoral (que são sempre uma só teologia), com as ciências do
homem e com a metodologia do diálogo e, especialmente, do colóquio pastoral.
Há-de, ainda, ser iniciado e amparado nas primeiras experiências. Deverá cuidar
sempre do próprio aperfeiçoamento e actualização, com o estudo permanente. Que
tesouros de graça, de verdadeira vida e de irradiação espiritual não adviriam à
Igreja, se cada Sacerdote se mostrasse cuidadoso em nunca faltar, por
negligência ou desculpas várias, ao encontro com os fiéis no confessionário e
tivesse ainda maior cuidado de nunca aí se sentar sem preparação, ou sem as indispensáveis
qualidades humanas e condições espirituais e pastorais!
A este propósito não posso deixar de evocar, com devota
admiração, as figuras de extraordinários apóstolos do confessionário, como São
João Nepomuceno, São João Maria Vianney, São José Cafasso e São Leopoldo de
Castelnuovo, para falar só de alguns mais conhecidos, que a Igreja inscreveu no
album dos seus Santos. Mas desejo igualmente prestar homenagem à inumerável
pléiade de confessores santos e quase sempre anónimos, aos quais se ficou a dever
a salvação de tantas almas, por eles ajudadas na conversão, na luta contra o
pecado e as tentações, no progresso espiritual e, em definitivo, na
santificação. Não hesito em afirmar que os grandes Santos canonizados sairam
geralmente desses confessionários e, com os Santos, o património espiritual da
Igreja e o próprio florescimento de uma civilização impregnada de espírito
cristão! Honra seja, portanto, a este silencioso exército de irmãos nossos, que
bem serviram e servem cada dia a causa da reconciliação, mediante o ministério
da Penitência sacramental!
O Sacramento do Perdão
30. Pela revelação do valor deste ministério e do poder de
perdoar os pecados, conferido por Cristo aos Apóstolos e aos seus sucessores,
desenvolveu-se na Igreja a consciência do sinal do perdão, concedido mediante o
Sacramento da Penitência; ou seja, a certeza, de que o próprio Senhor Jesus
instituíu e confiou à Igreja — qual dom da sua benignidade e da sua
«filantropía», (172) a proporcionar a todos os homens — um especial Sacramento
para a remissão dos pecados cometidos depois do Baptismo.
A prática deste Sacramento, pelo que se refere à sua
celebração e à sua forma, conheceu um longo processo de desenvolvimento, como
atestam os mais antigos sacramentários, as actas dos Concílios e dos Sínodos
episcopais, a pregação dos Padres e o ensino dos Doutores da Igreja Mas quanto
à substância do Sacramento, permaneceu sempre sólida e imutável, na consciência
da Igreja, a certeza de que, por vontade de Cristo, o perdão é oferecido a cada
um por meio da absolvição sacramental, dada pelos ministros da Penitência; esta
certeza é reafirmada com particular vigor, quer pelo Concílio de Trento, (173)
quer pelo Concílio Vaticano II: «Aqueles que se aproximam do Sacramento da
Penitência recebem da misericórdia de Deus o perdão das ofensas que lhe fizeram
e, ao mesmo tempo, reconciliam-se com a Igreja, à qual infligiram uma ferida
com o pecado: a Igreja que coopera na sua conversão com a caridade, com o
exemplo e a oração». (174) E como dado essencial da fé sobre o valor e a
finalidade da Penitência deve reafirmar-se que «o nosso Salvador Jesus Cristo
instituiu na sua Igreja o Sacramento da Penitência, para que os fiéis caidos no
pecado depois do Baptismo recebessem a graça e se reconciliassem com Deus».
(175)
A fé da Igreja neste Sacramento comporta algumas outras
verdades fundamentais, que são ineludíveis. O rito sacramental da Penitência,
na sua evolução e variação de formas práticas, sempre conservou e realçou claramente
essas verdades. O Concílio Vaticano II, ao prescrever a reforma deste rito,
tinha em vista fazer com que ele exprimisse ainda com mais clareza tais
verdades, (176) o que se verificou com o novo Ritual da Penitência. (177) Este,
de facto, assumiu na sua integridade a doutrina da tradição coligida pelo
Concílio de Trento, transferindo-a do seu particular contexto histórico (o de
um esforço corajoso de esclarecimento doutrinal, defronte aos graves desvios em
relação ao genuino ensino da Igreja) para a traduzir fielmente em termos mais
adequados ao contexto do nosso tempo.
Algumas convicções fundamentais
31. As menciondas verdades, reafirmadas com energia e
clareza pelo Sínodo e presentes nas Propostas («Propositiones»), podem
resumir-se nas convicções de fé, que a seguir enuncio e à volta das quais se
reúnem todas as outras afirmações da doutrina católica sobre o Sacramento da
Penitência.
I. A primeira convicção é que, para um cristão, o
Sacramento da Penitência é a via ordinária para obter o perdão e a remissão dos
seus pecados graves cometidos depois do Baptismo. O divino Salvador e a sua
acção salvífica, certamente, não estão ligados a um sinal sacramental, de
maneira a não poderem em qualquer tempo e circunstância da história da salvação
agir fora e acima dos Sacramentos. Mas na escola da fé aprendemos que o mesmo
Salvador quis e dispôs que os humildes e preciosos Sacramentos da fé sejam
ordinariamente os meios eficazes, pelos quais passa e opera o seu poder
redentor. Seria portanto insensato, além de presunçoso, querer prescindir
arbitrariamente dos instrumentos de graça e de salvação que o Senhor dispôs e,
no caso específico, pretender receber o perdão, pondo de lado o Sacramento,
instituído por Cristo exactamente para o perdão. A renovação dos ritos, levada
a efeito depois do Concílio, não deixa margem para qualquer confusão ou
alteração neste sentido. A mesma renovação devia e deve servir, segundo a
intenção da Igreja, para suscitar em cada um de nós umnovo impulso para a
renovação da nossa atitude interior, ou seja, para a compreensão mais profunda
da natureza do Sacramento da Penitência; para um seu acolhimento mais repassado
de fé, não ansioso mas confiante; para uma maior frequência do Sacramento, que
se apresenta totalmente impregnado pelo amor misericordioso do Senhor.
II. A segunda convicção diz respeito à função do
Sacramento da Penitência para aqueles que a ele recorrem. Segundo a mais antiga
concepção da Tradição trata-se de uma espécie de acto judicial; mas este acto
decorre junto de um tribunal mais de misericórdia, do que de estrita e rigorosa
justiça, pelo que não é comparável aos tribunais humanos, (178) senão por
analogia; ou seja, na medida em que o pecador aí descobre os seus pecados e a
sua própria condição de criatura sujeita ao pecado; se compromete a renunciar e
a combater o pecado; aceita a pena (penitência sacramental) que o confessor lhe
impõe e dele recebe a absolvição.
Ao reflectir, porém, sobre a função deste Sacramento, a
consciência da Igreja vislumbra nele, além do carácter judicial, no sentido
acima aludido, um carácter terapêutico ou medicinal. E isto relaciona-se com o
facto, frequente no Evangelho, da apresentação de Cristo como médico, (179)
enquanto a sua obra redentora é muitas vezes chamada, desde a antiguidade cristã,
«remédio da salvação» («medicina salutis»). «Eu quero curar, não acusar», dizia
Santo Agostinho, referindo-se ao exercício da pastoral penitêncial, (180) e é
graças ao remédio da confissão que a experiência do pecado não degenera em
desespero. (181) O Ritual da Penitência alude a este aspecto medicinal do
Sacramento, (182) ao qual o homem contemporâneo é talvez mais sensível, vendo
no pecado o que ele comporta de erro, obviamente, e mais ainda aquilo que ele
indica relacionado com a fraqueza e enfermidade humanas.
Tribunal de misericórdia ou lugar de cura espiritual, sob
ambos os aspectos o Sacramento exige um conhecimento do íntimo do pecador, para
o poder julgar e absolver, para tratar dele e o curar. E precisamente por isto,
implica, da parte do penitente, a acusação sincera e completa dos pecados, que
tem assim uma razão de ser, não só inspirada em fins ascéticos (como exercício
de humildade e de mortificação), mas inerente à própria natureza do Sacramento.
III. A terceira convicção que desejo aqui salientar, diz
respeito às realidades ou partes que compõem o sinal sacramental do perdão e da
reconciliação. Algumas destas realidades são actos do penitente, de importância
diversa, mas cada um deles indispensável ou para a validade ou para a integridade
ou para o fruto do sinal.
Uma condição indispensável, primeiro que tudo, é a
rectidão e a limpidez da consciência do penitente. Um homem não se põe a
caminho para uma verdadeira e genuína penitência, enquanto não perceber que o
pecado contrasta com a norma ética, inscrita no íntimo do próprio ser; (183)
enquanto não reconhecer ter feito a experiência pessoal e responsável de uma
tal oposição; enquanto não disser não apenas «o pecado existe», mas «eu
pequei»; enquanto não admitir que o pecado introduziu na sua consciência uma
divisão, que avassala todo o seu ser e o separa de Deus e dos irmãos. O sinal
sacramental desta limpidez da consciência é o acto tradicionalmente chamado
exame de consciência, acto que deveria ser sempre, não tanto uma introspecção psicológica
ansiosa, mas o confronto sincero e sereno com a lei moral interior, com as
normas evangélicas propostas pela Igreja, com o próprio Jesus Cristo, que é
para nós mestre e modelo de vida e com o Pai celeste que nos chama ao bem e à
perfeição. (184)
Mas o acto essencial da Penitência, da parte do penitente,
é a contrição, ou seja, um claro e decidido repúdio do pecado cometido,
juntamente com o propósito de não o tornar a cometer, (185) pelo amor que se
tem a Deus e que renasce com o arrependimento. Entendida deste modo a contrição
é, pois, o princípio e a alma da conversão, daquela metánoia evangélica que
reconduz o homem a Deus, como o filho pródigo que volta ao pai, e que tem no
Sacramento da Penitência o seu sinal visível e aperfeiçoador da própria atrição.
Por isso, «desta contrição do coração depende a verdade da penitência». (186)
Supondo e chamando a atenção para tudo aquilo que a
Igreja, inspirada pela palavra de Deus, ensina acerca da contrição, está-me
particularmente a peito, neste ponto, salientar um aspecto de tal doutrina,
para que seja melhor conhecido e mais tido presente. Não raro se considera a
conversão e a contrição sob o aspecto das inegáveis exigências que elas
comportam e da mortificação que impõem em ordem a uma radical mudança de vida.
Mas é bom recordar e acentuar que contrição e conversão são, sobretudo, uma
aproximação da santidade de Deus, um reencontro da própria verdade interior,
obscurecida e transtornada pelo pecado , um libertar-se no mais profundo de si
próprio e, por isso, um reconquistar a alegria perdida, a alegria de ser
salvado, (187) que a maioria dos homens do nosso tempo já não sabe saborear.
Compreende-se, assim, que desde os primeiros tempos
cristãos, em ligação com os Apóstolos e com Cristo, a Igreja tenha incluído no
sinal sacramental da Penitência a acusação dos pecados. Esta aparece como tão
relevante que, desde há séculos, o nome usual do Sacramento foi e é ainda agora
o de confissão. Acusar os próprios pecados é exigido, antes de mais, pela
necessidade do pecador ser conhecido por aquele que no Sacramento exerce o
papel de juiz, o qual deve avaliar, quer a gravidade dos pecados, quer o
arrependimento do penitente; e, simultaneamente, o papel de médico, que deve
conhecer o estado do enfermo para tratar dele e o curar. Mas a confissão
individual tem também o valor de sinal: sinal do encontro do pecador com a
mediação eclesial na pessoa do ministro; sinal do seu pôr-se a descoberto
diante de Deus e da Igreja como pecador, do esclarecer-se a si mesmo sob o olhar
de Deus. A acusação dos pecados, portanto, não pode ser reduzida a qualquer
tentativa de autolibertação psicológica, ainda que esta corresponda a uma
necessidade legítima e natural de abrir-se com alguém, o que é algo ínsito no
coração do homem. Trata-se de um gesto litúrgico, solene na sua dramaticidade,
humilde e sóbrio na grandeza do seu significado. É o gesto do filho pródigo que
volta para junto do pai e por ele é acolhido com o beijo da paz; gesto de
lealdade e de coragem; gesto de entrega de si mesmo, passando além do pecado, à
misericórdia que perdoa. (188)
Compreende-se, então, por que é que a acusação dos pecados
deve ser ordinariamente individual e não colectiva, tal como o pecado é um
facto profundamente pessoal. Ao mesmo tempo, porém, esta acusação arranca, de
certo modo, o pecado do segredo do coração e, por conseguinte, do âmbito da
pura individualidade, pondo em relevo o seu carácter social, uma vez que,
mediante o ministro da Penitência, é a Comunidade eclesial, lesada pelo pecado,
que acolhe de novo o pecador arrependido e perdoado.
O outro momento essencial do Sacramento da Penitência,
compete, por sua vez, ao confessor juiz e médico, imagem de Deus Pai que acolhe
aquele que regressa e lhe perdoa: é a absolvição. As palavras que a exprimem e
os gestos que a acompanham no antigo e no novo Ritual da Penitência,
revestem-se de uma significativa simplicidade na sua grandeza. A fórmula
sacramental: «Eu te absolvo...», a imposição das mãos e o sinal da cruz traçado
sobre o penitente manifestam que naquele momento o pecador contrito e
convertido entra em contacto com o poder e a misericórdia de Deus. É em tal
momento que, em resposta ao penitente, a Santíssima Trindade se torna presente
para apagar o seu pecado e restituir-lhe a inocência; e a força salvífica da
Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus é comunicada ao mesmo penitente, como
«misericórdia mais forte do que a culpa e a ofensa», como a designei na
Encíclica Dives in Misericordia. Deus é sempre o principal ofendido pelo pecado
— «Pequei só contra Vós!» («tibi soli peccavi!») — e só Deus pode perdoar. Por
isso, a absolvição que o Sacerdote, ministro do perdão, embora também ele
pecador, concede ao penitente, é o sinal eficaz da intervenção do Pai em cada
absolvição e da «ressurreição» da «morte espiritual» que se renova todas as
vezes que é actuado o Sacramento da Penitência. Só a fé pode assegurar que
naquele momento todos e cada um dos pecados são perdoados e apagados pela
misteriosa intervenção do Salvador.
A satisfação é o acto final que coroa o sinal sacramental
da Penitência. Em alguns países, o que o penitente perdoado e absolvido aceita
cumprir depois de ter recebido a absolvição, chama-se precisamente penitência.
Qual é o significado desta satisfação que se dá ou desta penitência que se faz?
Não é certamente o preço que se paga pelo pecado absolvido e pelo perdão
alcançado: nenhum preço humano pode equivaler ao que se obteve, fruto do
preciosíssimo Sangue de Cristo. As obras de satisfação — que, embora
conservando um carácter de simplicidade e de humildade, deveriam tornar-se mais
expressivas de tudo aquilo que significam — querem dizer algo de precioso: são
o sinal docompromisso pessoal que o cristão assumiu com Deus, no Sacramento, de
começar uma existência nova (e por isso não deveriam reduzir-se somente a
algumas fórmulas a recitar, mas consistir em obras de culto, de caridade, de
misericórdia e de reparação); incluem a ideia de que o pecador perdoado é capaz
de unir a sua própria mortificação física e espiritual, procurada ou ao menos aceite,
à Paixão de Jesus que lhe alcançou o perdão; recordam que, mesmo depois da
absolvição, permanece no cristão uma zona de sombra devida às feridas do
pecado, à imperfeição do amor no arrependimento, ao enfranquecimento das
faculdades espirituais em que continua ainda activo um foco infeccioso de
pecado, que é preciso combater sempre com a mortificação e a penitência. Tal é
o significado da humilde mas sincera satisfação. (189)
IV. Resta-me fazer uma breve referência a outras
importantes convicções relativas ao Sacramento da Penitência.
Antes de mais, é preciso insistir em que não há nada mais
pessoal e íntimo do que este Sacramento, no qual o pecador se encontra na
presença de Deus, só, com a sua culpa, o seu arrependimento e a sua confiança.
Ninguém pode arrepender-se em seu lugar ou pode pedir perdão
V. É de salientar, ainda, que o fruto mais precioso do
perdão, obtido pela Penitência, consiste na reconciliação com Deus, a qual se
verifica no segredo do coração do filho pródigo, e reencontrado, que é cada
penitente. Mas é preciso acrescentar que tal reconciliação com Deus tem como
consequência, por assim dizer, outras reconciliações, que vão remediar outras
tantas rupturas, causadas pelo pecado: o penitente perdoado reconcilia-se
consigo próprio no íntimo mais profundo do próprio ser, onde recupera a própria
verdade interior; reconcilia-se com os irmãos, por ele de alguma maneira
agredidos e lesados; reconcilia-se com a Igreja; e reconcilia-se com toda a
criação. A tomada de consciência de tudo isto faz nascer no penitente, no final
da celebração, um sentimento de gratidão para com Deus pelo dom da misericórdia
que recebeu; e a Igreja convida-o à acção de graças.
Todos os confessionários são um espaço privilegiado e
abençoado, do qual, uma vez eliminadas as divisões, surge, novo e
incontaminado, um homem reconciliado — um mundo reconciliado!
VI. E por fim, está-me particularmente a peito fazer uma
última consideração que nos diz respeito a todos nós Sacerdotes, que somos os
ministros do Sacramento da Penitência, mas que somos também — e devemos sê-lo
sempre — os beneficiários. A vida espiritual e pastoral do Sacerdote, como a
dos seus irmãos leigos e religiosos, depende, na sua qualidade e no seu fervor,
da prática pessoal assídua e conscienciosa do Sacramento da Penitência. (193)
A celebração da Eucaristia e o ministério dos outros
Sacramentos, o zelo pastoral, a relação com os fiéis, a comunhão com os irmãos
Sacerdotes, a colaboração com o Bispo, a vida de oração, numa palavra, toda a
existência sacerdotal sofre inexorável decadência, se lhe falta por negligência
ou por qualquer outro motivo o recurso, periódico e inspirado por fé autêntica
e devoção, ao Sacramento da Penitência. Num sacerdote que deixasse de se
confessar ou se confessasse mal, o seu ser padre e o exercício do seu
Sacerdócio bem depressa se ressentiriam e disso se daria conta a própria
Comunidade de que ele é pastor.
Mas acrescento também que, até para ser bom e eficaz
ministro da Penitência, o Sacerdote precisa de recorrer à fonte da graça e
santidade presente neste Sacramento. Nós Sacerdotes, com base na nossa
experiência pessoal, bem podemos dizer que, na medida em que procuramos
recorrer ao Sacramento da Penitência e nos aproximamos dele com frequência e
com boas disposições, desempenhamos melhor o nosso próprio ministério de
confessores e melhor asseguramos aos penitentes o seu benefício. De outro modo,
este ministério perderia muito da sua eficácia, se de alguma maneira
deixássemos de ser bons penitentes. Tal é a lógica interna deste grande
Sacramento. Ele convida-nos, a todos nós Sacerdotes de Cristo, a uma renovada
atenção à nossa confissão pessoal.
A experiência pessoal, por sua vez, torna-se e deve
tornar-se hoje um estímulo para o exercício diligente, pontual, paciente e
fervoroso do ministério sagrado da Penitência, a que estamos comprometidos por
força do nosso Sacerdócio e da nossa vocação para ser pastores e servidores dos
nossos irmãos. Assim, com a presente Exortação, quero dirigir um instante apelo
a todos os Sacerdotes do mundo, especialmente aos meus Irmãos no Episcopado e
aos Párocos, para que favoreçam com todas as veras a frequência dos fiéis a
este Sacramento, ponham em prática todos os meios possíveis e convenientes e
tentem todas as vias para fazer chegar ao maior número de irmãos nossos a
«graça que nos foi dada» mediante a Penitência, para a reconciliação de cada
alma e de todo o mundo com Deus, em Cristo.
As formas da celebração
32. Seguindo as indicações do Concílio Vaticano II, o Ordo
Paenitentiae predispôs três ritos que, ressalvados sempre os elementos
essenciais, permitem adaptar a celebração do Sacramento da Penitência a
determinadas circunstancias pastorais.
