TÍTULOS DE NOSSA
SENHORA
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NOSSA SENHORA NO VIDRO |
Nada autoriza a crer, salvo prova em contrário. Não há
fraudes nas imagens e ninguém pensa em construção deliberada da semelhança
dessas manchas para atrair curiosos. É, no mínimo mesmo uma coincidência
extraordinária de forma das manchas com as formas tradicionais de iconografia
Mariana.
Das manchas com as formas tradicionais da iconografia
Mariana, essa é uma questão de fé. E de fé apenas. A fé popular muitas vezes é
ingênua e deixa-se seduzir por supostos milagres. Esse é um modo possível de
analisar o fenômeno dos vidros. Outro, que particularmente prefiro, enxerga
aqui mais um dos muitos modos de Nossa Senhora fazer-se presente entre nós. A
ingenuidade da fé popular é expressão exata da Bem Venturança que promete aos
pobres em espírito serem aqueles que, de fato, verão a Deus.
Quanto às alegações de Pe. Quevedo, abaixo transcrita,
bem, Pe. Quevedo é o mesmo que se presta a aparecer
Pe. Quevedo que tem por companheira na mesma campanha
publicitária a elevada senhora Derci Gonçalves. Nada mais a dizer para
esclarecer o que pensamos de sua seriedade e rigor científico! Pouco deve
importar-se se esse é um milagre autêntico, testemunhável por doutores da
igreja.
Os milagres não são os mesmos para os doutores. São para
os pobres, para as crianças como as de Fátima e para os humildes. Alguém disse
que existe aqueles que acreditam em milagres e aqueles para que tudo é um
milagre! Um maravilhoso milagre de viver e repartir o universo de Deus com
irmãos e com os representantes dessa divindade. Seja o vento, seja um profeta,
seja Maria! Os doutores precisam afetar essa seriedade profissional e clínica
que em tudo logra menosprezar o fato vivido da fé, acima de qualquer
necessidade de comprovação. São como aqueles espertos de aldeia que diante do
coelho retirado da cartola para diversões dos adultos e delírio das crianças,
gritam lá de trás da platéia: Não engana, é truque! Brilhante conclusão! Perdem
a mágica e seu prazer pelo prazer equívoco do respeito dúbio de outros tolos
pretensiosos.
Domingo,
dia 21 de julho de 2002, não foi um dia comum. Pelo menos para a
população de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. Ali, diante de uma
casa da rua Antonio Bernardino Correia, milhares de pessoas formaram fila,
durante dia e noite, para observar uma imagem no vidro da janela,
descoberta, por acaso, uma semana antes. Uma imagem comum? Para aquelas
pessoas, não. Tratava-se da imagem de Nossa Senhora, que desde que foi
"vista", tem atraído curiosos e devotos da santa.
Embora a
ciência já tenha possíveis explicações para o fato, não há ainda um resultado
definitivo sobre a maneira pela qual aquela imagem, que , efetivamente, pode
ser confundida com a de Nossa Senhora, tenha aparecido no vidro. Enquanto
isso, a mídia tem se ocupado do "fenômeno", destacando, sobretudo, a
fé das pessoas que para lá acorrem em busca de uma graça salvadora.
Enxergar
santos e personalidades em paredes e vidros não é novidade. Na Flórida, já
foram observadas imagens de Virgem Maria em janelas de um prédio e numa parede
e, como explica Ricardo Bonalume Neto, em artigo publicado na Folha de São
Paulo, no dia 19 de julho, página C-3, "houve o caso de uma criança de
Mallala, na Austrália, que enxergou a princesa Diana em uma mancha de umidade
na varanda da casa dos avôs, no dia em que Diana foi enterrada".
É
possível ver rostos humanos (ou não humanos) conhecidos em nuvens (onde tudo
parece mais "divino") e em rolos de fumaça, como divulgado
durante o incêndio que destruiu as torres do World Trade Center, em setembro de
2001, no atentado terrorista atribuído aos "comparsas de Bin Laden".
A fé e a
vontade de querer ver favorecem a descoberta das aparições, mas é difícil
convencer as pessoas de que não se trata de um milagre (os ambulantes que
vendem água, imagens de santas, salgadinhos etc. acreditam que, efetivamente,
foi um milagre para eles, já que têm vendido como nunca) ou coisa aparecida,
mas de uma ilusão visual, um "simulacrum", como explica
Ricardo Bonalume. Por este motivo, os fiéis e curiosos continuarão a desfilar,
por algum tempo, diante da janela
Ainda
que os jornalistas científicos não acreditem que se trate de um milagre (o que,
efetivamente, se espera), o caso não é desprovido de interesse, inclusive
científico. E deveria merecer a atenção de todos aqueles que estão ou pretendem
divulgar a ciência.
