BÍBLIA ON LINE (EM PORTUGUÊS)

 

ARTIGOS SOBRE A BÍBLIA SAGRADA

 

1. O QUE É À BÍBLIA?

Ao contrário do que parece à primeira vista, a Bíblia não é um livro único e independente, mas uma coleção de 73 livros, uma mini-biblioteca que destaca o a aliança e plano de salvação de Deus para com a humanidade. É interessante observar que alguns livros possuem poucas ou até mesmo uma única página escrita, mas mesmo assim são considerados como livros.

A própria palavra Bíblia provém do grego biblos e significa livros, o que bem demonstra não ser a Bíblia um livro único. Assim, quando usamos hoje a palavra "Bíblia" nos referimos a esse conjunto de 73 livros.

Às vezes, também a chamamos de Sagradas Escrituras ou tão somente Escrituras e tratam de diversos assuntos: orações, rituais, história, sabedoria, exortações e até mesmo poesia... tudo em grande harmonia - já que inspirada por Deus - relacionando o homem com o único e verdadeiro Deus, e vice-versa.

A Bíblia é muito antiga: sua redação começou por volta do séc. XV a.C. e somente se encerrou no final do séc. I d.C.. Esse é, aliás, o motivo pelo qual muitas passagens são difíceis de serem compreendidas, obrigando-nos, às vezes, a recorrer a cursos bíblicos ou outros livros de apoio.

 

2. INTRODUÇÃO A BÍBLIA

1. - A BÍBLIA É ÚNICA
A Bíblia Sagrada, por tudo o que encerra, pela maneira como foi escrita, e da forma como tem sido preservada por tantos séculos, só pode ser definida numa palavra: "única"
O dicionário define "único", como: 1. Que é um só; 2. De cuja espécie não existe outro; 3. exclusivo; excepcional; 4. a que nada é comparável; 5. superior a todos os demais.
M. Monteiro Williams, antigo professor de sânscrito, que passou 42 anos estudando livros orientais e comparando-os com a Bíblia, afirmou: "Se você quiser, empilhe-os no lado esquerdo de sua escrivaninha; mas coloque a sua Bíblia do lado direito - apenas ela, só ela - e que haja uma boa distancia entre a pilha de Livros e a Bíblia. Pois existe uma grande distancia entre ela e os chamados livros sagrados do Oriente, de modo que estes se opõem àquela, total, completa e definitivamente; um abismo real que nenhuma ciência do pensamento religioso conseguirá transpor" (J.Mc Dowell, "Evidencia que Exige um Veredicto", pg.19,20).
2. ÚNICA NA SUA COERÊNCIA:
É livro "diferente de todos os demais" nos seguintes aspectos (além de muitos outros):

1.     Escrito durante um período de aproximadamente 1600 anos;

2.     Escrito durante mais de 40 gerações;

3.     Escrito por cerca de 40 autores, das mais diferentes atividades, tais como: reis, camponeses, filósofos, pescadores, poetas, estadistas, estudiosos, etc.: Moisés, um líder político, que estudou nas universidades do Egito; Pedro, um pescador; Amós, um boiadeiro; Josué, um general; Neemias um copeiro; Daniel, um diplomata; Lucas, um médico; Salomão e Davi (reis e poetas); Mateus (cobrador de impostos); Paulo (rabino); Esdras (escriba e sacerdote).

4.     Escrito em diferentes lugares: no deserto; numa masmorra; nos palácios de Susã, na Pérsia; nas prisões; em viagens; numa ilha, exilado;

5.     Escrito em diferentes condições e circunstâncias: em tempos de paz e em tempos de guerra; em tempos de alegria, e em tempos de profunda tristeza; em tempos de liberdade, e sob o cativeiro;

6.     Escrito em três continentes: Ásia, África e Europa;

7.     Escrito em três idiomas:
Hebraico (a língua do Antigo Testamento) Em 2Reis 18:26-28 essa língua é chamada de "judaica"; Em Is. 19:18 é chamada de "língua de Canaã");
Aramaico (a língua "franca" do Oriente Próximo até à época de Alexandre, o grande (século VI ao século IV a.C., tendo permanecido em uso, paralelamente ao grego, por judeus e palestinos até à época de Cristo);
Grego, a língua do Novo Testamento. Era o idioma de uso internacional à época de Cristo.

8.     A Bíblia trata de centenas de temas controversos (aqueles que podem gerar opiniões divergentes, quando mencionado ou discutido). Os autores bíblicos falaram de centenas de temas controversos, com harmonia e coerência, desde Gênesis a Apocalipse, revelando uma única história: - "A redenção do homem por parte de Deus". Assim, o "Paraíso Perdido" de Gênesis, se torna o "Paraíso Recuperado" do Livro de Apocalipse. Enquanto que o acesso à árvore da vida está fechado em Gênesis, encontra-se aberto para todo o sempre em Apocalipse. A grande diversidade dos escritos da Bíblia tratam de: lei (civil, criminal, ética, ritual, sanitária), história, poesia religiosa e lírica, textos didáticos, parábolas e alegorias, biografia correspondência pessoal, reminiscências pessoais, diários, alem de estilos caracteristicamente bíblicos de literaturas proféticas e apocalípticas". Por tudo isso a Bíblia não é uma simples antologia. Existe uma unidade que dá coesão ao todo. Uma antologia é compilada por um antologista, mas nenhum antologista compilou a Bíblia.

3. ÚNICA EM CIRCULAÇÃO
A Bíblia
tem sido lida por mais pessoas e publicada em mais línguas do que qualquer outro livro. Existem mais cópias impressas de toda a Bíblia e mais porções e seleções dela do que de qualquer outro livro em toda a história. Em termos absolutos não existe qualquer livro que alcance, ou que mesmo comece a se igualar à Bíblia, em termos de circulação.
O primeiro grande livro a ser impresso foi a "Vulgata" (versão da Bíblia em latim), impressa por Gutemberg.
4. ÚNICA EM TRADUÇÃO
A Bíblia
foi um dos primeiros livros importantes a ser traduzido (Septuaguinta: tradução em grego do Antigo Testamento hebraico, por volta de 250a.C.). A Bíblia tem sido traduzida, retraduzida e parafraseada mais do que qualquer outro livro existente. A Enciclopédia Britânica informa que " até 1966 a Bíblia completa havia aparecido em 240 línguas e dialetos; um ou mais livros da Bíblia em outros 739 idiomas, num total de 1280 línguas". Entre 1950 e 1960 3.000 tradutores da Bíblia estiveram trabalhando na tradução das Escrituras. Os fatos colocam a Bíblia numa condição única ("de cuja espécie não existe outra") em termos de tradução.
5. ÚNICA EM SOBREVIVENCIA
a. Através
dos tempos.
Ser escrita em material perecível, tendo que ser copiada e recopiada durante centenas de anos, antes da invenção da imprensa, não prejudicou seu estilo, exatidão ou existência. Comparada com outros escritos antigos, a Bíblia possui mais provas em termos de manuscritos do que, juntos, possuem os dez textos de literatura clássica com maior número de manuscritos. Os judeus a preservaram como nenhum outro manuscrito foi jamais preservado. Com a "massora"(parva, magna e finalis) eles verificavam atentamente cada letra, sílaba, palavra e parágrafo. Dentro de sua cultura, eles dispunham de grupos de homens com funções específicas, cuja única responsabilidade era preservar e transmitir esses documentos com uma fidelidade praticamente perfeita, eram "escribas, copistas e massoretas". Quem alguma vez contou as letras, sílabas e palavras dos textos de Aristóteles ou Platão? de Cícero ou de Sêneca?

b. Em meio a perseguições.
Como nenhum outro livro, a Bíblia tem suportado os ataques malévolos de seus inimigos. Muitos tem procurado queimá-la, proibi-la e torná-la ilegal, desde os dias dos imperadores romanos até os dias de hoje, nos países dominados pelo comunismo, islamismo, ou pagãos radicais. Voltaire, o renomado francês, incrédulo, que morreu em 1778, afirmou que, cem anos depois dele o cristianismo estaria varrido da face da terra e teria passado à história. Mas aconteceu que, Voltaire passou à história, ao passo que a circulação da Bíblia continua a aumentar em quase todas as partes do mundo, levando bênçãos aonde quer que vá. Em 303 A.D. o imperador Diocleciano proclamou um edito para impedir os cristãos de adorarem Deus e para destruir as Escrituras. Eusébio registra o edito proclamado 25 anos após, por Constantino, sucessor de Diocleciano, para que se preparassem 50 cópias das Escrituras às expensas do governo.

c. Em meio às críticas
Durante dezoito séculos os incrédulos tem refutado e atacado esse livro, e, no entanto, ele está hoje firme como uma rocha. Aumenta sua circulação, é mais amado, apreciado e lido do que em qualquer outra época. Por mais de mil vezes badalaram os "sinos" anunciando a morte da Bíblia, formou-se o cortejo fúnebre, talhou-se a inscrição na lápide e fez-se a leitura da elegia fúnebre. Mas por alguma maneira o cadáver nunca permaneceu sepultado. Nenhum outro livro tem sido tão atacado, retalhado, vasculhado, examinado e difamado. Que livro de filosofia, religião, psicologia ou literatura do período clássico ou moderno, sofreu um ataque tão maciço como a Bíblia? Apesar de todos os ataques, a Bíblia é amada por milhões, lida e estudada por milhões. Críticas, como por exemplo da "hipótese documental", que argumenta que o Pentateuco não poderia ter sido por Moisés, pois, segundo esses críticos, à época de Moisés não havia escrita, ruem por terra, pois a arqueologia descobriram o "obelisco negro". Tinha caracteres uniformes e continha as leis de Hamurabi. Era um texto pós-Mosaico? Não! era pré-Mosaico. E não apenas isso, mas era pelo menos três séculos anteriores a Moisés, o qual supunham que era um homem primitivo e não dispunha de alfabeto. Também falharam os defensores da "hipótese documental" quando asseveravam que não existiam heteus à época de Abraão, pois não existiam outros registros sobre esse povo. Deviam ser um mito. Estavam errados mais uma vez. Fruto da pesquisa arqueológica, hoje existem centenas de referencias se sobrepondo umas às outras e cobrindo mais de 1200 anos da civilização dos heteus.