A primeira forma — reconciliação individual dos penitentes
— constitui o único modo normal e ordinário da celebração sacramental, e não
pode nem deve deixar-se cair em desuso ou ser descurada. A segunda —
reconciliação de vários penitentes com confissão e absolvição individual— ainda
que permita, nos actos preparatórios, realçar mais os aspectos comunitários do
Sacramento, vai confluir na primeira forma no acto sacramental culminante, que
é o da confissão e a absolvição individuais dos pecados; e, por isso, pode ser
equiparada à primeira forma no que toca à normalidade do rito. A terceira, ao
contrário — reconciliação de vários penitentes com a confissão e a absolvição
geral — reveste-se de carácter excepcional e não é, por isso, deixada à livre
escolha, mas é regulada por uma disciplina especial.
A primeira forma permite a valorização dos aspectos mais
pessoais — e essenciais — que estão compreendidos no itinerário penitêncial. O
diálogo entre o penitente e o confessor, o próprio conjunto dos subsídios
utilizados (os textos bíblicos, a escolha das formas de «satisfação», etc.) são
elementos que tornam a celebração sacramental mais correspondente à situação
concreta do penitente. Descobre-se o valor de tais elementos, quando se pensa
nas diversas razões que levam um cristão à penitência sacramental: necessidade
de reconciliação pessoal e readmissão na amizade com Deus, recuperando a graça
perdida por causa do pecado; necessidade de verificação do caminho espiritual
e, por vezes, de um mais preciso discernimento vocacional; e, tantas outras
vezes, uma necessidade e um desejo de sair de um estado de apatia espiritual e
de crise religiosa. Graças, ainda, à sua índole individual, a primeira forma de
celebração permite associar o Sacramento da Penitência a algo de diferente, mas
perfeitamente conciliável com ele: refiro-me à direcção espiritual. Por
conseguinte, é óbvio que a decisão e o empenho pessoais estão claramente
significados e solicitados nessa primeira forma.
A segunda forma de celebração, precisamente pelo seu
carácter comunitário e pela modalidade celebrativa que a caracteriza, faz
ressaltar alguns aspectos de grande importância: a Palavra de Deus, escutada em
comum, tem um efeito singular, em relação à sua leitura individual, e evidencia
melhor o carácter eclesial da conversão e da reconciliação. Essa celebração
resulta particularmente significativa nos diversos tempos do ano litúrgico e em
conexão com acontecimentos de especial relevância pastoral. Basta acenar aqui,
apenas, que para tal celebração importa haver a presença de um número
suficiente de confessores.
É natural, portanto, que os critérios para estabelecer a
qual das duas formas de celebração se deva recorrer sejam ditados, não por
motivações conjunturais e subjectivas, mas pelo desejo de obter o verdadeiro
bem espiritual dos fiéis, em obediência à disciplina penitencial da Igreja.
Será bom recordar também que, para uma equilibrada
orientação espiritual e pastoral neste campo, é necessário continuar a atribuir
grande valor ao Sacramento da Penitência e educar os fiéis a recorrerem a ele,
mesmo só para os pecados veniais, como atestam uma tradição doutrinal e uma
prática já seculares.
Mesmo sabendo e ensinando que os pecados veniais são
perdoados também de outros modos — pense-se nos actos de contrição, na obras de
caridade, na oração e nos ritos penitênciais — a Igreja não cessa de recordar a
todos a singular riqueza do momento sacramental também pelo que se refere a
tais pecados. O recurso frequente ao Sacramento — a que estão obrigadas algumas
categorias de fiéis — reforça a consciência de que também os pecados menores
ofendem a Deus e ferem a Igreja, corpo de Cristo; e a celebração do mesmo
Sacramento torna-se para todos os cristãos «ocasião e estímulo a conformarem-se
mais intimamente com Cristo e a tornarem-se mais dóceis à voz do Espírito».
(194) Sobretudo deve frisar-se bem o facto de a graça própria da celebração
sacramental ter grande eficácia terapêutica e contribuir para arrancar as
próprias raízes do pecado.
O cuidado dispensado ao aspecto celebrativo, (195) com
particular referência à importância da Palavra de Deus, lida, evocada e
explicada, quando for possível e oportuno, aos fiéis e com os fiéis,
contribuirá para vivificar a prática do Sacramento e para impedir que decaia
para algo de formal e rotineiro. O penitente há-de ser ajudado sobretudo a
descobrir que está a viver um acontecimento de salvação, capaz de infundir nele
um novo impulso de vida e uma verdadeira paz no seu coração. Este cuidado pela
celebração há-de levar, ainda, entre outras coisas, a fixar em cada Igreja
tempos destinados à celebração do Sacramento e a educar os fiéis, especialmente
as crianças e os jovens, a aterem-se a eles, ordinariamente, salvo a casos de
necessidade, em relação aos quais o pastor de almas deverá mostrar-se sempre
pronto a acolher de boa vontade quem a ele recorrer.
A celebração do Sacramento com absolvição geral
33. Na nova ordenação litúrgica e, mais recentemente, no
novo Código de Direito Canónico, (196) estão determinadas as condições que
legitimam o recurso ao «rito da reconciliação de vários penitentes, com a
confissão e a absolvição geral». As normas e as directrizes dadas quanto a este
ponto, fruto de madura e equilibrada consideração, devem ser acolhidas e
aplicadas evitando toda a espécie de interpretação arbitrária.
É oportuna uma ulterior reflexão, mais aprofundada, sobre
as motivações, que impõem a celebração da Penitência numa das duas primeiras
formas e que permitem o recurso à terceira forma. Há, antes de mais, uma
motivação de fidelidade à vontade do Senhor Jesus, transmitida pela doutrina da
Igreja e, além disso, de obediência às leis da mesma Igreja: o Sínodo reafirmou
numa das suas Propostas («Propositiones») o inalterado ensino que a Igreja foi
haurir na mais antiga Tradição e recordou a lei com que codificou a antiga
prática penitêncial: a confissão individual e íntegra dos pecados, com a
absolvição igualmente individual, constitui o único modo ordinário, pelo qual o
fiel, culpado de pecado grave, é reconciliado com Deus e com a Igreja. Desta
confirmação do ensino da Igreja, resulta claramente que todos os pecados devem
ser sempre declarados, com as suas circunstâncias determinantes, numa confissão
individual.
Existe, ainda, uma motivação de ordem pastoral. Se é
verdade que, verificando-se as condizões requeridas pela disciplina canónica,
se pode fazer uso da terceira forma de celebração da Penitência, não se deve
esquecer, no entanto, que esta não pode tornar-se uma forma ordinária, e que
não pode nem deve ser adoptada — repetiu-o o Sínodo — senão «em casos de grave
necessidade», permanecendo firme a obrigação de confessar individualmente os
pecados graves antes de recorrer novamente à absolvição geral. O Bispo, portanto,
o único a quem compete, no âmbito da sua Diocese, ajuizar se existem em
concreto as condições que a lei canónica estabelece para o uso dessa terceira
forma, dará tal juízo, onerando gravemente a sua consciência, com respeito
pleno da lei e da prática da Igreja; e, além disso, tendo em conta critérios e
orientações que hajam sido dados — com base nas considerações doutrinais e
pastorais acima apresentadas — de comum acordo, pelos demais membros da
Conferência Episcopal. Terá de haver, igualmente, uma autêntica preocupação
pastoral em procurar e garantir as condições que tornem o recurso à terceira
forma susceptível de dar aqueles frutos espirituais, para os quais ela está
prevista.
Assim, o uso excepcional da terceira forma de celebração
do Sacramento da Penitência não deverá nunca levar a uma menor consideração e,
menos ainda, ao abandono das formas ordinárias, ou então a considerar essa
forma como uma alternativa das outras duas. Não é, efectivamente, deixado à
liberdade dos Pastores e dos fiéis escolher entre as mencionadas formas de
celebração aquela que retiverem mais oportuna. Para os Pastores permanece a
obrigação de facilitarem aos fiéis a prática da confissão íntegra e individual
dos pecados, que constitui para eles não só um dever, mas também um direito
inviolável e inalienável, além de uma necessidade espiritual.
Para os fiéis o uso da terceira forma de celebração
comporta a obrigação de se aterem a todas as normas que regulam a sua prática,
incluindo a de não recorrerem de novo à absolvição geral antes de uma confissão
regular, integral e individual dos pecados, que deverão fazer logo que seja
possível. Os mesmos fiéis devem ser advertidos e instruídos pelo Sacerdote,
acerca desta norma e da obrigação de a observar, antes da absolvição.
Ao recordar assim a doutrina e a lei da Igreja, é minha
intenção inculcar em todos o vivo sentido de responsabilidade, que sempre nos
deve guiar ao tratar das coisas sagradas; estas não são propriedade nossa, como
é o caso dos Sacramentos; ou então têm direito a não serem deixadas na
incerteza e na confusão, como são as consciências. Coisas sagradas — repito —
são uns e outras: os Sacramentos e as consciências; e exigem da nossa parte
serem servidas com verdade.
Esta é a razão da lei da Igreja!
Alguns casos mais delicados
34. Sinto-me no dever, chegado a este ponto, de fazer uma
alusão, ainda que brevíssima, a um caso pastoral que o Sínodo quis tratar — na
medida que lhe era possível fazê-lo — contemplando-o também numa das Propostas («Propositiones»).
Refiro-me a certas situações, hoje não infrequentes, em que, vêm a encontrar-se
cristãos desejosos de continuarem a prática religiosa sacramental, mas que
disso estão impedidos pela própria condição pessoal, em contraste com os
compromissos assumidos livremente diante de Deus e da Igreja. São situações que
se apresentam particularmente delicadas e quase inextricáveis.
Não poucas intervenções, no decorrer do Sínodo, exprimindo
o pensamento geral dos Padres, puseram bem a claro a coexistência e a
influência mútua de dois princípios, igualmente importantes, no que respeita a
estes casos. O primeiro é o princípio da compaixão e da misericórdia, segundo o
qual a Igreja, continuadora na história da presença e da obra de Cristo, não
querendo a morte do pecador, mas que se converta e viva, (197) atenta a não
partir a cana já fendida e a não apagar a chama que ainda fumega, (198) procura
sempre facultar, na medida em que lhe é possível, o caminho do retorno a Deus e
da reconciliação com ele. O outro é o princípio da verdade e da coerência, pelo
qual a Igreja não aceita chamar bem ao mal e mal ao bem. Baseando-se nestes
dois princípios complementares, a Igreja mais não pode do que convidar os seus
filhos, que se encontram nessas situações dolorosas, a aproximarem-se da
misericórdia divina por outras vias, mas não pela via dos Sacramentos,
especialmente da Penitência e da Eucaristia, até que não tenham podido alcançar
as condições requeridas.
Acerca desta matéria, que angustia profundamente também o
nosso coração de pastores, pareceu-me ser meu preciso dever, já na Exortação
Apostólica Familiaris Consortio, dizer palavras claras pelo que se refere ao
caso dos divorciados novamente casados (199) ou de cristãos que, de qualquer
maneira, convivem conjugalmente de modo irregular.
Ao mesmo tempo, sinto vivamente o dever de exortar,
juntamente com o Sínodo, as comunidades eclesiais e, sobretudo os Bispos, a
darem toda a ajuda possível aos Sacerdotes, que, tendo faltado aos graves
compromissos assumidos na Ordenação, se encontram
Para todos aqueles que não se encontrem actualmente nas
condições objectivas requeridas pelo Sacramento da Penitência, as demonstrações
de maternal bondade por parte da Igreja, o apoio de actos de piedade diversos
dos actos sacramentais, o esforço sincero por se manter em contacto com o
Senhor, a participação na Santa Missa, a repetição frequente de actos de fé, de
esperança, de caridade e de contrição quanto for possível perfeitos, poderão
preparar o caminho para uma plena reconciliação no momento que só a Providência
conhece.
VOTOS CONCLUSIVOS
35. No final deste Documento, sinto ressoar em mim e
desejo repetir a todos vós a exortação que o primeiro Bispo de Roma, numa hora
crítica dos primórdios da Igreja, quis endereçar «aos peregrinos da Dispersão
(...), eleitos segundo a presciência de Deus Pai»: «sede todos concordes, sede
compassivos, em amor de irmãos, misericordiosos, humildes». (200) O Apóstolo
recomendava: «sêde todos concordes...»; mas imediatamente a seguir apontava os
pecados contra a concórdia e a paz, que é preciso evitar: «Não retribuais o mal
com o mal, nem a injúria com a injúria; ao contrário, respondei bendizendo,
pois para isto fostes chamados, para conseguirdes a bênção». E concluía com uma
palavra de encorajamento e de esperança: «quem vos poderá fazer mal, se fordes
zelosos pelo bem?». (201)
Ouso ligar esta minha Exortação, numa hora não menos
crítica da história, à do Príncipe dos Apóstolos, que foi o primeiro a
sentar-se nesta Cátedra romana, como testemunha de Cristo e pastor da Igreja, e
aqui «presidiu à caridade» diante do mundo inteiro. Também eu, em comunhão com
os Bispos sucessores dos Apóstolos e confortado pela reflexão colegial que
muitos deles, reunidos no Sínodo, dedicaram aos temas e problemas da
reconciliação, desejei comunicar-vos, com o mesmo espírito do pescador da
Galileia, o que ele dizia aos nossos irmãos na fé, longe de nós no tempo, mas
bem unidos no coração: «sede todos concordes (...), não retribuais o mal com o
mal (...), sede zelosos pelo bem». (202) E acrescentava: «É melhor padecer,
praticando o bem, se assim agrada à vontade de Deus, do que fazendo o mal».
(203)
Esta palavra de ordem está repleta de expressões que Pedro
ouvira ao próprio Jesus e de conceitos, que faziam parte da sua «Boa Nova»: o
mandamento novo do amor mútuo; o anelo e o empenho pela unidade; as
bem-aventuranças da misericórdia e da paciência na perseguição pela justiça; o
retribuir o mal com o bem; o perdão das ofensas; o amor dos inimigos. Em tais
palavras e conceitos está a síntese original e transcendente da ética cristã
ou, melhor e mais profundamente, da espiritualidade da Nova Aliança em Jesus
Cristo.
Confio ao Pai, rico de misericórdia, confio ao Filho de
Deus, feito homem como nosso Redentor e Reconciliador, confio ao Espírito
Santo, fonte de unidade e de paz, este meu apelo de pai e de pastor à
penitência e à reconciliação. Queira a Trindade Santíssima e adorável fazer
germinar na Igreja e no mundo a pequenina semente que neste momento entrego à
terra generosa de tantos corações humanos.
Para que daí provenham, num dia não muito longínquo,
frutos abundantes, convido-vos a todos a dirigir-vos comigo ao Coração de Cristo,
sinal eloquente da misericórdia divina, «propiciação pelos nossos pecados»,
«nossa paz e reconciliação», (204) para aí haurirmos a energia interior para a
detestação do pecado e para a conversão a Deus, e aí encontrarmos a benignidade
divina que amorosamente responde ao arrependimento humano.
Convido-vos também a dirigir-vos comigo ao Coração
Imaculado de Maria, Mãe de Jesus, na qual «se operou a reconciliação de Deus
com a humanidade (...), se realizou a obra da reconciliação, porque ela recebeu
de Deus a plenitude da graça, em virtude do sacrifício redentor de Cristo».
(205) Na verdade, Maria, em virtude da sua maternidade divina, tornou-se «a
aliada de Deus» na obra da reconciliação. (206)
Nas mãos desta Mãe, cujo «fiat», na expressão de muitos autores,
assinalou o início daquela «plenitude dos tempos» que viu ser realizada por
Cristo a reconciliação do homem com Deus e ao seu Coração Imaculado — ao qual
tenho repetidamente entregado e confiado toda a humanidade, turbada pelo pecado
e dilacerada por tantas tensões e conflitos — confio agora de modo especial
esta intenção: que, por sua intercessão, a mesma humanidade descubra e percorra
o caminho da penitência, o único que a poderá conduzir à plena reconciliação!
A todos vós, que, com espírito de comunhão eclesial na
obediência e na fé, (207) quiserdes acolher as indicações, as sugestões e as
directrizes contidas neste Documento, esforçando-vos por traduzi-las em prática
pastoral viva, concedo de todo o coração a minha Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto de São Pedro, a 2 de Dezembro, I
Domingo do Advento, do ano de 1984, sétimo do meu Pontificado.
1. Mc 1, 15.
2. Cf. JOÃO PAULO II, Discurso na abertura da 3a
Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, III, 1-7: AAS 71 (1979), pp.
198-204.
4. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Const. past. sobre a
Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, 43-44; Decreto sobre o
Ministério e Vida dos Sacerdotes Presbyterorum Ordinis, 12; PAULO VI, Encíclica
Ecclesiam suam: AAS 56 (1964), 609-659.
5. Sobre as divisões no corpo da Igreja, escrevia com
palavras ardentes, nos albores da Igreja, o Apóstolo São Paulo na famosa página
da 1 Cor 1, 10-16. Aos mesmos Coríntios dirigir-se-á, alguns anos mais tarde,
São Clemente de Roma, para denunciar as dilacerações no seio daquela
comunidade: cf. Carta aos Coríntios, III-IV; LVII: Patres Apostolici ed. FUNK,
I, 103; 171-173. Sabemos, pelos mais antigos Padres da Igreja, que a túnica
inconsútil de Cristo, que não foi lacerada pelos soldados, se tornou imagem da
unidade da Igreja: cf. S. CIPRIANO, De Ecclesiae catholicae unitate, 7: CCL
3/1, 254 s.; S. AGOSTINHO, In Ioannis Evangelium tractatus, 118, 4: CCL 36, 656
s.; S. BEDA VENERÁVEL, In Marci Evangeliurn expositio, IV, 15: CCL 120, 630; In
Lucae Evangelium expositio, VI, 23: CCL 120, 403; In S. Ioannis Evangelium
expositio, 19: PL 92, 911 s.
7. «Este tempo forte, durante o qual todos e cada um dos
cristãos são chamados a realizar mais profundamente a sua vocação para "a
reconciliação com o Pai, no Filho" - tive ocasião de escrever na Bula de
proclamação do Ano Santo extraordinário da Redenção - só alcançará plenamente
os seus objectivos, se levar a um empenhamento novo de cada um e de todos ao
serviço da reconciliação, não apenas entre os discípulos de Cristo, mas também
entre todos os homens». Bula Aperite portas Redemptori, n. 3: AAS 75 (1983),
93.
8. O tema do Sínodo, mais precisamente, era: Reconciliação
e Penitência na Missão da Igreja.
9. Cf. Mt
4, 17; Mc 1, 15.
10. Cf. Lc
3, 8.
11. Cf. Mt
16, 24-26; Mc 8, 34-36; Lc 9, 23-25.
12.
Cf. Ef 4, 23 s.
13. Cf. 1
Cor 3, 1-20.
14. Cf.
15. «Nós vo-lo suplicamos
16. «Nós gloriamo-nos em Deus por nosso Senhor Jesus
Cristo, pelo Qual obtivemos agora a reconciliação»: Rom 5, 11; cf. Col 1, 20.
17. O Concílio Vaticano II, a este propósito, salienta:
«Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo actual, estão ligados a um
des equilíbrio mais fundamental que se enraíz a no coração do homem. É
precisamente no íntimo do homem que muitos elementos se combatem. Enquanto por
um lado, como criatura, faz a experiência das suas múltiplas limitações, por
outro, sente-se ilimitado nas suas aspirações e chamado a uma vida superior.
Atraído por muitas solicitacões, vê-se a todo o momento obrigado a escolher
entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, não raro faz o
que não quer e não faz o que desejaria (cf. Rom 7, 14 ss.). Por isso, sofre em
si mesmo a divisão, da qual promanam também tantas e tão graves discórdias para
a sociedade»: Const. past. sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et
Spes, 10.
