NOSSA SENHORA DA LUZ DOS PINHAIS
(PADROEIRA DE CURITIBA)
O PRIMEIRO MILAGRE DE NOSSA SENHORA DA LUZ DOS PINHAIS
- PADROEIRA DE CURITIBA
Conta uma linda lenda provinda dos primeiros povoadores dos Campos de Curitiba,
que a primeira capela erigida à Nossa Senhora da Luz teve assento à margem do
rio Atuba, no vilarinho dos Cortes, acampamento de sertanistas caçadores de
ouro.
Com o andar do tempo, notaram os vilarengos do Atuba que a efígie de Nossa
Senhora, entronizada na sua tosca capelinha de sapé por aqueles rudes
penetradores do sertão, tinha o olhar voltado para os campos que daquele sítio
decorriam para o poente, aos quais os tupis chamavam Curitiba (Pinhais).
Essa região, porém, era então dominada pelos caingangues, índios ciosos, dos
frutos, de que se alimentavam, dos bosques de fuong (pinheiro) que faziam a
terra pitoresca e farta.
Mas Nossa
Senhora insistia em mirá-la. Todas as manhãs aparecia com os olhos luminosos
voltados para ela.
E tal foi
a insistência que os destemerosos sertanejos do Atuba resolveram sondar a
possibilidade da conquista do sítio indicado pela sua inspiradora padroeira.
Com os seus aprestos d’armas, acrescidos de numerosos arcos de guerreiros
tupis, desceram os atubanos a coxilha do Bairro Alto, penetraram os pinheirais
do Aú, do Bacaxeri e do Juvevê, e surgiram na esplanada dominada pelos longos
toldos dos bárbaros caingangues, prontos para a esperada peleja.
* * *
Nossa Senhora, no alto do Atuba, sorriu. Em vez da luta prevista como certa, o
que ocorreu foi a acolhida generosa e cordial. Do chefe índio para o chefe
branco não partiu a flecha da hostilidade, mas o aceno da paz neste chamado
acolhedor: - Ha kantin! (Vinde!).
E a cordialidade os recebeu com as suas manifestações de expansão primitiva. Os
arcos caingangues foram lançados ao chão em sinal de paz. A rumbiá, da congonha
(cuia de mate), símbolo da hospitalidade, foi oferecida ao chefe dos caingangues.
E rodou, depois, por todo o círculo de guerreiros brancos.
* * * A Virgem, na sua capela de palha, ainda uma vez sorriu. Dela fora o
milagre da paz e da cordialidade e ia ser também o da conquista daqueles lindos
sítios dos pinhais.
A ookire
(buzina) clarinou no bordo de um capão e ecoou na coxilha e afundou na
floresta.
De toda parte acudiram índios que se acercaram do on buonghvê (o maioral, o que
vê mais que todos).
Então Arakxó (gralha branca), ancestral da dinastia dos arakxós que tiveram o mando
da nação, revestido do manto branco de uso entre os guerreiros da sua raça e
enfeitado com o cocar multicor de sua suprema autoridade, com o bastão
inseparável dos caingangues marcou o local que os brancos deveriam tomar por
centro da povoação que fundassem. E fincando o bastão na terra gramada como se
fora um ondeante tapete verde, cor da esperança, disse com solenidade: - Tá!
Tati kéva (Aqui! Aqui é o lugar).
Diz ainda
a lenda que, ao fincá-la no solo, o chefe índio voltou-se para a sua gente e
ordenou: - Kuri tin! (Prontos para a marcha!). E em seguida comandou: - Muna!
(Vamos!). Todos os caingangues se movimentaram, lentamente, rumo das florestas
do ocidente, abandonando aos brancos, com liberalidade e altivez, o campo dos
seus arranchamentos e dos seus domínios.
* * * E Nossa Senhora, na sua capela de sapê, sorriu pela terceira vez.
(MARTINS, Romário, Paiquerê, p. 88-90. Em ARAÚJO, Alceu Maynard;
TABORDA, Vasco José (org.). Estórias e lendas de São Paulo, Paraná e Santa
Catarina)
Curitiba, Corituba ou ainda Corityba, vem de Coreu ou Curi que significa
"pinhão" e Tuba ou Tyba, "muito". Curitiba, terra de muito
pinhão. Em 29 de março de 1693, foi criada a Vila de Nossa Senhora da Luz dos
Pinhais de Curitiba, quando os povoadores se reuniram na capela de pau a pique,
onde já se encontrava a imagem da santa padroeira, Nossa Senhora da Luz,
trazida pelos portugueses. Nesse momento foram aclamados, como autoridades,
seis homens de sã consciência, que fizeram seu juramento, perante o Padre
Antonio de Alvarenga. Curitiba só se tornou capital em 26 de julho de 1854. O
Paraná, que era uma Comarca de São Paulo, adquiriu autonomia em 19/12/1853. A
escolha da sua capital foi disputada também por outras cidades (Paranaguá,
Castro, Lapa e São José dos Pinhais). Não se sabe ao certo a data da criação da
paróquia Nossa Senhora da Luz de Curitiba. Aceita-se como provável o ano de
1668. É certo que em 1683 foi rubricado um livro de registros de batizados.
Padre João de Souto é o seu primeiro pároco. Havia em Curitiba mais quatro
outras igrejas: a da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas (a edificação,
de 1737, hoje é o edifício mais antigo da cidade), a de Nossa Senhora do
Rosário dos Homens Pretos, a de São Francisco de Paula, e a do Senhor Bom Jesus
do Cabral.