6. Única nos Ensinos.

a.     Profecia. Wilbor Smith, que formou uma biblioteca pessoal de 25.000 volumes, chegou à conclusão de que "não importa o que alguém pense sobre a autoridade do livro que chamamos de Bíblia e sobre a mensagem que ele apresenta; o fato é que existe uma aceitação generalizada de que, por inúmeras razões, esse é o livro mais notável que já foi produzido nestes aproximadamente cinco mil anos em que a raça humana domina a escrita". "É o único volume já produzido pelo homem, ou por um grupo de homens, em que se encontra um grande corpo de profecias a respeito de nações, em particular de Israel, de todos os povos da terra, de certas cidades e daquEle que viria e deveria ser o Messias. O mundo antigo possuía muitos e diferentes meios para determinar o futuro, o que é conhecido como "prognosticação", mas na totalidade da literatura grega e latina, muito embora empreguem as palavras "profetas" e "profecia", não conseguimos encontrar qualquer profecia real e especifica acerca de um grande acontecimento histórico que deveria ocorrer no futuro distante, nem qualquer profecia acerca de um Salvador que iria surgir no meio da raça humana". O Islamismo é incapaz de indicar qualquer profecia acerca da vinda de Maomé, e que tenha sido pronunciada centenas de anos antes de seu nascimento. De igual modo, os fundadores de quaisquer das seitas existentes no mundo são incapazes de identificar com precisão qualquer texto antigo que tenha predito o surgimento de tal ou tal seita.

b.     História. Nos livros bíblicos de 1ª Samuel até 2ª Crônicas encontra-se a história de Israel, cobrindo cerca de cinco séculos. Certamente o povo de Israel manifesta uma capacidade excepcional para a interpretação da história, e o Antigo Testamento representa a descrição da história mais antiga que existe. "A tradição nacional hebraica supera todas as outras na maneira clara como descreve a origem tribal e familiar. No Egito e na Babilônia, na Assíria e na Fenícia, na Grécia e em Roma, procuramos em vão por qualquer coisa parecida. Nada há de semelhante na tradição dos povos germânicos.
A Índia e a China também não tem algo parecido para apresentar, visto que suas lembranças históricas mais antigas são registros literários de tradições dinásticas distorcidas, sem que haja menção a criadores de animais ou lavradores que tivessem antecedido o semideus ou rei, com quem esses registros iniciam. Nem nos mais antigos escritos históricos indianos (os Puranas) nem nos primeiros historiadores gregos existe qualquer alusão ao fato de que tanto os indo-arianos como os helenos outrora haviam sido nômades que, vindos do norte, imigraram para as regiões onde se instalaram. A bem da verdade, os assírios se lembravam vagamente de seus primeiros lideres, cujos nomes recordavam sem quaisquer detalhes sobre seus feitos, e que haviam habitado em tendas; mas já fazia muito tempo que os assírios tinham se esquecido de onde vieram.
A "Tabela das Nações", de Gênesis Cap.10, é um relato histórico surpreendentemente exato. "É algo absolutamente único na literatura antiga, sem qualquer paralelo mesmo entre os gregos... 'A Tabela das Nações' permanece sendo um documento surpreendentemente exato... Revela, apesar de toda a complexidade, uma compreensão tão notavelmente moderna da situação étnica e lingüística do mundo moderno, que os estudiosos jamais deixam de ficar impressionados com o conhecimento do autor sobre o assunto.

c.     As pessoas descritas. "A Bíblia não é o tipo de livro que um homem escreveria caso pudesse, nem poderia escrever, caso quisesse". Ela trata com muita franqueza a respeito dos pecados de suas personagens. Leia as biografias escritas hoje em dia e repare como elas tentam esconder, deixar de lado ou ignorar o lado pouco recomendável das pessoas. Veja os maiores gênios da literatura: em sua maioria são descritos como santos. A Bíblia não procede dessa maneira. Ela simplesmente conta a verdade.

d.     Denunciando os pecados do povo (Deut. 9:24); e os pecados dos patriarcas (Gen.12:11-13; 49:5-7); os evangelistas descrevem suas próprias faltas e as dos apóstolos (Mat.8:10-26; 26:31-56; Mc.6:52; 8:18; Luc. 8:24, 25; 9:40-45; João 10:6; 16:32) e a desordem nas igrejas (1Cor.1:11; 15:12; 2Cor. 2:4, etc.). Muitos indagarão: "Por que tinham que colocar aquele capítulo sobre Davi e Bate-Seba"? Bem, a Bíblia tem o costume de contar a verdade.

7. Única na influência sobre a literatura
"Se todas as Bíblias de uma cidade grande fossem destruídas, seria possível restaurar o Livro em suas partes essenciais, a partir das citações dele feitas existentes nos livros da biblioteca pública municipal. Existem livros cobrindo quase todos os grandes autores literários, escritos especificamente para mostrar o quanto a Bíblia os influenciou".
O historiador Philip Schaff descreve de maneira brilhante a singularidade da Bíblia ao apresentar a singularidade do Salvador: "Esse Jesus de Nazaré, sem dinheiro nem armas, conquistou milhões de pessoas em número muito maior do que Alexandre, César, Maomé e Napoleão; sem o conhecimento e a pesquisa científica ele despejou mais luz sobre assuntos materiais e espirituais do que todos os filósofos e cientistas reunidos; sem a eloqüência aprendida nos bancos escolares, ele pronunciou palavras de vida como nunca antes, nem depois foram ditas e provocou resultados que o orador e o poeta não conseguem alcançar; sem ter escrito uma linha, ele pôs em ação mais canetas, e forneceu temas para mais sermões, discursos, livros profundos, obras de arte e música de louvor do que todo o contingente de grandes homens da antigüidade e da atualidade".
"Existem questões complexas no estudo da Bíblia, que não tem paralelo com qualquer outra ciência ou ramo do conhecimento humano. A partir dos "pais apostólicos", em 95 A.D., até à época atual corre um largo rio literário, inspirado pela Bíblia. São dicionários bíblicos, enciclopédias bíblicas, léxicos bíblicos, atlas bíblicos e livros de geografia. Pode-se considerá-los como ponto de partida. Então, aleatoriamente, podemos mencionar as enormes bibliografias nos campos de teologia, educação religiosa, hinologia, missões, línguas bíblicas, história da Igreja, biografia religiosa, devocionários, comentários, filosofia da religião, provas do cristianismo, apologética, e assim por diante, parece ser um número interminável.
"É prova da importância dEle, do efeito que Ele tem causado na história e, presumivelmente, do mistério desconcertante, provocado por Ele, que nenhuma outra pessoa que viveu neste planeta tenha sido a razão de um volume tão grande de literatura entre tão grande número de povos e línguas e que, longe de terminar, o nível da inundação continua subindo".
A Conclusão é óbvia. "A Bíblia é única. A ela, nada é comparável. A Bíblia é o primeiro livro religioso a ser levado para o espaço sideral (ela foi em forma de microfilme). É o primeiro livro lido que descreve a origem da terra (os astronautas leram Gênesis 1:1 - "No princípio criou Deus os céus e a terra").
É também um dos livros mais caros (senão o mais caro) A Bíblia Vulgata Latina de Gutenberg custa 100.000 dólares. Os russos venderam o Códice Sinaítico (uma antiga cópia da Bíblia) à Inglaterra por 510.000 dólares (em 1933). E, finalmente, o mais longo telegrama do mundo foi o Novo Testamento na Edição Revista, enviado de New York a Chicago, duas cidades norte-americanas.

3. QUEM ESCREVEU A BÍBLIA?

Já dissemos em nosso artigo "O que é a Bíblia?", que ela foi totalmente inspirada por Deus. Para definirmos inspiração, preferimos seguir o conceito descrito por São Tomás de Aquino:

"É a ação de Deus, movendo e dirigindo o autor na produção do livro, preservando-o de erros, de forma que é Deus o autor e o homem mero instrumento usado para escrever" (2Quodlibetales, VII,14,5)

Vemos, assim, que os livros da Bíblia foram escritos por homens movidos pela ação direta de Deus, de forma a prevenir erros, fazendo que aceitemos Deus como autor principal e o homem como autor secundário. O homem é instrumento de Deus e é movido e dirigido por Ele.

Porém, não devemos confundir inspiração com revelação: a revelação ocorre quando Deus mostra ou descobre ao homem verdades de fé; a inspiração, como vimos, é o ato de Deus mover o homem a escrever verdades de fé, assistindo e preservando seus escritos do erro.

O fato de Deus de ter inspirado homens, não significa, contudo, que tenha anulado a inteligência e a liberdade do ser humano. Sobre isso, ensina-nos o Magistério da Igreja:

"Na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que Ele próprio quisesse" (Dei Verbum, 11).

Mas por que Deus inspiraria seres humanos para elaborar a Bíblia??

Ora, Deus é nosso Criador e nos criou por amor! Inspirando alguns santos homens a escrever tais livros, deu à religião uma base divina, absolutamente correta, já que, por serem inspirados, os livros da Bíblia são a própria Palavra de Deus, em toda a sua essência e força.

Já que foram escritos por homens, de forma que podemos entender seu conteúdo, foram usadas linguagens humanas. Quase todas as Bíblias modernas trazem logo na primeira folha as três linguagens que foram usadas para compô-la: o hebraico, o aramaico e o grego. O hebraico foi usado para a redação de quase todo o Antigo Testamento; o aramaico (língua falada na Palestina na época de Jesus) foi usado para alguns pequenos trechos do Antigo Testamento e, segundo alguns estudiosos, para o original do Evangelho de Mateus; o grego comum (koiné), por fim, foi utilizado para escrever alguns poucos livros do Antigo Testamento e para todo o Novo Testamento.

 

4. COMO SÃO FEITAS AS CITAÇÕES BÍBLICAS?

É comum abreviarmos os nomes dos livros da Bíblia para facilitar a citação de certas passagens. Em geral, os católicos adotam o seguinte elenco de abreviaturas:

ANTIGO TESTAMENTO

Pentateuco

Gn

Livro da Gênese

 

 

Ex

Livro do Êxodo

 

 

Lv

Livro do Levítico

 

 

Nm

Livro dos Números

 

 

Dt

Livro do Deuteronômio

 

Históricos

Js

Livro de Josué

 

 

Jz

Livro dos Juízes

 

 

Rt

Livro de Rute

 

 

1Sm

1º Livro de Samuel

 

 

2Sm

2º Livro de Samuel

 

 

1Rs

1º Livro dos Reis

 

 

2Rs

2º Livro dos Reis

 

 

1Cr

1º Livro das Crônicas

 

 

2Cr

2º Livro das Crônicas

 

 

Esd

Livro de Esdras

 

 

Ne

Livro de Neemias

 

 

Tb

Livro de Tobias

 

 

Jud

Livro de Judite

 

 

Est

Livro de Ester

 

 

1Mc

1º Livro dos Macabeus

 

 

2Mc

2º Livro dos Macabeus

 

Sapienciais

Livro de Jó

 

 

Sl

Livro dos Salmos

 

 

Pr

Livro dos Provérbios

 

 

Ecl

Livro do Eclesiastes

 

 

Ct

Cântico dos Cânticos

 

 

Sb

Livro da Sabedoria

 

 

Eclo

Livro do Eclesiástico

 

Proféticos

Is

Livro de Isaías

 

 

Jr

Livro de Jeremias

 

 

Lm

Livro das Lamentações

 

 

Br

Livro de Baruc

 

 

Ez

Livro de Ezequiel

 

 

Dn

Livro de Daniel

 

 

Os

Livro de Oséias

 

 

Jl

Livro de Joel

 

 

Am

Livro de Amós

 

 

Ab

Livro de Abdias

 

 

Jn

Livro de Jonas

 

 

Mq

Livro de Miquéias

 

 

Na

Livro de Naum

 

 

Hab

Livro de Habacuc

 

 

Sf

Livro de Sofonias

 

 

Ag

Livro de Ageu

 

 

Zc

Livro de Zacarias

 

 

Ml

Livro de Malaquias

NOVO TESTAMENTO

Evangelhos

Mt

Evangelho segundo Mateus

 

 

Mc

Evangelho segundo Marcos

 

 

Lc

Evangelho segundo Lucas

 

 

Jo

Evangelho segundo João

 

Atos

At

Atos dos Apóstolos

 

Epístolas

Rm

Epístola aos Romanos

 

 

1Cor

1ª Epístola aos Coríntios

 

 

2Cor

2ª Epístola aos Coríntios

 

 

Gl

Epístola aos Gálatas

 

 

Ef

Epístola aos Efésios

 

 

Fl

Epístola aos Filipenses

 

 

Cl

Epístola aos Colossenses

 

 

1Ts

1ª Epístola aos Tessalonicenses

 

 

2Ts

2ª Epístola aos Tessalonicenses

 

 

1Tm

1ª Epístola a Timóteo

 

 

2Tm

2ª Epístola a Timóteo

 

 

Tt

Epístola a Tito

 

 

Fm

Epístola a Filemon

 

 

Hb

Epístola aos Hebreus

 

 

Tg

Epístola de Tiago

 

 

1Pd

1ª Epístola de Pedro

 

 

2Pd

2ª Epístola de Pedro

 

 

1Jo

1ª Epístola de João

 

 

2Jo

2ª Epístola de João

 

 

3Jo

3ª Epístola de João

 

 

Jd

Epístola de Judas

 

Profético

Ap

Apocalipse de João



Assim, quando quisermos citar a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, basta escrever 1Ts.