18. Cf. Col 1, 19 s.
19. Cf. JOÃO PAULO II, Encíclica Dives in Misericordia,
IV: 5-6 AAS 72 (1980), 1193-1199
20. Cf. Lc 15, 11-32.
21. O Livro de Jonas, no Antigo Testamento, é uma
admirável antecipação e figura deste aspecto da parábola. O pecado de Jonas
consistiu em ele ter experimentado «profundo desagrado e ter ficado irritado»,
por Deus ser «misericordioso e clemente, longanime e cheio de bondade, que
desiste facilmente do mal ameaçado»; é o pecado de «sentir pena de um rícino (.
.) que nasceu numa noite e numa noite feneceu», e de não entender que o Senhor
«se compadeça de Nínive»: cf. Jon 4.
22. Rom 5,
10 s.; cf.
23. 2 Cor
5, 18. 20.
24. Jo 11,
52.
25. Cf.
26. Cf.
Sir 44, 17.
27. Ef 2, 14.
28. Cf. Prece Eucarística III.
29. Cf Mt
5, 23 s.
30. Mt 27,
46; Mc 15, 34; Sl 22 [21], 2.
31. Cf. Ef 2, 14-16.
32. S. LEÃO MAGNO, Tractatus 63 (De passione Domini 12),
6: CCL 138/A, 386.
33. 2 Cor 5, 18 s.
34. Const. dogm. sobre a Igreja Lumen Gentium, 1.
35. «Por sua própria natureza, a Igreja é sempre
reconciliadora porque transmite aos outros o dom que ela mesma recebeu, o dom
de ser perdoada e tornada algo unido com Deus»: JOÃO PAULO II, Discurso em
Liverpool (30 de Maio de 1982), 3: Insegnamenti V, 2 (1982) 1992.
36. Cf. Act 15, 2-33.
37. Cf. Exort. Apostólica Evangelii Nuntiandi, n. 13: AAS
67 (1976), p. 12 s.
38. Cf. JOÃO PAULO II, Exort. Apostólica Catechesi
Tradendae, n. 24: AAS 71 (1979), p. 1297.
39 .Cf. PAULO VI, Encíclica Ecclesiam Suam: AAS 56 (1964),
609-659.
40. 2 Cor 5, 20.
41. Cf. 1 Jo 4, 8.
42. Cf Sab 11, 24-26; Gén 1, 27; Sl 8, 4-8.
43.
Cf. Sab 2, 24.
44. Cf.
Gén 3, 12 S., 4, 1-16.
45. Ef 2,
4
46.
Cf. Ef 1, 10.
47. Jo 13,
34.
48. Cf.
CONC. ECUM. VATICANO
II, Const. past. sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, 38.
49. Cf. Mc 1, 15.
50. 2 Cor 5, 20
51. Ef 2, 14-16.
52. Cf. S. AGOSTINHO, De Civitate Dei, XXII, 17: CCL 48,
835 s.; S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologiae, pars III, q.
53. Cf. PAULO VI, Alocução no encerramento da Terceira
Sessão do Concílio Ecumenico Vaticano II (21 de Novembro de 1964): AAS 56
(1964), 1015-1018.
54. CONC. ECUM. VATICANO II, Const. dogm. sobre a Igreja
Lumen Gentium, 39.
55. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Decr. sobre o Ecumenismo
Unitatis Redintegratio, 4.
56. 1 Jo 1, 8 s.
57. 1 Jo 3, 20; cf. a referência por mim feita a este
texto, no discurso na Audiência Geral de 14 de Março de 1984;Insegnamenti VII,
1 (1984), p. 683.
58. Cf. 2
Sam 11-12.
59.
Sl 50 [51], 5 s.
60. Lc 15,
18-21.
61. Lettere, Firenze, 1970, I, pp. 3 s.; Il Dialogo della
Divina Provvidenza, Roma, 1980, passim.
62. Cf.
Rom 3, 23-26.
63.
Cf. Ef 1, 18.
64. Cf.
Gén 11, 1-9.
65. Cf Sl 127 (126), 1.
66. Cf. 2
Tess 2, 7.
67. Cf.
Rom 7, 7-25; Ef 2, 2; 6, 12.
68. É significativa a terminologia usada na tradução grega
dos LXX e no Novo Testamento acerca do pecado. A designação mais comum é a de
hamartía, a que há que juntar outras palavras da mesma raiz. Esta exprime o
conceito de faltar mais ou menos gravemente, quer contra uma norma ou uma lei,
quer contra uma pessoa ou mesmo até contra uma divindade. Mas o pecado é também
designado adikía, cujo significado é o de praticar a injustica. Falar-se-á
também de parábasis ou transgressão; de asébeia, impiedade, e outros conceitos;
todos em conjunto dão-nos a imagem do pecado.
69. Gén 3, 5: «Tornar-vos-eis como Deus, conhecendo o bem
e o mal»; cf. também o v. 22.
70. Cf. Gén 3 12.
71. Cf. Gén 4, 2-16.
73. Cf. Mt 22, 39; Mc 12, 31; Lc 10, 27 s.
74. Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Instrução sobre
alguns aspectos da «Teologia da Libertação» Libertatis Nuntius: (6 de Agosto de
1984), IV, 14-15: AAS 76 (1984), 885 s.
75. Cf. Núm 15, 30.
76. Cf. Lev 18, 26-30.
77. Cf. Lev 19 4.
78. Lev 20 1-7.
79. Cf. Ex 21, 17.
80. Cf. Lev 4, 2 ss.; 5, 1 ss.; Núm 15, 22-29.
81. Cf. Mt
5, 28; 6, 23; 12, 31 s.; 15, 19; Mc 3, 28-30; Rom 1, 29-31; 13, 13; Tg 4.
82. Cf. Mt
5,17; 15,1-10; Mc 10, 19; Lc 18, 20.
8.3 Cf. 1
Jo 5, 16 s.
84. Cf. Jo 17, 3.
85. 1 Jo 2, 22.
86. Cf. 1 Jo 5, 16-21.
87. Cf. 1 Jo 5, 16-21.
88. Mt 12, 31 s.
89. Cf. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologiae, Ia-IIae, q.
14, aa. 1-3.
90. Cf. 1 Jo 3, 20.
91. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologiae, IIa-IIae, q.
92
.Cf. Flp 2, 12.
93. Cf.
94. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologiae, Ia-IIae, q.
95. Cf. CONC. ECUM. TRIDENTINO, Sessio VI, De
iustificatione, cap. II, e Câns. 23, 25, 27: Conciliorum Oecumenicorum Decreta,
Bologna 19733, 671. 680 s. (DS 1573, 1575, 1577).
96. Cf. CONC. ECUM. TRIDENTINO, Sessio VI, De
iustificiatione, cap. XV: Conciliorum Oecumenicorum Decreta, ed. cit., 677 (DS
1544).
97. JOÃO PAULO II, Angelus de 14 de Março de 1982:
Insegnamenti V, 1 (1982), 861.
98. Const. past. sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo,
Gaudium et Spes, 16.
99. JOÃO PAULO II, Angelus de 14 de Março de
1982:Insegnamenti V, 1 (1982), 860.
100. PIO XII, Radiomensagem ao Congresso Catequístico
Nacional dos Estados Unidos em Bostom (26 de Outubro de 1946): Discorsi e
Radiomessaggi, VIII (1946), 288.
101. Cf. JOÃO PAULO II, Encíclica Redemptor Hominis, 15:
AAS 71 (1979), 286-289.
10.2 Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Const. past. sobre a
Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, 3; cf. 1 Jo 3, 9.
103. JOÃO PAULO II, Discurso aos Bispos da Região Leste da
França (1° de Abril de 1982), 2: Insegnamenti V, 1 (1982), 1081.
104. 1 Tim 3, 15 s.
105. O texto oferece, por isso, uma certa dificuldade de
leitura, uma vez que o pronome relativo, que abre a citação literal, não
concorda com o neutro «mysterion». Alguns manuscritos tardios retocaram o texto
para o corrigir gramaticalmente; mas São Paulo pretendeu somente justapor ao
seu um outro texto venerável, que lhe parecia plenamente esclarecedor.
107. 1 Jo 5, 18 s.
108. 1 Jo 3, 9.
109. 1 Tim 3, 15.
110. 1 Jo 1, 8.
111. 1 Jo
5, 19.
112. Cf. Sl 51 (50), 7.
113.
Cf. Ef 2, 4.
114. Cf. JOÃO PAULO II, Encíclica Dives in Misericordia,
VIII, 15: AAS 72 (1980), 1203-1207; 1231.
115. 2 Sam
12, 13.
116.
Sl 51 (50), 5.
117.
Sl 51 (50), 9.
118. 2 Sam
12, 13.
119. Cf. 2
Cor 5, 18.
120. Cf 2
Cor 5, 19.
121. Const past. sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo
Gaudium et Spes, 92.
122. Cf. Decr. sobre o Múnus Pastoral dos Bispos Christus
Dominus, 13; cf. Decl. sobre a Educação Cristã Gravissimum Educationis, 8;
Decr. sobre a Actividade Missionária da Igreja Ad Gentes, 11. 12.
123. Cf. PAULO VI, Encíclica Ecclesiam Suam, III: AAS 56
(1964), 639-659.
124. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen Gentium, 1. 9. 13.
125. PAULO VI, Exort. Apostólica Paterna cum Benevolentia:
AAS 67 (1975), 5-23.
126. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Decr. sobre o Ecumenismo
Unitatis Redintegratio, 7-8.
127. Ibidem, 4.
128. S. AGOSTINHO, Sermo 96, 7: PL 38, 588.
129. JOÃO PAULO II, Discurso aos Membros do Corpo
Diplomático acreditado junto da Santa Sé (15 de Janeiro de 1983), 4. 6. 11: AAS
75 (1983), 376. 378 s.; 381.
130. JOÃO PAULO II, Homilia da Missa do XVI Dia Mundial da
Paz (1· de Janeiro de 1983), 6: Insegnamenti, VI, 1 (1983), 7.
131. PAULO VI, Exort. Apostólica Evangelii Nuntiandi, 70:
AAS 68 (1976), 59 s.
132. 1 Tim 3, 15.
133. Cf. Mt 5, 23 s.
134. Cf. Mt 5, 38-40.
135. Cf.
Mt 6, 12.
136. Cf.
Mt 5, 43 ss.
137. Cf.
Mt 18, 21 s.
138. Cf.
Mc 1, 4. 14; Mt 3, 2; 4, 17; Lc 3, 8.
139. Cf.
Lc 15, 17.
140. Cf.
Lc 17, 3 s.
141. Cf.
Mt 3, 2; Mc 1, 2b; Lc 3, 1-6.
142. Cf. Const. past. sobre a Igreja no Mundo
Contemporâneo Gaudium et Spes, 8. 16. 19. 26. 41. 48.
143. Cf. Declaração sobre a Liberdade Religiosa Dignitatis
Humanae, 2. 3. 4.
144. Cf. entre muitos outros, os discursos nas Audiências
Gerais de 28 de Março de 1973: Insegnamenti, XI (1973), 294 ss.; 8 de Agosto de
1973: Ibidem, 772 ss.; 7 de Novembro de 1973: Ibidem, 1054 ss.; 13 de Março de
1974: Insegnamenti, XVI (1974), 230 ss.; 8 de Maio de 1974: Ibidem, 402 ss., 12
de Fevereiro de 1975: Insegnamenti, XIII (1975), 154 ss., 9 de Abril de 1975:
Ibidem, 290 ss.; 13 de Julho de 1977: Insegnamenti, XV (1977), 710 ss.
145. Cf. JOÃO PAULO II, Angelus de 17 de Março de 1982:
Insegnamenti, V, 1 (1982), 860 s.
146. Cf. JOÃO PAULO II, Discurso na Audiência Geral de 17
de Agosto de 1983, 1-3: Insegnamenti, VI, 2 (1983), 256 s.
147. Hebr
4, 15.
148. Cf.
Mt 4, 1-11; Mc 1, 12 s.; Lc 4, 1-13.
149. Cf. 1
Cor 10, 13.
150. Cf.
Mt 6, 13; Lc 11, 4.
151. 1 Pdr
3, 21.
152. Cf.
Rom 6, 3 s.;
153 .Cf.
Mt 3, 11; Lc 3, 16; Jo 1, 33; Act 1, 5; 11, 16.
154. Cf. Mt 3, 15.
155. S. AGOSTINHO, In Iohannis Evangelium tractatus, 26,
13: CCL 36, 266.
156. S. CONGREGAÇÃO DOS RITOS, Instr. sobre o Culto do
Mistério Eucarístico Eucharisticum Mysterium (25 de Maio de 1967), 35:AAS 59 (1967),
560 s.
157.
Sl 78 (77), 38 s.
158. Cf.
Jo 1, 29; Is 53, 7. 12.
159. Cf Jo
5, 27.
160. Cf.
Mt 9, 2-7; Lc 5, 18-25; 7, 47-49, Mc 2, 3-12.
161. Cf.
Jo 3, 17.
162. Jo 20, 22; Mt 18, 18; cf. também, pelo que diz
respeito a Pedro, Mt 16, 19. 0 Beato Isac della Stella, num seu discurso sobre
a plena comunhão de Cristo com a Igreja no que se refere à remissão dos
pecados, acentua: «A Igreja nada pode perdoar sem Cristo e Cristo nada quer
perdoar sem a Igreja. A Igreja não pode perdoar senão a quem é penitente, isto
é, a quem Cristo tocou com a sua graça; e Cristo nada quer considerar como
perdoado a quem despreza a sua Igreja»: Sermo 11 (In dominica III post
Epiphaniam, I): PL 194, 1729.
163. Cf. Mt 12, 49 s.; Mc 3, 33 s.; Lc 8, 20 s.;Rom 8, 29:
«primogénito entre muitos irmãos».
164.
Cf Hebr 2, 17- 4, 15.
165. Cf.
Mt 18, 12 s.; Lc 15, 4-6.
166. Cf.
Lc 5, 31 s.
167. Cf.
Mt 22, 16.
168. Act
10, 42.
169. Jo 8, 16.
170. Cf. Discurso aos Penitenciários das Basílicas
Patriarcais de Roma e aos Sacerdotes confessores, ao terminar o Jubileu da
Redenção (9 de Julho de 1984): L'Osservatore Romano, 9-10 de Julho de 1984.
171. Jo 8,
11.
172.
Cf. Tit 3, 4.
173. Cf.
CONC. ECUM.
TRIDENTINO, Sessio XIV, De sacramento Poenitentiae, cap. I e cân. 1:
Conciliorum Oecumenicorum Decreta, ed. cit., 703 s., 711 (DS 1668-1670. 1701).
174. Cf. Const. dogm. sobre a Igreja Lumen Gentium, 11.
175. Cf. CONC. ECUM. TRIDENTINO, Sessio XIV, De sacramento
Poenitentiae, cap. I e cân. 1: Conciliorum Oecumenicorum Decreta, ed. cit., 703
s., 711 (DS 1668-1670. 1701).
176. Cf. Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 72.
177. Cf. Rituale Romanum ex Decreto Sacrosancti Concilii
Oecumenici Vaticani II instauratum, auctoritate Pauli VI promulgatum. Ordo Paenitentiae,
Typis Polyglottis Vaticanis, 1974.
178. O Concílio de Trento usa a expressão atenuada «ad
instar actus iudicialis» (Sessio XIV, De sacramento Poenitentiae, cap. 6:
Conciliorum Oecumenicorum Decreta, ed. cit., 707 [DS 1685]), para frisar a diferença
relativamente aos tribunais humanos. O novo Ritual da Penitência alude a esta
função, nn. 6 b e
179. Cf. Lc 5, 31 s.: Não são os que gozam de saúde que
precisam de médico, mas sim os que estão doentes», com a conclusão: «Eu (...)
vim para chamar (...) os pecadores para que se arrependam; Lc 9, 2: «enviou-os
a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos». A imagem de Cristo-médico
adquire novas e impressionantes tonalidades, se a pusermos em confronto com a
figura daquele «Servo de Javé» do qual o Livro de Isaías profetizava que «ele
tomou sobre si as nossas enfermidades carregou-se com as nossas dores» e que
«pelas suas chagas nós fomos curados» (Is 53, 4 s.).
180. S. AGOSTINHO, Sermo 82 8: PL 38, 511.
181. Cf. S. AGOSTINHO, Sermo 352, 3, 8-9- PL 39, 1558 s.
182. Cf. Ordo Paenitentiae 6 c.
183. Já os pagãos — como Sófocles (Antígona vv. 450-460) e
Aristóteles (Rhetor., lib. I, cap. 15, 1375 a-b) reconheciam a existência de
normas morais «divinas», que existiram «desde sempre» profundamente gravadas no
coração do homem.
184. Sobre este papel de consciência, cf. aquilo que tive
ocasião de dizer no decorrer da Audiência Geral de 14 de Março de 1984, 3:
Insegnamenti, VII, 1 (1984), 683.
185. Cf. CONC. ECUM. TRIDENTINO, Sessio XIV, De sacramento
Poenitentiae, cap. IV De contritione: Conciliorum Oecumenicorum Decreta, ed.
cit., 705 (DS 1676-1677). Como é conhecido, para se aproximar do sacramento da
Penitência é suficiente a atrição, ou seja, um arrependimento imperfeito,
devido mais ao temor do que ao amor; mas, no âmbito do Sacramento, sob a acção
da graça que recebe, o penitente «ex attrito fit contritus»; de tal modo que a
Penitência, de facto, produz como efeito em quem se aproximar dela bem disposto
a conversão no amor: cf. CONC. ECUM. TRIDENTINO, ibidem, ed. cit., 705 (DS
1678).
186. Cf. Ordo Paenitentiae, 6 c.
187. Cf. Sl 51 (50), 14.
188. Sobre estes aspectos da Penitência, todos eles
fundamentais, tive ocasião de falar nas Audiência Gerais de: 19 de Maio de
1982: Insegnamenti V, 2 (1982), 1758 ss.; 28 de Fevereiro de 1979:
Insegnamenti, II (1979), 475-478; de 21 de Março de 1984: Insegnamenti, VII, 1
(1984), 720-722. Chama-se também a atenção para as normas do Código de Direito
Canónico, que dizem respeito ao lugar para a administração do Sacramento e aos
confessionários (cân. 964, 2-3).
189. Tratei resumidamente do tema no decorrer da Audiência
Geral de 7 de Março de 1984: Insegnamenti, VII, 1 (1984), 63 1-633.
190.
Cf. Gén 4, 7. 15.
191. Cf. 2
Sam 12.
192. Cf.
Lc 15, 17-21.
193. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Decr. sobre o Ministério
e Vida dos Sacerdotes Presbyterorum Ordinis, 18.
194. Ordo Paenitentiae, 7 b.
195. Cf. Ordo Paenitentiae, 17.
196. Câns.
961-963.
197.
Cf. Ez 18, 23.
198. Cf.
Is 42, 3; Mt 12, 20.
199. Cf. Exort. Apostólica Familiaris Consortio, 84: AAS
74 (1982), 184-186.
200. Cf 1
Pdr 1, 1 s.; 3, 8.
201. 1 Pdr
3, 9. 13.
202. 1 Pdr
3, 8. 9. 13
203. 1 Pdr 3, 17.
204. Ladaínha do Sagrado Coração de Jesus; cf. 1 Jo 2, 2;
Ef 2, 14; Rom 3, 25; 5, 11.
205. JOÃO PAULO II, Discurso na Audiência Geral de 7 de
Dezembro de 1983, n. 2: Insegnamenti, VI, 2 (1983), 1264.
206. JOÃO PAULO II, Discurso da Audiência Geral de 4 de
Janeiro de 1984: Insegnamenti, VII, 1 (1984), 16-18.
207. Cf. Rom 1, 5; 16, 26.
|
HISTÓRIA |
Recursos
Breve história do Sacramento da Penitência
·
No Evangelho vemos Jesus como "Aquele que
salvará seu povo de seus pecados" (MT. 1,21). É o próprio Jesus quem
perdoa o paralítico e a pecadora.
·
Jesus comunica seu poder de perdoar a seus
Apóstolos. Assim como Deus Pai deu tudo a Jesus, assim também Jesus comunica à
Igreja, esse poder de perdoar que Ele emanava para regenerar os homens.
"Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados" afirma
textualmente o Evangelho, (Jo 20, 23).
·
A Igreja por meio de seus ministros em nome
de Jesus outorga o perdão tal como fazia Jesus.
·
Na Igreja primitiva, a Penitência se tornou uma
tábua de salvação para o pecador batizado. Mas se propagou a prática de limitar
o freqüente acesso ao sacramento para evitar abusos. São João Crisóstomo se via
reprovado por seus adversários por outorgar sem descanso penitência e o perdão
dos pecados aos fiéis que vinham arrependidos.
·
No século III, o rigor de que falávamos dá lugar a
excessos e heresia. Propaga-se a heresia de Montano, que pregava que o final do
mundo estava próximo e dizia: "A Igreja pode perdoar os pecados, mas eu
não o farei para que outros não pequem mais". Tertuliano e muitos outros
se aderem ao "montanismo".
·
Com grandes dificuldades, a Igreja superou esta
heresia, esclarecendo o estatuto do penitente e a forma pública e solene em que
devia desenvolver a disciplina sacramental da penitência.
·
Depois que a Igreja impôs a penitência, os
pecadores se constituíam em um grupo penitencial ou "ordem dos
penitentes". Os pecados não se proclamavam em público, mas se era pública
a entrada do grupo já que se fazia diante do bispo e dos fiéis.
·
O "ordem dos penitentes" mantinha um
longo tempo de renúncia ao mundo, semelhante ao dos monges mais austeros. Segundo
a região, os penitentes levavam um hábito especial ou a cabeça raspada.
·
O bispo fixava a medida da penitência. "a cada
pecado corresponde sua penitência adequada, plena e justa".
Fixavam-se as obrigações penitenciais por meio de concílios locais, ex. Elvira,
na Espanha ou Arlés, na França. As obrigações penitenciais eram de tipo geral,
litúrgicas e as estritamente penitenciais, como a vida mortificada, jejuns,
esmolas e outras formas de virtude exterior.
·
Na prática ocorria que as pessoas iam
pospondo o tempo de penitência até a hora da morte, fazendo da penitência, um
exercício de preparação para bem morrer, porque só podia ser exercitada uma
vez.
·
O processo penitencial equivalia a um verdadeiro
estado de excomunhão. Até que o penitente não fora reconciliado, não podia
aproximar-se da Eucaristia. O término do processo penitencial era a
reconciliação com a Igreja, sinal da reconciliação com Deus.
·
A partir do século V se realizava a reconciliação
Na quinta-feira Santa, ao término de uma quaresma que, de por si, já é um
exercício penitencial.
·
O bispo acolhia e impunha as mãos aos penitentes,
em sinal de bênção. A prece dos fiéis era o eco comunitário desta
reconciliação.
·
Enquanto, nas Ilhas Britânicas, especialmente na
Irlanda, ia abrindo passo a um novo procedimento de reconciliação com
penitência privada com um sacerdote e utilizando os famosos manuais de pecados
(penitenciais), confeccionados por alguns Padres da Igreja, como Santo
Agostinho ou Cesáreo de Arlés. Das Igrejas Celtas, esta forma de penitência se
propaga pela Europa.
·
Os manuais penitenciais estabeleciam a penitência
segundo o pecado cometido e foram muito importantes para evitar o
"barateamento do perdão" e o relaxamento do compromisso cristão.
Ajudaram também a desmascarar as heresias dos séculos III ao VII. Delimitavam o
que que é pecado grave, fruto da malícia e o que é pecado leve, cometido por
debilidade ou imprudência.
·
Renuncia-se ao princípio de outorgar a
reconciliação uma só vez na vida.
·
Concílio de Trento reiterou a fé da Igreja: a
confissão dos pecados diante dos sacerdotes, é necessária para os que caíram
(gravemente) depois do Batismo.
A confissão íntegra, por parte do penitente, e a absolvição, por parte
do sacerdote que preside o Sacramento e que faz de mediador do julgamento
benévolo e regenerador de Deus sobre o pecador, vêm sendo as duas colunas da
disciplina do Concílio de Trento até nossos dias, (Código de Direitos
Canônicos, Cânon 960).
|
MISERICORDIA DEI |
CARTA APOSTÓLICA DE
JOÃO PAULO II
SOB FORMA DE «MOTU PROPRIO»
MISERICORDIA DEI
Pela misericórdia de Deus, Pai que reconcilia, o Verbo
encarnou no seio puríssimo da Bem-aventurada Virgem Maria para salvar «o povo
dos seus pecados» (Mt 1,21) e abrir-lhe «o caminho da salvação».(1) São João Baptista
confirma esta missão, indicando Jesus como o «Cordeiro de Deus», «Aquele que
tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Toda a obra e a pregação do Precursor é uma
chamada enérgica e premente à penitência e à conversão, cujo sinal é o baptismo
administrado nas águas do Jordão. Também Jesus se submeteu àquele rito
penitencial (cf. Mt 3,13-17), não porque tenha pecado, mas porque «Se deixa
contar entre o número dos pecadores; é já o “Cordeiro de Deus que tira o pecado
do mundo” (Jo 1,29), e antecipa já o “baptismo” da sua morte sangrenta».(2)
Assim, a salvação é, antes de mais nada, redenção do pecado, enquanto
impedimento da amizade com Deus, e libertaçãodo estado de escravidão, no qual
se encontra o homem que cedeu à tentação do Maligno e perdeu a liberdade dos
filhos de Deus (cf. Rom 8,21).
A missão confiada por Cristo aos Apóstolos é o anúncio do
Reino de Deus e a pregação do Evangelho tendo em vista a conversão (cf. Mc
16,15; Mt 28,18-20). Na tarde do mesmo dia da Ressurreição, quando está
iminente o início da missão apostólica, Jesus confere aos Apóstolos, pela força
do Espírito Santo, o poder de reconciliar com Deus e com a Igreja os pecadores
arrependidos: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados,
ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos» (Jo
20,22-23).(3)
Na incessante praxe da Igreja ao longo da história, o
«ministério da reconciliação» (2Cor 5,18), actuada mediante os sacramentos do
Baptismo e da Penitência, revelou-se sempre um empenho pastoral vivamente
prezado, realizado segundo o mandato de Jesus como parte essencial do
ministério sacerdotal. A celebração do sacramento da Penitência conheceu, ao
longo dos séculos, uma evolução com diversas formas expressivas, mas sempre
conservando a mesma estrutura fundamental que compreende necessariamente, além
da participação do ministro — só um Bispo ou um presbítero, que julga e
absolve, cura e sara
Na Carta Apostólica Novo millennio ineunte, escrevi:
«Solicito ainda uma renovada coragem pastoral para, na pedagogia quotidiana das
comunidades cristãs, se propor de forma persuasiva e eficaz a prática do
Sacramento da Reconciliação. Em 1984, como recordareis, intervim sobre este
tema através da Exortação pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, na qual
foram recolhidos os frutos da reflexão da Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos
dedicada a esta problemática. Lá, convidava a que se fizesse todo o esforço
para superar a crise do «sentido do pecado». [...] Quando o referido Sínodo se
debruçou sobre o tema, estava à vista de todos a crise deste Sacramento,
sobretudo nalgumas regiões do mundo. E os motivos que a originaram, não
desapareceram neste breve espaço de tempo. Mas o Ano Jubilar, que foi
caracterizado particularmente pelo recurso à Penitência sacramental,
ofereceu-nos uma estimulante mensagem que não deve ser perdida: se tantos fiéis
— jovens muitos deles — se aproximaram frutuosamente deste Sacramento,
provavelmente é necessário que os Pastores se armem de maior confiança,
criatividade e perseverança para o apresentarem e fazerem-no valorizar».(4)
Com estas palavras, quis e quero encorajar e, ao mesmo
tempo, dirigir um forte convite aos meus irmãos Bispos — e, através deles, a
todos os presbíteros — para um solícito relançamento do sacramento da
Reconciliação, inclusive como exigência de autêntica caridade e de verdadeira
justiça pastoral,(5) lembrando-lhes que cada fiel, com as devidas disposições
interiores, tem o direito de receber pessoalmente o dom sacramental.
A fim de que o ministro do sacramento possa realizar o
discernimento sobre as disposições dos penitentes para receber ou não a
absolvição e para a devida penitência que há-de impor, é necessário que o fiel,
além da noção das faltas cometidas, da dor dos pecados e do propósito de não
tornar a cair,(6) confesse os seus pecados. Neste sentido, o Concílio de Trento
declarou que é necessário, «por direito divino, confessar todos e cada um dos
pecados mortais».(7) A Igreja viu sempre um nexo essencial entre o juízo
confiado aos sacerdotes neste sacramento e a necessidade que os penitentes
declarem os próprios pecados,(8) salvo nos casos de impossibilidade. Portanto,
sendo a confissão completa dos pecados graves, por instituição divina, parte
constitutiva do sacramento, ela não está de modo algum confiada à livre
disposição dos Pastores (dispensa, interpretação, costumes locais, etc.). A
competente Autoridade eclesiástica especifica unicamente — nas relativas normas
disciplinares — os critérios para distinguir a impossibilidade real de
confessar os pecados de outras situações cuja impossibilidade é só aparente ou
de qualquer modo superável.
Nas actuais circunstâncias pastorais, para atender aos
pedidos apreensivos de numerosos Irmãos no Episcopado, considero conveniente
recordar algumas leis canónicas em vigor sobre a celebração deste sacramento,
especificando certos aspectos para, em espírito de comunhão com a
responsabilidade que é própria de todo o Episcopado,(9) favorecer uma melhor
administração daquele. Trata-se de tornar efectiva e de tutelar uma celebração
cada vez mais fiel, e portanto sempre mais proveitosa, do dom confiado à Igreja
pelo Senhor Jesus depois da ressurreição (cf. Jo 20, 19-23). Isto revela-se
especialmente necessário quando se observa em certas regiões a tendência ao
abandono da confissão pessoal, juntamente a um recurso abusivo à «absolvição
geral» ou «colectiva», de modo que esta deixa de ser vista como meio
extraordinário em situações totalmente excepcionais. Partindo de um alargamento
arbitrário do requisito da grave necessidade,(10) perde-se de vista
praticamente a fidelidade à configuração divina do sacramento, e concretamente
a necessidade da confissão individual, com graves danos para a vida espiritual
dos fiéis e para a santidade da Igreja.
Portanto, depois de ouvir a este respeito a Congregação
para a Doutrina da Fé, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos e o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, bem como os
pareceres dos venerados Irmãos Cardeais que estão à frente dos Dicastérios da
Cúria Romana, reiterando a doutrina católica relativa ao sacramento da
Penitência e da Reconciliação exposta sinteticamente no Catecismo da Igreja
Católica,(11) ciente da minha responsabilidade pastoral e com plena consciência
da necessidade e eficácia sempre actual deste sacramento, disponho o seguinte:
1. Os Ordinários lembrem a todos os ministros do sacramento
da Penitência que a lei universal da Igreja reafirmou, aplicando a doutrina
católica nesta matéria, que:
a) «A confissão individual e íntegra e a absolvição
constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave,
se reconcilia com Deus e com a Igreja; somente a impossibilidade física ou
moral o escusa desta forma de confissão, podendo neste caso obter-se a
reconciliação também por outros meios».(12)
b) Por isso, «todo aquele que, em razão do ofício, tem
cura de almas, está obrigado a providenciar para que sejam ouvidas as
confissões dos fiéis que lhe estão confiados e que de modo razoável peçam para
se confessar, a fim de que aos mesmos se ofereça a oportunidade de se
confessarem individualmente em dias e horas que lhes sejam convenientes».(13)
Além disso, todos os sacerdotes com faculdade de
administrar o sacramento da Penitência, mostrem-se sempre e plenamente
dispostos a administrá-lo todas as vezes que os fiéis o peçam
razoavelmente.(14) A falta de disponibilidade para acolher as ovelhas feridas,
mais, para ir ao seu encontro e reconduzi-las ao aprisco, seria um doloroso
sinal de carência de sentido pastoral em quem, pela Ordenação sacerdotal, deve
reproduzir em si mesmo a imagem do Bom Pastor.
2. Os Ordinários do lugar, bem como os párocos e os
reitores de igrejas e santuários, devem verificar periodicamente se existem
efectivamente as maiores facilidades possíveis para as confissões dos fiéis. De
modo particular, recomenda-se a presença visível dos confessores nos lugares de
culto durante os horários previstos, a acomodação destes horários à situação
real dos penitentes, e uma especial disponibilidade para confessar antes das
Missas e mesmo para ir de encontro à necessidade dos fiéis durante a celebração
da Eucaristia, se houver outros sacerdotes disponíveis.(15)
3.Visto que «o fiel tem obrigação de confessar, na sua
espécie e número, todos os pecados graves de que se lembrar após diligente
exame de consciência, cometidos depois do baptismo e ainda não directamente
perdoados pelo poder das chaves da Igreja nem acusados em confissão
individual»,(16) seja reprovado qualquer costume que limite a confissão a uma
acusação genérica ou somente de um ou mais pecados considerados significativos.
Por outro lado, levando-se em conta a chamada de todos os fiéis à santidade,
recomenda-se-lhes que confessem também os pecados veniais.(17)
4. À luz e no âmbito das normas precedentes, deve ser
entendida e rectamente aplicada a absolvição simultânea de vários penitentes
sem prévia confissão individual, prevista no cân. 961 do Código de Direito
Canónico. Aquela, com efeito, «reveste-se de carácter excepcional»(18) e «não
pode dar-se de modo geral, a não ser que:
1º) seja iminente o perigo de morte, e não haja tempo para
um ou mais sacerdotes poderem ouvir a confissão de cada um dos penitentes;
2º) haja grave necessidade, isto é, quando, dado o número
de penitentes, não houver sacerdotes suficientes para, dentro de tempo
razoável, ouvirem devidamente as confissões de cada um, de tal modo que os penitentes,
sem culpa própria, fossem obrigados a permanecer durante muito tempo privados
da graça sacramental e da sagrada comunhão; não se considera existir
necessidade suficiente quando não possam estar presentes confessores bastantes
somente por motivo de grande afluência de penitentes, como pode suceder nalguma
grande festividade ou peregrinação».(19)
A respeito do caso de grave necessidade, especifica-se o
seguinte:
a) Trata-se de situações objectivamente excepcionais, como
as que se podem verificar nos territórios de missão ou em comunidades de fiéis
isolados, onde o sacerdote só pode passar uma ou poucas vezes ao ano, ou quando
as condições de guerra, meteorológicas ou outras circunstâncias semelhantes o
consintam.
b) As duas condições estabelecidas no cânone para
configurar uma grave necessidade são inseparáveis, de modo que nunca é
suficiente a mera impossibilidade de confessar «devidamente» cada um dos
indivíduos «dentro de tempo razoável» devido à escassez de sacerdotes; mas a
tal impossibilidade deve associar-se o facto de que, caso contrário, os
penitentes ver-se-iam obrigados a permanecer «durante muito tempo», sem culpa
própria, privados da graça sacramental. Deve-se, por isso, ter presente o
conjunto das circunstâncias dos penitentes e da diocese, quando se atende à sua
organização pastoral e à possibilidade de acesso dos fiéis ao sacramento da
Penitência.
c) A primeira condição — a impossibilidade de ouvir
«devidamente» as confissões «dentro de um tempo razoável» — refere-se só ao
tempo normalmente requerido para a essencial administração válida e digna do
sacramento, não sendo relevante a este respeito um colóquio pastoral mais
amplo, que pode ser adiado para circuns- tâncias mais favoráveis. Este tempo
razoavelmente oportuno para nele se ouvir as confissões, dependerá das
possibilidades reais do confessor ou confessores e dos mesmos penitentes.
d) Quanto à segunda condição, caberá avaliar com um juízo
prudencial qual seja a extensão do tempo de privação da graça sacramental a fim
de que haja verdadeira impossibilidade conforme o cân. 960, sempre que não se
esteja perante iminente perigo de morte. Tal juízo não é prudencial, se se
desvirtua o sentido da impossibilidade física ou moral como no caso, por
exemplo, de considerar que um período inferior a um mês implicaria permanecer
«durante muito tempo» em tal privação.
e) Não é admissível criar ou permitir que se criem
situações de aparente grave necessidade, derivadas da omissão da administração
ordinária do sacramento pelo não cumprimento das normas acima indicadas(20) e,
muito menos, da opção dos penitentes pela absolvição geral, como se se tratasse
de uma possibilidade normal e equivalente às duas formas ordinárias descritas
no Ritual.
f) Não constitui suficiente necessidade, a mera grande afluência
de penitentes, não só em ocasiões de uma festa solene ou de uma peregrinação,
mas nem mesmo por turismo ou outras razões semelhantes devidas à crescente
mobilidade das pessoas.
5. Não cabe ao confessor julgar se se verificam as
condições requeridas pelo cân. 961-§1, 2º, mas «ao Bispo diocesano, o qual,
atendendo aos critérios fixados por acordo com os restantes membros da
Conferência Episcopal, pode determinar os casos em que se verifique tal
necessidade».(21) Estes critérios pastorais deverão ser expressão do esforço de
total fidelidade, nas circunstâncias dos respectivos territórios, aos critérios
de fundo definidos pela disciplina universal da Igreja, que se apoiam aliás nas
exigências derivadas do mesmo sacramento da Penitência na sua divina instituição.
6. Numa matéria tão essencial para a vida da Igreja, sendo
de fundamental importância a plena harmonia entre os vários Episcopados do
mundo, as Conferências Episcopais, segundo o cân. 455-§ 2 do CDC, farão chegar
quanto antes à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos o
texto das normas que pensam estabelecer ou actualizar, à luz deste Motu
proprio, em aplicação do cân 961 do CDC. Tal medida favorecerá, sem dúvida, uma
sempre maior comunhão entre os Bispos de toda a Igreja, estimulando os fiéis de
todas as partes a recorrer abundantemente às fontes da misericórdia divina, que
sempre jorram do sacramento da Reconciliação.
Nesta perspectiva de comunhão, será também oportuno que os
Bispos diocesanos informem as respectivas Conferências Episcopais se se
verificam ou não, no próprio âmbito de jurisdição, casos de grave necessidade.
Caberá, em seguida, às Conferências Episcopais informar a sobredita Congregação
sobre a situação realmente existente no seu território, e as eventuais mudanças
que se registassem posteriormente.
7. Quanto às disposições pessoais do penitente, reitera-se
que:
a) «Para o fiel poder usufruir validamente da absolvição
concedida simultaneamente a várias pessoas, requer-se não só que esteja
devidamente disposto, mas que simultaneamente proponha confessar-se
individualmente, no devido tempo, dos pecados graves que no momento não pôde
confessar».(22)
b) Na medida do possível, inclusive no caso de iminente
perigo de morte, «instruam-se [os fiéis] a que procure cada um fazer o acto de
contrição».(23)
c) É claro que não podem receber validamente a absolvição
os penitentes que vivam em estado habitual de pecado grave e não queiram mudar
a própria situação.
8. Mantendo-se a obrigação «de confessar fielmente os pecados
graves, ao menos uma vez ao ano»,(24) «aquele a quem forem perdoados pecados
graves em absolvição geral, aproxime-se quanto antes, oferecendo-se a ocasião,
da confissão individual, antes de receber nova absolvição geral, a não ser que
surja causa justa».(25)
9. Acerca do lugar e da sede para a celebração do
sacramento tenha-se em conta que:
a) «O lugar próprio para ouvir as confissões sacramentais
é a igreja ou o oratório»,(26) deixando porém claro que razões de ordem pastoral
podem justificar as celebrações do sacramento em outros lugares;(27)
b) a sede para as confissões é disciplinada com normas
estabelecidas pelas respectivas Conferências Episcopais, as quais deverão
garantir que aquela esteja colocada «em lugar patente» e seja também «munida de
grade fixa», permitindo assim aos fiéis, e aos mesmos confessores, que o
desejem, seu livre uso.(28)
Tudo o que estabeleci, com a presente Carta apostólica
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de Abril,
Domingo da Oitava de Páscoa ou da Divina Misericórdia, no ano do Senhor de
2002, vigésimo quarto de Pontificado.
