BÍBLIA ON LINE (EM PORTUGUÊS)
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HISTÓRIA
DA IGREJA CATÓLICA |
A
Igreja, que é "a coluna e sustentáculo da verdade" (1Tm 3,15), guarda
fielmente a fé uma vez por todas confiada aos santos (Cf. Jd 1,3). É ela que
conserva a memória das Palavras de Cristo, é ela que transmite de geração em
geração a confissão de fé dos apóstolos. Como uma mãe que ensina seus filhos a
falar e, com isso, a compreender e a comunicar, a Igreja, nossa Mãe, nos ensina
a linguagem da fé para introduzir-nos na compreensão e na vida da fé. (Catecismo
da Igreja Católica)
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1. O TERRENO ONDE A SEMENTE FOI
PLANTADA |
Há
quase dois mil anos, o mundo mediterrâneo era controlado por Roma. O Grande
Império se estendia da Síria até Portugal, das Ilhas Britânicas até o Egito.
Fundado pelo gênio de Otávio Augusto, que soube concentrar em suas mãos o poder
sem destruir as aparências da República, o Império vivia, no início da nossa
era, um período de paz e prosperidade (Pax Romana).
O
helenismo, a influência dos costumes e do pensamento gregos sobre o mundo
mediterrâneo, estimulava o gosto pelas coisas espirituais (estoicismo,
platonismo). Uma grande efervescência religiosa atingia todas as camadas da
sociedade. O panteão romano, retocado pelo Olimpo grego, conservava seu
prestígio e contava com inúmeros fiéis devotos. Mas existiam outras correntes
se desenvolvendo. Pregadores anunciavam seus deuses em cada canto do Império.
Vindos do Egito, através de Alexandria, chegavam os mistérios de Ísis e de
Serápis. Os fenícios adoravam seus baalins. Em Roma, havia o culto sensual da
deusa Cibele, mãe de Pessinonte. O orfismo afirmava a existência de mediadores
entre Deus e os homens - para os pitagóricos, um Logos. As almas mais inquietas
e sedentas de eternidade se voltavam para Mitra, o deus-sol dos arianos, cujo
culto se fortalecia com a astrolatria caldéia. Uma enorme diversidade de
sincretismos e superstições pululava por toda a parte.
Trazido
do Oriente, desenvolvido pelos sucessores de Alexandre Magno, o culto ao
soberano se implantou no Império. Quando morria um imperador, logo surgia um
culto oficial à sua divindade. Nas províncias orientais, o imperador era
adorado ainda em vida.
No
meio dessa babel de crenças, um povo fazia questão de manter-se fiel a um só
Deus, fugindo de toda contaminação pagã. Na Diáspora ou na Palestina, o pequeno
povo de Israel jamais havia esquecido a fé dos antepassados, Abraão, Isaac e
Jacó, e de como Yahweh os tinha libertado da escravidão no Egito. Tinha consciência
do seu status superior, de ser uma raça escolhida e predestinada por Deus,
herdeira das promessas divinas.
Entre
Yahweh e o seu povo havia um laço, a Torá, a Lei que Moisés recebera no monte
Sinai e que tinha de ser observada zelosamente. A Lei era uma coletânea de
preceitos éticos e religiosos fixados em um conjunto de cinco livros sagrados,
o Pentateuco. Ao lado do Pentateuco existiam outros livros, de cunho histórico,
profético, poético, salmos... A sua coleção formava as Escrituras Sagradas do judaísmo.
Na
época de Jesus ainda não havia um cânone fixo das Escrituras. Só depois, no
final do século III, surgirá uma definição mais rigorosa. Ao lado dos livros,
havia entre os judeus uma tradição oral, transmitida de pai para filho. O
sinédrio, tendo a frente o sumo sacerdote, e os escribas, era o responsável
pela guarda da Lei. Jerusalém, a cidade sagrada, e seu templo, eram o centro da
religiosidade dos judeus.
Fora
da Palestina, o judaísmo alexandrino começava a assimilar elementos do
platonismo e do estoicismo. Fílon de Alexandria (
Na
Terra Santa, qualquer tentativa de assimilação com o helenismo era fortemente
repelida. Antíoco Epífanes teve a ousadia de colocar um Júpiter olímpico no
templo de Jerusalém e por isto enfrentou a ira dos Macabeus. Uma verdadeira
guerra santa. Mesmo quando Roma reduziu Israel à condição de simples vassalo, o
povo de Deus se apegou mais ainda à fé de seus pais e se uniu aos fariseus,
sucessores dos piedosos (hasidim) da época dos Macabeus.
Os
fariseus tinham uma espiritualidade centrada na meditação e no cumprimento da
Torá. Para eles o pai judeu que ensinasse grego ao seu filho era maldito.
Impunham uma rígida observância do Sábado. Cuidavam para que os menores
mandamentos fossem sempre respeitados. Acreditavam na imortalidade da alma, na
ressurreição, na existência de anjos, contrariando os ensinamentos dos
saduceus, os quais só reconheciam o Pentateuco.
Os
zelotas, rebeldes que combatiam a dominação romana pela luta armada, encarnavam
o nacionalismo judeu em sua forma mais fanática e intransigente. Os essênios,
segundo Flávio Josefo, se estabeleciam em várias cidades e eram numerosos. A
comunidade essênia de Qumrã se diferenciava por seu estilo de vida cenobítico.
Os Manuscritos do Mar Morto, encontrados recentemente, nos deram mais
informações sobre este grupo em particular.
"Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou
Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei..." (Gl 4,4).
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2. O MESSIAS |
Nazaré
era apenas uma pequena povoação, uma aldeia entre tantas outras da região da
Galiléia. Quem passasse por ali veria um ajuntamento desordenado de casas em
uma encosta rochosa, com uma fonte nas proximidades, cuja água havia atraído
seus primeiros habitantes.
Nazaré
não tinha boa fama. Ainda hoje existe um ditado na Palestina que diz: "A
quem Deus quer castigar, com uma nazarena o faz casar". E Natanael, ao
saber que Jesus era de lá, perguntou a Filipe: "De Nazaré pode vir algo
bom?".
Neste
lugar desprezado por todos vivia uma jovem, desposada por um carpinteiro
chamado José. Embora provavelmente não chamasse a atenção, a não ser por sua
profunda piedade, fé e pureza de coração, tinha sido ela a escolhida, a eleita
de Deus para ser a Mãe do Messias. O salvador esperado por Israel e profetizado
nas Escrituras, que libertaria o povo da opressão e implantaria um Reino maior
que o de David.
Maria,
a cheia de graça, soube por um anjo qual era a decisão de Deus... e disse sim.
Adotado
por José, Jesus nasceu em Belém, na Judéia, talvez entre os anos 6 e 7 antes da
nossa era (outros situam o seu nascimento entre 4 e
Um
dia, arrumou suas ferramentas, despediu-se de sua mãe, e partiu rumo ao rio
Jordão, onde seu primo, João Batista, pregava e batizava.
Depois
de ser batizado e de passar algum tempo no deserto, Jesus dá início ao seu
ministério público. Escolhe doze apóstolos - os fundamentos de sua Igreja,
entre os quais se destacam Pedro, Tiago e João. Atravessa a Palestina várias
vezes realizando milagres e pregando o Reino de Deus. Boa parte dos seus
ensinamentos são proferidos na Galiléia: a oração do Pai Nosso, as
bem-aventuranças, o anúncio da paixão... Sua visão da Lei e seu modo de agir
incomodam os responsáveis pela religião oficial que começam a tramar meios para
eliminá-lo. O modo como se relaciona com Deus - seu Pai, e a afirmação velada
de sua divindade, eram intoleráveis para os fariseus e os escribas.
No
final do ano 29, Jesus desce lentamente para Jerusalém. Sabe que sua hora está
próxima. A festa do domingo de Ramos é logo sucedida pela prisão, pelo processo
diante de Pôncio Pilatos, procurador romano, e pela condenação à morte na cruz.
Provavelmente
no dia 14 de Nisã do ano 30, ou 7 de abril no nosso calendário, uma
sexta-feira, Jesus de Nazaré morre crucificado juntamente com dois ladrões. No
madeiro, uma placa com a inscrição: Jesus de Nazaré, rei dos Judeus, escrita em
hebraico, grego e latim. Ao pé da cruz, estavam um grupo de mulheres, incluindo
sua mãe, e um discípulo. Depois do suplício, o corpo de Jesus é colocado por
alguns seguidores em um sepulcro ali perto. Tudo parecia terminado.
É
fácil aceitar que Jesus morreu. Mas sua ressurreição é algo que escandaliza,
que parece ferir o bom senso e a razão. No entanto, é exatamente isto que os
apóstolos testemunharam três dias depois do "desastre" em Jerusalém.
Jesus ressuscitou, ele vive! A ressurreição é o fulcro, a base de toda a fé
cristã: "...se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé..."
(1Cor 15,17).
Jesus
apareceu várias vezes aos apóstolos. Deixou-lhes instruções, preparou-os mais
um pouco para o que viria a seguir. Quarenta dias depois da Páscoa, "subiu
aos Céus", não sem antes prometer outro Paráclito para conduzir a sua
Igreja.
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3. NASCE A IGREJA |
Os
Evangelhos mostram a Igreja como um barco, no qual Jesus está presente, embora
em alguns momentos pareça estar dormindo (Mt 8,23-27). O mar que este barco
atravessa é a História, às vezes calmo, outras vezes turbulento e ameaçador. Há
quase dois mil anos o barco saiu de seu porto. Não sabemos quando chegará ao
seu destino, mas temos certeza de que Jesus nunca o abandonará.
A
Igreja é um projeto que nasceu do coração do Pai, prefigurada desde o início
dos tempos, preparada na Antiga Aliança com Israel, instituída por Cristo
Jesus. A Igreja é o Reino de Deus misteriosamente presente no mundo. Ela se
inicia já com a pregação de Jesus. Foi dotada pelo Senhor de uma estrutura que
permanecerá até o fim dos tempos. Edificada sobre Pedro e os demais apóstolos,
é dirigida por seus legítimos sucessores.
A
Igreja começa e cresce do sangue e da água que saíram do lado aberto do
crucificado. Nela se conserva a comunhão eucarística, o dom da salvação
oferecido por Jesus em nosso favor.
A
Igreja é indefectivelmente santa, sem mancha e sem ruga, porque o próprio Deus
nela habita, santificando-a por sua presença. O pecado dos fiéis não lhe pertence.
Só em sentido derivado e indireto se pode falar de "Igreja pecadora".
Em
Pentecostes, "a Igreja se manifestou publicamente diante da multidão e
começou a difusão do Evangelho com a pregação" (Ad Gentes, n. 4).
Pentecostes
do ano 30. Todos reunidos: os apóstolos, Maria, parentes de Jesus, algumas
mulheres. Um ruído de ventania desce do céu. Línguas como de fogo surgiram e se
dividiram entre os presentes. Todos ficaram repletos do Espírito de Deus e
começaram a falar em outras línguas.
Esta
assembléia inicial, esta kahal, ekklesia, igreja, é o princípio. Depois do
prodígio das línguas, Pedro dirigiu-se à multidão reunida na praça e fez uma
memorável pregação. Muitos se converteram, especialmente judeus vindos da
Diáspora. Estes levaram a Boa-Nova aos seus locais de origem, o que provocou o
surgimento, bem cedo, de comunidades cristãs
Filipe,
um dos sete, evangelizou em Samaria (foi lá que Simão, o Mago, ofereceu
dinheiro aos apóstolos Pedro e João
Estevão
era o diácono que mais se destacava. Por sua pregação incisiva, é detido pelas
autoridades judaicas, julgado e apedrejado como blasfemador. Torna-se o primeiro
mártir da História da Igreja. Enquanto é assassinado, perdoa os seus
perseguidores e entrega, confiante, a sua vida nas mãos de Jesus.
O
manto de Estevão foi deixado aos pés de um jovem admirador do ideal farisaico
chamado Saulo.
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4. “POR QUE ME PERSEGUES?” |
Saulo,
Schaoul, natural de Tarso da Cilícia, filho da tribo de Benjamim, a
mesma do rei David. Filho de comerciantes ricos, cidadão romano, ligado à seita
dos fariseus, aluno do glorioso rabino Gamaliel, zeloso defensor da Torá.
Depois
de oito dias atravessando a estrada arenosa que ligava Jerusalém a Damasco, o
coração cheio de fúria, inflamado pelo fanatismo religioso, Saulo estava
cansado mas prosseguia com obstinação. Era mais ou menos meio-dia.
Subitamente,
uma luz muito forte o envolveu e o fez cair por terra. Enquanto tentava
compreender o que estava acontecendo, ouviu uma voz: "Saulo, Saulo, por
que me persegues?" Assustado, perguntou: "Quem és, Senhor?" A
voz lhe respondeu: "Eu sou Jesus a quem tu persegues". "Senhor,
que queres que eu faça?" A voz disse: "Levanta-te, entra na cidade.
Aí te será dito o que deves fazer".
Saulo,
o perseguidor, converteu-se no grande arauto do cristianismo, um caso único.
Alguém que não chegou a conhecer Jesus pessoalmente, que não fazia parte dos doze,
mas que se lançou na difícil missão de evangelizar os povos pagãos, percebendo
que não era necessário passar pelo judaísmo para se tornar discípulo de Jesus.
Embora
Pedro já tivesse aberto a porta da Igreja para os gentios, Saulo, ou Paulo,
merece sem dúvida o título de Apóstolo das Gentes.
Em
44, achava-se na cidade de Antioquia (foi lá que pela primeira vez os
discípulos de Jesus receberam o nome de "cristãos") com Barnabé. Ao
longo de um ano trabalharam juntos. Na primavera de 45, tomaram um barco para a
ilha de Chipre e depois seguiram para a Panfília, percorrendo, em seguida, a
Licaônia. Paulo entrava nas sinagogas, pregava, procurava demonstrar que Jesus
era o Messias esperado usando as Escrituras. Depois, voltava-se para os pagãos
e anunciava-lhes a Boa-Nova. Sempre encontrou muitos obstáculos no seu
ministério, principalmente a oposição de seus irmãos de raça.
Quando
voltou para Antioquia entrou em confronto com os judaizantes, que impunham o
rito da circuncisão como pré-requisito para seguir Jesus. A controvérsia é
levada até Jerusalém, diante de Pedro, Tiago e João (o famoso Concílio de
Jerusalém, cerca de 49), os quais aprovam o procedimento de Paulo. Para
salvar-se o que importa não é a circuncisão, mas a fé em Cristo que opera pela
caridade. Isto selou o rompimento do cristianismo com o judaísmo.