A seguir, informamos o capítulo. Assim, 1Ts 2 significa Primeira Epístola aos Tessalonicenses, capítulo dois.

Para fazermos citações mais completas, usamos alguns sinais de pontuação:

·        A vírgula separa os versículos do capítulo.
Ex.: Mt 16,18 significa Evangelho segundo Mateus, capítulo 16, versículo 18.

·        O hifen apresenta uma sequência de capítulos ou versículos.
Ex.: At 1-2 significa Atos dos Apóstolos, capítulos 1 e 2 (integrais).
Ex 15,2-5 significa Livro do Êxodo, capítulo 15, versículos 2 à 5.

·        O ponto apresenta capítulos e/ou versículos citados isoladamente.
Ex.: 1Cr 1.3 significa Primeiro Livro das Crônicas, capítulos 1 e 3.
Is 32,1.4.6 significa Livro do Profeta Isaías, capítulo 32, versículos 1, 4 e 6.

·        O ponto e vírgula dispõe capítulos e versículos isolados, mas pertencentes ao mesmo livro.
Ex.: Jo 3,23-25; 6,1-4 significa Evangelho segundo João, capítulo 3, versículos de 23 à 25 e capítulo 6, versículos de 1 à 4.

Algumas Bíblias podem usar "s" e "ss" a seguir do número do capítulo e/ou versículo. "s" significa seguinte e "ss", seguintes. São usados para simplificar - ainda mais - a citação, respectivamente, de dois ou três capítulos e/ou versículos.
Ex.: Rm 2,5s significa Epístola aos Romanos, capítulo 2, versículos 5 e 6 (isto é, o versículo 5 e o seguinte).
Ap 6,7ss significa Livro do Apocalipse, capítulo 6, versículos de 7 à 9 (isto é, o versículo 7 e os dois seguintes).
Tg 1s significa Epístola de Tiago, capítulos 1 e 2 (isto é, o capítulo 1 e o seguinte).

Com todas essas abreviações e sinais podemos montar e citar, de forma bem resumida, qualquer passagem Bíblica. Ex.: Lv 1,12-15.20; 3,2s; Mc 1,3ss.10; 2Cor 3-5 significa, respectivamente:
- Livro do Levítico, capítulo 1, versículos de 12 à 15 e o versículo 20; no mesmo Livro do Levítico, capítulo 3, versículos 2 e 3.
- Evangelho segundo Marcos, capítulo 1, versículos de 3 à 5 e o versículo 10.
- Segunda Epístola aos Coríntios, capítulos de 3 à 5.

 

5. COMO ESTÁ DIVIDIDA A BÍBLIA? QUAIS LIVROS A COMPÕEM?

A Bíblia está dividida em duas grandes partes:

1.     Antigo Testamento: Que são todos os livros escritos a partir do séc. XV a.C. até o nascimento de Cristo. Contém a Lei de Deus dada a Moisés, a história do povo de Israel e suas reflexões, bem como a previsão da vinda do Messias, que se deu com a vinda de Jesus Cristo.

2.     Novo Testamento: Que são todos os livros escritos após a vinda de Jesus até o final do séc. I d.C.. Traz a vida e as obras de Jesus, a criação e a expansão da Igreja, além de documentos de formação do povo cristão.

Essas duas grandes divisões estão, ainda, subdivididas de acordo com o conteúdo dos livros. Temos assim, para o Antigo Testamento:

1.     Livros da Lei: também chamados de Pentateuco, isto é, os "cinco livros" de Moisés, que abrem a Bíblia, e falam da Criação de Deus e da formação de seu Povo Eleito: Israel.

2.     Livros Históricos: são os livros que descrevem as guerras de Israel, bem como a história de seus reinos.

3.     Livros Didáticos: ou sapienciais, apresentam a sabedoria e poesia dos hebreus.

4.     Livros Proféticos: foram escritos por profetas que pregavam o arrependimento e preparavam o povo eleito para a chegada do Messias Salvador.

enquanto que, para o Novo Testamento, temos:

1.     Livros do Evangelho: narram a vida, os ensinamentos, os milagres e a obras do Messias Jesus Cristo.

2.     Livro Histórico: apresenta a instituição e expansão da Igreja Cristã, primeiro na Palestina e, a seguir, no mundo até então conhecido.

3.     Epístolas: são as doutrinas e exortações escritas por alguns Apóstolos de Cristo e encaminhadas a comunidades ou fiéis cristãos.

4.     Livro Profético: traz a vitória de Cristo e sua Igreja sobre as forças do mal e o juízo final.

Os livros que compõem a Bíblia são 73, sendo 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. São eles:

1.     Gênese

2.     Êxodo

3.     Levítico

4.     Números

5.     Deuteronômio

6.     Josué

7.     Juízes

8.     Rute

9.     Samuel - Livro I

10. Samuel - Livro II

11. Reis - Livro I

12. Reis - Livro II

13. Crônicas - Livro I

14. Crônicas - Livro II

15. Esdras

16. Neemias

17. Tobias

18. Judite

19. Ester

20. Macabeus - Livro I

21. Macabeus - Livro II

22.

23. Salmos

24. Provérbios

25. Eclesiastes

26. Cântico dos Cânticos

27. Sabedoria

28. Eclesiástico

29. Isaías

30. Jeremias

31. Lamentações de Jeremias

32. Baruc

33. Ezequiel

34. Daniel

35. Oséias

36. Joel

37. Amós

38. Abdias

39. Jonas

40. Miquéias

41. Naum

42. Habacuc

43. Sofonias

44. Ageu

45. Zacarias

46. Malaquias

47. Evangelho de Mateus

48. Evangelho de Marcos

49. Evangelho de Lucas

50. Evangelho de João

51. Atos dos Apóstolos

52. Epístola aos Romanos

53. 1ª Epístola aos Coríntios

54. 2ª Epístola aos Coríntios

55. Epístola aos Gálatas

56. Epístola aos Efésios

57. Epístola aos Filipenses

58. Epístola aos Colossenses

59. 1ª Epístola aos Tessalonicenses

60. 2ª Epístola aos Tessalonicenses

61. 1ª Epístola a Timóteo

62. 2ª Epístola a Timóteo

63. Epístola a Tito

64. Epístola a Filemôn

65. Epístola aos Hebreus

66. Epístola de Tiago

67. 1ª Epístola de Pedro

68. 2ª Epístola de Pedro

69. 1ª Epístola de João

70. 2ª Epístola de João

71. 3ª Epístola de João

72. Epístola de Judas

73. Apocalipse de João

 

6. COMO LER COM PROVEITO A BÍBLIA?

·        Dedique um tempo diário para estudar e meditar a Bíblia: pode ser pela manhã, logo após acordar; ou, depois do almoço ou da janta; ou antes de dormir; ou, ainda, qualquer outro horário que se adapte ao seu tempo livre. A quantidade de tempo também pode ser livremente estabelecida: 10, 30, 60 minutos ou mais. Quanto mais tempo você tiver, melhor! Porém, divida o tempo total para as duas atividades que devem ser feitas: leitura e estudo. O ideal é dividir na ordem de 1/3 e 2/3, respectivamente. Assim, se você resolver dedicar 15 minutos diários, use 5 minutos para leitura e 10 minutos para o estudo.

·        Após estabelecer o horário que melhor o satisfaça, cumpra-o rigorosamente, não esquecendo nem adiando nenhum dia, mesmo que se sinta cansado. Lembre-se: devemos amar a Deus sobre todas as coisas!

·        Se você não tiver uma Bíblia, adquira uma. Compre, entretanto, em livrarias católicas pois as versões comercializadas por livrarias evangélicas são incompletas quanto ao Antigo Testamento (faltam 7 livros e alguns trechos de Ester e Daniel). Existem Bíblias com uma linguagem mais simples (ex.: "Bíblia Ave Maria") e outras mais técnicas (ex: "Bíblia de Jerusalém"); leve aquela que esteja dentro da sua linguagem e das suas condições. Além disso, compre um caderno e também um comentário bíblico. As editoras católicas disponibilizam diversos comentários, dos mais simples aos mais completos. Folheie-os com calma e encontre um que atenda seus requisitos de linguagem e complexidade.

·        Adquirido o material e chegada a hora do estudo, com a Bíblia nas mãos, inicie com uma oração ao Espírito Santo, pedindo para que o ilumine. Pode ser a seguinte ou uma outra semelhante e espontânea:
"Espírito Santo: Tu inspiraste estas palavras. Ilumina a minha mente para que eu possa compreendê-las. Vem, Espírito Santo, ilumina o meu coração e o meu entendimento. Ajuda-me a reconhecer a Verdade eterna que preciso para agradar a Deus. Amém."

·        Selecione a leitura. Há várias formas de se fazer isto... Você pode seguir a sugestão da Igreja e ler as leituras selecionadas para o tempo litúrgico em que estiver (algumas Bíblias trazem essa seleção de textos em apêndice no final do volume; caso sua Bíblia não possua essa indicação, imprima as páginas das Leituras Dominicas e Semanais que disponibilizamos neste Site) ou ler a Bíblia na forma sequencial, a partir do primeiro livro (neste caso, particularmente sugiro que se inicie pelo Novo Testamento - por ser mais dinâmico - para só depois se passar para o Antigo Testamento).

·        Leia com atenção - sem pressa e meditativamente - cada versículo. Não se incomode de precisar voltar a ler alguma passagem não muito clara. Releia todo o texto mais uma ou duas vezes, pois sempre acabamos percebendo algo que deixamos escapar na leitura anterior...

·        Identifique-se com os personagens em cada cena. Se estiver lendo os Evangelhos, coloque-se no lugar do sofredor Lázaro, no lugar de Mateus convidando Jesus para uma refeição... Considere tudo o que Jesus fala como diretamente dirigido a você. Ao ler as epístolas, além da voz do Apóstolo e do Espírito Santo, reconheça a voz da Igreja, exortando-o a aumentar e amadurecer a fé.

·        Termine a leitura também com uma oração ao Espírito Santo, como, por exemplo: "Fala, Senhor: teu servo está te ouvindo. Aqui estou, Senhor!", ou "Senhor: aqui estamos, Tu e eu, juntos agora. Fala-me, pois eu te escuto!". Faça, então, um breve silêncio.

·        Inicie o estudo lendo com calma e atenção o comentário sobre o texto lido. Leia também todas as notas de rodapé existentes na sua Bíblia: elas são importantes principalmente para os pontos mais obscuros.

·        Prossiga o estudo tomando nota das passagens que mais o tocam. Neste ponto, sugiro que se utilize o método do pe. Jonas Abib, dividindo as citações em cinco pontos:

1.      Promessas: é tudo aquilo que Deus promete àqueles que cumprem (ouvem e praticam) a Sua Palavra. São promessas em que podemos seguramente confiar. Ex.: "Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou no meio deles" (Mt 18,20); v.tb.: Jo 1,12; Lc 11,13; Ef 6,8.

2.      Ordens: são os mandamentos que devemos obedecer durante a nossa vida, onde demonstramos a nossa fidelidade a Deus. Ex.: "Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado" (Jo 13,34); v.tb.: Mt 5,37; Mc 16,15; Lc 6,27-28.

3.      Princípios Eternos: são as leis que regem o Reino de Deus e não devem ser confundidos com as ordens. São os segredos do funcionamento do Reino. Ex.: "Para os puros, todas as coisas são puras. Para os corruptos e descrentes, nada é puro; até sua mente e consciência são corrompidas" (Tt 1,15); v.tb.: Lc 6,36; 18,14; 1Tm 6,7.

4.      Mensagem de Deus para Hoje: certamente Deus tem uma mensagem para você. Faça de maneira pessoal, com suas próprias palavras.

5.      Como Aplicar a Leitura na Vida: é a parte mais pessoal e mais concreta. Anote e coloque em prática tudo o que descobrir. É a maneira decisiva para mudar o comportamento (ser e agir) e o relacionamento com Deus.

