Profunda
devoção mariana manifesta-se em setembro, ao norte da Argentina; também se venera
nesse mês, na mesma região, bem como ao sul da Bolívia e do Peru, uma imagem do
Santo Cristo, tradição esta que perdura há mais de três séculos.
Milhares
de peregrinos enchem os caminhos para participar, no dia 15 de setembro, da
procissão que percorre as ruas da cidade de Salta (norte da Argentina),
chegando a ocupar 11 quarteirões. Como explicar que, neste início caótico do
século XXI, até 200 mil pessoas se mobilizem para isto? O que move tantas
pessoas a essa peregrinação?
Na casa
da família Alarcón, em Salta, no século XVII, venerava-se uma imagem da
Imaculada Conceição, trazida da Espanha. Imagem de bom gosto, com cerca de um
metro de altura. Uma entre as numerosas imagens que o povo católico venerava em
suas casas ou fazendas. Portanto, nada havia nela de especial a assinalar que
não existisse de modo semelhante em outras imagens.
Essa
família costumava, cada ano, pagar as despesas de uma procissão que se
realizava com essa imagem. Por isso, no dia 8 de setembro a imagem era
conduzida à Matriz da cidade, sendo depois levada em procissão pelas ruas, e
logo em seguida devolvida à casa da família Alarcón. Inexplicavelmente, no ano
de 1692, terminada a festa, não retornou a imagem, que permaneceu esquecida no
templo mais alguns dias.
Este fato
simbolizava, aliás, a decadência espiritual em que se encontrava a região.
Quando tudo corre bem na vida, com freqüência o homem se esquece de Deus. E com
o olvido advém o relaxamento espiritual. Começam então as contendas, causadas
pelo orgulho, e afrouxam-se o laços da moral. Os pecados aumentaram na região,
que mereceu ser castigada por Deus, pois um bom pai castiga o filho para evitar
que ele se degrade inteiramente.
No dia 13
de setembro de 1692, um terrível terremoto devastou toda a região. A vizinha
cidade de Esteco ficou arrasada, prédios destruídos, famílias inteiras
sepultadas. Completando a desgraça, o rio Las Piedras transbordou, ficando as
ruínas da localidade submersas pelas águas de um lago, e assim permaneceram por
mais de oito anos. Portanto, uma terrível catástrofe, após a qual aquela cidade
passou a ser apenas uma referência histórica. A própria cidade de Salta foi
violentamente atingida. O terremoto prolongou-se por meia hora, duração
inteiramente incomum, pois normalmente os abalos sísmicos duram segundos ou
poucos minutos, mesmo na hipótese de se repetirem várias vezes.
No próprio castigo, uma misericórdia:
Após o terremoto, os habitantes de Salta quiseram entrar para rezar na igreja,
que normalmente estava fechada nesse horário, cerca do meio-dia. Ao fazê-lo,
encontraram caída ao solo a imagem que havia sido ali deixada após a procissão
realizada dias antes. O nicho onde ela se achara ficou totalmente despedaçado,
encontrando-se fragmentos dele por todos os lados. Mas a imagem, mesmo tendo
caído, permanecera intacta e voltada para o tabernáculo, como que implorando
misericórdia para os moradores da cidade. Estes consideraram o fato um sinal de
proteção, e, temendo a repetição do sismo, decidiram levá-la à praça, a fim de
que fosse venerada pelos que a haviam abandonado.
Os
tremores de terra repetiram-se à noite, cessando, contudo, ao amanhecer do dia
14. Entretanto, à tarde desse mesmo dia houve novas trepidações, provocando
terror na população.
Curiosamente,
só então os moradores se lembraram de outra imagem — a de um Cristo — que havia
sido enviada da Espanha por antigo Bispo de Salta. O navio que transportou a
imagem para a América naufragara na costa do Peru, tendo ela aparecido boiando
nas águas do porto peruano de Callao. De lá fora a imagem transladada por terra
para Salta, seu verdadeiro destino, segundo a intenção do referido Prelado.
Tendo
chegado a essa cidade, inexplicavelmente a imagem, ficara esquecida durante um
século na igreja Matriz, dela restando apenas vaga lembrança.
Na tarde do dia 14, por inspiração divina, o padre jesuíta José Carrión,
conhecido e fervoroso pregador, assegurou que, caso se fizesse uma procissão
com esse Santo Cristo, cessaria o castigo. Os padres jesuítas expuseram então a
imagem na praça existente diante de sua igreja. Ficaram assim as imagens de
Cristo e a da Virgem Santíssima a poucos metros uma da outra.
Na manhã
do dia 15 foi realizada, com ambas as imagens, uma procissão, após a qual
cessaram os tremores e se restabeleceu a calma. E começou-se naturalmente a
falar de milagre.
O
terremoto tinha sacudido não só a terra, mas as consciências adormecidas de
numerosas pessoas. Muitos se confessaram, outros regularizaram seu casamento,
vários restituíram objetos roubados etc. Sob seus olhos era recente a visão da
pavorosa destruição da vizinha cidade de Esteco, cujos moradores não tiveram
tempo de fazer penitência, pois que foram colhidos repentinamente pela justa
cólera de Deus. E aos habitantes de Salta poderia ter sido reservada exatamente
a mesma sorte...
Por isto
estes decidiram iniciar uma novena para agradecer ao Divino Redentor e a Nossa
Senhora, por terem perdoado a cidade. Após a novena, ficou decidido que as duas
imagens seriam levadas em procissão.