Em
49, Paulo sai de Antioquia para uma viagem de três anos. Deixa Barnabé e toma
Silas como companheiro. Na cidade de Listra, Paulo e Silas encontram Timóteo e
seguem atravessando a Frígia e a Galácia, alcançando a Macedônia. Em Filipos
são presos. Em Tessalônica são acusados de adversários do imperador pelos
judeus, porque diziam que Jesus era rei. Em Beréia, a sinagoga escuta
atentamente a pregação de Paulo, comparando suas palavras com o que havia nas
Escrituras.
Quando
entra em Atenas, fica impressionado com a enorme quantidade de ídolos e
monumentos aos deuses. Discute com os atenienses na ágora, tentando usar um
pouco da linguagem da filosofia para lhes falar de Jesus. Quando trata da cruz
e da ressurreição, no entanto, é ridicularizado. Crer que um escravo
crucificado saiu de seu túmulo era demais para a sofisticação intelectual
grega.
Logo
a seguir desce para Corinto, cidade portuária, na qual existem dois escravos
para cada homem livre. Lá, onde trabalha muita gente vinda do Oriente, o
acolhimento do Evangelho é maior do que em Atenas. Como fabricante de tendas,
Paulo fica na cidade por dezoito meses. Neste período envia suas duas cartas
aos Tessalonicenses. Após uma breve escala em Éfeso, Paulo volta para a Síria
pelo mar.
Em
53, Paulo realiza sua terceira viagem missionária, a mais demorada de todas.
Escolhe Éfeso como base de ação (54-57), de onde envia a epístola aos Gálatas e
a primeira epístola aos Coríntios. Em Corinto estavam surgindo divisões que
enfraqueciam seriamente a comunidade.
Um
fabricante de estatuetas de Ártemis provoca um grande tumulto em Éfeso, contra
os cristãos, o que obriga Paulo a partir. O apóstolo segue para a Macedônia,
onde escreve a segunda epístola aos Coríntios. Fica em Corinto novamente e de
lá redige a carta aos Romanos, pedindo ajuda para efetuar uma viagem
evangelizadora até a Espanha.
Antes
disso é preciso ir até Jerusalém levar a coleta feita no Oriente
Em
Cesaréia tentam detê-lo. No ano de 58, em Pentecostes, encontra-se na cidade
santa. Quase linchado, é preso. Quando vai ser flagelado, apela para sua
condição de cidadão romano, e faz com que o enviem a Cesaréia, onde mora o
procurador Félix. A questão se arrasta por dois anos. O sucessor de Félix,
Festo, cansado de ouvir os apelos de Paulo a César, envia-o para Roma.
Quando
finalmente chega à capital do Império, passa dois anos em liberdade vigiada,
correspondendo-se com as comunidades de Colossas, Éfeso e Filipos. Neste ponto
se encerra a narrativa dos Atos dos Apóstolos.
As
epístolas a Tito e a Timóteo são de um segundo cativeiro, na época da
perseguição de Nero.
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5. AS PRINCIPAIS COMUNIDADES
CRISTÃS |
O
que mais impressiona nas primeiras comunidades é o fervor e a coragem dos
cristãos. Diante das autoridades e dos líderes religiosos do seu tempo, os
fiéis não temem confessar que Jesus é o Messias. A presença do Espírito Santo é
muito viva. Cada igreja local tinha seus ministros, apóstolos, profetas,
doutores... Todo o fiel recebia de Deus carismas especiais, que devia colocar à
disposição da comunidade (dom de línguas, sabedoria, cura, ensino...).
A
atuação feminina era expressiva, mas não havia confusão entre o papel do homem
e o papel da mulher (a sociedade romana era muito machista e tratava a mulher
como se fosse propriedade do marido; as crianças também eram desprezadas,
podendo ser rejeitadas ou abandonadas à própria sorte pelo pai - tudo isto muda
entre os cristãos). Em Cristo não há diferença de dignidade entre grego e
judeu, homem e mulher, escravo (a sociedade romana era escravocrata) e livre.
Todos se reuniam para celebrar a eucaristia (ou fração do pão) especialmente no
domingo (que substituiu o sábado como o sétimo dia dos cristãos, por causa da
ressurreição do Senhor), oravam em comum, partilhavam seus bens, ajudavam os
pobres. O rito de iniciação cristã era o batismo, no qual os efeitos da morte
redentora de Cristo eram aplicados sobre o crente. Havia ainda a imposição de
mãos, ou Crisma, através da qual o fiel confirmava o seu compromisso e assumia
uma missão na comunidade, e a unção dos enfermos, que servia para curar e
confortar os doentes.
Uma
fonte importante sobre a vida das comunidades cristãs do final do séc. I e
início do séc. II é a Didaqué, ou Instrução dos Doze Apóstolos, uma espécie de
catecismo primitivo. A primeira parte da Didaqué apresenta os dois caminhos que
o homem pode escolher: o da vida e o da morte. Seguem-se orientações para a
conduta dos fiéis e exortações. Na segunda parte há uma descrição da vida
sacramental e da oração. O batismo é feito
Sobre
a penitência, já lemos no evangelho de João (Jo 20,21-23) que Cristo conferiu
aos apóstolos o poder de perdoar pecados. Paulo, em sua primeira carta aos
Coríntios, condena um caso de incesto e excomunga os responsáveis, esperando
que com isto eles se arrependam e retornem para o Senhor. Na epístola de Tiago
há uma exortação para a confissão dos pecados (Tg 5,16-18). Há casos, porém, de
faltas graves para as quais se hesita em reconhecer a possibilidade de remissão
(Hb 10,26ss; ver também a distinção que o apóstolo João faz entre pecados que
levam à morte e pecados que não levam à morte, 1Jo 5,16). Quem renega a fé não
encontrará misericórdia para seu crime, segundo o autor da carta aos Hebreus.
Os
primeiros cristãos eram geralmente gente simples, das camadas sociais mais
baixas. Exteriormente não se distinguiam das outras pessoas do seu tempo, mas
viviam de modo honesto e digno. Procuravam ser obedientes às autoridades e
oravam pelos governantes.
À
frente de cada comunidade havia epíscopos, ou então um colégio de presbíteros.
Havia também diáconos, que cuidavam da administração e da distribuição dos bens
entre os necessitados. Tanto os epíscopos como os presbíteros e os diáconos
eram ordenados através da imposição de mãos. Esta estrutura ministerial, ainda
não muito precisa, deu origem à hierarquia da Igreja tal como a conhecemos
hoje.
Com
Santo Inácio de Antioquia as coisas ficarão mais claras: "Que todos, assim
como reverenciam Cristo, reverenciem os diáconos, o bispo, que é a imagem do
Pai, e os presbíteros, que são o Senado de Deus, a Assembléia dos
Apóstolos". No início do século II, este regime se imporá naturalmente
entre as igrejas da Ásia.
O
que não se pode negar é que, desde os seus primórdios, a Igreja possui uma
constituição hierárquica, formada pelos apóstolos e por Pedro, e que esta
constituição foi transmitida sempre e ininterruptamente através do sacramento
da Ordem. Os apóstolos fundaram comunidades e ordenaram pessoas para
presidi-las. Estas, por sua vez, ordenaram outras como sucessoras, e o processo
prosseguiu em uma cadeia contínua que permite ligar cada bispo, cada padre,
cada diácono da Igreja de hoje aos apóstolos e, dos apóstolos, ao próprio Jesus
Cristo.
De
modo particular, o bispo de Roma é o sucessor do apóstolo Pedro e, portanto,
responsável por garantir a unidade e a integridade da fé da Igreja.
Outra
característica relevante dos primeiros cristãos era a ansiedade pelo retorno do
Senhor, a Parusia. Pelas cartas de Paulo vemos que a volta iminente de Jesus
era crença comum. Nas assembléias litúrgicas ouvia-se freqüentemente a
exclamação cheia de esperança: "Maranatha! Vem Senhor Jesus!" Com o
tempo percebeu-se que a vinda de Jesus não era tão iminente.
O
cristianismo se aproveitou da imensa rede de estradas que interligava o
Império. Desenvolveu-se principalmente no meio urbano. De boca em boca, através
de escravos, mercadores, viajantes, judeus helenizados, artesãos, a Boa-Nova ia
chegando aos lugares mais distantes. O Império de Roma tornou-se, logo, a
"pátria do cristianismo".
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6. PEDRO E PAULO |
Muitos
opõem Pedro a Paulo e insinuam inclusive que a autoridade deste último na
Igreja primitiva era superior à do primeiro. Nada mais falso. Os Evangelhos mostram
claramente a importância de Pedro como chefe do colégio apostólico e
intermediário de Jesus. "Tu és Kefa e sobre esta Kefa edificarei a minha
Igreja". Estas palavras já são suficientes para estabelecer a importância
e a autoridade superior de Pedro. Junte-se a isto o testemunho dos Atos dos
Apóstolos e o próprio testemunho de Paulo, que fez questão de se encontrar com
Pedro para ter confirmada a sua missão.
Durante
a perseguição de Agripa I, Pedro fica preso, mas graças às orações da Igreja é
milagrosamente libertado. Daí em diante não temos mais informações exatas sobre
o seu paradeiro.
Segundo
a tradição, Pedro e Paulo foram as colunas da Igreja de Roma. Na Cidade Eterna,
durante a perseguição de Nero, por volta do ano 64, as vidas dos dois apóstolos
foram ceifadas no martírio (Pedro morreu talvez no ano 64 e Paulo em 63. Mas há
estudiosos que propõem outras datas).
Crê-se
que Paulo foi decapitado e Pedro crucificado de cabeça para baixo.
Quando
Paulo estava já perto da morte, escreveu estas palavras:
"Quanto
a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo de minha partida. Combati
o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está
reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo juiz, naquele Dia; e
não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua
Aparição" (2Tm 4,6-8).
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7. OS OUTROS APÓSTOLOS |
Existe
também uma tradição, consignada por Eusébio de Cesaréia, que diz que os
apóstolos foram dispersos pelos quatro cantos da terra. Tomé teria ido para o
país dos partos, Mateus para a Etiópia, André para a Cítia e João, para a Ásia,
morrendo em Éfeso. O evangelista Marcos teria fundado igrejas no Egito.
Tiago,
irmão de João, foi decapitado por ordem de Agripa I, em 44. Em 62, o sumo
sacerdote Anã manda apedrejar Tiago, irmão do Senhor e bispo de Jerusalém. Ele
é sucedido por Simeão, filho de Cleófas e de Maria, irmã da mãe de Jesus.
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8. JOÃO |
Entre
os anos 92 e 96, João, o discípulo que Jesus amava, encontrava-se na ilha de
Patmos, deportado por ordem do imperador Domiciano. De seu exílio testemunhava
a crueldade das perseguições contra a Igreja.
Inspirado
por Deus, sentindo a necessidade de reagir contra o desespero e a angústia que
ameaçavam os cristãos, escreveu um livro que é o grito de esperança e confiança
em Deus de todo seguidor de Jesus: o Apocalipse.
Quando
o primeiro século chega ao seu final, o apóstolo é um ancião venerável, cheio
de glória e santidade, reverenciado por toda a Igreja. O seu corpo conservava
as marcas do suplício do óleo fervente, do qual tinha sobrevivido
milagrosamente.
Entre
96 e 104 conclui o quarto Evangelho. Entre suas maiores preocupações estavam as
heresias e os erros que ameaçavam a integridade da fé. Seu estilo teológico é
bem particular, marcado por influências do pensamento grego (o Verbo, ou Logos,
por exemplo).
Com
a morte do discípulo que Jesus amava, aquele que recebeu Maria em sua casa como
mãe, que viu o sangue e a água saindo do lado do Salvador e que conheceu e
tocou com as mãos o Verbo da Vida, encerram-se os tempos apostólicos.
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9. O NOVO TESTAMENTO |
Ao
longo do século I vão se formando as Escrituras cristãs. A língua em que foram
escritos os livros do Novo Testamento é o grego (o grego no Império Romano era como
o inglês em nossos dias - a língua universal). Colecionam-se as epístolas de
Paulo como livros inspirados. As várias tradições orais sobre a vida de Jesus e
seus ensinamentos se cristalizam nos evangelhos. Em torno do ano 50 temos o
Evangelho de Mateus escrito
Outros
apóstolos e figuras ilustres também redigiram epístolas. Pedro (1Pd c. 64, 2Pd
entre 70 e 80), João (1Jo, mais ou menos em 95, 2Jo e 3Jo foram escritas um
pouco antes), Tiago (Tg em torno de 62) e Judas (Jd entre 70 e 80). A epístola
aos Hebreus é datada por volta do ano 67.
Ainda
assim, a fixação do cânone do Novo Testamento levaria um bom tempo. Juntamente
com os livros inspirados circulavam inúmeros evangelhos, epístolas, atos de
apóstolos e apocalipses apócrifos.
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10. O FIM DE JERUSALÉM |
Cansado
da brutalidade dos procuradores Albino (62-64) e Géssio Floro (64-66), e
incitado pelos zelotas, o povo judeu se revoltou.
Durante
o inverno de 66-67, o legado da Síria levou doze legiões pela costa
mediterrânea e conseguiu chegar aos muros de Jerusalém, mas foi derrotado pelos
guerrilheiros judeus. A vitória exaltou os ânimos dos rebeldes. Chegaram a ser
cunhadas moedas de prata com a data do "primeiro ano da liberdade" de
Israel.
Roma
reagiu com força. Em 67 Nero enviou o general Vespasiano, que devastou a
Galiléia com sessenta mil soldados. Mas, ao chegar na região montanhosa do
país, sofreu várias baixas, algumas bem graves.
Na
Páscoa do ano 70, Vespasiano, sucessor de Nero (depois de alguma confusão),
enviou o seu filho Tito para Jerusalém, com todas as forças necessárias. A cidade
santa foi cercada.
Depois
de cinco meses de horror, o cerco termina com a vitória dos romanos. Jerusalém
é reduzida a ruínas, o Templo incendiado e muitos cadáveres ficam apodrecendo
pelas ruas. A resistência judaica é reduzida a grupos insignificantes.
O
último reduto fica em Massada. No ano 73, Flávio Silva, legado da Judéia,
triunfa sobre os revoltosos sicários chefiados por Eleazar, os quais, para
evitarem uma humilhante rendição, preferem matar-se uns aos outros.
Tais
fatos só contribuíram para aumentar ainda mais a tensão entre judeus e
cristãos. O historiador Tácito fala de um comentário feito por Tito, evocando
"a luta de uma destas seitas contra a outra [judeus e cristãos], apesar da
sua origem comum".