·        Para terminar o estudo, releia o comentário bíblico e as suas anotações. Observe, então, a incrível unidade que existe entre eles. Se você quiser - e é altamente recomendado!! - tente relembrar a leitura do dia anterior; se possível, memorize o versículo principal, o núcleo da mensagem.

·        Termine o seu "dever de casa" com uma oração espontânea agradecendo a Deus pelas descobertas do dia e certo de ter aumentado a sua intimidade com Ele. Lembre-se sempre: Não caia no erro de querer ler somente a Bíblia sem a ajuda da Igreja, achando que pode interpretá-la de forma particular. Essa tese é protestante e anti-bíblica. Foi por causa disso que o sectarismo se instalou no mundo cristão, existindo hoje mais de 20.000 denominações - todas elas com mensagens "muito particulares" e distintas umas das outras.

 

7. A BÍBLIA NÃO ERRA

1. MENTALIDADE HEBRAICA E LINGUAGEM BÍBLICA
Vamos, pois estudar inícialmente um pouco da mentalidade dos judeus e do seu jeito de se exprimir.
No salmo 62, versículo 6, lemos: "Minha alma será saciada de gordura e de tutano, de meus lábios alegres ressoará o teu louvor". Nós poderíamos dizer: O que é isso? A alma não come! É verdade. Mas, para o judeu, um bom almoço era aquele com muita carne gorda. Um bom almoço alegra. Por isso o salmista, em vez de dizer: "Minha alma estará feliz junto de Deus", diz: "Junto de Deus minha alma será alimentada com carnes gordas e tutano". Pode não parecer piedoso. Mas assim é que rezavam.
No salmo 118,109, encontramos: "Minha vida está sempre em minhas mãos". Ter alguma coisa nas mãos, é estar pronto a entregar, a perder. "Ter a vida nas mãos" queria dizer: estou pronto a perder a minha vida, estou quase morrendo, estou em grande perigo.
Com
a mão pegamos as coisas, tomamos posse. Em vez de dizer que alguém era rico, os judeus diziam: "ele tem a mão grande". Quem era pobre ou avarento "tinha as mãos pequenas".
Esses exemplos bastam para mostrar como os judeus usavam uma linguagem muito concreta, quase sem termos abstratos. Aliás, hoje ainda usamos linguagem semelhante. Se alguém nos diz que "está na fossa", "foi para o brejo", "foi para o buraco", entendemos logo o que quer dizer e não perguntamos qual a fundura do buraco nem onde é o brejo.
Como os orientais em geral, os judeus gostavam de falar de um modo teatral. Assim, sem muitas explicações, a idéia se tornava clara, quase palpável. Usavam expressões que, analisadas friamente, são exageros. Um rei, para dizer que seu exército era numeroso, dizia que a poeira da Samaria não seria bastante para encher as mãos de seus soldados (1º Livro dos Reis 20,10). Em vez de dizer: "houve fome em muitos países", diziam: "houve fome na terra inteira". Há uma passagem do Evangelho (Lc 14,26) em que Jesus diz: "Quem não odiar pai, mãe... não pode ser meu discípulo". Odiar, no caso, significa amar menos do que ao Cristo.
A língua hebraica não tinha os mesmos recursos das línguas modernas. Nós temos palavras que indicam claramente a comparação entre os termos. Nós dizemos claramente: "É maior o número dos chamados e menor o número dos escolhidos". "Deus quer mais a misericórdia do que o sacrifício". Os judeus diziam: "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos" (Mt 22,14). "Quero a misericórdia e não o sacrifício" (Mt 9,13).
Usavam comparações e imaqens que não podem ser tomadas ao pé da letra. As idéias abstratas estavam ligadas a coisas materiais. Por exemplo:

·        Fraqueza: carne, cinza, poeira, flor que murcha, cera derretida.

·        Força: montanha, rochedo, bronze, tempestade, exército.

·        Glória: luz, brilho, relâmpago.

·        Fartura: leite, mel, água, azeite.

Esse modo concreto de pensar e de falar é que levava os judeus a falarem das coisas e de Deus usando expressões que realmente só de aplicam aos homens. Por exemplo:

·        As cisternas, os montes, as árvores devem bater palmas e gritar de alegria;

·        O sangue inocente pede vingança divina;

·        Deus tem rosto, nariz, ouvidos, boca, lábios, olhos, voz, braços, mãos e pés. Está revestido de um manto, senta-se num trono de rei. Tem desgosto, ódio, sentimentos de agrado, alegria, arrependimento. Tem até um nome próprio.

Na linguagem da Bíblia os números não têm a mesma importância nem o mesmo significado que têm para nós. Quando damos um número, procuramos ser matematicamente exatos; interessa-nos a quantidade real. Para os judeus os números tinham todo um significado simbólico, indicava o sentido dos acontecimentos ou as qualidades das pessoas. A idade dos patriarcas, cem ou mais anos, não era contada em razão dos anos realmente vividos, mas em razão da veneração que mereciam, do quanto eram queridos por Deus. No capítulo quinto do Gênesis encontramos uma série de dez gerações desde Adão até o patriarca Noé. Dez era apenas o número que indicava uma série completa e final. Falando de dez patriarcas, o hagiógrafo queria abarcar todos os acontecimentos, todas as gerações entre Adão e Noé, fossem lá quais e quantos fossem. Não estava, de modo algum, querendo ensinar que de fato tinha havido apenas uma série de dez gerações. De modo semelhante Jesus fala das "dez virgens"; S. Paulo menciona os "dez adversários" que nos tentam separar do Cristo (Rom 8,38s), e os "dez vícios" que nos podem excluir do Reino de Deus (1Cor 6,9s). Os meses do ano são doze. Por isso esse número também significava a perfeição, a totalidade.
Quando damos um número, estamos de fato excluindo qualquer quantidade maior ou menor, a não ser que digamos claramente o contrário. Os judeus indicavam o número que interessava no momento. Podemos dar alguns exemplos: Mc 11,2; Lc 19,30; Jo 12,14, dizem que Jesus entrou em Jerusalém montado em um jumento. Mt 21,2 fala, porém, de uma jumenta e de um jumentinho. Mc 10,46 diz que, ao sair de Jericó, Jesus curou um cego; Mt 20,30, diz que dois foram os cegos curados. Além do mais, precisamos ainda lembrar que muitas vezes houve engano dos copistas na transcrição dos números. Engano fácil de entender já que os números eram representados com letras do alfabeto, bastante parecidas entre si.
Bastam esses exemplos para percebermos o cuidado necessário para termos uma correta compreensão dos textos bíblicos.
2. GÊNEROS LITERÁRIOS
Há ainda um outro fator que devemos levar em conta: o gênero literário, isto é, o tipo de com posição que temos diante de nós. Isso vai determinar o sentido e o alcance que lhe podemos dar.
Se você ouve alguém contar uma história para crianças, uma dessas histórias em que os animais falam, aparecem fadas e bruxas, você não vai entender essa história do mesmo modo como entende as palavras de alguém que lhe está contando um fato real. Há muita diferença entre uma poesia, ou a letra de uma canção, e um trecho de um livro de ciências. Uma carta é bem diferente de uma reportagem ou uma notícia no jornal. Um discurso político não é a mesma coisa que um sermão. Aí estão exemplos de alguns "gêneros literários".
A poesia, a anedota, a narrativa histórica, cada gênero literário afinal tem suas regras próprias de composição. Tem a sua linguagem própria, suas palavras apropriadas, seu estilo. Escrevemos ou falamos de um jeito quando queremos ensinar; de outro, quando queremos divertir, ou agradar, ou informar, ou amedrontar, e assim por diante.
E mais. Cada "gênero literário" olha para a realidade de um lado diferente. Alguns, querem apresentar um fato real, enquanto outros falam de fatos imaginários. Alguns podem aprofundar o assunto até aos mínimos detalhes, outros ficam só em generalidades. E podemos ainda notar que essas formas de expressao variam conforme o povo, o tempo e o lugar.
Também na Bíblia podemos encontrar muitos gêneros literários bem característicos. Há narrativas, históricas ou não, há poesia, parábola, alegoria, profecia. apocalipse. E temos que levar isso em conta ou, então, vamos interpretar mal o que foi escrito. O que lemos no Apocalipse ou nos Profetas não pode ser compreendido do mesmo modo como se estivéssemos lendo os Evangelhos. Vamos entender mal as Epístolas de S. Paulo se esquecermos que são cartas, escritas em circunstâncias bem concretas. Precisamos conhecer e levar em conta as regras próprias de cada gênero literário para não lermos o que não foi pensado nem escrito pelos autores da Bíblia.
3. A BÍBLIA E A HISTÓRIA
Lendo a Bíblia encontramos narrativas que nos levam a perguntar: - Isso aconteceu mesmo? Tanto mais que, muitas vezes, os dados fornecidos parecem não coincidir com o que atualmente conhecemos da História do antigo oriente.
No livro de Daniel, por exemplo, está escrito que o rei Baltasar da Babilônia era filho de Nabucodonosor. Ora, pelos documentos babilônicos, conservados em tabuinhas de argila, sabemos que Baltasar era de fato filho de Nabonide, quarto sucessor de Nabucodonosor. E o livro de Jonas, será que quer apresentar um fato histórico, ou seria apenas uma narrativa com finalidade edificante? A mesma pergunta podemos levantar quanto aos livros de Jó, de Judite, de Tobias e outros.
Não vem ao caso um exame detalhado de todos os problemas que se apresentam. Vamos ver apenas alguns princípios que nos aludem a compreender o modelo literário de História usado em algumas partes da Escritura.
Em primeiro lugar é preciso saber que a Bíblia se interessa pela História na medida em que os acontecimentos têm uma importância religiosa. O que interessa ao hagiógrafo é apresentar o que Deus fez pela salvação dos homens e qual a resposta que os indivíduos, o povo e a humanidade deram à proposta divina. São mencionados, por isso, apenas os fatos realmente significativos sob esse aspecto. E mesmo esses fatos são narrados de forma a dar relevo ao seu significado religioso. Dados de menor importância são omitidos ou apresentados de um modo aproximativo, sem que se procure a exatidâo que estamos acostumados a encontrar na História cientificamente escrita.
Não podemos, porém, esquecer que a Bíblia se apresenta como o relato do que Deus realmente fez para a nossa salvação. Não quer apresentar lendas e mitos. Afirma fatos: e a fé cristã é possível somente se aceitamos a realidade desses fatos fundamentais.
Por outro lado, é bom lembrar que as descobertas arqueológicas dos últimos tempos vêm confirmando dados até agora conhecidos apenas através das informações bíblicas. O que nos dá, mesmo do ponto de vista da ciência histórica, uma garantia bastante grande pelo menos quando a exatidão dos fatos centrais.
Finalmente, há na Bíblia muitas narrativas que não precisam nem podem ser tomadas como apresentação de fatos realmente acontecidos. São "histórias" contadas com a finalidade de ensinar, exortar, animar.
Concluindo: A Bíblia não erra nem pode errar quando o hagiógrafo quer de fato apresentar o que realmente aconteceu. Nem tão pouco pode errar ao nos dar o sentido, a significação religiosa dos fatos.
4. A BÍBLIA E A CIÊNCIA
A nossa visão atual do mundo, dos seres vivos e da humanidade é muito diferente da que encontramos na Bíblia. Essa nossa visão é formada por conhecimentos certos, adquiridos através das descobertas científicas, ou se baseia em hipóteses, tentativas de explicação coerente para os fenómenos que ainda não chegamos a compreender perfeitamente. Na Bíblia, encontramos uma concepção do mundo bastante poética e ao mesmo tempo simplista. A terra era considerada como uma grande planície, cercada de altas montanhas (onde moravam o sol e a lua). Sobre essas montanhas, como se fossem imensos pilares, estaria apoiado o céu, imaginado como imensa cúpula de cristal onde estariam incrustadas as estrelas. A terra estaria flutuando sobre o mar imenso, sob o qual estava a habitação dos mortos. Acima dos céus, havia o grande mar superior, e mais alto ainda o céu, habitação de Deus. A origem do mundo e da humanidade era imaginada como acontecimento bem recente. A uma palavra de Deus a criação teria surgido como um todo perfeito e definitivo. Os fenômenos naturais (ventos, raios, chuvas) eram atribuidos a uma intervenção direta de Deus. As doenças, eram causadas por forças misteriosas. Baste isso para nos fazer compreender a dificuldade de alguns em conciliar as afirmações da Bíblia com os dados científicos agora conhecidos.
Houve tempo em que se tomaram atitudes extremas. Alguns, partindo dos conhecimentos atuais, viam a Bíblia cheia de erros e tentavam explicar tudo, até os milagres, de um modo natural. Outros tentavam colocar a Bíblia como critério para o nosso conhecimento científico da natureza; ou, então, queriam a todo o custo fazer uma acomodação entre suas afirmações e as da ciéncia. Tentativas que não serviam nem à verdade da Biblia nem à verdade da ciência.
Para evitar mal-entendidos podemos seguir estes princípios:

1.     A Escritura não quer ensinar "ciência". Quer apresentar-nos Deus, suas obras e seus planos para a nossa salvação. Como dizia um escritor antigo: "A Escritura ensina-nos como ir ao céu e não como vai indo o céu". É claro, porém, que falando sobre Deus e suas obras, a Bíblia faz afirmaçôes que têm conseqüências para a ciência. Por exemplo, quando afirma que tudo quanto existe não surgiu por si mesmo mas foi criado por livre decisão de Deus.