As
pessoas, desde sempre, acreditam em fenômenos não reconhecidos cientificamente,
mesmo porque, em geral, se constituem em algo parecido ao que está ocorrendo
Por este
motivo, empresários e executivos (e até governantes como ex-presidentes
dos Estados Unidos e da França) não abrem mão de "ler" os astros. A
consulta aos signos, em muitas empresas, vem contribuindo para o recrutamento
de talentos, o que, no mínimo, pode atestar a incerteza que tem tomado conta do
mundo dos negócios. Adeptos do Feng Shui fazem malabarismos para afastar os
maus espíritos e muitos outros se apegam aos seus arcanjos, tentando, a
partir de mapas detalhados, descobrirem a que horas do dia eles passarão por
perto, para melhor invocá-los e obter seus favores.
Outros,
mais radicais, bebem urina para combater os males ou queimam velas coloridas
para trazer sorte, saúde e ( quem sabe?) fisgar a Ana Paula Arósio ou o Rodrigo
Santoro.
Aos
céticos, isso soa ridículo e não há como considerar de outra forma, sob a
perspectiva de quem busca sempre a razão das coisas. Mas, parafraseando uma
máxima respaldada na religião, "cuidado com o andor que o santo é de
barro".
O divulgador da ciência deve pressupor, sempre, que o processo de comunicação é
permeado por fatores culturais e que a religião, a credulidade e mesmo o
analfabetismo científico são ruídos importantes na interação com o chamado
público leigo. Essas barreiras para a boa divulgação científica se
manifestam tanto aqui como nos Estados Unidos ou no Japão, indicando que o
cidadão comum tem um perfil parecido, independente de sua localização no
planeta.
Isso
significa que é necessário, na divulgação científica, considerar estes fatores
e administrá-los, buscando não apenas alardear as novidades da ciência e da
tecnologia, mas cumprir um papel pedagógico, ressaltando, sobretudo, as
características do método científico e do processo de produção da ciência. Ser
cético, suspeitar das coisas não provadas, ser crítico para não ser manipulado
pelos "picaretas" da ciência, pelos que pregam a anti-ciência ou
praticam a pseudociência. É bom acrescentar: ser crítico, também, em relação
aos que, travestidos de cientistas ou pesquisadores comprometidos com a
sociedade, faz o jogo dos grandes interesses, acumulando lucros para empresas
inescrupulosas e, planetariamente, não cidadãs.
O
jornalista científico não pode simplesmente fechar os olhos à realidade e sair
por aí, como muitos cientistas têm feito, proclamando aos quatro ventos que não
adianta divulgar a ciência porque a população não tem condições de entendê-la.
Pelo
contrário, deve como missão, buscar torná-la suficientemente clara, com o
objetivo de democratizar o conhecimento e permitir, gradativamente, que as
pessoas comuns participem do processo de tomada de decisões com respeito aos
grandes temas de ciência e tecnologia.
As
barreiras (culturais, políticas, ideológicas, econômicas etc.) existem e
precisam ser enfrentadas, com competência, pelo jornalista científico, na sua
humildade e perseverança para cumprir um papel que, certamente, não é fácil. É
importante frisar, mais uma vez, que, na maioria dos casos, este papel não tem
sido facilitado pelos que produzem C & T ou pelos que estão interessados em
valer-se dela para obter vantagens individuais ou empresariais.
A Santa
da Janela não deve ser exorcizada pelos divulgadores da ciência, mas entendida
As
pessoas têm o direito de acreditar em santos e duendes, se isso lhes faz bem,
mas também têm o direito de serem esclarecidas sobre a verdade dos fatos. Com
isso, estarão melhor preparadas para se livrarem do charlatanismo e dos
pseudo-cientistas. E para, com tranqüilidade e devoção, continuarem praticando
a sua fé. Da nossa parte, com muito respeito aos que pensam de outra maneira,
continuamos acreditando que a ciência é a melhor expressão da inteligência
humana e que vale a pena desconfiar sempre. A Santa não está, certamente, na
janela, mas na cabeça das pessoas. Talvez isso não seja razoável para os
céticos, mas a história está aí para confirmar de que as coisas têm sido
assim. Empenhar-se para mudá-las, fazendo prevalecer à razão, continuará sendo
a missão inegociável do jornalismo científico.