Por
volta do ano 93, o historiador judeu Flávio Josefo,
No
começo do século II, o imperador Adriano (117-138) ordenou a reedificação de
Jerusalém. Mas, ao mesmo tempo, mandou encher a cidade de ídolos. As sobras da
resistência de Israel ficaram inflamadas. Um pseudo-messias chamado Bar Kókeba,
e um certo rabi Akiba, incentivam a revolução.
Mais
três anos de horror se sucedem. Os fanáticos combatem em duas frentes: contra
os romanos e contra os cristãos. Roma esmaga impiedosamente os agitadores. Bar
Kókeba é degolado e os sobreviventes dispersos. Os judeus só poderão
aproximar-se novamente de Jerusalém apenas a cada quatro anos, para poderem
chorar e lamentar a sua desgraça.
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11. ROMA E O CRISTIANISMO PRIMEIRAS PERSEGUIÇÕES |
Melitão,
bispo de Sardes, cidade da Ásia Menor, escreveu uma carta para o imperador
Marco Aurélio defendendo os cristãos perseguidos. Nesta carta, ele fala da
providencial coincidência entre o nascimento do Império e o aparecimento do
cristianismo. Jesus nasceu quando Augusto era imperador, e pregou no reinado de
Tibério. A rápida expansão do cristianismo se deveu principalmente à unificação
da bacia mediterrânea sob o poderio romano e às facilidades proporcionadas
pelas estradas e rotas marítimas, que permitiam a rápida circulação de pessoas
e idéias.
Mas
quando foi que o Império começou a se dar conta da existência do cristianismo?
O
documento oficial mais antigo falando dos cristãos é do ano 112: uma carta
enviada a Trajano pelo procônsul da Bitínia, Plínio, o Jovem.
A
opinião pública confundia os judeus com os cristãos. Geralmente ambos os grupos
eram vítimas das mesmas acusações e maledicências. Mas em Roma a diferença foi
percebida bem cedo. Em 49, Cláudio "expulsa de Roma os judeus que se
agitavam por instigação de Crestos [Cristo?]" (Suetônio).
Nero
começou a governar com a idade de 17 anos. Dirigiu o Imperium de
Foi
na noite de 18 (ou 19?) de julho de 64 que as trombetas dos sentinelas
começaram a ser ouvidas pelos quatro cantos de Roma. O fogo se espalhava
rapidamente. Depois de cento e cinqüenta horas, quatro dos catorze bairros da
cidade tinham sido completamente devorados pelas chamas, enquanto de sete só
sobravam as paredes das edificações ou escombros inabitáveis.
Sobre
as causas da calamidade circularam vários rumores. Alguns pensaram que tinha
sido apenas um acidente. Mas atribuir ao acaso tamanha destruição não parecia
uma hipótese muito plausível. Precisava-se de um culpado. E logo o seu nome começou
a correr de boca em boca.
Seria
o próprio Nero o responsável? Sabia-se que ele desejava demolir as velhas
construções para edificar uma nova Roma. Talvez fosse um castigo dos deuses por
causa dos crimes hediondos do imperador. Suetônio nos fala de um boato segundo
o qual Nero teria permanecido em uma torre durante o incêndio, com roupas de
teatro e uma lira, admirando o terrível espetáculo e entoando um poema de sua
autoria sobre a conquista de Tróia e o fogo nela ateado pelos guerreiros de
Agamenon.
Nero
logo teve de arrumar um bode expiatório. Através de torturas e falsas
testemunhas, obteve as "provas" para acusar os cristãos. As prisões
ficaram lotadas a ponto de Tácito se referir aos encarcerados como uma
"grande multidão". Sob acusação de "inimigos do gênero
humano", os cristãos foram perseguidos.
Tertuliano
fala de um instrumento jurídico instituído por Nero para legalizar a
perseguição, o Institutum Neronianum, que afirmava a ilicitude do cristianismo
("non licet esse Christianos", não é lícito ser cristão). Mas os
historiadores não são unânimes em reconhecer isto como fato.
Não
apenas os cristãos eram trucidados, degolados e crucificados no circo de Nero
(que ficava localizado onde hoje está a Basílica de São Pedro). Organizaram-se
verdadeiras caçadas nos jardins do imperador, com fiéis fantasiados de animais.
Foram encenadas as mais escabrosas cenas, copiando a mitologia pagã, onde os
"atores", cristãos, eram humilhados e ultrajados de mil maneiras e
com sadismo indescritível. Durante a noite, pelas alamedas, cristãos cobertos
de pez e resina ardiam em chamas, queimados vivos, iluminando o caminho para a
passagem da carruagem de Nero.
Pedro,
em uma de suas epístolas, alude a esses terríveis sofrimentos. Mais tarde,
quando João escrever o Apocalipse, a sua lembrança ainda será muito viva.
Nada
mudou com Domiciano (81-96), que se autoproclamou "Dominus et Deus".
Quando o século I termina, a fé cristã já começa a conquistar as classes mais
altas, chegando até o palácio do imperador. Flávio Clemente, Flávia Domitila,
parentes de Domiciano, e Acílio Glábrio, um dos cônsules de 91, eram cristãos.
Para satisfazer a alegria das elites pagãs, o imperador massacra os fiéis,
tomando seus bens e executando-os sob a acusação de ateísmo. Na Ásia a
perseguição foi bem violenta.
Trajano
(98-117), mais tolerante, responde a Plínio, o Jovem, em uma carta dizendo que
os cristãos não deviam ser procurados e que as denúncias anônimas deviam ser
ignoradas. Os cristãos convictos que se recusassem a abandonar suas crenças, no
entanto, seriam punidos. O Rescrito de Trajano, como é conhecido este
documento, estabeleceu jurisprudência.
|
12. OS PADRES APOSTÓLICOS |
A
geração cristã que sucede aos apóstolos tem à sua frente bispos e presbíteros, entre
os quais se destacam algumas figuras, luminosas por sua santidade, sabedoria e
zelo doutrinal: os Padres Apostólicos.
Seus
escritos são muito parecidos com as epístolas do Novo Testamento. Procuram
mostrar aos fiéis a importância da salvação concedida por Cristo, reforçam a
esperança no seu retorno, exortam à obediência aos pastores das suas
comunidades e alertam para o risco das heresias e cismas.
São
eles: Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Pápias de
Hierápolis, Barnabé e Hermas.
a) Clemente Romano
Clemente
possuía, na sua época, grande autoridade, embora tenha sido conservado apenas
um escrito de sua autoria: a carta aos Coríntios. A Igreja na Síria atribuiu a
esta carta valor canônico, e o Codex Alexandrinus da Bíblia a incluiu entre os
livros inspirados. Em torno do ano 170 o bispo Dionísio de Corinto atesta a sua
leitura litúrgica.
Orígenes
e Eusébio identificam Clemente com o colaborador de Paulo citado em Fl 4,3. De
acordo com Santo Ireneu, ele foi o terceiro sucessor de Pedro
O
seu exílio para o Quersoneso Taurino e o seu martírio no mar Negro não podem
ser considerados como fatos históricos.
A
carta aos Coríntios, de Clemente, foi redigida nos últimos anos de Domiciano
imperador (c. de 96). A razão de tal carta foram contendas naquela igreja.
Membros mais jovens da comunidade haviam deposto os presbíteros. Quando a
notícia chegou a Roma, Clemente interveio.
Nesta
carta podemos detectar já a presença e o exercício do carisma petrino. Com
autoridade, o bispo da Cidade Eterna exorta os coríntios a se submeterem aos
seus superiores eclesiásticos, exigindo que a estrutura hierárquica da Igreja
de Deus seja respeitada.
b) Inácio de Antioquia
Bispo
da cidade de Antioquia, Inácio foi condenado, no reinado de Trajano, a ser
dilacerado pelas feras. Em seu trajeto para o martírio, da Síria até Roma,
escreveu sete cartas, para as igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales, Roma,
Filadélfia, Esmirna, e para seu irmão no episcopado, Policarpo.
Para
Inácio, a eucaristia é "a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que sofreu
por nossos pecados e que, na sua bondade, o Pai ressuscitou". Ensina que
para a unidade da Igreja é fundamental a comunhão com a hierarquia: bispos,
presbíteros e diáconos.
Santo
Inácio utiliza, pela primeira vez, o termo "Igreja católica" para
designar a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. "Onde aparece o bispo, aí
esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja
católica". Distingue a comunidade de Roma dentre todas as demais. É ela a
igreja que "preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra,
digna de ser chamada feliz, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza,
que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do
Pai..." Lá os apóstolos Pedro e Paulo selaram seu testemunho. Em Roma se
encontra o autêntico magistério da fé.
Seu
martírio ocorreu por volta do ano 110.
c) Policarpo de Esmirna
Policarpo
chegou a conhecer o apóstolo João, que o constituiu bispo de Esmirna. Em meados
do século I tentou fazer um acordo, em Roma, com o papa Aniceto, sobre o dia da
celebração litúrgica da festa da Páscoa (primeira controvérsia quartodecimana).
O heresiarca Marcião, ao encontrá-lo, perguntou ao santo se o conhecia.
Policarpo respondeu: "Sim, eu te conheço. És o primogênito de
Satanás". De acordo com o testemunho de Santo Ireneu, Policarpo escreveu
várias epístolas a diversas comunidades e a bispos em particular. A única que
nos chegou foi a remetida para a igreja de Filipos.
O
Martírio de São Policarpo é a mais antiga narrativa de um martírio de que se
tem notícia. Não se pode duvidar de sua autenticidade. Em um de seus trechos
mais belos, o santo bispo recebe a ordem de amaldiçoar Jesus Cristo. Policarpo
responde: "Há oitenta e seis anos que o sirvo; jamais ele me fez mal
algum; como poderei eu blasfemar contra meu Rei e Salvador?" Quando as
chamas da fogueira milagrosamente se desviavam do seu corpo, teve de ser morto
com uma punhalada. E. Schwartz acredita que a morte de Policarpo se deu no dia
22 de fevereiro de 156.
Seus
ossos foram recolhidos por fiéis, "mais valiosos que pedras
preciosíssimas, mais apreciados que o ouro, e os sepultaram num lugar
apropriado, onde se poderiam reunir eles em cada aniversário" - evidência
de um culto de relíquias ainda em estado embrionário.
d) Pápias de Hierápolis
Pápias
conheceu o apóstolo João e foi companheiro de São Policarpo. Bispo de
Hierápolis, redigiu cinco livros relatando ensinamentos e atos de Jesus e dos
que o seguiam (cerca de 130).
Eusébio,
e) Barnabé
Na
verdade a única referência que temos sobre este Barnabé é uma epístola.
Clemente Alexandrino, Orígenes e a tradição em geral, atribuem esta epístola ao
Barnabé companheiro de São Paulo. Eusébio de Cesaréia e Jerônimo consideram o
documento como apócrifo.
A
primeira parte do escrito fala sobre o Antigo Testamento e analisa as várias
prefigurações do Cristo. A segunda, no estilo da Didaqué, expõe a doutrina das
duas vias, a da luz e a das trevas.
Provavelmente
o seu autor era um mestre gentio convertido. A composição da carta não tem data
certa. Possivelmente depois do ano 130.
f) Hermas
Hermas
era um comerciante de condição simples, cristão, com uma visão um pouco
estreita, mas sincero e piedoso. Para Eusébio e Orígenes, tratava-se do mesmo
Hermas referido por São Paulo em Rm 16,14.
Sua
única obra conhecida é chamada de o Pastor de Hermas. Seguindo o modelo dos
apocalipses judaicos, é uma exortação forte à penitência que utiliza muitas
imagens misteriosas. Afirma a possibilidade de haver perdão dos pecados após o
batismo, embora por tempo limitado. Contradizendo muitos autores antigos,
Hermas considera lícito um novo matrimônio depois da viuvez.
Os
Padres da Igreja, grandes representantes do cristianismo dos primeiros séculos,
explorarão as riquezas da Escritura e da Tradição para expor e aprofundar a fé.
|
13. PERSEGUIÇÃO DO SÉCULO II A GESTA DOS MÁRTIRES |
Os
Antoninos, Adriano (117-138), Antonino Pio (138-161) e Marco Aurélio (161-180)
não fizeram mudanças na legislação anticristã. Esporadicamente eclodiam novas
perseguições e a Igreja ganhava novos mártires. Muitas vezes era a turba que,
fanatizada, levada pela inveja ou pelo patriotismo, denunciava e entregava os
cristãos ao poder público.
Na
Gália temos os mártires de Lyon, em 177. Uma revolta popular arrastou para a
morte cinqüenta cristãos, entre eles Potino, o bispo, que contava na ocasião 90
anos, o diácono Sanctus e a escrava Blandina. Esta última suportou com incrível
coragem inúmeros tormentos antes de entrar no repouso de Cristo. Depois de
queimarem os corpos dos mártires, lançaram suas cinzas no Ródano. Os algozes
comentavam, em tom de zombaria: "Vejamos se agora o seu Deus os
ressuscita".
Em
Roma temos a pequena Cecília. Jovem, de família nobre, quis consagrar-se a
Cristo e fez voto de virgindade. O cutelo do carrasco precisou ser usado várias
vezes antes de conseguir tirar-lhe a vida. Também muitos papas morreram
mártires ao longo do século II.
Em
Scili, na África, doze fiéis foram presos. O interrogatório ao qual foram
submetidos ficou registrado para a História. Todos receberam a coroa do
martírio.
Não
se deve imaginar, no entanto, que os mártires não tinham medo das torturas e da
morte. Muitos cristãos preferiram renegar a própria fé, caindo na apostasia, a
morrer por Cristo.
Porém,
"o sangue dos mártires é semente de cristãos" (Tertuliano). A coragem
dos que preferiam o Senhor à própria vida ajudava na propagação da fé.
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14. OS APOLOGISTAS |
"De
diversas formas, pois, os Padres do Oriente e do Ocidente entraram em relação
com as escolas filosóficas. Isto não significa que tenham identificado o
conteúdo da sua mensagem com os sistemas a que faziam referência. A pergunta de
Tertuliano: ‘Que têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?’,
é um sintoma claro da consciência crítica com que os pensadores cristãos
encararam, desde as origens, o problema da relação entre a fé e a filosofia,
vendo-o globalmente, tanto nos seus aspectos positivos como nas suas
limitações" (Fides et Ratio, n. 41).
Durante
o século II um considerável número de gentios com sólida formação intelectual
ingressou na Igreja. O fato de terem aderido ao Evangelho os obrigava ao
confronto com a filosofia gentílica. Para defenderem a fé dos ataques dos
perseguidores, e também dos detratores, muitos escreveram obras inteiras de
apologética, ficando por isto conhecidos como Apologistas.