2.     A Bíblia, quando fala dos fenômenos e realidades da natureza, fala ao modo do povo, fala segundo as aparências: o sol que nasce e se põe etc. E muitas vezes os hagiógrafos usam uma linguagem poética que personifica as forças da natureza.

5. A BÍBLIA E A MORAL
Quem lê o Antigo Testamento poderia ficar chocado com certos costumes, mais ou menos tolerados, ou com certos episódios mais ou menos escabrosos. Como é possível isso num livro escrito sob a inspiração divina?
A Bíblia fala sobre o homem. Fala, pois, do que há de bom e mau, mesmo em homens que deviam desempenhar um importante papel nos planos de Deus. Não simplesmente para falar do mal, nem muito menos para o ensinar. Quer mostrar até que ponto pode chegar a fraqueza humana, quer ensinar-nos a evitar todo pecado. Justamente essa presença do mal nos mostra como Deus foi pacientemente educando a humanidade para que pudesse afinal aceitar e viver o Evangelho de Cristo. Não impunha exigências maiores do que as assimiláveis por homens ainda presos a uma situação precária. Não estava interessado apenas em fazer cumprir um código moral; queria levar as pessoas a um crescimento interior. Sabia esperar o momento de mandar o seu Cristo que, diante das tolerâncias da lei antiga, iria anunciar: "...eu, porém, vos digo...!"
Neste ponto podemos concluir:

A Biblia não erra nem pode errar em nenhuma das afirmações que Deus e o hagiágrafo quiseram de fato fazer e no sentido em que a fizeram.

 

8. A BÍBLIA MAL UTILIZADA

Conseqüências de um princípio funesto: a Sola Scriptura

"Então o Diabo lhe disse: 'Se és o filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito..." (Mateus 4,5).
A Sagrada Escritura é uma lâmpada que ilumina o nosso caminho para a Casa do Pai (Salmo 119,105), porém, quando mal utilizada, pode nos levar a danos físicos e morais e até mesmo à perdição eterna. O próprio Diabo se valeu desta técnica para inutilmente tentar derrubar Jesus.
O profeta Amós anunciou (8,11): "Chegará o dia em que Deus mandará fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a Palavra de YHWH" . Como esta fome de ouvir a Palavra de Deus é inerente à natureza humana, que deseja conhecer o seu Criador, devemos, nesta busca, estar atentos às infinidades de doutrinas errôneas inventadas pelo homem, que tenta baseá-las na Bíblia mal-interpretada. Já o apóstolo Pedro advertia em 2Pedro 3,16, que haveria quem viesse a torcer o seu ensino para sua própria perdição.
Alguém disse: "Da Bíblia mal-intepretada pode se extrair até petróleo"...
Joseph Smith, fundador dos mórmons, baseando-se na ordem divina de Gênese 1,22 e 35,11 ("crescei e multiplicai-vos"), aprovou a poligamia.
Joseph F. Rutherford, 2º líder mundial dos Testemunhas de Jeová, apoiou a já conhecida recusa às transfusões de sangue, que tantas mortes causou entre eles, a partir do texto de Atos 15,20, quando a Igreja proclamou uma ordem transitória e circunstancial de vir a abster-se do sangue.
Os líderes dos Adventistas do 7º Dia, utilizando Êxodo-20,8 ("recorda-te do dia de sábado para santificá-lo"), obrigam os seus adeptos a observá-lo como faziam os judeus do Antigo Testamento e rejeitam o domingo, o "Dia do Senhor", próprio dos cristãos.
Os cristãos fundamentalistas (Igreja da Fé em Cristo Jesus e outras da mesma linha doutrinária), lendo Atos 8,16 ("unicamente tendo sido batizados em nome do Senhor Jesus"), dizem que os cristãos devem ser batizados apenas em nome de Jesus e não no nome das Três Pessoas da Santíssima Trindade, muito embora esta seja a ordem expressa de Cristo em Mateus 28,19.
A grande maioria das Igrejas Cristãs Evangélicas, citando Romanos 3,28 ("concluímos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei"), proclama que a justificação (salvação) é obtida somente pela fé sem obras, em oposição ao que diz Tiago 2,26.
Entre os pentecostais, têm surgido casos de pessoas virem à falecer - principalmente crianças - em razão de seus pais não recorrerem ao médico para tratar das suas doenças, já que crêem que, segundo Lucas 8,48, tudo pode ser curado apenas pela fé e as orações. No entanto, os judeus - o povo da Bíblia - recorriam aos médicos (Eclesiástico 39); e entre os apóstolos, havia um médico eminente: São Lucas (Colossenses 4,14).
Em San Luis Potosi, numa comunidade de pessoas que seguia esta linha doutrinária, algumas morreram ao inalar gas butano. O pastor lhes dizia que se tratava da ação do Espírito Santo (Heraldo de Chih, 1° de janeiro de 1992).
Os seguidores da urinoterapia (=beber da própria urina), justificam esta prática no texto de Provérbios 5,15 ("toma a água da tua própria fonte")!
As práticas mais absurdas podem ter apoio na Bíblia mal-interpretada; citar todas seria interminável. Para evitarmos ser vítimas destes e de outros danos tão terríveis, leiamos a Sagrada Escritura sempre seguindo a interpretação do Magistério da Igreja Católica, a quem Jesus conferiu esse ministério (Lucas 10,16) e não o que é proclamado à margem deste.

 

9. A BÍBLIA É INFALÍVEL?

O conceito de inspiração implica na inerrância bíblica, em sua infalibilidade. No entanto, devemos compreender a extensão dessa infalibilidade...
Todas as coisas possuem limites: não é diferente para a Bíblia!
Não poucas vezes, nos defrontamos com pessoas que querem "provar" a todo custo que a Bíblia está cheia de erros científicos, não possui harmonia entre seus vários livros, cai diversas vezes em contradição e tem diversas passagens lendárias. E chegam a exemplificar:

·        Ao abandonar seus pais, com quem Caim se casou, já que não havia mulheres filhas de Adão e Eva? (Gn 4,17);

·        Quantos soldados havia em Israel e em Judá? 800 mil e 500 mil, respectivamente, segundo 2Sm 24 ou 1100 e 470 mil, respectivamente, segundo 1Cr 21?;

·        Mateus atribui ao profeta Jeremias uma profecia de Zacarias (Mt 27,9);

·        Judas se suicidou por enforcamento (Mt 27,5) ou por pular em um precipício (At 1,18)?

e os exemplos se multiplicam...
Tais argumentos fazem aparecer pessoas "iluminadas" que, crendo na total infalibilidade da Bíblia, encontram respostas inúteis, tais como defender que Judas se enforcou numa árvore próxima de um abismo, tendo caído neste assim que a corda se rompeu!!! Da mesma forma, Galileu Galilei quase foi queimado pela Inquisição por defender que a terra girava em torno do sol e não o contrário, como todos até então acreditavam; isso porque parecia contradizer a passagem de Js 10,12-13, que afirma que o sol parou por ordem de Josué.
Vemos, assim, que tais discussões são inúteis e extremadas! Tudo por causa do conceito de inerrância ou infalibilidade da Bíblia que não é visto de acordo com a verdade. E qual é a verdade? É que a Bíblia é um livro de fé e não um livro de ciências! É infalível para doutrinas da religião, mas não o é para a ciência.
Deus, quando inspirou os homens que escreveram a Bíblia, esmerou-se por se fazer entender pela humanidade e, para isso, comunicou as verdades da fé usando a linguagem simples da época, que ainda era muito pobre em conhecimentos científicos. Mas não poderia ser diferente! Se Jesus falasse de computadores, aviões e televisão em suas parábolas seria entendido por aquele povo? Haveria o Cristianismo hoje se seus apóstolos pregassem algo que não conhecessem???
Para nós que cremos em Deus, não interessa saber se a ordem da Criação está certa ou errada, se a princípio foi criado somente um casal de cada espécie ou não... para nós, o que nos interessa mesmo é saber - e ter a certeza - de que Deus criou tudo no universo: os astros, as estrelas, a terra, os animais e o gênero humano; interessa-nos saber que Deus nos ama, apesar de termos pecado contra Ele (pouco importando se foi porque comemos o fruto de uma árvore, mas porque de alguma forma o desobedecemos). Devemos saber que, por Seu Amor, Deus nos mandou seu Filho único, verdadeiro Deus feito homem, que nos libertou de uma vez por todas do pecado e nos alcançou a salvação... e por aí vai.
Concluímos afirmando que a Bíblia é, portanto, infalível nos assuntos de fé, como sempre foi e sempre será, não devendo invadir o campo da ciência, da mesma forma como esta também não deve se intrometer nos assuntos de fé, para os quais permanece incompetente.