Notas
(1) Missal Romano, Prefácio do Advento I.
(2) Catecismo da Igreja Católica, 536.
(3) Cf. Conc. Ecum. de Trento, ses.XIV, De sacramento
paenitentiae, cân. 3: DS 1703.
(4) N. 37: AAS 93 (2001) 292.
(5) Cf. CDC, cân. 213 e 843, §1.
(6) Cf. Conc. Ecum. de Trento, ses.XIV, De sacramento
paenitentiae, cap. 4: DS 1676.
(7) Ibid., cân. 7: DS 1707.
(8) Cf. ibid., cap. 5: DS 1679; Conc.Ecum. de Florença,
Decr. pro Armeniis (22 de Novembro de 1439): DS 1323.
(9) Cf. cân. 392; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre
a Igreja Lumen gentium, 23.27; Decr. sobre o ministério pastoral dos bispos
Christus Dominus, 16.
(10) Cf.
cân. 961, § 1, 2º.
(11) Cf.
nn. 980-987; 1114-1134; 1420-1498.
(12) Cân. 960.
(13) Cân. 986, § 1.
(14) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ministério e
vida dos presbíteros Presbyterorum ordinis, 13; Ordo Paenitentiae, editio typica,
1974, Praenotanda, n. 10,b.
(15) Cf. Congr. para o Culto divino e a Disciplina dos
sacramentos, Responsa ad dubia proposita: «Notitiae», 37 (2001), 259-260.
(16) Cân. 988, § 1.
(17) Cf. cân. 988, § 2; João Paulo II, Exort. ap.
pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de Dezembro de 1984), 32: AAS 77
(1985) 267; Catecismo da Igreja Católica, 1458.
(18) João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio
et paenitentia (2 de Dezembro de 1984), 32: AAS 77 (1985), 267.
(19) Cân. 961, § 1.
(20) Cf. supra nn. 1 e 2.
(21) Cân. 961, § 2.
(22) Cân. 962, § 1.
(23) Cân. 962, § 2.
(24) Cân. 989.
(25) Cân. 963.
(26) Cân. 964, § 1.
(27) Cf. cân. 964, § 3.
(28) Cf. cân. 964, § 2; Pont. Cons. para a Interpretação
dos Textos legislativos, Responsa ad propositum dubium: de loco excipiendi
sacramentales confessiones (7 de Julho de 1998): AAS 90 (1998) 711.
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EXAME DE
CONSCIÊNCIA |
Precisamente por sermos pecadores, ficamos cegos diante de
nossos pecados. Satanás quer nos fazer ver que não há mal no que fazemos. Então
o coração se endurece, torna-se insensível às exigências do amor. Por isso é
tão importante a conversão do coração.
"Por isso, como diz o Espírito Santo: "Se
escutardes hoje MINHA voz, não endureceis o coração... Atenção irmãos! Que
nenhum de vós tenhais um coração mau e incrédulo..." Hb 3.
Deus é um Pai amoroso que nos faz ver o pecado para nos
dar a graça do arrependimento e nos perdoar. O nos quer livres. O demônio não
quer que vejamos nosso pecado. Mas se procurarmos o caminho de Deus tratará de
nos acusar com nossos pecados para que nós desanimemos e voltemos atrás.
Podemos discernir então a diferença. Deus mostra o pecado para libertar e
perdoar; o demônio o esconde mas quando o mostra é para que nos desesperemos.
Devemos rejeitar energicamente estes pensamentos e ir à confissão com toda
confiança no perdão de Deus. Deus SEMPRE perdoa quando há arrependimento.
É muito proveitoso fazer exame de consciência diário e
também, com toda humildade, nos abrir a que pessoas próximas de nós nos
corrijam. "Se examinássemos a nós mesmos, não seríamos condenados."
(1 Cor. 11, 31)
O exame se faz diante de Deus, escutando sua voz na
consciência.
Preparação
para a confissão
Preparação remota: Educamo-nos na fé pelo estudo da Palavra, o Catecismo,
leitura dos Santos, participação nos ensinamentos... A prática séria do que
aprendemos. O exame diário de consciência.
Preparação imediata: O exame de consciência antes de confessar. Vamos a
um lugar tranqüilo, preferivelmente diante do sacrário, para orar. Só Deus pode
iluminar sobre nossa realidade e nos dar os meios para responder à graça.
Contemplamos a vida de Jesus e seu amor manifesto em Sua
Cruz. "Contemplai ao que transpassaram" Jo 19:37. Como respondi a
tanto amor, a tantas graças?. Examinamos nossa vida diante da lei de
Deus. Por isso ajuda ter um exame escrito que nos recorde o que esquecemos.
Recordamos que não se trata de sugestões, Deus nos deu MANDAMENTOS. Quebrá-los
é quebrar nossa aliança com Deus e cair em pecado.
Não se trata tão somente de enumerar pecados mas sim de
descobrir a atitude do coração e com DOR POR NOSSOS PECADOS, FAZER O FIRME
PROPÓSITO DE NÃO VOLTAR A COMETÊ-LOS.
Sempre há áreas nas quais somos mais fracos e requerem
atenção especial mas se compreendermos que Cristo -não a cultura- é a medida,
veremos que em tudo temos muito que crescer.
A confissão só pode ser feita diante de um
sacerdote.
Exame de conciência com base nas
quatro rupturas
Examine-se - ajudado por estas perguntas - quais pecados
você cometeu desde sua última confissão? Trate de não ficar no exterior, mas
sim nas atitudes do coração e as omissões.
Ruptura com Deus:
Amo na verdade a Deus com todo meu coração ou vivo mais
apegado às coisas materiais?
Preocupei-me por renovar minha fé cristã através da oração, a participação
ativa e atenta da missa dominical, a leitura da Palavra de Deus, etc.? Guardo
os domingos e dias de festa da Igreja? cumpri com o preceito anual da confissão
e a comunhão pascal?
Tenho uma relação de confiança e amizade com Deus, ou
cumpro somente com ritos externos?
Professei sempre, com vigor e sem temores minha fé em Deus? manifestei minha
condição de cristão na vida pública e privada?
Ofereço ao Senhor meus trabalhos e alegrias? Recorro a Ele
constantemente, ou só o busco quando o necessito?
Tenho reverência e amor para o nome de Deus ou lhe ofendo
com blasfêmias, falsos juramentos ou usando seu nome em vão?
Ruptura comigo mesmo:
Sou soberbo e vaidoso? Considero-me superior a outros?
Procuro aparentar algo que não sou para ser valorizado por
outros? Aceito a mim mesmo, ou vivo na mentira e no engano? Sou escravo de meus
complexos?
Que uso tenho feito do tempo e dos talentos que Deus me
deu? Me esforço por superar os vícios e inclinações más como a preguiça, a
avareza, a gula, a bebida, a droga?
Caí na luxúria com palavra e pensamentos impuros, com
desejos ou ações impuras?
Realizei leituras ou assisti a espetáculos que reduzem a sexualidade a um mero
objeto de prazer?
Caí na masturbação ou a fornicação? cometi adultério?
Recorri a métodos artificiais para o controle da
natalidade?
Ruptura com os irmãos e com a criação:
Amo de coração o meu próximo como a mim mesmo e como
o Senhor Jesus me pede que o ame?
Em minha família colaboro em criar um clima de
reconciliação com paciência e espírito de serviço?
Foram os filhos obedientes a seus pais, prestando-lhes
respeito e ajuda em todo momento
Preocupam-se os pais em educar na vida cristã seus
filhos e de respirá-los em seu compromisso de vida com o Senhor Jesus?
Abusei que meus irmãos mais fracos, usando-os para meus
fins?
Insultei meu próximo? Escandalizei-o gravemente com
palavras ou com ações?
Se me ofenderam, sei perdoar, ou guardo rancor e desejo de
vingança?
Compartilho meus bens e meu tempo com os mais pobres, ou
sou egoísta e indiferente à dor de outros? Participo das obras de evangelização
e promoção humana da Igreja?
Me Preocupo pelo bem e a prosperidade da comunidade humana
em que vivo ou passo a vida preocupado tão somente comigo mesmo? cumpri com
meus deveres cívicos? paguei meus tributos?
Sou invejoso? Sou fofoqueiro e enganador? Difamei ou
caluniei alguém? Violei segredos? Fiz julgamentos temerários sobre outros?
Sou mentiroso?
Causei algum dano físico ou moral a outros? Inimizei-me
com ódios, ofensas ou brigas com meu próximo? fui violento?
Procurei ou induzi ao aborto?
Fui honesto em meu trabalho? Usei corretamente a criação
ou abusei dela com fins egoístas? Roubei? Fui justo na relação com meus subordinados
tratando-os como eu gostaria de ser tratado por eles? Participei do negócio ou
consumo de droga? Caí na fraude ou estelionato?
Recebi dinheiro ilícito?
Exame de consciência a partir dos 10
Mandamentos
Este exame é para aqueles que, amando a Cristo, não se
conformam evitando pecados graves, mas sim desejam amá-lo com todo o coração.
Amará a Deus sobre todas as coisas (Primeiro mandamento).
Não tomará o nome de Deus
amei a Deus acima de tudo?
-A quem (ou o que)
dei a maior atenção?
-Fiz da minha família, trabalho, apostolados, programas, idéias ou outras
coisas boas meu primeiro amor?
-Sei na prática o que é confiar no amor e o poder de Deus?
-Confio tudo a Deus ou quero fazer tudo eu sozinho?
-Confio em Deus quando tudo parece ir mal?
-Caí na superstição ou outra prática religiosa alheia ao cristianismo?
Oração Diária
Como foi
diariamente minha vida de oração?:
-Tempo pessoal com Deus; liturgia das horas; oração familiar?
-Louvei a Deus; dei-lhe graças ou me queixei?
-Intercedo por minha família, grupo, Igreja, pelo mundo?
-Orei com o coração, aberto ao Espírito Santo?
-Tomo tempo para discernir?
-Sei o que é esperar no Senhor, escutá-lo? -Tenho feito isso?
-Quando me dá algum ensinamento eu o guardo em meu coração e procuro
aprofundá-lo?
-Incluo meu esposo/a (ou outra pessoa formada e prudente) em meu
discernimento ou só lhes informo de minhas decisões?; -Escuto, obedeço e
respeito aos que têm legitima autoridade sobre mim (leis justas, chefes,
etc.)?.
-Que critérios tenho para determinar se algo que quero fazer é do Espírito
Santo ou é meu?,-Parece-me importante ter e seguir sempre esses critérios?
-Uso os dons que Deus me deu para sua glória?
-Estou aberto a receber novos dons segundo Deus disponha?
-Fui legalista (fazendo sozinho o necessário para cumprir) ou vivo minha fé no
Espírito
me entregando com todo o coração?
Obediência
-Procuro conhecer
na oração a vontade de Deus para minha vida?
-Obedeço o ensino do magistério ou interpreto à minha maneira?
-O que motiva minha vida, a vontade de Deus ou meus próprios "bons"
planos (minha vontade).
-Permito que Deus me guie ou lhe "entrego" os planos já feitos
para que os abençoe?.
-Meus gostos, critérios, dúvidas, confusões, pensamentos, atitudes e valores
-em que instâncias não estiveram sob o Senhor?
-Em meus gostos, meus critérios, medos, dúvidas, confusões...
Estudo
-Estudo minhs fé
católica (Bíblia, magistério, livros sólidos) ou me contento com meu próprio
modo de entender a Deus?, Estou avançando em minha formação como devo?.
-Que passos práticos dou para me formar na fé?
Ordem e Prioridades
-Meu tempo
responde às prioridades de Deus ou às pressões de qualquer pessoa ou ocasião
para `ficar bem'?); Interpreto o que faço na perspectiva da vida eterna?;
Reflito sobre minha morte; sobre o julgamento final?
-Tenho prioridades claras e sou firme para vivê-las? Perco o tempo (revistas,
programas, etc.) que não edificam?
-Tenho um horário e organizo o dia com disciplina, dando tempo a cada área com
sabedoria: oração, família, trabalho...?; Em que me desordenei? Fico em algo
que eu gosto sabendo que é hora de fazer outra coisa?
-Respeito o tempo e necessidades dos outros: quando procuro ajuda, ao telefone,
etc..?
-Cuido da saúde; tenho algum vício, falta de exercício, descanso,
alimentação... Cuido-me muito?
Santificará o dia do Senhor. (Terceiro Mandamento)
Guardo o dia do Senhor para o Senhor ou trabalho desnecessariamente
nesse dia?
-Vou à missa
todos os domingos?;adorei e pus todo meu coração em Cristo Eucarístico que me
espera no sacrário?
-Eu o amei e consolei pelo tanto que é ofendido?
-Vou a missa diária se puder?; recebi com preparação o Senhor?
A Cruz
-meditei diante
da cruz?; procuro seu poder transformador e sua sabedoria?; como se manifesta
em minha vida?
-Peço a Deus a graça de amar a cruz?
-Saí da vontade de Deus para evitar a cruz?
-Uno minha cruz à de Cristo?: problemas, doenças, responsabilidades, pessoas,
minha idade, minha vocação...
-Procuro a satisfação de todas minhas necessidades físicas e emocionais ou sei
me mortificar por amor a Jesus?.
-Me uno à cruz de quem sofre?; Sacrifico-me para amar?.
Confissão
-Rejeito o
pecado embora este seja aceitável segundo a cultura?; pensei ou atuei
levianamente como se a retidão dos Santos é "exagero"?
-Evitei a ocasião de pecado: ambientes, programas, más amizades...?
-Procuro que Deus me mostre meu pecado (também pecados velhos e esquecidos)?.
-Reconheço e reparo com responsabilidade meus pecados e faltas ou me justifico?
-Quando me corrigem, fico agradecido?.
-Quando foi minha última confissão?, Minimizei o pecado por pena?; houve
mudanças?.
-Fiz uma confissão completa ou escondi algo?
-Há algo (hábito, ferida, complexo) que o inimigo usa para seu proveito?; o que
faço para permitir que Deus me liberte?
-Devo me reconciliar com alguém e não o tenho feito?
Maria
-Consagrei a Ela
e, se o tiver feito, vivo minha consagração plenamente? -Como?
-Aceito seu cuidado maternal?; Deixo-me formar por ela? -Como?.
-Recorro a ela em oração, medito sua vida?.
Relacione com outros
-Estão todas
minhas relações à luz do Senhor: amorosas, castas, sões e sinceras?
-Guardo ódios ou inimizades?
-Brigas, rivalidades, violências, ambições, discórdias, sectarismo, dissensões,
invejas, embriaguezes
-Fui fiel aos compromissos com meus irmãos e com outros?; Estou crescendo
nestes compromissos?
-Sou confiável no lar, grupo, trabalho...?; -Cumpro minhas promessas,
compromissos, guardo confidencialidade?
-Procuro a unidade no Senhor? (Fl. 2, 1-11, 1 Cor. 10,17)
-Sou serviçal?
-Sou atento sem ser curioso?
-Sou prudente no que falo e como atuo?
-Sou agradecido pelo serviço de rotina que recebo?
Honrará a teu pai e tua mãe (Quarto mandamento).
No Lar
-Obedeço, cuido e
honro meus pais segundo minha idade e suas necessidades?
-Fico de cara feia?
-Dou tempo à família?; Jantar juntos?; Diversões?
-Hospitalidade?
-Relação com irmãos?
-Responsabilidade nos estudos?
-Ajuda econômica no lar segundo a necessidade?
Casados: (além do mencionado)
-Protejo minha casa e os meus das más influências do ambiente? Como?
-Manipulei com meus estados de ânimo e aborrecimentos para que se faça o que
quero?
-Permito que outros (pais, amigos) manipulem ou se anteponham ao matrimônio? .
-Honro e respeito a meu esposo/a em todo momento?
-Compartilhei com meu esposo/a a visão para a família?; O escuto com
interesse?;
-Expresso amor, carinho e respeito a meu esposo/a?;
-E a meus filhos?
-Detecto os problemas e os enfrento com sabedoria?
-Que medidas tomo para que minha casa seja um lar?
-Sou responsável e ordenado com a economia?; Ajudo-lhes para que possam orar,
estudar, descansar, ir a seu grupo, cumprir suas responsabilidades?
Formação: dos filhos: compartilho com eles, ensino e guio?, escuto?, Ensino e
dou disciplina com sabedoria?; dou-lhes boa educação para que sejam bons
cristãos?
Não matarás. (Quinto Mandamento)
De algum modo matei ou atentei contra a vida? (ex.: apoio
ou participação em aborto, suicídio, dirigir sem cuidado, atos irresponsáveis
que põem uma vida em perigo, agressão, violência, etc.? atentei contra a
dignidade de alguém?.
Não cometerás atos impuros. (não adultério, não
fornicação) (Sexto Mandamento)
-Procurei afetividade fora da ordem do Senhor?
-Como distingo entre sentimentalismo e uma autêntica relação de amor entre
irmãos?; Me relaciono segundo meu estado de ânimo ou o que edifica no amor?
-Fantasias ou atos impuros, comigo mesmo ou com outros?
-Piadas, programas, atitude sedutora, indecência em vestir?
-Obedeço o plano de Deus para a sexualidade em meu estado de vida?
Não roubarás (Sétimo mandamento).
-De algum modo roubei?
Descuidando ou não devolvendo propriedade alheia ou comum)?
Aproveito-me do meu de posto para benefício pessoal?
Não levantarás falsos testemunhos nem mentirás (Oitavo
Mandamento)
-Quem inspira minhas palavras: Deus ou meu ego?quis dar
minha opinião em tudo?
-Digo a verdade?; revelei segredos; julguei ou fiz fofocas?
-Queixei-me procurando comiseração ou desafogo?
-Pus minha atenção ao indevido
-Falei o que não edifica: piadas grosseiras, que ferem a alguma raça,
nacionalidade, etc.?
Não consentirás pensamentos nem desejos impuros (Nono
Mandamento)
- Cobicei a mulher ou o marido de meu próximo?
- Olhei a um homem a uma mulher de maneira impura?
Não cobiçarás os bens alheios (Décimo Mandamento)
- Desejei os bens alheios?
- Fui invejoso?
- Fui avaro?
- Comi mais do que necessito?
- Fui orgulhoso?
Obras de Misericórdia
-Corporais: solidariedade com doentes/famintos/sedentos/presos/nus/forasteiros
Enterrar os mortos. Vejo estes como irmãos pelos quais me entrego?.
-Espirituais: dar bom conselho/ corrigir/ perdoar (guardo algum
ressentimento?)/ consolar/ sofrer com paciência as moléstias do próximo/ rezar
pelos vivos e os mortos.
-Estou atento à dor alheia?; Faço a acepção de pessoas segundo sua aparência?
-Vivo em simplicidade?; -Imito a Cristo que foi pobre?, sou livre de apegos
materiais?
-Isto se reflete em minha atitude nas compras?; deixo-me levar por desejos?; quais?
-Coopero com as obras da Igreja com verdadeiro sacrifício e amor ou dou de
minhas sobras?
Evangelização
-Sou testemunho?; Sou sal da terra e luz do mundo?
-Me esforço de todo coração para que Cristo seja conhecido e amado por todos?
-Estou em comunhão com o espírito missionário da Igreja?
-Levo a minhas amizades ao Senhor ou deixo que elas me arrastem ao mundo?
-Quando evangelizo, faço com segurança ou como se fosse uma opinião qualquer?;
Respondo ao Espírito ou me paralisa pensar no `que dirão'?
Domínio das Emoções: Ressentimentos, caprichos, impulsos, medos....
-Quais são minhas emoções mais salientes?; Submeto-as ao Senhor para as
processar para o bem? de que forma estão afetando meu comportamento?
-Procuro primeiro meu interesse e comodidade ou servir com amor?
Exame de consciência com base nos
pecados capitais e as virtudes contrárias
Soberba / Humildade
-Fui humilde ao pensar, comparei-me com outros, tratei de
chamar a atenção com minha sabedoria', meu físico, etc.?; Reconheço-me
pequeno?; Desprezo os outros em meu coração?
-Me ressenti pelo trato ou posto recebido?; Qual é a motivação de minhas
aspirações?.