Entre
os ataques ao cristianismo promovidos por intelectuais, podemos citar o
discurso do retor Frontão de Cirta, preceptor de Marco Aurélio, Luciano de
Samósata e Celso (com sua obra polêmica: Alethès lógos, c. de 178). Entre as
acusações contra os cristãos, as mais comuns são a de ateísmo, assassinato
ritual de crianças e traição ao imperador.
O
grafitto do Palatino nos mostra um asno crucificado com algumas inscrições. Um
certo Alexamenos, jovem cristão, é ridicularizado pelo companheiro de estudo:
"Alexamenos adora o seu Deus". Em resposta escreve ao lado do insulto
a frase: "Alexamenos fiel".
Diante
da cultura pagã a Igreja assumiria duas posições: uma de oposição e rejeição
(com Taciano, Teófilo ou Tertuliano, por exemplo), e outra de aproveitamento,
assimilação dos seus aspectos positivos (Justino e outros pensadores cristãos,
principalmente do mundo grego). A influência de filósofos gregos,
principalmente Platão, sobre os Padres da Igreja é marcante.
Entre
os apologistas, citamos Quadrato, Aristão, Milcíades, Apolinário, Melitão,
Aristides de Atenas e Justino. Também merecem destaque Taciano, Atenágoras de
Atenas, Teófilo de Antioquia, Hérmias e a epístola a Diogneto.
Quadrato
foi discípulo dos apóstolos. Apresentou uma apologia ao imperador Adriano, em
123/124 (ou em 129?). Aristão de Pela defendeu o cristianismo contra os ataques
dos judeus redigindo o Diálogo entre Jasão e Papisco sobre Cristo. Milcíades,
retor originário da Ásia Menor, escreveu várias apologias contra os gregos e os
judeus. Apolinário, bispo de Hierápolis, compôs quatro apologias. Melitão,
bispo de Sardes, enviou uma defesa da fé cristã ao imperador Marco Aurélio.
Aristides
de Atenas, um filósofo, redigiu sua Súplica em favor da religião cristã para o
imperador Adriano.
De
todos os apologistas aquele que merece mais destaque, com certeza, é Justino.
Martirizado pelo ano 165, era filho de uma família greco-pagã de Flavia
Neapolis, antiga Siquém, na Palestina. Familiarizado com muitas correntes
filosóficas, não encontrou nenhuma que lhe desse todas as respostas que
procurava. Sua mente e seu coração só encontraram a resposta na fé cristã.
Conservamos
de suas obras duas Apologias contra os gentios e o Diálogo com o judeu Trifão.
A
teoria das sementes do Verbo que ele formulou estabeleceu uma ponte entre a
filosofia antiga e o cristianismo. Em seus escritos encontram-se valiosas
informações sobre o batismo e a celebração litúrgica. Justino chega a esboçar
uma formulação do dogma da transubstanciação. "De fato, não tomamos essas
coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo,
nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por
nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que
procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças - alimento
com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne - é a carne
e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado". Também é relevante o paralelo
que ele faz entre Maria e Eva, semelhante ao paralelo paulino entre Cristo e
Adão.
Taciano
foi discípulo de Justino. Depois do martírio do seu mestre, deixou Roma e
voltou para o Oriente, sua região de origem. Acabou aderindo à seita dos
encratitas, pregando a abstinência do matrimônio, do vinho e da carne. Seguindo
Epifânio, substituiu o vinho pela água na eucaristia. Escreveu várias
apologias.
Atenágoras
de Atenas supera Justino em sua linguagem, estilo e ritmo. É mais tolerante do
que Taciano no que se refere à filosofia e cultura gregas. Fez uma
"Súplica em favor dos cristãos", dirigida, cerca de
Teófilo
de Antioquia, bispo desta cidade, escreveu três livros A Autólico, depois de
180. É o primeiro a empregar o termo triás para falar de Deus.
A
carta a Diogneto foi redigida na segunda metade do século II, de acordo com a
maioria dos estudiosos. Um certo Diogneto teria feito a um cristão três
perguntas: 1) Qual a religião dos cristãos e por que eles rejeitam o judaísmo e
o paganismo? 2) O que é a caridade para com o próximo? 3) Por que a religião
cristã apareceu tão tarde na história do mundo?
|
15. DIFUSÃO DO CRISTIANISMO NO SÉCULO
II |
No
final do século II, existem cristãos espalhados em todos os lugares do mundo
romano. No Oriente (Ásia Menor, Síria, Palestina), a concentração de fiéis é
maior, inclusive fora das cidades. No Ocidente, o progresso da evangelização é desigual.
O Evangelho penetrou profundamente na Itália Central, no sul da Espanha, no
norte da África. Na Ilíria, na Itália do Norte e na Gália a presença é menor.
Fora
do Império existiam cristãos no reino de Edessa e no Império Persa.
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16. VIDA DE FÉ E SACRAMENTOS |
Quem
vai a Roma atrás de atrações turísticas quase certamente vai querer conhecer as
catacumbas, cemitérios subterrâneos na periferia da cidade antiga. Lá os
cristãos enterravam seus mortos. Nessas galerias subterrâneas gerações de fiéis
oraram pelos seus entes queridos. Nas suas paredes existem várias pinturas
relembrando cenas bíblicas: Moisés batendo no rochedo, Daniel na cova dos
leões, Jonas saindo das entranhas do peixe ou o Bom Pastor...
O
rito de iniciação cristã, como já vimos, era o batismo, geralmente ministrado
para adultos (só quando o cristianismo se tornar religião majoritária a prática
do batismo de crianças será a praxe comum). Os conversos tinham um período de
preparação, o catecumenato, durante o qual se preparavam para receber este
sacramento.
Os
que eram aprovados, recebiam o batismo nas correntezas de algum rio. Quando não
houvesse rio, era utilizada uma piscina. E, na falta de uma piscina,
batizava-se derramando a água sobre a fronte, como se faz hoje em dia em nossas
igrejas.
Ao
receber o batismo o fiel já pode se aproximar da eucaristia, a carne e o sangue
de Jesus Cristo. Eucaristia é uma palavra grega que quer dizer "ação de
graças". Todos os domingos os cristãos se reuniam na casa de alguém - podia
ser a casa de um rico convertido - para celebrar a Santa Missa (o termo missa
parece ser oriundo do latim - "ite missa est", "ide, é o
fim", dizia o diácono, despedindo os fiéis - e é usado a partir do século
IV). Em tempos de perseguição ou no aniversário de morte de um mártir, os fiéis
se dirigiam às catacumbas, onde era mais seguro. Faziam-se leituras do Antigo
Testamento ou das cartas dos apóstolos. Em seguida o presidente exortava a
assembléia, com base na Palavra proclamada. Após esta "homilia", os
fiéis faziam suas preces e ofertavam no altar o pão, o vinho e a água. O
presidente então dizia preces e ações de graças, repetia as palavras de Jesus
na última ceia (consagrando o pão e o vinho), e iniciava a distribuição da
Eucaristia. Os diáconos levavam parte do alimento consagrado para os ausentes.
Os fiéis mais generosos entregavam suas doações ao presidente, que as dividia
entre os orfãos, as viúvas, os doentes, os estrangeiros e encarcerados.
Pouco
a pouco começa a se organizar um ciclo litúrgico. No segundo século a festa da
Páscoa era comemorada anualmente.
Jesus
era o centro da fé. Orava-se várias vezes ao dia, erguendo-se as mãos e
voltando-se para o Oriente, ajoelhando-se, prostrando-se. Orava-se antes das
refeições, ao levantar, na hora de dormir, quando se fazia alguma ação
especial, enquanto se trabalhava ou antes de sair para visitar alguém. Havia
também o costume, herdado dos judeus, de rezar na hora terceira, na hora sexta
e na nona. Rezava-se o Pai Nosso, salmos extraídos das Escrituras, hinos, como
o Magnificat e o Benedictus, além de orações espontâneas.
À
medida que o cristianismo crescia em número, aumentavam os casos de fiéis que
cediam às tentações da cobiça, da luxúria, da apostasia...
A
penitência era algo levado muito a sério. Quem pecasse gravemente depois do
batismo podia não mais voltar para a comunhão da Igreja. No século II duas
correntes se enfrentam: uma mais rigorista e outra mais tolerante. A primeira
recusava o perdão em todos os casos, deixando os fiéis em pecado grave
entregues à própria sorte. O poder de perdoar, concedido a Pedro e aos demais
apóstolos, era usado com muito critério naqueles tempos.
No
fim do século II, o cristão em pecado grave era obrigado a oferecer algum tipo
de reparação para a Igreja. Durante algum tempo era excluído da liturgia
eucarística e precisava fazer jejuns, dar esmolas, submeter-se a severas
mortificações até o dia em que o bispo lhe concederia a absolvição.
O
casamento era vivido pelos cristãos com um sentido inteiramente novo. Para eles
a relação entre marido e mulher devia refletir a relação entre Cristo e a
Igreja. O casamento era um sacramento no qual o mistério do amor humano era
assumido e elevado pela graça. Apesar deste caráter sobrenatural, no entanto,
não havia nenhuma cerimônia litúrgica especial para o casamento. "Os
cristãos se casam como todo mundo", diz a epístola a Diogneto. O aborto e
o abandono de crianças, práticas comuns entre os pagãos, eram totalmente
condenados. O matrimônio, para os seguidores de Jesus, era indissolúvel.
Da
maior parte dos papas deste século não restou senão o nome (Evaristo,
Alexandre, Sixto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sóter, Eleutério...). Mesmo
assim, o primado da Igreja de Roma e do seu bispo, o Sucessor de Pedro, era
amplamente reconhecido e aos poucos ia ganhando maior destaque.
Embora
houvesse várias igrejas espalhadas pelo orbe, todos os fiéis tinham consciência
de pertencerem à grande Igreja, a Igreja de Jesus Cristo.
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17. AS HERESIAS |
O
apóstolo Paulo já tinha preocupações com a integridade da fé das comunidades
cristãs. Deixou advertências contra o risco das práticas judaizantes, gnósticas
e contra alguns que negavam a ressurreição dos mortos.
O
Apocalipse de João denuncia duas seitas gnósticas: a dos discípulos de Balaão e
a dos nicolaítas. Estes últimos amaldiçoavam o Deus do Antigo Testamento e
levavam uma vida libertina.
O
que é gnose? A gnose é uma espécie de conhecimento superior, adquirido de modo
direto, intuitivo, das respostas de todos os problemas que angustiam a alma
humana. Todos os grupelhos gnósticos tinham alguns princípios em comum: a
maldade da matéria e da carne, a infelicidade do homem, prisioneiro do seu
próprio corpo, a existência de uma alma inferior e manchada pelo pecado, e de
uma alma superior, celestial, em suma: um dualismo da pior espécie.
Os
gnosticismo cristão (sim, porque havia também um gnosticismo judeu - Simão o
Mago à frente - e pagão) possuía uma doutrina bastante complexa. Acreditava na
existência de eões que emanavam de Deus e que faziam o papel de mediadores
entre o mundo e o Criador. Estes eões eram organizados em classes, variando dos
menos puros aos mais puros. Todas as classes de eões constituíam o pleroma.
No
meio da seqüência de eões, um deles tentou se igualar a Deus e caiu em
desgraça. Colocado para fora do mundo espiritual, teve de viver com seus
descendentes em um universo intermediário. Revoltado, criou o mundo físico,
essencialmente mal e contaminado pelo pecado. O éon prevaricador era conhecido
como Demiurgo e identificado com o Deus do Antigo Testamento.
O
homem, emanação do éon decaído, contém em si uma centelha da divindade que
aspira ser libertada da materialidade. Mal é estar vivo. Os que querem viver
estão condenados. São chamados de "hílicos" ou "materiais".
Os que buscam a gnose, os "psíquicos", têm a possibilidade de
alcançar a paz interior. Finalmente, os que renunciam à vida, os
"espirituais", são os únicos capazes de obter a salvação.
Jesus
era um éon escondido em um invólucro de carne humana. A razão de sua vinda era
ensinar aos homens o verdadeiro conhecimento capaz de libertar, a gnose.
Existiu
um gnosticismo sírio-cristão, encabeçado por Saturnilo, e depois por Cérdon.
Também houve o gnosticismo de Basílides, hostil ao deus dos judeus.
Principalmente, em Alexandria e
Temos
Marcião, gnóstico "híbrido". Entrou em conflito com as autoridades da
Igreja de Roma. Saiu e foi excomungado em 144. Tornou-se o fundador de uma
contra-igreja, na qual era dogma de fé a existência de dois deuses, um bom e um
mal. O primeiro, o Demiurgo, era o Deus do Antigo Testamento: justiceiro,
vingativo, impiedoso. O segundo, o Deus verdadeiro, era o Deus pregado por
Jesus Cristo: amor, perdão, bondade.
Doutrinas
tão "amalucadas", às vezes ridículas e às vezes terríveis, atraíam
muitas almas inquietas.
Marcião
organizou sua igreja e estabeleceu seu próprio cânone de livros inspirados,
rejeitando tudo o que poderia contradizê-lo nas Escrituras. Os marcionitas
cresceram tanto que pareciam ter invadido todo o mundo cristão. Mesmo com sua
morte, em 160, suas comunidades continuaram a existir. Seus sucessores serão
irrelevantes, excetuando Apeles, que diminuirá um pouco o rigor das teses do
fundador. Parte dos marcionitas passará para o maniqueísmo no século III.
Há
ainda o montanismo. No final do século II, Montano, da Frígia, acreditava ser o
único depositário do dom da profecia. Ajudado por duas visionárias, Maximila e
Priscila, que tinham deixado os maridos para o seguirem, começou um movimento
de evangelização frenético pelas províncias do Oriente Próximo. O fim do mundo
estava próximo, o Espírito Santo iria aparecer gloriosamente! Montano era o
arauto da Era do Espírito.
Tal
loucura se espalhou rápido pelo Oriente, tradicionalmente místico. A
austeridade moral exigida por Montano não espantava em um lugar que já tinha
visto gauleses se castrarem na iniciação dos mistérios frígios. O martírio era
obrigatório no montanismo.
A
partir de 170, mais ou menos, este movimento explosivo se espalhou
vigorosamente pela Ásia e depois pelo Ocidente. Comunidades montanistas
floresciam em muitos lugares.
A
controvérsia quartodecimana, sobre a data da celebração da Páscoa, gerou vários
atritos dentro da Igreja. O papa Vítor (aprox. 189-198) anunciou a ruptura da
Igreja romana com as comunidades que celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisã.
Muitos bispos não aceitaram o procedimento de Vítor, e até Santo Ireneu pediu
mais tolerância ao papa. Com o tempo, porém, a posição de Roma prevaleceu.