 

10. A BÍBLIA OU A TRADIÇÃO?

Um argumento pouco bíblico

Os reformadores protestantes diziam que a Bíblia era a única fonte das verdades da fé e que, para entender sua mensagem, dever-se-ia tão somente ler as palavras do texto. É o que se chama de "teoria protestante da sola scriptura" ou, em português, "somente a Bíblia". Segundo esta teoria, nenhuma autoridade fora da Bíblia pode impor uma interpretação e nenhuma instituição extrabíblica - por exemplo, a Igreja - foi estabelecida por Jesus Cristo para fazer as vezes de árbitra em caso de conflitos de interpretação.
Como bons herdeiros dos reformadores, as seitas fundamentalistas trabalham sobre a base desta teoria e não perdem oportunidade para demonstrar seu princípio que, por outro lado, pareceria ser sua arma mais poderosa, algo que eles aceitam como o fundamento indiscutível dos seus pontos de vista.
Contudo, não existe coisa mais difícil no diálogo com os fundamentalistas que fazê-los provar o porquê crêem no princípio do "somente a Bíblia", separada de qualquer outra fonte de autoridade, e que esta (a Bíblia) seja suficiente nas questões de fé. A questão se resume em saber qual o motivo que faz um fundamentalista crer que a Bíblia seja um livro inspirado, já que é óbvio que ela pode tornar-se regra de fé apenas no caso de se comprovar sua inspiração e, também, sua inerrância.
Claro que essa questão não preocupa por demais a maioria dos cristãos e, certamente, são poucos os que tenham se atentado para isto alguma vez. Em geral, se crê na Bíblia porque é o livro aceito por todos os cristãos, cuja autoridade não se discute, eis que ainda vivemos em tempos em que os princípios cristãos têm influência na cultura e no modo de vida da maioria das pessoas.
Um cristão humilde, que não daria a mínima credibilidade para o Alcorão, pensaria duas vezes antes de falar mal da Bíblia, já que esta goza de certo prestígio, mesmo quando não pudesse explicá-la ou entendê-la bem. Poderia dizer-se que essa pessoa aceita a Bíblia como inspirada - qualquer que seja seu entendimento quanto à inspiração - por razões de tipo cultural, razões que, sem dúvida, são de escasso ou nenhum valor, já que pelas mesmas razões o Alcorão é tido por inspirado em países de cultura muçulmana.
"PARA MIM, É MOTIVO SUFICIENTE"
Diga-se o mesmo perante quem sustenta que a família pela qual veio ao mundo sempre considerou a Bíblia como livro inspirado e "para mim, isso basta". Seria um bom motivo somente para aquele que não pode fazer um trabalho de reflexão sério (e não devemos nunca desprezar uma fé simples, sustentada sobre fundamentos bem mais débeis). Porém, seja como for, o mero costume familiar ou local não pode estabelecer-se como base para a crença na inspiração divina da Sagrada Escritura.
Alguns sectários dizem que a Bíblia é um livro inspirado porque "é um livro que inspira". Porém, a palavra "inspiração" é precisamente o que se quer provar e observemos que há muitos escritos religiosos antigos que certamente são muito mais "inspirativos" ou "emotivos" do que muitos textos e até livros inteiros do Antigo Testamento. Não é falta de respeito afirmar que certas passagens dos escritos sagrados são tão secos quanto as estatísticas militares... e algumas partes da Bíblia (Antigo Testamento) são compostas realmente por isso: estatísticas militares!
Por isso, concluímos que não é suficiente crer na Sagrada Escritura por motivos culturais ou de costume, nem tampouco por seus textos emotivos ou sua beleza espiritual: há outros livros, alguns totalmente mundanos, que ultrapassam em beleza poética muitas passagens da Escritura.
QUE DIZ A BÍBLIA DE SI MESMA?
E que dizer do que a própria Bíblia ensina sobre sua inspiração? Notemos que são muito poucas as passagens onde a própria Bíblia ensina sua inspiração - mesmo que de modo indireto - e a maioria dos livros do Antigo e do Novo Testamento não dizem absolutamente nada sobre sua particular inspiração. De fato, nenhum autor dos livros do Novo Testamento diz estar escrevendo sob o impulso do Espírito Santo, exceto São João, ao escrever o Apocalipse.
Ademais, ainda que cada livro da Bíblia começasse com a frase: "Este livro é inspirado por Deus", semelhante frase não provaria nada: o Alcorão diz ser inspirado, assim como o Livro do Mórmon e vários livros de algumas religiões orientais. Mais: os livros de Mary Baker Eddy (a fundadora da Ciência Cristã) e de Ellen G. White (fundadora do Adventismo do Sétimo Dia) se auto-proclamam inspirados. Pode-se concluir - com grande senso comum - que o fato de um escrito atribuir a si qualidades de inspiração divina não quer dizer que assim o seja na realidade.
Ao dizer estes argumentos, muitos fundamentalistas recuam e nos afirmam que "o Espírito Santo me diz claramente que a Bíblia é inspirada", uma noção bastante subjetiva - para se dizer o mínimo - muito semelhante com aquela outra, tão comum entre os sectários, de que "o Espírito Santo os guia para interpretar as Escrituras". É, assim, que o autor anônimo do artigo "Como posso compreender a Bíblia?", um folheto distribuído pela organização evangélica "Radio Bible Class", apresenta doze regras para o estudo da Bíblia. A primeira é: "Busca a ajuda do Espírito Santo. O Espírito Santo foi dado para iluminar as Escrituras e fazê-las reviver para ti quando a estudas; deixa Ele te guiar".
Se com esta regra se entende que qualquer pessoa que pedir a Deus para o guiar na interpretação da Bíblia receberá essa condução do alto - e neste sentido entendem a maioria dos fundamentalistas - então o imenso número de interpretações contrárias e contraditórias, mesmo entre os próprios fundamentalistas, nos apresentaria a preocupante sensação de que o Espírito Santo não tem trabalhado direito...
NÃO COM SILOGISMOS
Grande parte dos fundamentalistas não dizem diretamente que o Espírito Santo lhes falou, assegurando-lhes que a Bíblia é um livro inspirado. Ao menos, não falam desse modo. Melhor, agem assim: ao ler a Bíblia, o Espírito "os convencem" que essa é a Palavra de Deus, recebem certa sensação interior de que é uma palavra divina e ponto.
De qualquer modo que se veja, a postura fundamentalista não resiste a um raciocínio sério. Conta-se nos dedos de uma mão os fundamentalistas que num primeiro momento se aproximaram da Bíblia como um livro "neutro" e, após sua leitura, a reconheceram como inspirado, segundo um raciocínio lógico. De fato, os fundamentalistas começam pressupondo o fato da inspiração - tal como recebem outras doutrinas das suas seitas - sem raciocinar sobre elas e, então, encontram partes da Sagrada Escritura que parecem fundamentar a inspiração, caindo assim num círculo vicioso, confirmando com a Bíblia o que eles já acreditavam de antemão.
A pessoa que quer refletir seriamente sobre o tema se defraudará com a posição fundamentalista da inspiração bíblica, percebendo que esta não possui uma base sólida para manter tal teoria. A posição católica é a única que, no final, pode dar uma resposta intelectualmente satisfatória.
A maneira católica de raciocinar, para demonstrar que a Bíblia é inspirada, é a seguinte: em um primeiro passo, consideramos a Bíblia como qualquer outro livro histórico, sem presumir que seja inspirado. Estudando o texto bíblico com os instrumentos da ciência moderna, chegamos à conclusão de que se trata de uma obra confiável, de grande precisão histórica, sendo que referida precisão ultrapassa em muito a de qualquer outro texto histórico.
UM TEXTO PRECISO
Frederic Kenyon, em "A História da Bíblia", faz notar o seguinte: "Para todas as obras da antigüidade clássica, nos vemos obrigados a nos socorrer de manuscritos redigidos muito depois do original. O autor que leva vantagem neste sentido é Virgílio, visto que o manuscrito mais antigo que dele possuímos foi escrito 350 anos depois da sua morte. Para todas as demais obras clássicas, o intervalo que existe entre a data do escrito original e a do manuscrito mais antigo que dele se conserva é muito maior: para Lívio, é de uns 500 anos; para Horácio, 900; para a maioria das obras de Platão, 1300; para Eurípedes, 1600". Mesmo assim, ninguém pode seriamente duvidar de que realmente possuímos cópias fiéis das obras desses autores.
Não somente possuímos manuscritos bíblicos mais próximos aos originais que os da antigüidade clássica, como também possuímos um número muito maior que aqueles. Alguns destes manuscritos são livros inteiros; outros são fragmentos; outros, tão somente algumas palavras; mas todos eles juntos somam milhares de manuscritos em hebraico, grego, latim, copta, siríaco e outras línguas. Tudo isso significa que possuímos um texto rigorosamente fiel, que pode ser usado com toda confiança.
TOMADO HISTORICAMENTE
Em um segundo momento, dirigimos nossa atenção para o que a Bíblia - considerada somente como um livro histórico - nos ensina, particularmente no Novo Testamento e nos Evangelhos. Examinemos o relato da vida de Jesus, sua morte e sua ressurreição.
Usando o que nos transmitem os Evangelhos, o que lemos em outros escritos extrabíblicos dos primeiros séculos e o que nos ensina nossa própria natureza - e o que de Deus podemos conhecer pela luz da razão - concluímos que Jesus ou era o que dizia ser (Deus) ou era louco. (Sabemos que não pode ter sido apenas um bom homem e ao mesmo tempo não ser Deus, já que nenhum bom homem poderia atribuir para si a divindade se realmente não fosse Deus).
Também podemos negar que era um louco, não apenas pelo que disse e ensinou - nenhum louco jamais falou como ele, da mesma forma que nenhum homem sábio tampouco já tenha falado assim... - mas ainda pelo que seus discípulos fizeram após a sua morte. Uma fraude (o túmulo supostamente vazio) poderia ter ocorrido, mas ninguém daria a vida por uma fraude, ao menos por uma fraude sem perspectiva de proveito. Logo, devemos afirmar que Jesus verdadeiramente ressuscitou e, portanto, era Deus como dizia ser e cumpriu o que prometeu fazer.
Outra coisa que Ele disse que faria seria fundar a sua Igreja; e tanto a Bíblia (ainda que tomada como simples livro histórico e não como livro inspirado por Deus) como outras fontes históricas antigas nos fazem saber que Cristo estabeleceu uma Igreja com as características que vemos hoje na Igreja Católica: papado, hierarquia, sacerdócio, sacramentos, autoridade para ensinar e, como conseqüência desta última, infalibilidade. A Igreja de Cristo deveria gozar da infalibilidade de ensinamento se fosse cumprir aquilo para o qual Cristo a fundou.
Tomando material meramente histórico, concluímos que existe uma Igreja - a Igreja Católica - protegida pelo Espírito Santo para que possa ensinar, sem erro, até o fim dos tempos. Vejamos agora a última parte do argumento.
Essa Igreja nos diz que a Bíblia é inspirada e podemos confiar em seu ensino porque se trata de um ensinamento autorizado, infalível. Só após sermos ensinados por uma autoridade propriamente constituída por Deus para nos transmitir as verdades necessárias para a nossa fé - tal como a inspiração da Bíblia - só então é que podemos usar as Escrituras como um livro inspirado.
UM ARGUMENTO EM ESPIRAL
Há que se notar que o nosso argumento não cai em um círculo vicioso: não estamos baseando a inspiração da Bíblia na infalibilidade da Igreja e a infalibilidade da Igreja na palavra inspirada da Bíblia; isso seria precisamente um círculo vicioso. O que temos feito se chama "argumento em espiral": por um lado, argumentamos sobre a confiabilidade da Bíblia como texto meramente histórico; dali sabemos que Jesus fundou uma Igreja infalível e só então tomamos a palavra dessa Igreja infalível que nos ensina que a Palavra transmitida pela Bíblia é uma Palavra inspirada, Palavra de Deus. Não se trata de um círculo vicioso, já que a conclusão final (a Bíblia é a Palavra de Deus) não é o enunciado do qual partimos (a Bíblia é um livro historicamente confiável), e este enunciado inicial não está baseado, em absoluto, na conclusão final. O que demonstramos é que, se excluirmos a Igreja, não teremos suficientes motivos para afirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus.
É certo que o que acabamos de discutir não é precisamente o raciocínio que a gente habitualmente faz ao se aproximar da Bíblia, mas é a única maneira razoável de fazê-lo na hora em que se nos perguntam por que cremos na Bíblia. Qualquer outro raciocínio é insuficiente; talvez haja argumentos mais próximos da gente sob o ponto de vista psicológico, porém, são estritamente argumentos não convincentes. Na matemática aceitamos "por fé" (não no sentido teológico do termo, é claro) que dois mais dois é igual a quatro. É uma verdade que nos parece evidente e satisfatória sem maiores argumentos, mas para quem quiser fazer um curso de matemática, deverá estudar um semestre inteiro visando provar essa verdade tão "óbvia".
RAZÕES INADEQUADAS
A questão aqui é a seguinte: os fundamentalistas têm muita razão em crer que a Bíblia é um livro inspirado por Deus, no entanto, suas razões para crer são inadequadas, insuficientes, já que a aceitação da inspiração divina das Escrituras pode se basear satisfatoriamente apenas numa autoridade estabelecida por Deus que nos assegure isso; e essa autoridade é a Igreja.
E precisamente aqui encontramos um problema mais sério: pode parecer a alguém que mesmo que eu creia na Bíblia como Palavra de Deus, pouco importa o motivo dessa minha crença; o importante seria aceitar a Bíblia como a Palavra de Deus. Porém, o motivo pelo qual uma pessoa crê na Bíblia afeta substancialmente a maneira de interpretar a Bíblia. O fiel católico crê na Bíblia porque a Igreja assim o ensina e essa mesma Igreja tem a autoridade de interpretar o texto inspirado. Os fundamentalistas, por sua vez, crêem na Bíblia - mesmo baseados em argumentos pouco convincentes - porém, não aceitam nenhuma outra autoridade para interpretar o texto bíblico a não ser os seus próprios pontos de vista.
O cardeal Newman expressava isso em 1884, da seguinte maneira: "Certamente que se as revelações e ensinamentos bíblicos do texto sagrado se dirigem a nós de uma maneira pessoal e prática, se faz obrigatória a presença formal, no meio de nós, de um juiz e expositor autorizado dessas revelações e ensinamentos. É antecedentemente irracional supor que um livro tão complexo, tão pouco sistemático, em partes tão obscuro, fruto de várias mentes tão distintas, lugares e épocas diferentes, fosse nos dado do alto sem uma autoridade interpretativa do mesmo, já que não podemos esperar que interprete a si mesmo. O fato de que seja um livro inspirado nos assegura a verdade do seu conteúdo, não a interpretação do mesmo. Como pode o simples leitor distinguir o que é didático e o que é histórico, o que é fato real e o que é uma visão, o que é alegórico e o que é literal, o que é um recurso idiomático e o que é gramatical, o que se enuncia formalmente e o que ocorre de passagem, quais são as obrigações que vigoram sempre e quais vigoram em certas circunstâncias? Os três últimos séculos têm provado, infelizmente, que em muitos países tem prevalecido a interpretação particular das Escrituras. O dom da inspiração divina das Escrituras requer como complemento obrigatório o dom da infalibilidade da sua interpretação".
As vantagens do raciocínio católico são duas: em primeiro lugar, a inspiração é estritamente demonstrada, não apenas "sentida". Segundo, o fato principal que pulsa atrás deste raciocínio - a existência de uma Igreja infalível, que nos conduz pela mão a dar uma resposta à pergunda do eunuco etíope (Atos 8,31): como saber se as interpretações do texto são mesmo as corretas? A mesma Igreja que autentica a Bíblia, que estabelece a sua inspiração, é a autoridade estabelecida por Jesus Cristo para interpretar a Sua Palavra.