-Distingo entre o que é doutrina e o que é minha opinião?; -Sou prudente ao dar
minha opinião; acredito que é a única; acredito que sem minha presença as
coisas não vão bem?
-Sei distinguir o que é minha missão ou me intrometo no que não me corresponde?
-Reconheço que não tenho razão de me glorificar mas sim em Cristo?; De que
forma minhas ações estão misturadas com orgulho, vaidade, egoísmo?
-Reconheço meus enganos e peço perdão?
-Posso ajudar sem mandar?
Avareza / Generosidade
-Estou apegado às coisas, Sacrifico tempo, dinheiro, para
servir segundo o plano de Deus?.
-Jogo com o dinheiro?
Luxúria / Castidade (já examinado acima)
Ira / Paciência
-Sei lidar com as cruzes, doenças, problemas com relações,
trabalho, etc.?
-Perco a paz; manifesto mau humor quando as coisas não são como eu espero?
-Jogo a culpa nas circunstâncias?.
Gula / Moderação
-Como mais do necessário?, Faço jejum?
-Estou viciado em álcool, drogas, pílulas?
Inveja / Caridade
-Sinto ciúmes por posições, talentos... outros grupos da
Igreja? ou me alegro quando outros melhoram. Que casos posso pensar em que não
me alegre?
Preguiça / Diligência
-Fiquei adormecido como os discípulos diante do que Jesus
me pedia?
-Sou atento a cumprir meus deveres?
-O que faço para edificar minha família e grupo?
-Sou rápido em servir mesmo que não tenho vontade?
-`Descanso' mas do que necessário?
-Deixo as coisas para mais tarde
Bem-aventuranças (Mateus 5, 1-2)
-Fui pobre de espírito, livre de apegos?,
-Fui manso, paciente, edificando com os meios Santos?
-Chorei diante dos pecados que ofendem a Deus?
-Ttive fome e sede de justiça?
-Fui misericordioso?
-Fui limpo de coração, puro de pensamento?
-Trabalho pela paz, em minha pessoa, lar, grupo, mundo?
-Sofro com alegria ao ser perseguido por causa da justiça (como reajo diante
das critica "injustas" ou incompreensões?
Depois do exame se devem fazer
resoluções por escrito, segundo o estado atual para trabalhar nele e revisá-lo
mas tarde.
|
CATEQUESE DE JOÃO
PAULO II |
Catequese de João Paulo II sobre o
Sacramento da Reconciliação
1. O
caminho para o Pai, motivo de reflexão neste ano de preparação ao grande Jubileu,
implica também o redescobrimento do sacramento da Penitência em seu significado
profundo de encontro com Ele, que perdoa mediante Cristo no Espírito (cf.
Tertio Millennio Adveniente, 50).
São
numerosos os motivos pelos que é urgente fazer uma séria reflexão na Igreja
sobre este sacramento. Exige-o, acima de tudo, o anúncio do amor do Pai, como
fundamento da vida e da ação do cristão, no contexto da sociedade atual, onde
com freqüência se ofusca a visão ética da existência humana. Muitos perderam a dimensão
do bem e do mal porque perderam o sentido de Deus, interpretando a culpa
unicamente segundo perspectivas psicológicas ou sociológicas. Em segundo lugar,
a pastoral deve dar um novo impulso a um itinerário de crescimento na fé, que
sublinhe o valor do espírito e da prática penitencial em toda a vida cristã.
3. Este
convite à conversão constitui a conclusão vital do anúncio feito pelos apóstolos
depois de Pentecostes. Nele, o objeto do anúncio fica totalmente explícito: já
não é genericamente o "reino", mas sim a obra mesma de Jesus,
integrada no plano divino predito pelos profetas. Ao anúncio do que teve lugar
com o Jesus Cristo morto, ressuscitado e vivo na glória do Pai, segue-lhe o
premente convite à "conversão", a que está ligada o perdão dos
pecados. Tudo isto aparece claramente no discurso que Pedro pronuncia no
pórtico de Salomão: "Deus deu cumprimento deste modo ao que tinha anunciado
por boca de todos os profetas: que seu Cristo padeceria. Arrependei-vos, pois,
e convertei-vos, para que vossos pecados sejam apagados" (At
3,18-19). Este perdão dos pecados, no Antigo Testamento, foi prometido por Deus
no contexto da "nova aliança", que Ele estabelecerá com seu povo (cf
Jr 31,31-34). Deus escreverá a lei no coração. Nesta perspectiva, a conversão é
um requisito da aliança definitiva com Deus e ao mesmo tempo uma atitude
permanente daquele que, acolhendo as palavras do anúncio evangélico, passa a
formar parte do reino de Deus em seu dinamismo histórico e escatológico.
4. O
sacramento da Reconciliação transmite e torna visível de maneira misteriosa
estes valores fundamentais anunciados pela Palavra de Deus. Reintegra o homem
no contexto salvífico da aliança e os torna a abrir à vida trinitária, que é
diálogo de graça, circulação de amor, dom e acolhida do Espírito Santo.
Uma
releitura atenta do "Ordo Paenitentiae" ajudará muito a aprofundar,
com motivo do Jubileu, nas dimensões essenciais deste sacramento. A maturidade
da vida eclesiástica depende em grande parte de seu redescobrimento. O
sacramento da Reconciliação, de fato, não se circunscreve ao momento
litúrgico-celebrativo, mas sim leva a viver a atitude penitencia assim que
dimensão permanente da experiência cristã. É "uma aproximação à santidade
de Deus, um novo encontro com a própria verdade interior, turvada e
transtornada pelo pecado, uma liberação no mais profundo de si mesmo e, com
isso, uma recuperação da alegria perdida, a alegria de ser salvos, que a
maioria dos homens de nosso tempo deixou de experimentar"
("Reconciliatio et paenitentia", 31,III).
5. Por
isso se refere aos conteúdos doutrinais deste sacramento, remeto-me à exortação
apostólica "Reconciliatio et paenitentia" (cf. nn.28-34) e ao
"Catecismo da Igreja Católica" (cf. nn.1420-1484), assim como às
demais intervenções do Magistério eclesiástico. Nestes momentos desejo recordar
a importância da atenção pastoral necessária para valorar este sacramento no povo
de Deus, para que o anúncio da reconciliação, o caminho de conversão e a mesma
celebração do sacramento possam tocar ainda mais os corações dos homens e das
mulheres de nosso tempo.
Em
particular, desejo lembrar aos pastores que para ser bons confessores terão que
ser autênticos penitentes. Os sacerdotes sabem que são depositários de uma
potestade que vem do alto: de fato, o perdão que transmitem é "sinal
eficaz da intervenção do Pai" ("Reconciliatio et paenitentia",
31,III) que faz ressuscitar da morte espiritual. Por isso, vivendo com
humildade e simplicidade evangélica uma dimensão tão essencial de seu
ministério, os confessores não devem descuidar sua própria perfeição e
atualização em sua formação para que não desfaleçam nessas qualidades humanas e
espirituais que são tão necessárias para a relação com as consciências.
Mas,
junto aos pastores, toda a comunidade cristã deve ficar envolvida na renovação
pastoral da Reconciliação. Isto o impõe o caráter eclesiástico próprio do
sacramento. A comunidade eclesiástica é o seio que acolhe ao pecador
arrependido e perdoado e, antes ainda, cria o ambiente adaptado para o caminho
de volta ao Pai. Em uma comunidade reconciliada e reconcialiante os pecadores
podem voltar a encontrar o caminho perdido e a ajuda dos irmãos. E, por último,
através da comunidade cristã pode voltar para traçar um sólido caminho de
caridade, que faça visível através das boas obras o perdão recebido, o mal
reparado, a esperança de poder encontrar ainda os braços misericordiosos do
Pai.
|
ORDEM SACERDOTAL |
Este sacramento da Ordem
consagra o que recebe, configurando-o de modo particular com Jesus Cristo e
capacitando-o para atuar na mesma pessoa de Cristo para o bem de todo o povo de
Deus.
O que é a Ordem
sacerdotal?
É o sacramento que alguns fiéis
são constituídos ministros sagrados, sendo cooperadores do Bispo com quem
formam um presbitério.
Por que este sacramento
se chama Ordem?
Porque compreende vários graus
subordinados entre si.
Quais são as funções
principais dos sacerdotes?
As funções principais dos
sacerdotes são: Celebrar o Santo Sacrifício da Missa, perdoar os pecados na
Confissão, administrar os demais sacramentos, pregar a Palavra de Deus e
dirigir os fiéis nas coisas que se referem a Deus.
Os sacerdotes são
necessários?
Os sacerdotes são necessários e
insubstituíveis, pois sem eles não existiria a Igreja tal como fundada por
Jesus Cristo. Por isso todos os cristãos devemos colaborar no fomento e
formação das vocações sacerdotais.
|
EUCARISTIA |
Festas
Litúrgicas
Eucaristia: Presença Real do Senhor
Sendo
o pão uma comida que nos serve de alimento e se conserva guardando, Jesus
Cristo quis ficar na terra sob as espécies de pão, não só para servir de
alimento às almas que o recebem na sagrada Comunhão, mas também para ser
conservado no Sacrário e fazer-se presente a nós, nos manifestando por este
eficaz meio, o amor que nos tem.
|
O QUE É
EUCARISTIA? |
A Eucaristia é a consagração do pão no Corpo de Cristo e do
vinho em seu Sangue que renova mística e sacramentalmente o sacrifício de Jesus
na Cruz. A Eucaristia é Jesus real e pessoalmente presente no pão e no
vinho que o sacerdote consagra. Pela fé cremos que a presença de Jesus na
Hóstia e no vinho não é só simbólica, mas real; isto se chama o mistério da
transubstanciação já que o que muda é a substância do pão e do vinho; os
accidente—forma, cor, sabor, etc.— permanecem iguais.
A instituição da Eucaristia, aconteceu durante a última ceia
pascal que celebrou com seus discípulos e os quatro relatos coincidem no
essencial, em todos eles a consagração do pão precede a do cálice; embora
devamos lembrar, que na realidade histórica, a celebração da Eucaristia (
Fração do Pão ) começou na Igreja primitiva antes da redação dos
Evangelhos.
Os sinais essenciais do sacramentos eucarístico são pão de
trigo e vinho da videira, sobre os quais é invocada a bênção do Espírito Santo
e o presbítero pronuncia as palavras da consagração ditas por Jesus na última
Ceia: "Isto é meu Corpo entregue por vós... Este é o cálice do meu
Sangue..."
Encontro com Jesus amor
Necessariamente o encontro com Cristo Eucaristia é uma
experiência pessoal e íntima, e que supõe o encontro pleno de dois que se amam.
É, portanto, impossível generalizar sobre eles. Porque só Deus conhece os
corações dos homens. Entretanto, sim devemos transluzir em nossa vida, a
transcendência do encontro íntimo com o Amor. É lógico pensar que quem recebe
esta Graça, está em maior capacidade de amar e de servir ao irmão e que além
disso, alimentado com o Pão da Vida deve estar mais fortalecido para enfrentar
as provações, para encarar o sofrimento, para contagiar sua fé e sua esperança.
Em fim, para levar a feliz término a missão, a vocação, que o Senhor lhe dá.
Se apreciássemos de veras a Presença de Cristo no
sacrário, nunca o encontraríamos sozinho, acompanhado apenas pela lâmpada
Eucarística acesa, o Senhor hoje nos diz a todos e a cada um, o mesmo que disse
aos Apóstolos "Com ânsias desejei comer esta Páscoa convosco "
Lc.22,15. O Senhor nos espera ansioso para entregar-se a nós como alimento;
somos conscientes disso, de que o Senhor nos espera no Sacrário, com a
mesa celestial servida.? E nós, por que o deixamos esperando.? Ou é por
acaso, quando vem alguém de visita a nossa casa, o deixamos na sala e
vamos nos ocupar de nossas coisas?
É exatamente isso o que fazemos em nosso apostolado,
quando nos enchemos de atividades e nos descuidamos na oração diante do Senhor,
que nos espera no Sacrário, preso porque nos "amou até o extremo" e
resulta que, por quem se fez o mundo e tudo o que nele habita (nós
inclusive) encontra-se ali, oculto aos olhos, mas incrivelmente luminoso
e poderoso para saciar todas nossas necessidades.
|
ESTÁ
VERDADEIRAMENTE CRISTO PRESENTE NA EUCARISTIA? |
Está
Cristo presente na Eucaristia?
São vários os caminhos pelos
quais podemos nos aproximar do Senhor Jesus e assim viver uma existência
realmente cristã, quer dizer, segundo a medida do próprio Cristo, de tal maneira
que seja Ele mesmo quem vive em nós (ver Gl 2,20). Uma vez ascendido aos céus o
Senhor nos deixou seu Espírito.
Por sua promessa é segura sua
presença até o fim do mundo (ver Mt 28, 20). Jesus Cristo se faz realmente
presente em sua Igreja não somente através da Sagrada Escritura, mas também, e
de maneira mais excelsa, na Eucaristia.
O
que quer dizer Jesus com "vinde a mim"?
Ele mesmo nos revela o mistério
mais adiante: "Eu sou o pão da vida. O que vem a mim, não sentirá fome, o
que crê em mim nunca terá sede" (Jo 6,35). Jesus nos convida a
alimentar-nos d'Ele. É na Eucaristia onde nos alimentamos do Pão da Vida que é
o próprio Senhor Jesus.
Não
está Cristo falando de forma simbólica?
Cristo, argumenta-se, poderia
estar falando simbolicamente. Ele disse: "Eu sou a videira" e Ele não
é uma videira; "Eu sou a porta" e Cristo não é uma porta.
Mas o contexto no qual o Senhor
Jesus afirma que Ele é o pão da vida não é simbólico ou alegórico, mas
doutrinal. É um diálogo com perguntas e respostas como Jesus costuma fazer ao
expor uma doutrina.
Às perguntas e objeções que lhe
são feitas pelos judeus no Capítulo 6 de São João, Jesus Cristo responde
reafirmando o sentido imediato de suas palavras. Quanto mais rejeição e
oposição encontra, mais Cristo insiste no sentido único das palavras:
"Minha carne é verdadeiramente uma comida e meu sangue é verdadeiramente
uma bebida" (v.55).
Isto faz com que os discípulos
o abandonem (v.66). E Jesus Cristo não tenta retê-los tratando de explicar-lhes
que o que acaba de dizer-lhes é tão somente uma parábola. Pelo contrário,
interroga a seus próprios apóstolos: "Não quereis também vós
partir?". E Pedro responde: "Senhor, a quem iremos? Só tu tens
palavras de vida eterna." (v.67-68).
Os Apóstolos entenderam o
sentido imediato das palavras de Jesus na última ceia. "Tomou o pão...e
disse: "Tomai e comei, este é o meu corpo". (Lc 22,19). E eles ao
invés de dizer-lhe: "explica-nos esta parábola, "tomaram e comeram,
quer dizer, aceitaram o sentido imediato das palavras. Jesus não disse
"Tomai e comei, isto é como se fosse meu corpo... é um símbolo de meu
sangue".
Alguém poderia objetar que as
palavras de Jesus "fazei isto em memória de mim" não indicam mais que
esse gesto deveria ser feito no futuro como uma simples recordação, um fazer
memória com qualquer um de nós pode recordar algum fato de seu passado e, deste
modo, "trazer ao presente". Entretanto não é assim, porque memória,
anamnese ou memorial, no sentido empregado na Sagrada Escritura, não é somente
a lembrança dos acontecimentos do passado, mas a proclamação das maravilhas que
Deus realizou em favor dos homens. Na celebração litúrgica, estes
acontecimentos se fazem, de certa maneira, presentes e atuais.
Assim, pois, quando a Igreja
celebra a Eucaristia, faz memória da Páscoa de Cristo e esta se faz presente: o
sacrifício que Cristo ofereceu de uma vez para sempre na cruz permanece sempre
atual (ver Hb 7,25-27). Por isso a Eucaristia é um sacrifício (ver Catecismo da
Igreja Católica n. 1363-1365).
São Paulo expõe a fé da Igreja no
mesmo sentido: "O cálice de benção que abençoamos não é comunhão com o
sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de
Cristo?" (1Cor 10,16). A comunidade cristã primitiva, os próprios
testemunhas da última ceia , quer dizer, os Apóstolos, não teriam permitido que
Paulo transmitisse uma interpretação falsa desse acontecimento.
Os primeiros cristãos acusam os
docetas (aqueles que afirmavam que o corpo de Cristo não era mais que uma
aparência) de não crer na presença de Cristo na Eucaristia: "Se abstêm da
Eucaristia, porque não confessam que é a carne de nosso salvador". Santo
Inácio de Antioquia (Esmir VII).
Finalmente, se fosse simbólico
quando Jesus afirma: "O que come minha carne e bebe o meu sangue..."
então também seria simbólico quando acrescenta: "...tem vida eterna e eu o
ressuscitarei no último dia" (Jo 6,54).
Por acaso a ressurreição é
simbólica? Por acaso a vida eterna é simbólica?
Tudo, portanto, favorece a interpretação literal ou imediata e não simbólica do
discurso. Não é correto, pois, afirmar que a Escritura deve ser interpretada
literalmente e, por sua vez, fazer uma arbitrária e brusca exceção nesta
passagem.
Se a missa rememora o
sacrifício de Jesus, Cristo volta a padecer o Calvário em cada Missa?
A carta aos Hebreus diz: "Mas Ele possui um sacerdócio perpétuo, porque
permanece para sempre...Assim é o sacerdote que nos convinha: santo
inocente...que não tem necessidade de oferecer sacrifícios cada dia...Nós somos
santificados, mediante uma só oblação pelos pecados." (Hb 7, 26-28 e 10,
14-18).
A Igreja ensina que a Missa é
um sacrifício, mas não como acontecimento histórico e visível, mas como
sacramento e, portanto, é incruento, quer dizer, sem dor nem derramamento de
sangue (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1367).
Portanto, na Missa Jesus Cristo
não sofre uma "nova agonia", mas que é a oblação amorosa do Filho ao
Pai, "pelo qual Deus é perfeitamente glorificado e os homens são
santificados" (CVII. Sacrosanctum Concilium n. 7).
O sacrifício da Missa não
acrescenta nada ao Sacrifício da Cruz nem o repete, mas o
"representa", no sentido de que "o faz presente"
sacramentalmente em nossos altares, o mesmo e único sacrifício do Calvário (ver
Catecismo da Igreja Católica n. 1366; Paulo VI, Credo do Povo de Deus n. 24).
O texto de Hebreus 7,27 não diz
que o sacrifício de Cristo o realizou "de uma só vez e já se acabou",
mas "de uma vez para sempre". Isto quer dizer que o único sacrifício
de Cristo permanece para sempre (ver Catecismo da Igreja Católica n. 1364). Por
isso diz o Concílio: "Nosso Salvador, na última ceia, ...instituiu o
sacrifício eucarístico de seu corpo e sangue, com o qual ia perpetuar pelos
séculos, até a sua volta, o sacrifício da cruz" (ver Concílio Vaticano II,
Sacrosanctum Concilium n.47). Portanto, o sacrifício da Missa não é uma
repetição mas uma re-apresentação e renovação do único e perfeito sacrifício da
cruz pelo qual fomos reconciliados.
|
FRUTOS DA EUCARISTIA |
Frutos da
Eucaristia
·
Ao
receber a Eucaristia, ficamos intimamente aderidos a Cristo Jesus, que nos
transmite sua graça.
·
A
comunhão nos aparta do pecado, é este o grande mistério da redenção, pois seu
Corpo e seu Sangue são derramados pelo perdão dos pecados.
·
A
Eucaristia fortalece a caridade, que na vida cotidiana tende a debilitar-se; e
esta caridade vivificada apaga os pecados veniais.
·
A
Eucaristia nos preserva de futuros pecados mortais, pois quanto mais
participamos da vida de Cristo e mais progredimos em sua amizade, tanto mais
difícil será romper noso vínculo de amor com ele.
·
A
Eucaristia é o Sacramento da unidade, pois quem recebe o Corpo de Cristo se une
entre si em um só corpo: A Igreja. A comunhão renova, fortifica, aprofunda esta
incorporação com a Igreja realizada já no Batismo.