(para historiadores protestantes racionalistas como Neander, Langen e Harnack,
a atitude de Vítor na questão quartodecimana indica que o bispo de Roma já
possuía, no século II, jurisdição sobre todas as igrejas).
O
monarquianismo, inventado por Teódoto, ensinava um só Deus e uma só pessoa
divina. Noeto, da cidade de Esmirna, ensinava que o Pai padeceu na cruz
(patripassianismo).
Por
fim, o milenarismo, que acreditava em um reinado de mil anos dos fiéis com
Cristo sobre a terra, no qual se usufruiriam de todas as delícias imagináveis.
Pápias era um pouco milenarista. Como veremos a seguir, levou algum tempo para
esta doutrina ser condenada.
|
18. CONTRA AS HERESIAS |
O
apóstolo Paulo já tinha preocupações com a integridade da fé das comunidades
cristãs. Deixou advertências contra o risco das práticas judaizantes, gnósticas
e contra alguns que negavam a ressurreição dos mortos.
O
Apocalipse de João denuncia duas seitas gnósticas: a dos discípulos de Balaão e
a dos nicolaítas. Estes últimos amaldiçoavam o Deus do Antigo Testamento e
levavam uma vida libertina.
O
que é gnose? A gnose é uma espécie de conhecimento superior, adquirido de modo
direto, intuitivo, das respostas de todos os problemas que angustiam a alma
humana. Todos os grupelhos gnósticos tinham alguns princípios em comum: a
maldade da matéria e da carne, a infelicidade do homem, prisioneiro do seu
próprio corpo, a existência de uma alma inferior e manchada pelo pecado, e de
uma alma superior, celestial, em suma: um dualismo da pior espécie.
Os
gnosticismo cristão (sim, porque havia também um gnosticismo judeu - Simão o
Mago à frente - e pagão) possuía uma doutrina bastante complexa. Acreditava na
existência de eões que emanavam de Deus e que faziam o papel de mediadores
entre o mundo e o Criador. Estes eões eram organizados em classes, variando dos
menos puros aos mais puros. Todas as classes de eões constituíam o pleroma.
No
meio da seqüência de eões, um deles tentou se igualar a Deus e caiu em
desgraça. Colocado para fora do mundo espiritual, teve de viver com seus
descendentes em um universo intermediário. Revoltado, criou o mundo físico,
essencialmente mal e contaminado pelo pecado. O éon prevaricador era conhecido
como Demiurgo e identificado com o Deus do Antigo Testamento.
O
homem, emanação do éon decaído, contém em si uma centelha da divindade que
aspira ser libertada da materialidade. Mal é estar vivo. Os que querem viver
estão condenados. São chamados de "hílicos" ou "materiais".
Os que buscam a gnose, os "psíquicos", têm a possibilidade de
alcançar a paz interior. Finalmente, os que renunciam à vida, os
"espirituais", são os únicos capazes de obter a salvação.
Jesus
era um éon escondido em um invólucro de carne humana. A razão de sua vinda era
ensinar aos homens o verdadeiro conhecimento capaz de libertar, a gnose.
Existiu
um gnosticismo sírio-cristão, encabeçado por Saturnilo, e depois por Cérdon.
Também houve o gnosticismo de Basílides, hostil ao deus dos judeus. Principalmente,
em Alexandria e
Temos
Marcião, gnóstico "híbrido". Entrou em conflito com as autoridades da
Igreja de Roma. Saiu e foi excomungado em 144. Tornou-se o fundador de uma
contra-igreja, na qual era dogma de fé a existência de dois deuses, um bom e um
mal. O primeiro, o Demiurgo, era o Deus do Antigo Testamento: justiceiro,
vingativo, impiedoso. O segundo, o Deus verdadeiro, era o Deus pregado por
Jesus Cristo: amor, perdão, bondade.
Doutrinas
tão "amalucadas", às vezes ridículas e às vezes terríveis, atraíam
muitas almas inquietas.
Marcião
organizou sua igreja e estabeleceu seu próprio cânone de livros inspirados,
rejeitando tudo o que poderia contradizê-lo nas Escrituras. Os marcionitas
cresceram tanto que pareciam ter invadido todo o mundo cristão. Mesmo com sua
morte, em 160, suas comunidades continuaram a existir. Seus sucessores serão
irrelevantes, excetuando Apeles, que diminuirá um pouco o rigor das teses do
fundador. Parte dos marcionitas passará para o maniqueísmo no século III.
Há
ainda o montanismo. No final do século II, Montano, da Frígia, acreditava ser o
único depositário do dom da profecia. Ajudado por duas visionárias, Maximila e
Priscila, que tinham deixado os maridos para o seguirem, começou um movimento
de evangelização frenético pelas províncias do Oriente Próximo. O fim do mundo
estava próximo, o Espírito Santo iria aparecer gloriosamente! Montano era o
arauto da Era do Espírito.
Tal
loucura se espalhou rápido pelo Oriente, tradicionalmente místico. A
austeridade moral exigida por Montano não espantava em um lugar que já tinha
visto gauleses se castrarem na iniciação dos mistérios frígios. O martírio era
obrigatório no montanismo.
A
partir de 170, mais ou menos, este movimento explosivo se espalhou
vigorosamente pela Ásia e depois pelo Ocidente. Comunidades montanistas
floresciam em muitos lugares.
A
controvérsia quartodecimana, sobre a data da celebração da Páscoa, gerou vários
atritos dentro da Igreja. O papa Vítor (aprox. 189-198) anunciou a ruptura da
Igreja romana com as comunidades que celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisã.
Muitos bispos não aceitaram o procedimento de Vítor, e até Santo Ireneu pediu
mais tolerância ao papa. Com o tempo, porém, a posição de Roma prevaleceu. (para
historiadores protestantes racionalistas como Neander, Langen e Harnack, a
atitude de Vítor na questão quartodecimana indica que o bispo de Roma já
possuía, no século II, jurisdição sobre todas as igrejas).
O
monarquianismo, inventado por Teódoto, ensinava um só Deus e uma só pessoa
divina. Noeto, da cidade de Esmirna, ensinava que o Pai padeceu na cruz
(patripassianismo).
Por
fim, o milenarismo, que acreditava em um reinado de mil anos dos fiéis com
Cristo sobre a terra, no qual se usufruiriam de todas as delícias imagináveis.
Pápias era um pouco milenarista. Como veremos a seguir, levou algum tempo para
esta doutrina ser condenada.
|
19. SANTO ERINEU O ADVERSÁRIO DA GNOSE |
Ireneu
é considerado o maior teólogo do século II. Nascido na Ásia Menor (entre 140 e
160), chegou a conhecer São Policarpo de Esmirna, discípulo do apóstolo São
João. Era presbítero na cidade de Lyon durante a perseguição de Marco Aurélio.
Após o martírio de Potino, foi eleito bispo daquela cidade. Não temos nada de
exato sobre sua morte. Segundo uma tradição antiga, ele teria sido martirizado
por hereges depois do ano 200, com aproximadamente 70 anos de idade. Outros,
porém, afirmam que ele morreu em um massacre de cristãos em Lyon, no reinado de
Sétimo Severo (202?). A Igreja o venera como mártir, no dia 28 de junho.
A
sua maior obra, "Adversus haereses", "Contra as heresias",
foi escrita entre os anos 180 e 185. Trata-se de um ataque demolidor ao sistema
gnóstico. Depois de expor e refutar detalhadamente as doutrinas da gnose (que
conhecia muito bem), Ireneu revela a verdadeira doutrina: o cristianismo.
Testemunha
de grande autoridade, Ireneu fala, entre outras coisas:
·
Do
valor da Tradição como regra de fé.
·
Do
primado da Igreja de Roma: "Com esta Igreja, por causa de sua autoridade
principal, faz-se mister concordarem as demais Igrejas, a saber, os fiéis do
universo, na qual se manteve incólume sempre, esses fiéis de toda a parte, a
tradição apostólica"
·
"...onde
está a Igreja está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus está a
Igreja e toda graça".
·
Da
estada e do martírio de São Pedro e de São Paulo em Roma.
·
Que
Cristo é a encarnação de Deus. Nele Deus se faz homem para divinizar a
humanidade.
·
Que
A Virgem Maria, por sua obediência, consertou a desobediência de Eva. Maria é a
"advogada de Eva" e "causa de salvação" para o gênero
humano.
·
Da
doutrina do pecado original.
·
Do
costume de se batizar também as crianças;
·
Que
a eucaristia é a carne e o sangue de Jesus. "Compõe-se de dois elementos,
um terreno e outro celeste". É o sacrifício novo, anunciado por Malaquias
(Ml 1,10s), celebrado pela Igreja no mundo inteiro.
Acompanhando
muitos de sua época, Ireneu era milenarista. Como, porém, o milenarismo não
tinha sido condenado pelo Magistério, não faz o menor sentido dizer que Ireneu
é culpado de heresia. Não se pode falar de culpa sem conhecimento de causa.
|
20. SÍMBOLOS, ATAS DE MARTÍRIO,
EPITÁFIOS, LITERATURA... |
No
Novo Testamento existem numerosas profissões de fé (cfr. At 8,37; 1Cor 12,13;
Rm 10,9; Fl 2,11; 1Cor 15,3s; 1Cor 8,6; 2Cor 13,14; 1Cor 12,4) resumindo pontos
essenciais do cristianismo. Os primeiros símbolos datados da metade do século
II se inspiram no mandamento de Jesus acerca do batismo
Inúmeras
homilias e atas de martírios são conhecidas deste período. Destaques: a Homilia
de Melitão sobre a Páscoa, o Martírio de Policarpo, a Carta das Igrejas de
Viena e Lyon às igrejas da Ásia e da Frígia, as Atas dos mártires de Scili.
O
epitáfio de Abércio de Hierápolis, do final do século II, é o monumento de
pedra mais antigo que se refere à eucaristia. Abércio tinha sido bispo de
Hierápolis, na Frígia. Aos 72 anos de idade mandou fazer a inscrição, na qual
fala, entre outras coisas, do seu envio a Roma pelo Pastor, encontrando por
toda parte irmãos na fé, dos quais recebeu o "peixe" (ICHTHYS, em
grego, abreviação de "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador" - a
iconografia cristã aproveitará esta simbologia), vinho misturado e pão. Atesta
o costume cristão de se orar pelos mortos.
O
epitáfio de Pectório, para alguns do início do séc. II, para outros do séc. III
ou IV, fala do batismo, "fonte imortal das águas divinas", da
eucaristia, "alimento melífluo do Redentor dos santos", "peixe
que sustentas nas mãos". Pectório pede a seus pais falecidos que se
recordem dele "na paz do peixe".
A
quantidade de evangelhos e epístolas gnósticas que circulavam no segundo século
é enorme: o Evangelho de Tomé, o Apocryphon de João, a carta de Tiago, o
Evangelho de Maria, a Sabedoria de Jesus Cristo, os dois livros de Jeú, o
Evangelho de Matias...
Também
o número de apócrifos não-gnósticos (livros não-canônicos) é elevado: O
Testamento dos doze patriarcas, o Martírio e a ascensão de Isaías, os Oráculos
sibilinos, o Evangelho dos Nazoreus, dos ebionitas, dos hebreus, dos egípcios,
de Pedro, a epístola dos Apóstolos, o Proto-evangelho de Tiago, a Narração da
infância de Jesus, por Tomé, o Kerygma de Pedro, os Atos de Pedro, os Atos de
São Paulo, os Atos de André, o Apocalipse de Pedro...
No
meio de tantos livros, cada igreja possuía um esboço do que seria o cânone
definitivo do Novo Testamento.
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21. DO GREGO PARA O LATIM MINÚNCIO FELIZ E O GÊNIO DE TERTULIANO |
Nos
primeiros tempos, o grego havia sido a língua oficial da Igreja. Tanto o Novo
Testamento como os escritos dos Padres Apostólicos e da maior parte dos
Apologistas foram feitos em grego. Levaria pouco tempo, no entanto, para que o
latim começasse a se firmar no Ocidente.
Minúcio
Félix, advogado em Roma, redigiu um diálogo apologético em latim, o Otávio (por
volta de 197). A única apologia escrita nesta língua no tempo das perseguições.
Quintus
Septimius Florens Tertullianus, nascido em Cartago, por volta do ano 160, filho
de um centurião, pagão com excelente formação intelectual, possuidor de grandes
conhecimentos jurídicos e de retórica. Conhecia bem o grego. Depois de exercer
a jurisprudência em Roma, retornou para sua cidade de origem pelo ano 195, como
cristão. Por volta do ano 207 rompe com a Igreja e adere ao montanismo. Sua
morte ocorreu, provavelmente, depois do ano 220.
Exímio
no uso do latim, Tertuliano foi o primeiro a usar o termo Trinitas para
designar a Trindade. Expôs também a tese de que o Pai e o Filho eram da mesma
substância. Antecipou-se em um século ao Símbolo de Nicéia.
Suas
principais obras foram: Ad nationes, o Apologeticum (aos governadores das
províncias do Império - uma apologia que considera as acusações políticas
contra os cristãos, como o crime de lesa-majestade e a negação dos deuses
imperiais; passa a apologética do plano filosófico para o jurídico), Adversus
Iudaeos, De praescriptione haereticorum, Adversus Marcionem (contra a gnose de
Marcião), Adversus Valentinianos (contra a gnose de Valentino), Scorpiace, De
carne Christi (contra o docetismo dos gnósticos), Adversus Praxean (exposição
mais clara antes de Nicéia sobre a doutrina da Trindade, contra o patripassiano
Práxeas), De baptismo, De anima (obra antignóstica), Ad martyres, De
paenitentia, Ad uxorum... Do período montanista temos alguns escritos de
caráter ascético, como o De exhortatione castitatis, em que exorta um amigo
viúvo a não contrair novas núpcias (para ele uma forma de devassidão), De
corona (onde condena o exercício das funções militares por cristãos e refere de
passagem o costume de se fazer o sinal da cruz), De pudicitia (onde,
contrariando o que dizia enquanto católico, nega à Igreja o poder de perdoar
pecados).
Tertuliano
fala das duas naturezas na única pessoa de Jesus Cristo. Ensina que o primado e
o poder das chaves foram dados à Pedro (fala da morte de Pedro e Paulo
Contra
os hereges, Tertuliano ensina: apenas a Igreja é quem pode possuir
legitimamente a fé. A ela cabe a reta interpretação das Escrituras, à luz da
Tradição. A doutrina conservada nas Igrejas apostólicas determina as verdades
que devem ser cridas por todos os fiéis. Não adianta discutir com os hereges
usando as Escrituras porque eles distorcem e mutilam a Palavra de Deus.