 

11. A BÍBLIA DISPENSA A TRADIÇÃO ORAL DA IGREJA?

A Tradição oral remonta ao próprio Cristo e aos Apóstolos. Ela é anterior à Escritura e se exprime nela. O ponto em que mais aparece a necessidade de algo anterior à Escritura, é a que se refere ao Cânon Bíblico: Como saber se um livro é ou não inspirado?
O próprio protestantismo, que afirma só reconhecer a Escritura, recorre necessariamente à Tradição Oral em 2 ocasiões:

1.     Sem a Tradição oral, não se pode definir o catálogo sagrado, pois em nenhuma parte da Escritura está escrito quais os livros que, inspirados por Deus, a devem integrar. É preciso procurar a definição dos livros sagrados fora da Escritura: na Tradição. Ora Lutero e o Protestantismo recorreram a tradição dos judeus da palestina, enquanto a Igreja Católica, seguindo o uso dos Apóstolos, optara pela tradição dos judeus de Alexandria.

2.     Na sua maneira de interpretar a Biblia, os protestantes também recorrem a uma tradição. Pois embora o texto biblico seja o mesmo para todas as denominações evangélicas, estas não concordam entre si, por exemplo, no que toca ao Batismo de criança, à observância do sábado ou do domingo, etc. As divergências não provêm do texto biblico, mas da interpretação dada a este texto por cada fundador. Ou seja, dependem da tradição oral ou escrita que cada fundador quis iniciar na sua congregação. Assim, embora queiram rejeitar a Tradição Oral, o cristão a professa sempre: professa a Tradição oriunda de Cristo e dos Apóstolos, ou a tradição oriunda de Lutero, Calvino... Cada "profeta" protestante faz o que Lutero fez: rejeita a tradição protestante anterior e começa uma nova tradição: sim, lê a Bíblia ao seu modo e dela deduz proposições de fé e de moral que, segundo a sua intuição humana falível, lhe parecem mais acertada.

Assim, a Escritura, só, não pode ser, nem é no protestantismo, a única fonte de fé. Por outro lado, a Tradição Oral e o Magistério da Igreja só tem sentido se fazem eco à Sagrada Escritura.

 