·
A
Eucaristia nos compromete a favor dos pobres; poi o receber o Corpo e o Sangue
de Cristo que são a Caridade mesma no torna caritativos.
·
|
POR QUE A
EUCARISTIA É UM SACRIFÍCIO? |
A Eucaristia é, acima de tudo, um sacrifício:
sacrifício da Redenção e ao mesmo tempo sacrifício da Nova Aliança. O homem e
omundo são restituídos a Deus por meio da novidade pascal da Redenção. Esta
restituição não pode faltar: é fundamento da "aliança nova e eterna"
de Deus com o homem e do homem com Deus. Se chegasse a faltar, seria preciso
rever seja a excelência do sacrifício da Redenção que foi perfeito e
definitivo, ou o valor sacrificial da Santa Missa. Portanto a Eucaristia, sendo
verdadeiro sacrifício, obra essa restituição de Deus.
Neste sentido, o celebrante, enquanto
ministro do sacrifício, é o autêntico sacerdote, que realiza –em virtude do
poder específico da sagrada ordem- o verdadeiro ato sacrificial que leva de
novamente os homens a Deus. Ao contrário, todos aqueles que participam da
Eucaristia, sacrificam-se como ele, oferecem com ele, em virtude do
sacerdócio comum, seus próprios sacrifícios espirituais, representados pelo pão
e o vinho, desde o momento de sua apresentação no altar.
Efetivamente, este ato litúrgico solenizado
por quase todas as liturgias, "tem seu valor e seu significado
espiritual". O pão e o vinho se convertem em certo sentido em símbolo de
tudo o que leva a assembléia eucarística, por si mesma,
Todos os que participam com fé da
Eucaristía se dão conta de que ela é Sacrificium", isto é, uma
"Oferenda consagrada". Com efeito, o pão e o vinho, apresentados no
altar e acompanhados pela devoção e pelos sacrifícios espirituais dos
participantes, são finalmente consagrados, para que se convertam verdadeira,
real e substancialmente no Corpo entregado e no Sangue derramado de Cristo
mesmo. Assim, em virtude da consagração, as espécie de pão e vinho,
"re-presentam", de modo sacramental e incruento, o Sacrifício
propiciatório oferecido por Ele na cruz ao Pai para a salvação do mundo.
|
POR QUE A
EUCARISTIA É UM SACRAMENTO? |
A recepção de Jesus Cristo sacramentado sob as espécies de
pão e vinho na sagrada Comunhão significa e verifica o alimento espiritual da
alma. E assim, enquanto que nela se dá a graça invisível sob espécies visíveis,
guarda razão de sacramento. Jesus ao instituir a Eucaristia lhe confere
intrinsecamente o valor sacramental pois através dela Ele nos transmite sua
graça, sua presença viva. Por isso, a Eucaristia é o mais importanet dos
sacramentos, de onde saem e para onde se dirigem todos os demais, centro da
vida litúrgica, expressão e alimento da comunhão cristã.
·
Sacramento
de Unidade. Ao nos referirmos à Eucaristia como Comunhão, estamos proclamando
nossa união entre todos os cristãos e nossa adesão à Igreja com Jesus. Por
isso, a Eucaristia é um sacramento de unidade da Igreja, e sua celebração só é
possível onde há uma comunidade de fiéis.
·
Sacramento
do amor fraterno. Na mesma noite em que Jesus instituiu a Eucaristia, instituiu
o mandamento do amor. Portanto, a Eucaristia e o amor aos demais têm que andar
sempre juntos. Jesus institui a Eucaristia como prova de seu imenso amor por
nós e pede aos que vamos participar dela, que nos amemos como Ele nos
amou. E, neste sentido, a Eucaristia deve estar necessariametne antecedido pelo
Sacramento da Reconciliação pois o receber o "alimento de vida eterna"
exige uma reconciliação constante com os irmãos e com Deus Pai.
O mistério eucarístico, desgarrado de sua própria natureza
sacrificial e sacramental, deixa simplesmente de ser tal. Não admite nenhuma
imitação "profana", que se converteria muito facilmente (se nao até
mesmo como norma)
Em tal realidade a Igreja tem o dever particular de
assegurar e corroborar o "sacrum" da Eucaristia. Em nossa sociedade
pluralista, e às vezes também deliberadamente secularizada, a fé viva da
comunidade cristã -fé consciente inclusive dos próprios direitos a
respeito de todos aqueles que não compartilham a mesma fé- garante a este
"sacrum" o direito de cidadania. O dever de respeitar a fé de cada um
é ao mesmo tempo co-relativa ao direito natural e civil da liberdade de consciência
e de religião.
Os ministros da Eucaristia devem, portanto, principalmente
em nossos dias, ser iluminados pela plenitude desta fé viva, e à luz dela devem
compreender e cumprir tudo o que faz parte de seu ministério sacerdotal, por
vontade de Cristo e de sua Igreja.
|
A EUCARISTIA NO
CATECISMO. PERGUNTAS E RESPOSTAS |
A santa
Missa
Jesus quis deixar
para a Igreja um sacramento que perpetuasse o sacrifício de sua morte na cruz.
Por isso, antes de começar sua paixão, reunido com seus apóstolos na última ceia,
instituiu o sacramento da Eucaristia, convertendo pão e vinho em seu próprio
corpo vivo, e o deu de comer, fez partícipes de seu sacerdócio aos apóstolos e
mandou-lhes que fizessem o mesmo em sua memória.
Assim a Santa
Missa é a renovação do sacrifício reconciliador do Senhor Jesus. Além de ser
uma obrigação grave assistir à Santa Missa aos domingos e feriados religiosos
de preceito -a menos que esteja impedido por uma causa grave-, é também um ato
de amor que deve brotar naturalmente de cada cristão, como resposta agradecida
frente ao imenso dom que significa que Deus se faça presente na Eucaristia.
O que é a
Eucaristia?
É o sacramento do
corpo e do sangue de Jesus Cristo sob as espécies de pão e vinho. Por meio da
consagração, o sacerdote converte realmente no corpo e sangue de Cristo o pão e
vinho oferecido no altar.
O que é a
Santa Missa?
É a renovação
sacramental do sacrifício da cruz.
A Santa
Missa é o mesmo sacrifício da Cruz?
Sim, a Santa Missa
é o mesmo sacrifício da Cruz, mas sem derramamento de sangue, pois agora Jesus
Cristo encontra-se em estado glorioso.
Quem pode
celebrar a Santa Missa?
Somente os
sacerdotes podem celebrar a Santa Missa, pois somente eles podem atuar
personificando a Cristo, cabeça da Igreja.
Quais são
os fins pelos quais se oferece a Santa Missa?
Os fins pelos
quais se oferece a Santa Missa são quatro: adorar a Deus, agradecer por seu
benefícios, pedir-lhe dons e graças, e para a satisfação por nossos pecados.
A Santa
Comunhão
A Eucaristia é
também banquete sagrado, no qual recebemos a Jesus Cristo como alimento de
nossas almas.
A Comunhão é
receber a Jesus Cristo sacramentado na Eucaristia; de maneira que, ao comungar,
entra
A Eucaristia é a
fonte e cume da vida a Igreja, e também de nossa vida
É muito
importante receber a Primeira Comunhão quando se chega ao uso da razão, com a
devida preparação.
O que é a
Santa Comunhão?
A Sagrada
Comunhão é receber Jesus Cristo presente na Eucaristia.
De que
modo Jesus Cristo está presente na Eucaristia?
Jesus Cristo está
na Eucaristia verdadeira, real e substancialmente presente, inteiro, vivo e
glorioso, com seu corpo, sangue, alma e divindade, em cada uma das espécies e
em qualquer parte delas.
A Hóstia
consagrada é uma "coisa"?
Não, a Hóstia
consagrada não é uma "coisa", embora o pareça; é uma Pessoa Divina, é
Jesus vivo e verdadeiro.
Quem pode
comungar?
Pode comungar
quem estiver
Em que
consiste o jejum eucarístico?
Consiste em
abster-se de tomar qualquer alimento ou bebida, pelo menos uma hora antes da
Sagrada Comunhão, exceto água e remédios. Os doentes e seus assistentes podem
comungar mesmo que tenham tomado algo na hora imediatamente anterior.
Quando se
recebe a primeira comunhão?
A primeira
comunhão pode ser recebida quando se começa a ter uso da razão, o que se supõe
a partir dos sete anos; tendo recebido previamente a preparação oportuna e o
sacramento da penitência.
Que pecado
comete quem comunga em pecado mortal?
Quem comunga em
pecado mortal comete um grave pecado chamado sacrilégio.
O que deve
fazer quem deseja comungar e encontra-se em pecado mortal?
Quem deseja
comungar e encontra-se em pecado mortal não pode receber a Comunhão sem
recorrer antes ao sacramento da Penitência, pois para comungar não basta o ato
de contrição.
|
CORPUS CHRISTI |
História da Solenidade de Corpus Christi
No final do século XIII surgiu
Santa Juliana de Mont Cornillon, naquela época priora da
Abadia, foi a enviada de Deus apra propiciar esta Festa. A santa nasceu em
Retines perto de Liège, Bélgica em 1193. Ficou órfã muito pequena e foi educada
pelas freiras Agostinas
Desde jovem, Santa Juliana teve uma grande veneração ao
Santíssimo Sacramento. E sempre esperava que se tivesse uma festa especial
Juliana comunicou estas aparições a Dom Roberto de
Thorete, o então bispo de Lieja, também ao douto Dominico Hugh, mais tarde
cardeal legado dos Países Baixos e Jacques Pantaleón, nessa época arquidiácolo
de Lieja, mais tarde o Papa Urbano IV.
O bispo Roberto focou impressionado e, como nesse
tempo os bispos tinham o direito de ordenar festas para suas dioceses, invocou
um sínodo em 1246 e ordenou que a celebração fosse feita no ano seguinte, ao
mesmo tempo o Papa ordenou, que um monge de nome João escrevesse o
ofócio para essa ocasão. O decreto está preservado
Dom Roberto não viveu para ser a realização de sua ordem,
já que morreu em 16 de outubro de 1246, mas a festa foi celebrada pela primeira
vez no ano seguinte a quinta-feira posterior à festa da Santíssima
Trindade. Mais tarde um bispo alemão conheceu os costume e a o estendeu por
toda a atual Alemanha.
O Papa Urbano IV, naquela época, tinha a corte em Orvieto,
um pouco ao norte de Roma. Muito perto desta localidade está Bolsena,
onde em 1263 ou 1264 aconteceu o Milagre de Bolsena: um sacerdote que celebrava
a Santa Missa teve dúvidas de que a Consagração fosse algo real., no
momento de partir a Sagrada Forma, viu sair dela sangue do qual foi se
empapando em seguida o corporal. A venerada relíquia foi levada
O Santo Padre movido pelo prodígio, e a petição de vários
bispos, faz com que se estenda a festa do Corpus Christi a toda a Igreja por
meio da bula "Transiturus" de 8 setembro do mesmo ano, fixando-a para
a quinta-feira depois da oitava de Pentecostes e outorgando muitas
indulgências a todos que asistirem a Santa Missa e o ofício.
Em seguida, segundo alguns biógrafos, o Papa Urbano IV
encarregou um ofício -a liturgia das horas- a São Boa-ventura e a Santo Tomás
de Aquino; quando o Pontífice começou a ler em voz alta o ofício feito por
Santo Tomás, São Boa-ventura foi rasgando o seu em pedaços.
A morte do Papa Urbano IV (em 2 de outubro de 1264), um
pouco depois da publicação do decreto, prejudicou a difusão da festa. Mas
o Papa Clemente V tomou o assunto em suas mãos e, no concílio geral
de Viena (1311), ordenou mais uma vez a adoção desta festa. Em 1317 é promulgada
uma recopilação de leis -por João XXII- e assim a festa é estendida a toda a
Igreja.
Nenhum dos decretos fala da procissão com o
Santíssimo como um aspecto da celebração. Porém estas procissões foram dotadas
de indulgências pelos Papas Martinho V e Eugênio IV, e se fizeram bastante
comuns a partir do século XIV.
A festa foi aceita em Cologne em 1306; em Worms a
adoptaram em 1315; em Strasburg em 1316. Na Inglaterra foi introduzida da
Bélgica entre 1320 e 1325. Nos Estados Unidos e nos outros países a solenidade
era celebrada no domingo depois do domingo da Santíssima Trindade.
Na Igreja grega a festa de Corpus Christi é conhecida nos
calendários dos sírios, armênios, coptos, melquitas e os rutínios da Galícia,
Calábria e Sicília.
Finalmente, o Concílio de Trento declara que muito piedosa
e religiosamente foi introduzida na Igreja de Deus o costume, que todos os
anos, determinado dia festivo, seja celebrado este excelso e venerável
sacramento com singular veneração e solenidade; e reverente e honorificamente seja
levado em procissão pelas ruas e lugares públicos. Nisto os cristãos expressam
sua gratidão e memória por tão inefável e verdadeiramente divino benefício,
pelo qual se faz novamente presente a vitória e triunfo sobre a morte e
ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
|
SOBRE A CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA |
Saiba o
que deve e o que não deve ser feito na celebração da Missa
VATICANO, 23 Abr. 04 (ACI).- A
instrução Redemptionis Sacramentum, descreve detalhadamente como se deve
celebrar a Eucaristia e o que pode ser considerado "abuso grave"
durante a cerimônia. Aqui lhes oferecemos um resumo das normas que o documento
recorda a toda a Igreja.
No Capítulo I sobre a
"ordenação da Sagrada Liturgia" afirma que:
·
Compete à Sé Apostólica ordenar a sagrada Liturgia
da Igreja universal, editar os livros litúrgicos, revisar suas traduções a
línguas vernáculas e vigiar para que as normas litúrgicas sejam fielmente
cumpridas.
·
Os fiéis têm direito a que a autoridade
eclesiástica regule a sagrada Liturgia de forma plena e eficaz, para que nunca
seja considerada a liturgia como propriedade privada de alguém.
·
O Bispo diocesano é o moderador, promotor e
custódio de toda a vida litúrgica. A ele corresponde dar normas obrigatórias
para todos sobre matéria litúrgica, regular, dirigir, estimular e algumas vezes
também repreender.
·
Compete ao Bispo diocesano o direito e o dever de
visitar e vigiar a liturgia nas igrejas e oratórios situados em seu território,
também aqueles que sejam fundados ou dirigidos pelos citados institutos
religiosos, se os fiéis recorrem a eles de forma habitual.
·
Todas as normas referentes à liturgia, que a
Conferência de Bispos determine para seu território, conforme as normas do
direito, devem se submeter a recognitio da Congregação para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos, sem a qual, carecem de valor legal.
No Capítulo II sobre a
"participação dos fiéis leigos na celebração da Eucaristia",
estabelece que:
·
A participação dos fiéis leigos na celebração da
Eucaristia, e nos outros ritos da Igreja, não pode ser equivalente a uma mera
presença, mais ou menos passiva, mas deve ser valorizada como um verdadeiro
exercício da fé e da dignidade batismal.
·
A força da ação litúrgica não está na mudança
freqüente dos ritos, mas, verdadeiramente, em aprofundar na palavra de Deus e
no mistério que se celebra.
·
Entretanto, não se diz necessariamente que todos
devam realizar outras coisas, em sentido material, além dos gestos e posturas
corporais, como se cada um tivesse que assumir, necessariamente, uma tarefa
litúrgica específica; embora convenha que se distribuam e realizem entre várias
pessoas as tarefas ou diversas partes de uma mesma tarefa.
·
Alenta a participação de leitores e acólitos que
estejam devidamente preparados e sejam recomendáveis por sua vida cristã, fé,
costumes e fidelidade ao Magistério da Igreja.
·
Recomenda a presença de crianças ou jovens
coroinhas que realizem algum serviço junto ao altar, como acólitos, e recebam
uma catequese conveniente, adaptada a sua capacidade, sobre esta tarefa. A esta
classe de serviço ao altar podem ser admitidas meninas ou mulheres, segundo o
parecer do Bispo diocesano e observando as normas estabelecidas.
No Capítulo 3, sobre a
"celebração correta da Santa Missa" especifica sobre:
A matéria da Santíssima
Eucaristia
·
O pão a ser consagrado deve ser ázimo, apenas de
trigo e feito recentemente. Não podem ser usadas cereais, substâncias
diferentes do trigo. É um abuso grave introduzir em sua fabricação frutas,
açúcar ou mel.
·
As hóstias devem ser preparadas por pessoas
honestas, especialistas na elaboração e que disponham dos instrumentos
adequados.
·
As frações do pão eucarístico devem ser repartidas
entre os fiéis, mas quando o número deste excede as frações deve-se usar hóstia
pequenas.
·
O vinho do Sacrifício deve ser natural, do fruto da
videira, puro e sem corromper, sem mistura de sustâncias estanhas. Na
celebração deve ser misturado com um pouco de água. Não deve ser admitida, sob
nenhum pretexto, outra bebida de qualquer gênero.
A Oração Eucarística
·
Só podem ser utilizadas as Orações Eucarísticas do
Missal Romano ou as aprovadas pela Sé Apostólica. Os sacerdotes não têm o
direito de compor orações eucarísticas, mudar o texto aprovado pela Igreja, nem
utilizar outros, compostos por pessoas privadas.
·
É um abuso que algumas partes da Oração Eucarística
sejam pronunciadas pelo diácono, por um ministro leigo, bem como por um só ou
todos os fiéis juntos. A Oração Eucarística deve ser pronunciada em sua
totalidade, e somente, pelo sacerdote.
·
O sacerdote não pode partir a hóstia no momento da
consagração.
·
Na Oração Eucarística não se pode omitir a menção
do Sumo Pontífice e do Bispo diocesano.
As outras partes da Missa
·
Os fiéis têm o direito de ter uma música sacra
adequada e idônea e que o altar, os paramentos e os panos sagrados, segundo as
normas, resplandeçam por sua dignidade, nobreza e limpeza.
·
Os textos da Liturgia não podem ser mudados.
·
A liturgia da palavra não pode ser separada da
liturgia eucarística, nem celebradas em lugares e tempos diferentes.
·
A escolha das leituras bíblicas deve seguir as
normas litúrgicas. Não está permitido omitir ou substituir, arbitrariamente, as
leituras bíblicas prescritas nem mudar as leituras e o salmo responsorial com
outros textos não bíblicos.
·
A leitura evangélica fica reservada ao ministro
ordenado. Um leigo, ainda que seja religioso, não deve proclamar a leitura
evangélica na celebração da Missa.
·
A homilia nunca poderá ser feita por um leigo.
Tampouco os seminaristas, estudantes de teologia, assistentes pastorais nem
qualquer membro de alguma associação de leigos.
·
A homilia deve iluminar desde Cristo os
acontecimentos da vida, sem esvaziar o sentido autêntico e genuíno da Palavra
de Deus, por exemplo, tratando apenas de política ou de temas profanos, ou
usando como fonte idéias que provém de movimentos pseudo-religiosos.
·
Não se pode admitir um "Credo" ou
Profissão de fé que não encontre nos livros litúrgicos devidamente aprovados.
·
As oferendas, além do pão e do vinho, também podem
compreender outros dons. Estes últimos devem ser colocados em um lugar
conveniente, fora da mesa eucarística.
·
A paz deve ser dada antes de distribuir a sagrada
Comunhão, lembrando que esta prática não tem um sentido de reconciliação nem de
perdão dos pecados.
·
Sugere-se que o gesto da paz seja sóbrio e seja
dado apenas aos mais próximos. O sacerdote pode dar a paz aos ministros,
permanecendo no presbitério. Para não alterar a celebração e do mesmo modo se,
por uma boa causa, deseja dar a paz a alguns fiéis. O gesto de paz é
estabelecido pela Conferência de Bispos, com o reconhecimento da Sé Apostólica,
"segundo a idiossincrasia e os costumes do lugar".