Sua
atitude diante da filosofia pagã é essencialmente negativa. A especulação
filosófica só é útil enquanto concorda com o Evangelho. Acredita na
possibilidade de uma demonstração racional da existência de Deus e da
imortalidade da alma.
Ao
contrário da grande corrente da Tradição cristã (como a encontramos, por
exemplo, no Proto-evangelho de Tiago), Tertuliano negava a virgindade perpétua
de Maria.
Comodiano,
Vitorino de Petau, Arnóbio de Sica e Lactâncio são outros grandes
representantes da literatura cristã em latim no século III e no início do
século IV.
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22. CRISE DO IMPÉRIO |
Ao
longo do século III, o Império será na maior parte do tempo uma ditadura militar.
A instabilidade política é grande. Os exércitos, formados não mais por romanos
mas principalmente por gente vinda de províncias conquistadas há pouco tempo,
põem e depõem os imperadores pelos mais variados motivos: dinheiro, inveja,
medo, aversão pela disciplina...
Uma
crise econômica devasta o Império, guerras civis explodem aqui e ali (onde está
a Pax Romana?), as fronteiras são áreas de combate contínuo (primeiras invasões
bárbaras), as estradas são quase abandonadas, há escassez de comida, os salteadores
formam quadrilhas, o mar fica cheio de piratas, a inflação devora a moeda
(medidas desesperadas, como o tabelamento de preços, são tomadas pelo governo),
a corrupção é generalizada, a luxúria e a devassidão corroem a família, até
mesmo a arte e a literatura perdem o brilho (temos alguns nomes, desconhecidos
para a maioria dos nossos contemporâneos: Terêncio Escauro, Suplício
Apolinário, Ácron, Censorino, Mário Máximo, Plócio Sacerdote; juristas como
Papiniano, Ulpiano e Paulo se destacam;
A
astrologia caldéia e o mitraísmo se estabelecem. "Se, no seu nascimento, o
cristianismo tivesse sido detido no seu progresso por alguma doença mortal, o
mundo teria se convertido aos mistérios de Mitra", disse Renan. E até
certo ponto é verdade.
O
neoplatonismo é um misto de filosofia e religião que vai se opor frontalmente à
fé cristã. Juntamente com o restante do paganismo e todos os sincretismos que
possam ser imaginados, estas doutrinas infectavam o Imperium, e só encontravam
um obstáculo consistente e sólido: a Igreja.
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23. EXPANSÃO DO CRISTIANISMO NO
SÉCULO III – “A TERCEIRA RAÇA” |
Enquanto
o Império começava sua lenta agonia a Igreja crescia cada vez mais. Havia
cristãos na Britânia e na Espanha, no Egito e no Danúbio, na Ásia Menor, nas
costas gregas, na Trácia, na Macedônia. Há também alguns em Aelia Capitolina,
construída sobre as ruínas de Jerusalém. As cidades costeiras da Síria possuem
grande quantidade de cristãos.
Em
torno do ano 200, Abgar IX, rei de Osreone, converte-se ao cristianismo. Na
Gália, Santo Ireneu havia dado início a uma grande obra de evangelização. Fora
das fronteiras do Império, na Mesopotâmia, na Pérsia, na Etiópia e até na Índia
chegam pregadores do Evangelho. Povos bárbaros, como germanos e godos,
receberam a semente da Boa-Nova. O desabrochar destas sementes, no entanto, só
acontecerá a longo prazo.
A
maioria dos cristãos continua a ser de classe baixa, o que é motivo de zombaria
para os detratores da nova fé. Mas cada vez mais gente de nível econômico e
social "respeitável" começa a entrar em suas fileiras.
Em
Alexandria, fundada por Panteno, filósofo estóico convertido ao cristianismo,
ainda no segundo século, uma escola teológica e catequética começava a se
desenvolver. Clemente, Orígenes, Atanásio e Cirilo serão seus representantes
mais significativos.
Opondo-se
às tendências alegóricas e especulativo-filosóficas da escola de Alexandria,
surgirá, no séc. III, a escola de Antioquia, intensamente dedicada à exegese
bíblica. Seu fundador, acredita-se, é o presbítero Luciano de Samósata (+ c. de
312).
A
hinologia dos primeiros séculos não deixou muitos vestígios. Temos o canto
vespertino Phos hilarón e o matutino Dócsa en upsístois theo, nosso Gloria in
excelsis Deo. Alguns papiros que foram descobertos traziam cânticos cristãos,
um deles com notas musicais. As Odes de Salomão são uma coleção de cantos
gnósticos do século II.
Com
o crescimento numérico, começou a haver um certo relaxamento entre os cristãos.
À medida que recrudescia a perseguição, surgiam mais e mais casos de apostasia.
Tertuliano
afirma no Apologeticum que existem cristãos exercendo funções militares. Mais
tarde, porém, quando se tornar montanista, ensinará que um seguidor de Jesus
não pode servir no exército. Hipólito,
No
momento em que o cristianismo se tornar a religião oficial do Império, essas
restrições vão desaparecer. Haverá, no entanto, um rito de purificação para o
soldado que tiver derramado sangue.
Começam
a ser construídas as primeiras igrejas a partir da metade do século III. A
casa-igreja de Dura Europos, às margens do Eufrates, é o mais antigo edifício
de culto cristão que se conhece (c. de 250). Em suas paredes existem vários
afrescos com temas bíblicos. Nas catacumbas de Priscila, em Roma, temos um
afresco com a Virgem e o menino Jesus nos braços (começo do séc. III). A
iconografia cristã se desenvolve rapidamente.
Os
sínodos, ou concílios locais, que já se realizavam no século anterior, se
consolidam e se tornam um meio eficaz para garantir a unidade da Igreja.
Diante
dos pagãos e dos judeus, os cristãos formavam o que Santo Agostinho chamava de
"tertium genus", a "terceira raça".
|
24. O CONFRONTO |
Para
o Império, o cristianismo já não era uma seita de miseráveis que podiam ser
jogados para as feras do circo. Era uma força real, que não podia ser ignorada.
Há
mais de quinze anos que a Igreja vivia um período de paz. O último Antonino,
Cômodo, tinha sido bastante indulgente com os seguidores de Jesus. Chegara a
anistiar os cristãos condenados a trabalhos forçados. No início do reinado de
Sétimo Severo tudo continuava tranqüilo. Certamente que aconteciam, uma vez ou
outra, explosões de ódio contra a Igreja, mas não existia uma perseguição
organizada, sistemática. Severo era clemente e se sentia propenso à respeitar
as crenças orientais.
De
uma hora para a outra, porém, as coisas mudaram. Talvez o imperador tenha
detectado nos cristãos um perigo iminente, que punha em risco o futuro de seus
domínios. Talvez tenha sido influenciado por alguém do seu círculo de amigos
mais próximos que detestava os cristãos. O certo é que a tolerância rapidamente
foi substituída pela repressão.
Entre
os anos 200 e 202 sua deliberação foi promulgada: proibição total de conversões
ao judaísmo e ao cristianismo, sob pena grave. Mas o cristianismo foi quem
sofreu mais. Com a ordem do imperador, os funcionários do Estado não precisavam
mais esperar denúncias, como determinado pelo Rescrito de Trajano. Um novo e
terrível período de perseguições começava. Perseguições metódicas e
direcionadas. Violência, abuso da autoridade policial, circos lotados com
cristãos sendo lançados às feras. Uma nova era dos mártires.
Caracala
(211-217, estendeu a cidadania romana para todos os habitantes do Império),
Heliogábalo (218-222) e Severo Alexandre (222-235) reinaram sem incomodar
muito. Alguns quiseram insinuar que Severo Alexandre era admirador de Jesus,
bem como o imperador Filipe, o Árabe (244-249). Estas insinuações são
provavelmente falsas. Mas é certo que já existiam funcionários imperiais
cristãos.
Com
Décio (249-251) a perseguição retorna. No ano 250 todos os moradores do Império
que possuem cidadania romana são obrigados a manifestar sua adesão à religião
imperial. Certificados seriam entregues aos que cumprissem a determinação,
enquanto os contraventores correriam o risco de perder a própria vida. Há
muitos mártires em Roma, na Ásia, no Egito e na África.
Valeriano
(253-260), com dois editos, torna a legislação ainda mais rígida. Procurava
perseguir especialmente os líderes das comunidades cristãs: bispos, padres,
diáconos. Na África a Igreja sofre severas baixas. Com Galiano (260-268) há
mais um período de paz. Aureliano (268-275) não dispõe de tempo para implantar
no Império o seu sincretismo solar.
Após
dez anos de anarquia, Diocleciano (284-305) toma o poder. Com seu gênio
consegue recuperar durante algum tempo o brilho dos tempos gloriosos do
Imperium. Suas reformas administrativas e religiosas foram uma das últimas
tentativas de salvar Roma. Foi ele quem organizou e executou a mais terrível
das perseguições contra a Igreja, principalmente no Oriente.
Em
286 colocou ao seu lado Maximiano, e dividiu com ele o império: Diocleciano com
o Oriente e Maximiano com o Ocidente (diarquia). Em 293 foram instituídos mais
dois imperadores, de categoria inferior, governando em diferentes regiões
(tetrarquia). Diocleciano e Maximiano possuíam o título de Augustus, enquanto
os outros dois (Galério e Constâncio Cloro) eram denominados de Césares.
Os
Césares eram os herdeiros legítimos dos Augustos. Depois da criação da
tetrarquia, o Império passa a ter quatro capitais: Tréveris, Milão, Sírmio e
Nicomédia.
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25. COMBATER O BOM COMBATE |
A
lista de mártires que poderíamos citar desde Sétimo Severo até Diocleciano é
enorme. Vamos apenas enumerar alguns deles aqui.
Víbia
Perpétua, cristã na África, de classe abastada, foi martirizada juntamente com
Santa Felicidade no dia 7 de março do ano 203. Humilhadas e ridicularizadas,
passaram pelo fio da espada do carrasco. Outros companheiros foram mortos pelas
feras na arena.
Potamina,
uma jovem cristã, foi lançada com a mãe em uma caldeira cheia de betume
inflamado.
Sob
Décio: Policrônio, mártir por volta de 250. Santa Águeda, na Sicília,
martirizada (aprox. 251). Dionísia, Pedro, André e Paulo, martirizados na
Turquia. Nemésio, em Alexandria. Piônio, na Ásia Menor. Frutuoso, na Espanha. O
papa Fabiano, em Roma.
Sob
Valeriano: São Lúcio, papa, martirizado, por volta de 254. São Sisto II, papa,
e alguns companheiros, cerca de 258. São Lourenço (+258), diácono da Igreja
romana. Quando foi interrogado sobre o tesouro da Igreja, reuniu todos os
cegos, coxos, aleijados, doentes, velhos e crianças que pôde encontrar.
Assaram-no vivo
Cipriano,
o grande bispo de Cartago, foi decapitado em 258.
São
Mário, Santa Marta, Santo Audifax, Santo Ábaco. Presos quando enterravam os
mártires em Roma. Condenados à morte, sob Cláudio II (268-270). São Valentim,
sacerdote em Roma, decapitado por volta do ano 270.
Sob
Diocleciano: São Sebastião, capitão do exército, por volta de 284. São Vítor,
decapitado (303). Vicente, Sabina e Cristeta, na Espanha, por volta do ano 303.
São Sérgio, martirizado
Mais
nomes: Afianos e Edésios, no Líbano, Crisógono,
Ao
lado dos mártires, havia muitos cristãos que caíam na apostasia ou simplesmente
fugiam da perseguição.
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26. CISMA EM ROMA |
Hipólito
nasceu antes de 170. Foi presbítero em Roma no pontificado de Vítor (c. de
189-198). Teve conflitos com o papa Zeferino e rompeu abertamente com seu
sucessor, Calisto (217-222), acusando-o de sabelianismo (doutrina que ensinava
serem o Filho e o Espírito Santo apenas "modalidades" do Pai,
propagada por Sabélio) e de ser condescendente demais com os pecadores. Fez-se
bispo de uma pequena comunidade cismática em Roma. Foi exilado juntamente com o
papa Ponciano para a Sardenha em 235, onde morreu.
Hipólito
não aceitava a reconciliação dos hereges e apóstatas (lapsi). Foi o primeiro
antipapa da História da Igreja.
Escritos
importantes de Hipólito: Refutação de todas as heresias (Philosophumena),
Crônica, O Anticristo, Comentário de Daniel (onde diz que Jesus nasceu no dia
25 de dezembro do 42o. ano do reinado de Augusto e morreu no dia 25 de março do
18o. ano do reinado de Tibério), Ypér tou katà Ioannen evaggelíou kaì
apokalúpseos (defende que João é o autor do quarto evangelho e do Apocalipse,
contra os alogianos, que negavam a doutrina do Logos), Syntagma, A Tradição
Apostólica.
Hipólito
testemunha a doutrina da Igreja sobre as Escrituras, fala da eucaristia como
sacrifício, seguindo a Didaqué na aplicação da profecia de Malaquias (Ml
1,10s). Como Justino, Atenágoras, Teófilo e Tertuliano, é subordinacionista (ou
seja, crê que o Filho tornou-se uma pessoa divina subordinada ao Pai, Logos
proferido "posteriormente" para ajudá-lo na criação e no governo do
mundo).
A
Tradição Apostólica é uma preciosa fonte de informações sobre a liturgia cristã
em Roma, no começo do séc. II (ver a seção XXIX). Entre outras coisas, fala da
existência de um jejum pascal de dois dias, ensina que a eucaristia deve ser
tratada com muito cuidado e reverência, "pois ela é o Corpo de Cristo que
deve ser comido pelos fiéis e não pode ser negligenciado" e exorta os
fiéis a fazerem o sinal da cruz quando sobrevier a tentação "pois este é o
sinal da Paixão reconhecidamente provado contra o demônio, desde que feito com
fé e não para vos exibir diante dos homens..."
Hipólito
queria uma igreja formada apenas por pessoas "puras" e
"santas".
Depois
dele temos Novaciano. Por volta de 250, Novaciano era um presbítero de
prestígio em Roma, com boa formação retórica. Ficou à frente de um partido rigorista
e se fez bispo da Cidade Eterna, opondo-se ao papa Cornélio. Pereceu durante a
perseguição de Valeriano, provavelmente, enquanto o
papa Cornélio foi exilado.
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27. CLEMENTE DE ALEXANDRIA E
ORÍGENES |
Tito
Flávio Clemente é possivelmente originário de Atenas, nascido por volta de 150.
Depois de se converter, viajou pela Itália, Síria, Palestina e se estabeleceu
em Alexandria, tornando-se aluno de Panteno. Sucedeu o mestre como professor
depois do ano 200. Durante a perseguição de Sétimo Severo saiu do Egito e foi
para a Ásia Menor, onde morreu antes de 215.
Obras:
Exortação aos gentios, O Pedagogo, Seleções (stromata). Clemente atribui uma
espécie de caráter sobrenatural à filosofia grega. Procurou fazer uma síntese
entre a fé e a filosofia. Ensinava a eternidade da matéria e do mundo,
acreditava no caráter sacrifical da eucaristia.
Orígenes
nasceu em Alexandria, em torno do ano 184. Leônidas, seu pai, morreu como
mártir em 202. Sentia um forte desejo de ir para o martírio. Foi colocado à
frente da Escola de Alexandria em 203, pelo bispo Demétrio. Sua fama se
espalhou por toda a parte, atraindo inclusive pagãos para suas palestras. Em
212 visitou Roma. Passou
Depois
de morto, Orígenes foi condenado várias vezes e teve sua obra parcialmente
destruída.
O
número de trabalhos e livros que escreveu é vastíssimo, ultrapassando todos os
Padres da antigüidade. Alguns exemplos: os Hexapla, onde reunia em seis colunas
diversas versões do Antigo Testamento (hebraico, transcrição do hebraico para o
grego, tradução de Áquila, de Símaco, dos LXX e de Teodocião), Contra Celso
(apologia contra as acusações feitas pelo filósofo platônico Celso, no séc.
II), Da oração, Exortação ao martírio, Disputa com Heráclides.
Orígenes
imaginava a criação como um ato eterno. Era subordinacionista. Afirmou que a fé
na presença real de Cristo na eucaristia é a "mais comum entre os
cristãos". Atesta, sem dúvida alguma, o caráter sacrifical e expiatório da
Santa Missa. Para ele, as almas dos pecadores, depois de algum tempo no
Inferno, seriam regeneradas e salvas (apokatástasis pánton).
Inspirados
em Orígenes e na Escola de Alexandria, muitos escritores cristãos desenvolveram
suas obras: Júlio Africano, Amônio, Dionísio de Alexandria, o Grande, Gregório,
o Taumaturgo, Firmiliano, bispo de Cesaréia, na Capadócia, Teognostos, Pedro de
Alexandria, Pânfilo e Hesíquio.
|
28. SÃO CIPRIANO DE CARTAGO |
Thascius
Cecilius Cyprianus, nascido de uma família rica e pagã, em Cartago, entre os
anos 200-210. Recebeu em 246 o batismo, sendo ordenado, dois ou três anos
depois, bispo de sua cidade. Suas atividades pastorais foram interrompidas pela
perseguição de Décio (250), que o forçou a se esconder. Quando muitos apóstatas
começaram a ser facilmente readmitidos na Igreja surgiu um cisma.
Em
251, Cipriano volta para Cartago. Num sínodo excomungou os chefes da
dissidência laxista e determinou que os apóstatas passassem por severas
penitências antes de reingressarem na comunidade. A peste que atingiu o Império
em 252 provocou novos sofrimentos e perseguições na África. Nos últimos anos de
sua vida, teve de se preocupar com a questão do batismo dos hereges.
Cipriano
considerava inválido o batismo ministrado por hereges. Mesmo com a reprovação
do papa Estevão, insistiu em manter seu ponto de vista. Foi decapitado no dia
14 de setembro de 258, em Cartago, sob Valeriano. Pelo martírio certamente foi
perdoado de seu erro e foi para junto de Cristo.
Escritos
de São Cipriano: De ecclesia unitate (c. 251, no qual fica do lado do papa
Cornélio contra Novaciano), De lapsis, De habitu virginum, De mortalitate.
No
aspecto doutrinário, o bispo de Cartago ensinava que a unidade da Igreja é
garantida pela união de todos com o bispo. "Salus extra ecclesiam non
est", não há salvação fora da Igreja. "Quem abandona a sede de Pedro,
sobre a qual está fundada a Igreja, como pode afirmar que está na verdadeira
Igreja?" "Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por
mãe". Os recém-nascidos devem receber logo o batismo e a eucaristia. Uma
tradição só é válida quando se apóia na "tradição evangélica e
apostólica", ou seja, aquela tradição que provém da "autoridade do
Senhor e do Evangelho, das prescrições e das epístolas dos apóstolos". Na
questão do batismo, ensina que se a verdade se desvia é preciso retornar para
as origens, a tradição consignada nas Escrituras. A origem da verdade cristã é
a Tradição, o ensinamento de Jesus e a pregação dos apóstolos (observemos, no
entanto, que Cipriano dava muito crédito a revelações e visões particulares). O
sacrifício do sacerdote é a repetição do sacrifício de Jesus na ceia: ambos
representam o único sacrifício da cruz. A penitência consiste na confissão
pública dos pecados e na expiação. Todos os justos defuntos (inclusive os
não-mártires) recebem sua recompensa imediatamente após a morte. O estado
intermediário no Hades se aplica aos penitentes somente.
|
29. OS SACRAMENTOS NO SÉCULO III |
Sobre
a liturgia deste período, temos várias fontes. Hipólito,
Batismo
- Atestação claríssima do batismo de crianças. Logo ao amanhecer, ora-se sobre
a água que vai ser usada no batismo. O sacerdote ordena a cada um dos
catecúmenos que renuncie a Satanás. Os que renunciam são ungidos com o óleo do
exorcismo, consagrado pelo bispo. Depois, na água, aquele que batiza pergunta
ao catecúmeno se este crê no Pai, no Filho e no Espírito Santo (profissão de fé
já parecida com o símbolo apostólico atual), mergulhando-o a cada resposta
afirmativa. Quando saem da água, os neófitos são ungidos com o óleo de ação de
graças. Todos se vestem e se dirigem para a igreja, onde recebem a imposição de
mãos do bispo e são ungidos (Crisma). Depois de marcar o neófito na testa, o
bispo lhe dá um beijo e diz: "O Senhor esteja contigo". O que foi
marcado responde: "E com o teu espírito". Todos tomam parte na
assembléia depois que recebem o sacramento da Confirmação.
Eucaristia
- Os diáconos apresentam a oblação ao bispo, que impõe as mãos sobre ela e diz,
com o presbitério: "O Senhor esteja convosco". A assembléia responde:
"E com teu espírito". "Elevai vossos corações. - Nós os temos
voltados para o Senhor. - Demos graças ao Senhor. - É digno e justo". O
bispo prossegue dando graças a Deus e lembrando os feitos da História da
Salvação (oração eucarística). Invoca o Espírito Santo sobre a oblação e repete
as palavras de Jesus na última ceia.
Ordenação
- O bispo deve ser irrepreensível e é eleito pela comunidade. Feita a escolha,
o povo se reúne com o presbitério e outros bispos presentes. Os bispos impõem
as mãos sobre aquele que vai ser ordenado, enquanto o presbitério fica imóvel.
Todos ficam em oração pedindo a descida do Espírito Santo. Um dos bispos,
escolhido por todos, impõe as mãos sobre o que está sendo ordenado e faz uma
oração, lembrando os sacerdotes da antiga Aliança e pedindo a vinda do Espírito
Santo. Pede para o novo bispo o poder sacerdotal, o poder de oferecer a
eucaristia, perdoar os pecados, dirigir a comunidade, ligar e desligar,
pastorear com sabedoria e pureza o rebanho que lhe é confiado. O clero
compreende sete classes: bispos, diáconos, subdiáconos, acólitos, leitores, exorcistas
e ostiários. Esta divisão, porém, não é rígida, e não exclui a possibilidade de
uma pessoa desempenhar mais de uma função.
Penitência
- A penitência é pública, e a reparação depende da gravidade do pecado
cometido.
A
Didascália, documento dos primeiros decênios do século III prescreve um jejum
de seis dias antes da Páscoa.
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30. CELIBATO E VIRGINDADE |
Na
época da Igreja apostólica, o celibato possui um valor positivo e é reconhecido
como estado de vida ao lado do matrimônio. Tanto um como o outro eram vistos
como carismas particulares. É possível que tenham havido casos de matrimônios
"espirituais", em que homem e mulher viviam juntos como irmãos (Paulo
fala de uma situação como esta em sua primeira epístola aos Coríntios, por
volta do ano 57). No final do séc. I e no séc. II existem muitos homens e
mulheres celibatários (ascetas e virgens) "em honra da carne do
Senhor" (Inácio de Antioquia). A princípio, havia uma ambigüidade entre a virgindade
e o estado de viuvez permanente. Por volta de 150, Justino se refere a homens e
mulheres que se conservaram "incorruptos", alcançando a idade de 60
ou 70 anos. O mesmo diz Atenágoras, em torno do ano 177. Apesar disso, ainda
não existe no séc. II uma forma definida para o celibato cristão.
Na
virada do segundo para o terceiro século, sob influência da gnose e do
encratismo, surgem apologias a favor do celibato como estado de vida melhor do
que o matrimônio. Clemente de Alexandria defende a santidade do casamento e
ensina que a continência só é virtuosa quando vivida por amor a Deus. Aos
poucos começa a se impor um novo ponto de vista, que considera a virgindade
como uma forma de matrimônio místico com o Senhor. Após o ano 200, as
"virgines Deo devotae" usam véu para indicar suas núpcias espirituais
(Tertuliano, Sobre a oração, 22, escrito entre 200 e 206). Mas o voto de
virgindade não possui caráter de ordenação, como atesta Hipólito
Para
Orígenes (que havia se castrado depois de ler Mt 19,12, detalhe peculiar) a
virgindade supera o matrimônio porque enquanto este é figura da união de Cristo
com a Igreja, aquela é sua realização mística e mais perfeita. Novaciano
compara a virgindade com o estado angélico e Tertuliano leva ao extremo a sua
exaltação, influenciado pelo montanismo. Cipriano vê a consagração virginal
como esponsais com Cristo. Ele é o primeiro a usar o termo
"virgindade" para se referir ao celibato masculino. Metódio de Olimpo
(+311) fala dos celibatários Elias, Eliseu, João Batista, João Evangelista e
Paulo, entre outros.
A
Igreja síriaca, até o séc. III, conserva o costume do celibato em família (os
filhos consagrados permaneciam com os pais). Efrém reagirá contra esta prática.
Hilário de Poitiers chamará de caelebs o não casado por razões de fé e de
coelibatus o seu estado de vida.
Atanásio
(295-373), que conhece o ideal monástico de Santo Antão, define o matrimônio
como "via mundana", enquanto a virgindade é o caminho mais eficaz
para alcançar a perfeição.
Quando
se encerrar o terceiro século, o celibato terá finalmente encontrado seu lugar
na vida e na espiritualidade cristãs: estado superior ao casamento, comparado
com a condição angélica, esponsais com Cristo, núpcias místicas, oferecimento
total e perfeito a Deus. O monaquismo lhe dará forte impulso.
No
ano 300, o Concílio de Elvira, na Espanha, determina a obrigatoriedade do
celibato para os padres e bispos da província. Com o passar do tempo esta
disciplina se estenderá a toda a Igreja.
|
31. O CÂNONE DAS ESCRITURAS a) O ANTIGO TESTAMENTO |
Retrospecto
histórico:
·
Na
época de Jesus, os hebreus não possuíam um cânone de livros inspirados. O
primeiro esboço de um cânone se acha no prólogo do Eclesiástico: "A Lei,
os profetas e os outros escritos". A Lei é certamente a Torá, ou
Pentateuco, que provavelmente adquiriu sua forma definitiva no tempo de Esdras.
Os profetas incluem Js, Jz, 1Rs, 2Rs, Is, Jr, Ez e os doze profetas menores.
Sobre os "outros escritos" não se tem uma ainda uma definição precisa.
·
A
versão grega dos Setenta (LXX), feita por judeus em Alexandria entre o séc. III
a.C. e o início da era cristã, incluiu os livros que hoje chamamos de
deuterocanônicos, e alguns apócrifos. Não se pode dizer, no entanto, que a LXX
estabeleceu um cânone normativo (os códices que nos chegaram apresentam
diferenças).
·
Na
Palestina, por volta de 95, Flávio Josefo (37-100) escreve uma lista que
coincide com o cânone hebraico, excluindo os deuterocanônicos. Apesar disso,
encontram-se em seu trabalho citações de 1Mc, 1Esd e suplementos de Est.
Portanto, não podemos concluir a partir do seu testemunho que o judaísmo já
tivesse fixado o seu cânone no final do séc. I.
·
Em
Qumrã se encontram todos os livros protocanônicos, exceto Est. Dos
deuterocanônicos foram encontrados Br 6, Tb e Eclo. Dos apócrifos, Jubileus,
Enoc e o Testamento dos doze patriarcas. Aparentemente não havia uma distinção
entre um cânone de livros sagrados e outros textos não-inspirados.
·
Entre
os anos 90-100 houve um sínodo de rabinos na cidade de Jâmnia. Uma tese
tradicional propõe que a lista definitiva dos livros do Antigo Testamento foi
fixada neste sínodo. Mas não há provas concretas de que isto realmente tenha
acontecido. Mesmo depois de Jâmnia a canonicidade de alguns livros continuou a
ser discutida (Ecl e Ct).
Baseado
nessas considerações, Valério Manucci propõe a seguinte explicação para a
formação do cânone hebraico:
·
Depois
da destruição do Templo, no ano 70, o judaísmo se tornou cada vez mais uma
religião "do Livro", o que impôs a necessidade de determinar um
cânone definitivo.
·
Várias
disputas entre os fariseus e outras seitas judaicas serviram de estímulo para a
fixação de um cânone.
·
Ainda
que no primeiro século da nossa era houvesse uma aceitação popular de 22 ou 24
livros como inspirados, não existiu um cânone normativo até o final do séc.
III.
·
O
fato de os cristãos terem adotado a tradução dos LXX pode ter influenciado
decisivamente a definição de um cânone mais restrito no judaísmo, excluindo os
deuterocanônicos.
De
resto, se realmente houvesse um cânone já estabelecido antes do nascimento de
Jesus, certamente os judeus de Alexandria, fiéis às orientações dos rabinos da
Palestina, não teriam inserido os deuterocanônicos na sua tradução.
Entre
os cristãos, no Novo Testamento, aparece a tríplice divisão indicada no
Eclesiástico (Lc 24,44). Há alusões a livros deuterocanônicos: Sb (Rm 1,19ss;
Hb 8,14), Tb (Ap 8,2), 2Mc (Hb 11,34s), Eclo (Tg 1,19), Jt (1Cor 2,10) e nem
todos os protocanônicos são citados (Esd, Ne, Rt, Ecl, Ct, Ab, Na, Pr). Também
há alusões a livros apócrifos: Salmos de Salomão, 1 e 2 Esdras, 4 Macabeus,
Assunção de Moisés e o livro de Enoc.