·
A fração do pão eucarístico deve ser feita somente
pelo sacerdote celebrante, ajudado, se for o caso, pelo diácono ou por um
concelebrante, mas nunca por um leigo. Esta começa depois de dar a paz,
enquanto se diz o "Cordeiro de Deus".
·
É preferível que as instruções ou testemunhos
expostos por um leigo sejam feitas fora da celebração da Missa. Seu sentido não
deve ser confundido com a homilia, nem suprimi-la.
União de vários ritos com a
celebração da missa
·
Não se permite a união da celebração eucarística com
outros ritos quando o que será acrescentado tem um caráter superficial e sem
importância.
·
Não é lícito unir o Sacramento da Penitência com a
Missa e fazer uma única ação litúrgica. Entretanto, os sacerdotes,
independentemente dos que celebram a Missa, sim podem escutar confissões,
inclusive nos mesmo lugar onde se celebra a Missa. Isto deve ser feito de
maneira adequada.
·
A celebração da Missa não pode ser intercalada como
acrescentado a uma ceia comum, nem se unir com qualquer tipo de banquete. A
Missa não deve ser celebrada, salvo por uma grave necessidade, sobre uma mesa
de jantar, ou na sala de jantar, ou no lugar que seja utilizado para uma
recepção, nem em qualquer sala onde haja alimentos. Os participantes da Missa
não podem sentar-se à mesa durante a celebração
·
Não está permitido relacionar a celebração da Missa
com acontecimentos políticos ou mundanos, ou com outros elementos que não
concordem plenamente com o Magistério.
·
Não se deve celebrar a Missa pelo simples desejo de
ostentação ou celebrá-la segundo o estilo de outras cerimônias, especialmente
profanas.
·
Não devem ser introduzidos ritos tirados de outras
religiões na celebração da Missa.
No capítulo 4, sobre a
"Sagrada Comunhão", são apresentadas disposições como:
·
Estando em consciência de estar em pecado grave,
não se deve celebrar nem comungar sem antes recorrer à confissão sacramental, a
não ser que seja por um motivo grave e não haja oportunidade de confessar-se.
·
Deve-se vigiar para que não se aproximem à sagrada
Comunhão, por ignorância, os não católicos ou, até mesmo, os não cristãos.
·
A primeira Comunhão das crianças deve ser sempre
precedida da confissão e absolvição sacramental. A primeira Comunhão sempre
deve ser administrada por um sacerdote e nunca fora da celebração da Missa.
·
O sacerdote não deve prosseguir a Missa até que
tenha terminado a Comunhão dos fiéis.
·
Somente onde a necessidade o requer, os ministros
extraordinários podem ajudar o sacerdote celebrante.
·
Pode-se comungar de joelhos ou de pé, segundo
estabeleça a Conferência de Bispos, com a confirmação da Sé Apostólica.
·
Os fiéis têm sempre direito a escolher se desejam
receber a Comunhão na boca, mas se o que vai comungar quiser receber o
Sacramento na mão, a Comunhão deve ser dada.
·
Se existe perigo de profanação, o sacerdote não
deve distribuir aos fiéis a Comunhão na mão.
·
Os fiéis não devem tomar a hóstia consagrada nem o
cálice sagrado por si mesmo, muito menos passá-los entre si de mão em mão.
·
Os esposos, na Missa matrimonial, não devem administrar-se
de modo recíproco a sagrada Comunhão.
·
Não deve ser distribuída de maneira de Comunhão,
durante a Missa ou antes dela, hóstias não consagradas, outros comestíveis ou
não comestíveis.
·
Para comungar, o sacerdote celebrante ou os
concelebrantes não devem esperar que termine a comunhão do povo.
·
Se um sacerdote ou diácono entrega aos
concelebrantes a hóstia sagrada ou o cálice, não deve dizer nada, quer dizer,
não pronuncia as palavras "o Corpo de Cristo" ou "o Sangue de
Cristo".
·
Para administrar aos leigos a Comunhão sob as duas
espécies, devem levar em conta, convenientemente, as circunstâncias, sobre as
quais devem julgar em primeiro lugar os Bispos diocesanos.
·
Deve excluir totalmente a administração da Comunhão
sob as duas espécies quando exista perigo, até mesmo pequeno, de profanação.
·
A comunhão não deve ser administrada com cálice aos
leigos onde: 1) seja tão grande a quantidade de vinho para a Eucaristia e
exista o perigo de que sobre tanta quantidade de Sangue de Cristo, que deva ser
consumida no final da celebração»; 2) o acesso ordenado ao cálice só seja
possível com dificuldade; 3) seja necessária tal quantidade de vinho que seja
difícil poder conhecer sua qualidade e proveniência; 4) quando não esteja
disponível um número suficiente de ministros sagrados nem de ministros
extraordinários da sagrada Comunhão que tenham a formação adequada; 5) onde uma
parte importante do povo não queira participar do cálice por diversos motivos.
·
Não se permite que o comungante molhe por si mesmo
a hóstia no cálice, nem recebe na mão a hóstia molhada. A hóstia que a ser
molhada deve ser feita de matéria válida e estar consagrada. Está absolutamente
proibido o uso de pão não consagrado ou de outra matéria.
No capítulo 5, sobre
"outros aspectos que se referem à Eucaristia", esclarece que:
·
A celebração eucarística deve ser feita em lugar
sagrado, a não ser que, em algum caso particular, a necessidade exija outra
coisa.
·
Nunca é lícito a um sacerdote celebrar a Eucaristia
em um templo ou lugar sagrado de qualquer religião não cristã.
·
Sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes
celebrar o santo sacrifício em latim.
·
É um abuso suspender de forma arbitrária a
celebração da Santa Missa em favor do povo, sob o pretexto de promover o
"jejum da Eucaristia".
·
Reprova-se o uso de copos comuns ou de escasso
valor, no que se refere à qualidade, ou carentes de todo valor artístico, ou
simples recipientes, ou outros copos de cristal, cerâmica, e outros materiais,
que podem quebrar facilmente.
·
A vestimenta própria do sacerdote celebrante é a
casula revestida sobre o alva e a estola. O sacerdote que se reveste com a
casula deve colocar a estola.
·
Reprova-se o não uso das vestimentas sagradas, ou
vestir apenas a estola sobre o cíngulo monástico, ou o hábito comum dos
religiosos, ou a vestimenta comum.
No capítulo 6, o documento
trata sobre "a reserva da Santíssima Eucaristia e seu culto fora da
Missa". E nos lembra que:
·
O Santíssimo Sacramento deve ser reservado em um
sacrário, na parte mais nobre, insigne e destacada da igreja, e no lugar mais
apropriado para a oração.
·
Está proibido reservar o Santíssimo Sacramento em
lugares que não estão sob a segura autoridade do Bispo ou onde exista perigo de
profanação.
·
Ninguém pode levar a Sagrada Eucaristia para casa
ou a outro lugar.
·
Não se exclui a oração do terço diante da reserva
eucarística ou do santíssimo Sacramento exposto.
·
O Santíssimo Sacramento nunca deve permanecer
exposto sem suficiente vigilância, nem sequer por um período muito curto.
·
É um direito dos fiéis visitar freqüentemente o
Santíssimo Sacramento.
·
É conveniente não perder a tradição de realizar
procissões eucarísticas.
O capítulo 7 versa sobre
"os ministérios extraordinários dos fiéis leigos". Ali o documento
especifica que:
·
As tarefas pastorais dos leigos não devem
assemelhar-se à forma do ministério pastoral dos clérigos. Os assistentes
pastorais não devem assumir o que propriamente pertence ao serviço dos
ministros sagrados.
·
Somente por verdadeira necessidade pode-se recorrer
ao auxilio de ministros extraordinários na celebração Liturgia.
·
Nunca é lícito aos leigos assumir as funções ou as
vestimentas do diácono ou do sacerdote, ou outras vestes semelhantes.
·
Se habitualmente há um número suficiente de
ministros sagrados, não se podem designar ministros extraordinários da sagrada
Comunhão. Em tais circunstâncias, os que foram designados para este ministério,
não devem exercê-lo.
·
Está reprovado o costume de sacerdotes que, apesar
de estar presentes na celebração, abstêm-se de distribuir a comunhão, encomendando
esta tarefa a leigos.
·
Ao ministro extraordinário da sagrada Comunhão
nunca está permitido delegar a nenhum outro a administrar a Eucaristia.
·
Os leigos têm direito a que nenhum sacerdote, a
menos que exista verdadeira impossibilidade, rejeite celebrar a Missa em favor
do povo, ou que esta seja celebrada por outro sacerdote, se de diferente modo
não se pode cumprir o preceito de participar da Missa, no domingo e outros dias
estabelecidos.
·
Quando falta o ministro sagrado, o povo cristão tem
direito a que o Bispo, na medida do possível, procure que se realize alguma
celebração dominical para essa comunidade
·
É necessário evitar qualquer confusão entre este
tipo de reuniões e a celebração eucarística.
·
O clérigo que foi afastado do estado clerical está
proibido de exercer a potestade da ordem. Não está permitido celebrar os
sacramentos. Os fiéis não podem recorrer a ele para a celebração.
O capítulo 8 está dedicado aos
Remédios:
·
Qualquer católico tem direito a expor uma queixa
por um abuso litúrgico, ao Bispo diocesano ou o Ordinário competente de igual
direito, ou à Sé Apostólica, em virtude da primazia do Romano Pontífice.
|
SANTÍSSIMO SACRAMENTO |
Adoração
Eucarística: Exposição e bênção
Sendo o pão uma comida que nos serve de alimento e
conserva sendo guardada, Jesus Cristo quis ficar na terra sob as espécies de
pão, não para servir de alimento às almas que o recebem na sagrada Comunhão,
mas também para ser conservado no sacrário e tornar-se presente no meio
de nós, manifestando-nos por este eficacíssimo meio o amor que tem por
nós.
Em toda forma de culto a este Sacramento é preciso levar
em conta que sua intenção deve ser uma maior vivência da celebração
eucarística. As visitas ao Santíssimo, as exposições e bênçãos devem ser um
momento para aprofundar na graça da comunhão, reisar nosso compromiso com a
vida cristã; a verificação de cada um frente a Palavra do Evangelho, juntar-se
ao silencioso mistério do Deus calado... Esta dimensão individual do tranqüilo
silêncio da oração, estando diante dele no amor, deve impulsionar a
contrastar a verdade da oração, no encontro dos irmãos, aprendendo a estar com
eles na comunicação fraternal.
A exposição
A exposição e bênção com o Santíssimo Sacramento é um ato
comunitário no qual deve estar presente a celebração da Palavra de Deus e o
silêncio contemplativo. A exposição eucarística ajuda a reconhecer nela a
maravilhosa presença de Cristo ou convida à união mais íntima com ele, que
adquire seu cume na comunhão Sacramental.
Tendo-se reunido o povo, e, se oportuno, tendo iniciado
algum cântico, o ministro se aproxima do altar. Se o Sacramento não está
reservado no altar da exposição, o ministro, com o pano de ombros o traz do
lugar da reserva, acompanhado por acólitos ou por fiéis com veas acesas.
O copão ou a custódia deve ser colado sobre o altar
coberto com manto; mas se a exposição se prolongar durante algum tempo e se for
feita com a custódia, pode ser usado o manifestador, colocado em um lugar
mais alto, mas tendo cuidado de que não fique muito alto nem distante. Se a
exposição é feita com a custódia, o ministro incensa o Santíssimo, logo se
retira, se a adoração vai se prolongar por algum tempo.
Se a exposição é solene e prolongada, a hóstia deve ser
consagrada para a exposição, na Missa que antes for celebrada, e será colocada
sobre o altar, na custódia, depois da comunhão. A Missa concluirá com a
oração depoisa da comunhão, omitindo os ritos de conclusão. Antes de retirar-se
do altar, o sacerdote, se achar oportuno, colocará a custódia e fará a
incensação.
A adoração
Durante o tempo da exposição, será feitas orações, cantos
e leituras, de tal sorte que os fiéis, recolhidos em oração, se dediquem
exclusivamente a Cristo Senhor.
Para alimentar uma profunda oração, devem ser aproveitadas
as leituras da sagrada Escritura, com a homilia, ou breves exortações, que
promovam um maior apreço do mistério eucarístico. É também conveniente
que o fiéis respondam à palavra de Deus, cantando. Também é necessário guardar
piedoso silêncio nos momentos oportunos.
Perante o Santíssimo Sacramento exposto por longo tempo,
pode também se celebrar alguma parte, especialmente as horas mais importantes
da Liturgia das Horas; por meio desta recitação se prolonga às diversas horas
do dia o louvro e a ação de graças tributadas a Deus na celebração da Missa, e
as súplicas da Igreja se dirigem a Cristo e por Cristo ao Pai, em nome de todo
o mundo,
Oração
Ó Hóstia Salutar
Que abres a porta do céu,
Contra guerras inimigas
Dais fortaleza e auxílio.
Ao Senhor uno e trino
Glória perpétua.
A vida sem fim
Nos dê Ele na pátria.
Amém.
A bênção
No final da adoração, o sacerdote ou o diácono se aproxima
do altar; faz genuflexão, se ajoelha e inicia este hino ou outro canto
eucarístico:
Canta, ó língua minha,
o mistério do Corpo glorioso
e do Sangue precioso,
que o Rei dos
povos,
filho da mais nobre das mães,
derramou em resgate do mundo.
Nos foi dada, nos nasceu
de uma Virgem sem mancha;
e depois de passar sua vida no mundo,
uma vez espalhada a semente
de sua palavra,
terminou o tempo de seu desterro
dando uma admirável disposição.
Na noite da ultima ceia,
sentado à mesa com os irmãos,
depois de observar
plenamente a lei
sobre a comida,
se dá com suas próprias mãos
como alimento para os Doze.
O Verbo feito carne
transforma com sua palavra
o pão verdadeiro em sua carne,
e o vinho puro se converte
no sangue de Cristo.
E ainda que falhe os sentidos,
basta apenas a fé
para confirmar ao coração
reto nessa verdade.
Na presença pois de um Sacramento tão grandes
prostremo-nos por terra e adoremos
Que os velhos símbolos
dêem lugar ao novo rito;
e que a fé iliumine e complete o que falta nos sentidos para o entender.
Ao Pai e ao Filho
sejam dados louvor e júbilo,
saúde, honra, poder
e bênção;
uma glória igual seja dada
ao que de um e de outro
procede. Amém
Enquanto isso, ajoelhado, o ministro incensa o Santíssimo
Sacramento, se a exposição for feita com a custódia.
V. Do céus lhes deste o Pão. (T.P. Aleluia).
R. Que contém em si todo o sabor. (T.P. Aleluia).
Em seguida coloca-se de pe é diz:
Oremos
Ó Deus, que neste admirável sacramento nos deixaste o
memorial de tua Paixão, te pedimos nos concedas venerar de tal modo os
sagrados mistérios de teu Corpo e teu Sangue, que experimentemos constantemente
o fruto de tua redenção. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos.
R. Amém.
|
DIVORCIADOS E EUCARISTIA |
Podem comungar os divorciados que voltaram a casar?
Os membros da Congregação para a Doutrina da Fé, em uma
carta a todos os bispos do mundo datada de 14 de outubro de 1994 diz :
"A crença errônea que tem uma pessoa divorciada e novamente casada, de
poder receber a Eucaristia normalmente, presume que a consciência pessoal é
levada em conta na análise final, de que, baseado em suas próprias convicções
existiu ou não existiu um matrimônio anterior e o valor de uma nova união. Esta
posição é inaceitável. O matrimônio, de fato, porque é a imagem da relação de
Cristo e sua Igreja assim como um fator importante na vida da sociedade civil,
é basicamente uma realidade pública."
Com este documento a Santa Sede afirma a contínua teologia
e disciplina da Igreja Católica, de que aqueles que se divorciaram e voltaram a
casar sem um Decreto de Nulidade, para o primeiro matrimônio (indistintamente
se foi realizado dentro ou fora da Igreja), se encontra em uma relação de
adultério, que não lhe permite arrender-se honestamente, para receber a
absolvição de seus pecados e receber a Santa Comunhão. Até que se resolva a
irregularidade matrimonial pelo Tribunal dos Processos Matrimoniais, ou outros
procedimentos que se aplicam aos matrimônios dos não batizados, não podem
aproximar-se aos Sacramentos da Penitênica nem à Eucaristia-.
Como menciona o Papa João Paulo II no documento da
Reconciliação e a Eucaristia, a Igreja deseja que estes casais participem da
vida da Igreja até onde lhes forem possível (e esta participação na
Missa, adoração Eucarística, devoções eoutros serão de grande ajuda espiritual
para eles) enquanto trabalham para conseguir a completa participação
sacramental.
Só poderiam comungar se, evitado o escândalo e recebida a
absolvisão sacramental, se comprometam a viver em plena continência,
disse a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.
No discurso do Papa João Paulo II no encerramento do
Sínodo celebrado em Roma em outubro de 1980, disse que a Igreja deveria mante a
de não admitir à comunhão eucarística ao divorciados que voltaram a casar. A
não ser quando não possam se separar, prometam viver em total continência,
sempre que não seja motivo de escândalo. Em todo caso, acrescenta o Papa, devem
perseverar na oração para conseguir a graça da conversão e da salvação.
Entretanto isto não acarreta que não possam batizar a seus filhos. Deve-se
estudar cada caso e ver que possibilidades oferecem de educar na fé católica a
seus filhos.
Por outro lado as pessoas casadas só no civil e
divorciadas podem comungar. O divórcio civil não é um obstáculo para receber a
comunhão. Por ser um ato civil, tudo o que faz, é conseguir um acordo sobre o
resultados civis e legais do matrimônio (distribuição das propriedades,
custódia dos filhos, etc).
|
UNÇÃO DOS ENFERMOS |
O Sacramento da Unção dos
Enfermos confere ao cristão uma graça especial para enfrentar as dificuldades
próprias de uma doença grave ou velhice. É conhecido também como o "sagra
viático", porque é o recurso, o "alívio" que leva o cristão para
poder suportar com fortaleza e em estado de graça um momento de trânsito,
especialmente o trânsito à Casa do Pai através da morte.
O essencial do sacramento
consiste em ungir a frente e as mãos do enfermo acompanhada de uma oração
litúrgica realizada pelo sacerdote ou o bispo, únicos ministros que podem
administrar este sacramento.
A Unção dos enfermos antes era
conhecida como "Extrema Unção", pois só era administrada "in
articulo mortis" (a ponto de morrer). Atualmente o sacramento pode ser
administrado mais de uma vez, sempre que for em caso de doença grave.
O que é a Unção dos
Enfermos?
É o sacramento que a Igreja dá
ao cristão em estado de enfermidade grave ou velhice para atrair a saúde da
alma, espírito e corpo.
Quantas vezes um cristão
pode receber o sacramento?
Quantas forem necessárias,
sempre que estiver
Que efeitos tem a Unção
dos enfermos?
A unção une o enfermo à Paixão
de Cristo para seu bem e o de toda a Igreja; obtém consolo, paz e ânimo; obtém
o perdão dos pecados (se o enfermo não pôde obtê-lo pelo sacramento da
reconciliação), restabelece a saúde corporal (se convém à saúde espiritual) e
prepara para a passagem para a vida eterna.
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CRISMA |
A
Confirmação
O sacramento da Confirmação aperfeiçoa
a graça batismal, e nos dá a fortaleza de Deus para sermos firmes na fé e no
amor a Deus e ao próximo.
Dá-nos também audácia para
cumprir o direito e o dever, que temos pelo batismo, de ser apóstolos de Jesus,
para difundir a fé e o Evangelho, pessoalmente ou associados, mediante a
palavra e o bom exemplo.
O que é a confirmação?
É o sacramento que aperfeiçoa a
graça batismal fortalecendo-nos na fé e tornando-nos soldados e apóstolos de
Cristo.
Quando confirmação deve
ser recebida?
A confirmação deve ser recebida
quando já se alcançou o uso da razão, ou antes, se há perigo de morte.
Como a confirmação deve
ser recebida?
A confirmação deve ser recebida
em estado de graça e com a preparação conveniente.
Quem pode confirmar?
Pode confirmar o bispo e em
alguns casos especiais os sacerdotes delegados pelo bispo.