Jesus
se serviu do Pentateuco para discutir com os saduceus (que aceitavam apenas
esta parte do AT como inspirada, cfr. Mt 22,23-33; Mc 12,18-27; Lc 20,27-40) e,
ao que parece, usou a Bíblia hebraica em debates com os fariseus (cfr. Mt
23,34-36; Lc 11,49-51). Esta "adaptação aos interlocutores" não nos
permite dizer que Cristo tenha reconhecido um cânone para o AT, e muito menos
que este cânone seja o da Bíblia hebraica.
Das
350 citações que o Novo Testamento faz do AT, 300 são da LXX. Como não havia,
porém, cânone definido no período neotestamentário, os cristãos ainda não
possuíam um cânone próprio.
Os
Padres Apostólicos citam a versão dos LXX. A Didaqué usa Eclo e Sb. Clemente,
em sua epístola aos Coríntios, se serve de Jt, Sb, Eclo, Dn e passagens de Est
grego. Policarpo cita Tb. O Pastor de Hermas cita Eclo, Sb e 2Mc. Também há
citações de apócrifos, como o livro de Enoc.
O
mesmo se dá com outros autores do fim do séc. II e começo do séc. III, como
Ireneu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Hipólito, Cipriano e Dionísio
Alexandrino. Á medida, porém, que os judeus determinavam a sua lista, as
igrejas que viviam em contato com a comunidade hebraica sofriam sua influência.
São Justino, quando entra em polêmica com os judeus, prefere citações apenas
dos protocanônicos, mas ensina que todos os livros presentes na tradução dos
LXX são inspirados, "mesmo aqueles que os judeus suprimiram
arbitrariamente". Melitão de Sardes, no entanto, possui uma lista de
livros do AT com quase todos os protocanônicos e nenhum deuterocanônico.
O
Concílio de Laodicéia (360) defende o cânone hebraico. Mas a carta do papa
Inocêncio I a Exupério de Toulouse (405) inclui o cânone completo. Mais tarde,
os concílios provinciais de Hipona (393) e Cartago (I e II, 397 e 419,
respectivamente) aceitarão oficialmente os deuterocanônicos como parte das
Escrituras (mesmo que alguns padres, como Atanásio, Cirilo de Jerusalém,
Gregório Nazianzeno, Rufino e Jerônimo, se sintam ainda atraídos pela Hebraica
Veritas). No Concílio de Trullo (692) a ambigüidade continua: os cânones de
Laodicéia e de Cartago são sancionados ao mesmo tempo!
Só
no século XV um concílio ecumênico se ocupará do assunto. O Concílio de
Florença (1441) enumerará o cânone aceito pela Igreja hoje, e o Concílio de
Trento, no século XVI, definirá solenemente o AT com os deuterocanônicos.
b) O Novo Testamento
O
desenvolvimento do cânone do Novo Testamento, embora complicado, foi menos
tortuoso que o do AT.
A
segunda epístola de Pedro coloca as cartas de Paulo ao lado das "outras
escrituras" (2Pd 3,16). Logo, no final do século I algumas cartas paulinas
já são tidas como inspiradas. Em meados do séc. II, São Justino fala dos
Evangelhos que são usados nas assembléias litúrgicas e a segunda carta de
Clemente aos Coríntios (c. de 150) cita um versículo do Evangelho de Mateus.
A
seleção que Marcião fez de 10 cartas de Paulo e do Evangelho de Lucas,
provavelmente, fez com que os cristãos procurassem reunir sua própria coleção
de escritos inspirados.
Por
volta do ano 170, Melitão de Sardes chama os livros da Bíblia hebraica de
"Antigo Testamento",
Nenhum
autor do séc. II ou do séc. III cita todos os livros do NT, e há livros que não
são citados por ninguém (Fm e 3Jo). A lista mais antiga do NT é o famoso
Fragmento Muratoriano, que indica o NT usado pela Igreja de Roma no final do
segundo século. Nela não estão incluídos Hb, Tg, 1 e 2Pd, e talvez 3Jo. A lista
feita por Orígenes no séc. III levanta dúvidas sobre a inspiração de 2Pd e de 2
e 3Jo. Por volta do ano 310, Eusébio distingue entre "os livros
reconhecidos por todos" (emologoumenoi), "os livros discutidos"
(antilegomenoi) e "os livros espúrios" (notha). Tg e Jd estão entre
os discutidos.
O
Cânone Claromontano, datado do séc. IV, não menciona Hb. O Cânone Momseniano,
de mais ou menos 360, não fala de Hb e Jd. No Ocidente, só com as listas do
final do séc. IV, feitas por Atanásio, Agostinho, pelos concílios de Hipona e
de Cartago, é que se chega a um consenso. Elas coincidem com o cânone definido
do Concílio de Trento. O Códice Sinaítico, do séc. IV, inclui também a carta de
Barnabé e o Pastor de Hermas. O Códice Alexandrino, do séc. V, traz 1 e 2
Clemente.
As
igrejas da Síria e de Antioquia usavam, no séc. IV, um cânone restrito do NT
com apenas 17 livros.
Alguns
livros eram discutidos porque não se podia ter certeza de sua autoria
apostólica, por causa de aspectos doutrinários controvertidos ou por sua
brevidade.
c) A Igreja discerniu o cânone
Desde
os primeiros esboços até a definição solene, a história da evolução do cânone
revela, antes de mais nada, a importância da autoridade do Magistério da
Igreja, guardião da Tradição Apostólica, que soube discernir infalivelmente,
entre inúmeros escritos espúrios, aqueles que o Espírito Santo havia inspirado
e que formam a Palavra de Deus.
Escritura,
Tradição, Igreja: elementos intimamente conectados e que não se deve separar
nunca sem cair em grave erro.
|
32. MANI |
Mani
ou Manes nasceu na Pérsia em torno do ano 215. Seu pai era da seita
judaico-cristã dos alexeítas. Segundo seus seguidores, aos 24 anos começou a
ensinar uma doutrina dualista: existem dois princípios, um bom e outro mal, que
travam um combate eterno e se personificam em Deus e no demônio. O demônio é um
ser divino em pé de igualdade com Deus (influência do Zoroastrismo). Da
tradição indiana, Mani aproveitou o dogma da reencarnação ou transmigração das
almas. Jesus Cristo era Deus, um mensageiro da luz, a força divina que veio
auxiliar o homem na luta contra o mal.
Seus
discípulos seguiam uma disciplina rígida. Proclamavam-se "eleitos" e
"santos". O maniqueísmo se espalhou logo, com a proteção do rei Sapor
II, e chegou ao Império Romano em meados do século III. O imperador Diocleciano
teve de tomar providências para inibir sua propagação.
Mani
morreu no ano 270, na Pérsia, depois de julgado como herege pelo clero
zoroastriano. Segundo alguns acabou seus dias na prisão, segundo outros foi crucificado
e esfolado, tendo sua pele posta como ornamento em um templo iraniano.
Onde
chegou, o maniqueísmo foi perseguido. Nos últimos anos do século III, começou a
se tornar um perigo para a Igreja.
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33. O ALGOZ SE CURVA DIANTE DA CRUZ |
Quando
a perseguição de Diocleciano chega ao seu apogeu acontece algo inesperado. No
dia primeiro de março de 305 os dois Augustos, Diocleciano e Maximiano,
renunciam ao seu posto, deixando seus lugares para os dois Césares, Galério e
Constâncio Cloro.
Constâncio
Cloro, senhor do Ocidente, era muito tolerante. Quando assumiu o poder,
"as regiões situadas além da Ilíria, ou seja, a Itália inteira, a Sicília,
a Gália e todos os países do Ocidente, a Espanha, a Mauritânia e a África,
depois de terem sofrido a violência da guerra durante os primeiros anos da
perseguição, prontamente obtiveram da graça divina o benefício da paz"
(Eusébio de Cesaréia).
O
Oriente, no entanto, teve de enfrentar a ira do César Maximino Daia, instigado
por Galério. Em 306 foi publicado um edito que obrigava todos os súditos a
sacrificarem aos deuses. No Egito a perseguição foi tão terrível que muitos
cristãos, para fugir da desonra, cometeram suicídio. Os que não morriam eram
submetidos a grandes vexações: as mulheres eram entregues à prostituição, os
homens condenados a trabalhos forçados nas pedreiras e nas minas.
Maxêncio,
em Roma, é tolerante. Licínio, que governa as províncias do Danúbio, também não
persegue os cristãos. Constantino, filho de Constâncio, não tem a menor
intenção de atacar a Igreja de Jesus.
Aos
poucos o sistema da tetrarquia irá se arruinando. Lutas pelo poder, legiões
revoltadas, batalhas... Os mesmos males que afligiram o Império no século
anterior ressurgirão com vigor. A Igreja atravessará uma tempestade e tanto,
dependendo da índole do Augusto que estiver no poder. Freqüentemente a
tolerância trocará de lugar com a perseguição. No período que vai do ano 305
até o ano 324, não haverá paz no Império.
Em
311, Galério, levado por uma terrível doença e por remorsos, assina um edito,
rubricado por Licínio e Constantino, encerrando a perseguição no Oriente:
primeiro grande triunfo do testemunho dos mártires e prenúncio de novos tempos
para a Igreja.
Maximino
Daia, a contragosto, liberta os prisioneiros cristãos. Quando Galério morrer,
poderá descarregar novamente sua fúria. Medidas discriminatórias, panfletos
cheios de calúnias, confissões forjadas, todos os meios serão por ele
utilizados para destruir a Igreja. Mas o tempo mostrará a inutilidade de seus
esforços.
|
34. CONSTANTINO VENCEDOR |
Nascido
na Sérvia, por volta do ano 280, Constantino estava destinado a mudar o rumo da
História. Filho de Constâncio Cloro e de Helena, educado na corte de
Diocleciano, depois de passar tempos junto de Galério, o que não o agradava
muito, afastou-se quando seu pai o chamou para uma expedição na Inglaterra.
Alma
complexa, reunia em si características contraditórias: ora vigoroso e
impetuoso, ora desanimado e influenciável. Às vezes cheio de generosidade e
clemência, outras violento e sangüinário, impiedosamente cruel. Humilde e
orgulhoso, instável, instintivo, supersticioso. Foi de um ser humano assim que
a Providência quis se servir para dar a vitória à Igreja.
Depois
que Constâncio Cloro morreu, em 306, as legiões o proclamaram Augusto. Galério,
no entanto, fez dele apenas um César. Constantino pasou a ser o detentor de
todo o poder no Ocidente, provocando a inveja de Maxêncio, filho de Maximiano.
Constantino
se casou com Fausta, irmã de Maxêncio. Advertido por sua esposa de que o sogro
(Maximiano) armava uma conspiração para matá-lo, deu um jeito de encontrarem o
ex-Augusto enforcado em uma prisão.
Em
311, após a morte de Galério, a situação de Roma fica assim: no Oriente,
Maximino Daia e Licínio, no Ocidente, Maxêncio e Constantino.
Maxêncio
e Constantino não estavam dispostos a dividir o poder.
Maxêncio,
o Augusto, declara-se o único soberano legítimo e sucessor dos imperadores. Em
312, Constantino parte para a batalha. 40 mil ao seu lado contra 100 mil de
Maxêncio. O filho de Constâncio cruza os Alpes e toma várias cidades italianas.
Em 27 de outubro de 312 já avista de longe a Cidade Eterna. Um dia depois, as
tropas do seu inimigo atravessam o Tibre pela ponte de Mílvio. O confronto é
deflagrado e as tropas de Constantino saem vitoriosas. O exército de Maxêncio
foge em debandada, enquanto este último perece no meio da confusão.
Durante
a batalha, Constantino adere ao cristianismo. Segundo alguns invocou Jesus
Cristo e por isto obteve a vitória. Para Lactâncio, Constantino teve um êxtase
no qual recebeu a ordem de colocar sobre o escudo de suas tropas um sinal
formado pelas letras gregas X (chi) e P (rô), iniciais de Cristo. De fato, tal
monograma foi encontrado em moedas e inscrições constantinianas.
Eusébio
de Cesaréia nos refere outra versão. Instantes antes de enfrentar Maxêncio, o
imperador apelou para o Deus dos cristãos, que lhe respondeu através de um
sinal celeste: uma cruz luminosa acompanhada da frase: "Com este sinal
vencerás". Na noite seguinte, Jesus lhe apareceu e pediu que fizesse da
cruz uma insígnia, o Labarum.
Desde
então os exércitos de Constantino usaram o Labarum como estandarte.
Para
alguns, a "conversão" de Constantino foi apenas uma jogada política,
uma tentativa de atrair para o Império a força do cristianismo. No entanto, tal
tese é muito simplista. Como a maioria das pessoas da sua época, Constantino
tinha obsessão pelo sobrenatural e era muito crédulo. Talvez tenha sido movido
pelo medo de um fim trágico, que aguardava todos os que se opunham ao
cristianismo. De qualquer jeito, nunca saberemos com certeza o que levou o
jovem e impetuoso soldado a render-se diante do crucificado. Resta-nos apenas a
constatação dos fatos e de suas conseqüências.
|
35. O EDITO DE M ILÃO |
abastados.
Mandou matar um filho de Maxêncio e alguns de seus amigos. Reparou os aquedutos
com dinheiro do próprio bolso. Aceitou sem problemas a bajulação e as honras
"divinas" dos seus súditos pagãos, autorizando inclusive a construção
de um templo e a fabricação de uma estátua a ele dedicados. A transição da
tolerância para a intolerância diante do paganismo será lenta.
Mandou
fazer nas moedas o monograma X-P e enviou uma carta a Maximino Daia
"convidando-o" a suspender a perseguição. No inverno de 312-313, o
tesouro contribuiu para que fossem reconstruídos os edifícios de culto e o papa
Milcíades obteve de Fausta o palácio de Latrão.
No
começo do ano 313 Constantino se encontra com Licínio
Não
se trata de nenhum documento especial, mas de um conjunto de cartas de
Constantino e Licínio que afirmam o princípio da liberdade religiosa e, por
conseguinte, dão aos cristãos pleno direito de professar sua fé "sem
receio de ser incomodados".
A
Igreja, oficialmente reconhecida, passa a ter direitos: seus lugares de culto,
destruídos ou confiscados, devem ser restituídos. As propriedades devem
retornar para as mãos dos seus donos cristãos. O cristianismo fica em pé de
igualdade com o paganismo, uma religião "lícita". Licet esse
Christianos.
Logo
chegará o momento, porém, em que o paganismo será definitivamente suplantado
pelo cristianismo.