12. A NECESSIDADE DA TRADIÇÃO E DO SAGRADO MAGISTÉRIO DA IGREJA

A Igreja Católica, desde os tempos apostólicos ensina que além da Sagrada Escritura, também é necessário para a formação doutrinal e moral da Igreja, a Sagrada Tradição (compreendendo aí os ensinamentos dos apóstolos e dos primeiros cristãos) e o Sagrado Magistério ( compreendendo o que os Concílios, o Bispo de Roma em particular, e em comunhão com ele todos os Bispos definem e ensinam como verdades de fé e moral ).
Tal tríade abençoada ( Sagrada Escritura, Sagrada Tradição e Sagrado Magistério) foram e são os responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção de toda a doutrina católica nestes vinte séculos de história cristã.
O Protestantismo nega tanto a Tradição quanto o Magistério legitimamente instituído por Jesus Cristo. Para eles, a única regra é a Sola Scriptura (ou seja somente a Bíblia e nada mais do que ela é regra de fé e de moral) interpretada livremente por qualquer pessoa ( método do livre exame ). Eis Martinho Lutero a dize-lo sem rodeios: "a todos os cristãos e a cada um em particular pertence conhecer e julgar a doutrina. Anátema a quem lhe tocar um fio deste direito" ( Conforme D. M. Luthers, Werke, Kritische Gesamtausgabe. Weimar, X. 2 Abt., p. 217, 1883 ss). Como se dissesse a cada um de seus seguidores: Eia pois, valoroso cristão! Tu és mestre de ti mesmo. Despreza tudo o que os primeiros cristãos, os Bispos e os Concílios definiram como verdade. Toma tu a bíblia, senta em tua saleta e defina tu mesmo o teu cristianismo!
Procuraremos demonstrar - Se Deus o consentir - que ao abandonar tanto a Sagrada Tradição quanto o Sagrado Magistério, o protestantismo provocou inadvertidamente sua própria dissolução doutrinária e orgânica. E hoje, infelizmente, sob o elástico nome de "protestantismo" se abrigam milhares e milhares de seitas doutrinariamente e disciplinadamente discordantes entre si. Causando um fragrante escândalo à causa ecumênica e ao desejo expresso de Jesus Cristo: " Para que todos sejam um (...) e o mundo creia que tu me enviaste" ( Jo 17, 20-21).
Com efeito, sabemos, a própria Bíblia não caiu pronta dos céus. Quem definiu que cada um dos livros que compõem a Sagrada Escritura, era de inspiração Divina foi o Espirito Santo agindo através da Tradição e do Magistério Católico. Isto são fatos históricos! Quem definiu o cânon completo, tanto do antigo quanto do novo testamento, foi o Espirito Santo através da Tradição e do Magistério. Quem definiu que o Novo Testamento e o Velho fosse enfeixado em um único volume dando portanto igual valor entre os dois testamentos foi a Tradição e o Magistério. Do que viveu a Igreja católica primitiva, durante os primeiros anos de pregação? Quando o Novo testamento ainda não havia sido escrito? Sobreviveu pela Tradição e pelo Magistério.
A própria Bíblia dá testemunho interno da necessidade de uma Tradição e de um Magistério vivo, para interpretá-la e ensiná-la. Transcrevo sobre isto, o magnífico comentário de Pe. Leonel Franca: "(a própria Bíblia) inculca a necessidade do ensino vivo, a importância de conservar a tradição, a insuficiência das Escrituras, que segundo afirma São João, não encerra tudo o que ensinou o Salvador (Jo 21,25). Jesus Cristo nunca mandou aos seus discípulos que folheassem um livro para achar a sua doutrina, mandou pelo contrário aos fiéis, que ouvissem aos que Ele mandara pregar: quem vos ouve, a mim ouve; se alguém não ouvir a Igreja, seja considerado como infiel e publicano, isto é, não pertencente a minha Igreja: se alguém não vos receber nem ouvir vossas palavras, saindo da casa ou da cidade sacudi até o pó dos sapatos; Pai oro não só por estes (Apóstolos) mas por todos os que hão de crer em mim mediante a sua palavra a fim de que sejam todos uma coisa só. Foi Jesus ainda quem prometeu o seu Espírito de Verdade, a sua assistência espiritual, todos os dias, até a consumação dos séculos, para que os apóstolos vivendo moralmente em seus sucessores (os bispos ) continuassem até o final dos tempos a ensinar sempre tudo o que ele nos mandou. Eis meus caros leitores, o que diz a Bíblia" ( Franca, P. Leonel, I.R.C., 1958, pg.216-7).
Quando se fala de Magistério, evidentemente se fala do magistério legítimo, constituído por Jesus Cristo, o qual prometeu assistência especial e infalível até o final dos tempos: "Recebei o Espírito Santo (...) Eu estarei convosco até o final do tempos". Hoje, qualquer papalvo se atribui a si mesmo o título de "bispo" e sai por aí a fundar seitas e pregar doutrinas. Evidentemente este não é um magistério legítimo. O indivíduo que a si mesmo se premia com o título de "bispo", nada mais é que um mentiroso sacrílego.
Os próprios apóstolos ensinaram à exaustão a respeito da necessidade da Sagrada tradição e do Magistério legitimamente constituído. Vejamos S. João em suas últimas duas epístolas dizer expressamente que não quis confiar tudo por escrito, mas havia outras coisas que comunicaria à viva voz ( II Jo., 12 ; III Jo, 14). O apóstolo São Paulo, inculca fortemente a necessidade de uma tradição e um magistério vivo: "Estais firmes, irmãos e conservai as tradições que aprendestes ou de viva voz..." ( II Tes 2,15 ); "que vos aparteis de todos os que andam em desordens e não segundo a tradição que receberam de nós" (II Tes 3,6); "O que de mim ouvistes por muitas testemunhas, ensina-o a homens fiéis que se tornem idôneos para ensinar aos outros" (II Tm 2,2). A Igreja fundada por Cristo, portanto, seria ela "a coluna e o firmamento da verdade" ( I Tm 15). A Igreja fundada por Cristo portanto é maior que a Sagrada Escritura. Pois a Igreja é quem a escreveu, a definiu, a interpreta e a ensina. Os primeiros cristãos seguindo os ensinamentos dos apóstolos e já de posse da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério, nem pensam ser a Bíblia a única regra de fé. Aqui, por falta de espaço, vamos respigar apenas algumas citações da vasta seara dos testemunhos primitivos: "Advertia, antes de tudo, as igrejas das diversas cidades, evitassem, sobre todas as coisas, as heresias que começavam então a se alastrar e exortava-as a se aterem tenazmente à tradição dos apóstolos" ( Eusébio resumindo o ensino de S. Inácio de Antioquia, martirizado no ano 107 DC cf. Euséb., Hist. Eccles., III, 36 / MG, 20, 287); "Antes exortei-vos a vos conservardes unânimes na doutrina de Deus, pois Jesus Cristo nossa vida inseparável, é a doutrina do Pai, como a doutrina de Jesus Cristo são os bispos constituídos nas diversas regiões da terra" ( clara alusão ao Sagrado Magistério) ( S. Inácio, + 107 DC in Ad Ephesios, 3-4) ; "Sob Clemente, havendo nascido forte discórdia entre os irmãos de Corinto, a Igreja de Roma escreveu-lhes uma carta enérgica, exortando-os à paz, reparando-lhes a fé, e anunciando-lhes a tradição que havia pouco tinham recebido dos apóstolos" ( S. Irineu, martirizado em 202 DC in Contra as Heresias III, c.3,n.3) ; "Aí está claro, a quantos querem ver a verdade, a tradição dos apóstolos, manifesta em toda a Igreja disseminada pelo mundo inteiro..."( S. Irineu mártir in Contra as heresias III, 3, 1) ; "Não devemos buscar nos outros a verdade que é fácil receber da Igreja, pois os apóstolos a mãos cheias, versaram nela, como em riquíssimo depósito, toda a verdade... Este é o caminho da vida" (Idem, In Contra as heresias III, 4, 1); "E se os apóstolos não nos houvessem deixado as Escrituras, não cumpria seguir a ordem da Tradição por eles ensinada aos a quem confiavam à sua Igreja?" ( Idem, In Contra as heresias III, 4,1) ; "De nada vale as discussões das Escrituras. A heresia não aceita alguns de seus livros, e se os aceita, corrompe-lhes a integridade, adulterando-os com interpolações e mutilações ao sabor de suas idéias, e se, algumas vezes admitem a Escritura inteira, pervertem-lhe o sentido com interpretações fantásticas..." ( Tertuliano séc III In De Praescriptionibus., c. 19 / ML, II,31). Na mesma obra assevera que onde estiver a verdadeira Igreja, "aí se achará a verdade das Escrituras, da sua interpretação e de todas as tradições cristãs" ( Idem, De Praescript., c. 19 ML, II, 31).
Jesus Cristo, instituiu para sua Única Igreja, um Magistério verdadeiro, pois disse à Pedro: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus..." ( Mt 16, 18-19), e em outro lugar "Eu estarei convosco até o final dos tempos". Para os católicos, se Jesus prometeu ficar conosco até o final dos tempos ele irá cumprir literalmente esta promessa. Se ele disse que a sua Igreja iria se manter firme por todo o sempre porque as portas do inferno não iriam prevalecer, nós cremos que ele está cumprindo concretamente esta promessa.
Pois não é exatamente isto que constatamos na Igreja Católica? Dois mil anos de existência ininterrupta. E que constância doutrinária e moral admirável! Quantas perseguições e vicissitudes e no entanto "as portas do inferno não prevaleceram". Parte desta unidade e estabilidade maravilhosa devemos certamente à instituição da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério por Cristo e pelos apóstolos.
O protestantismo negando tanto a Tradição quanto o Magistério sofre desde os seus primórdios uma desintegração doutrinária assombrosa. Onde Cristo fundou a Igreja Católica sobre a Rocha, Lutero e Cia fundaram a Igreja Evangélica sobre a areia movediça da sola scriptura e do livre exame. E logo nas primeiras ventanias, pôs-se a casa dos reformadores a desabar fragorosamente: tábuas lançadas aqui e ali, telha lá e acolá, junturas e cacos em todas as direções.
As divisões e subdivisões do Protestantismo desafiam hoje a paciência dos mais abnegados dos estatísticos.
Vejamos como no princípio deste século, o Reverendíssimo Pe. Leonel Franca já chamava a atenção para este fato, descrevendo lucidamente o processo de desagregação doutrinária do protestantismo, baseado no método da sola scriptura e do livre exame: "Na nova seita (protestantismo) não há autoridade, não há unidade, não há magistério de fé. Cada sectário recebe um livro que o livreiro lhe diz ser inspirado e ele devotamente o crê sem o poder demonstrar; lê-o, entende-o como pode, enuncia um símbolo, formula uma moral e a toda esta mais ou menos indigesta elaboração individual chama cristianismo evangélico. O vizinho repete na mesma ordem as mesmas operações e chega a conclusões dogmáticas e morais diametralmente opostas. Não importa; são irmãos, são protestantes evangélicos, são cristãos, partiram ambos da Bíblia, ambos forjaram com o mesmo esforço o seu cristianismo" ( In I.R.C. Pg. 212 , 7ª ed.).
Vejamos alguns exemplos práticos: um fiel evangélico quer mudar de seita? Precisa-se rebatizar? Umas igrejas dizem sim, outras não. Umas admitem o batismo de crianças, outras só de adultos, umas admitem a aspersão, infusão e imersão. Aquela outra só imersão, e mesmo há grupelho que só admite batismo em água corrente e sem cloro! Aqui e ali as fórmulas de batismo são tão variadas como as cores do arco-íris. Quer o sincero evangélico participar da Santa Ceia? Há seitas que consideram o pão apenas pão (pentecostais) outras que o pão é realmente o corpo de Cristo (Luteranos, Episcopais e outros). Uns a praticam com pão ázimo, outras com pão comum, aqui com vinho, lá com vinho e água, acolá com suco de uva. A Santa Ceia pode ser praticada diariamente, mensalmente, trimestralmente, semestralmente, anualmente ou não ser praticada nunca. Trata-se de ministérios ordenados? Esta seita constitui Bispos, presbíteros e diáconos. Àquela só presbíteros e pastores, ali pastores e anciãos, lá Bispos e anciãos, acolá presbíteros e diáconos, outras não admitem ministro nenhum. Umas igrejas ordenam mulheres, outras não. E por aí, atiram os evangélicos em todas as solfas quando o assunto é ministério ordenado. Após a morte, o que espera o cristão ? Pode um crente questionar seu pastor sobre isto? E as respostas colhidas entre as denominações seria tão rica e variada quanto a fauna e a flora. Há Pastor que prega que todos estarão inconscientes até a vinda de Cristo quando serão julgados; outros pregam o "arrebatamento" sem julgamento; outros, uma vida bem-aventurada aqui mesmo na terra; aqueles lá doutrinam que após a morte já vem o céu e o inferno; no outro quarteirão, se ensina que o inferno é temporário; opinam alguns que ele não existe; e tantas são as doutrinas sobre os novíssimos quanto os pastores que as pregam. Está cansado o fiel da esposa da sua juventude? Não tem importância, sempre encontrará uma seita a lhe abrir risonhamente as portas para um novo matrimônio. E de vez em quando não aparece um maluco aqui e ali aprovando a poligamia? Lutero mesmo admitiu tal possibilidade: "Confesso, que não posso proibir tenha alguém muitas esposas; não repugna às Escrituras; não quisera porém ser o primeiro a introduzir este exemplo entre cristãos" ( Luthers M.., Briefe, Sendschreiben (...) De Wette, Berlin, 1825-1828, II. 259 ). Não há uma pesquisa nos Estados Unidos que demonstra que entre os critérios para um evangélico escolher sua nova igreja está o tamanho do estacionamento? Eis o que é hoje o protestantismo.
Vejamos neste passo a afirmação de Krogh Tonning famoso teólogo protestante norueguês, convertido ao catolicismo, que no século passado já afirmava: "Quem trará à nossa presença uma comunidade protestante que está de acordo sobre um corpo de doutrina bem determinado ? Portanto uma confusão (é a regra ) mesmo dentre as matérias mais essenciais" ( Le protest.
Contemp., Ruine constitutionalle, p. 43 In I.R.C., Franca, L., pg 255. 7ª ed, 1953)
Mas o próprio Lutero que saiu-se no mundo com esta novidade da sola scriptura viveu o suficiente para testemunhar e confessar os malefícios que estas doutrinas iriam causar pelos séculos afora: "Este não quer o batismo, aquele nega os sacramentos; há quem admita outro mundo entre este e o juízo final, quem ensina que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros aquilo, em breve serão tantas as seitas e tantas as religiões quantas são as cabeças" ( Luthers M. In. Weimar, XVIII, 547 ; De Wett III, 6l ). Um outro trecho selecionado, prova que o Patriarca da Reforma tinha também de quando em quando uns momentos de bom senso: "Se o mundo durar mais tempo, será necessário receber de novo os decretos dos concílios (católicos) a fim de conservar a unidade da fé contra as diversas interpretações da Escritura que por aí correm" ( Carta de Lutero à Zwinglio In Bougard, Le Christianisme et les temps presents, tomo IV (7), p. 289).
Gostaríamos de terminar por aqui para não sermos enfadonhos. Quando o Pai do Protestantismo, diante da dissolução das seitas, já há quinhentos anos atrás, confessa ao outro "reformador" que seria necessário receber de novo o Sagrado Magistério ( Concílios ) para manter a unidade, a regra do livre exame e da sola scriptura já está julgada por si mesma.

 

13. A SUFICIÊNCIA MATERIAL E A SUFICIÊNCIA FORMAL DAS ESCRITURAS

Por suficiência material entendemos que todas as informações necessárias para se formular uma doutrina estão presentes nas Escrituras. Entretanto, pelo fato de o significado das Escrituras não ser totalmente claro, e algumas vezes as doutrinas se encontram mais implícitas que explícitas, outros "meios", além da Bíblia somente, foram- nos deixados pelos apóstolos: A Sagrada Tradição (que é a ferramenta que extrai as informações e as dispõe da forma correta) e o Magistério da Igreja. Juntas, estas três formas - a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja - são formalmente suficientes para que se reconheça a verdade revelada por Deus.
Aqueles que defendem a suficiência formal das Escrituras advertem que reunir a Tradição ao contexto bíblico inevitavelmente tornará a última inferior à primeira. Temem, com isso, que meras tradições humanas subjulgue a palavra de Deus.

(Mark Shea, in Not by Scripture Alone,
Robert A. Sungenis, Santa Barbara, CA:
Queenship Pub. Co., 1997, cap 4)

A Trindade pode ser provada pelas Escrituras, de fato (suficiência material), mas o uso somente das Escrituras não foi formalmente suficiente para evitar o aparecimento da heresia ariana. Em outras palavras, a decisão final da disputa ficou por conta da Sagrada Tradição, que demonstrou que a Igreja sempre foi trinitariana. Os arianos não podiam recorrer a nenhuma Tradição porque sua cristologia era uma inovação herética do século 4.
Os arianos, com isso, recorreram somente à Escritura. O princípio formal dos arianos era deficiente, por isso eles puderam recorrer à Bíblia e formular suas doutrinas (assim como vários grupos protestantes hoje em dia).
Os
católicos alegam, então, que o conhecimento da Tradição apostólica é necessário juntamente ao conhecimento bíblico. Este é o princípio patrístico, e a forma como ele refuta os heréticos. Os argumentos bíblicos contribuíram com o centro de suas doutrinas, mas no fim deveriam consultar a Tradição do que "sempre foi aceito por todos e em todo lugar" (São Vicente de Lérins, Commonitorium).
Edwin Tait, anglicano, escreveu (em total acordo com o conceito católico):

Com certeza os Padres ensinaram que podiam provar suas conclusões a partir da Bíblia. Também ensinaram que a comunhão dos bispos sucessores dos apóstolos, reunidos em Concílio (com Roma tendo algum papel, o qual não pretendo abordar aqui), seriam os responsáveis pela correta interpretação da Bíblia. Todo este debate sobre a Sola Scriptura somente se tornou realidade quando um número considerável de cristãos começaram a afirmar que os bispos reunidos em Concílio haviam errado na interpretação bíblica durante vários séculos. Ambos os lados podem recorrer aos Pais, porque os Pais nunca ensinaram sobre a suficiência bíblica e a autoridade da Igreja/Tradição em discordância.

Concordo plenamente com o texto acima. Note que a última frase é importantíssima. Esta é a visão dos apóstolos, padres, do catolicismo, orientais e do anglicanismo histórico. Muitos protestantes, infelizmente, sentem não medem esforços - desnecessários - em separar estas duas autoridades. Livros inteiros já foram escritos sobre uma suposta defesa da Sola Scriptura pelos Pais da Igreja, quando na realidade estes defendem a suficiência material, a sua inspiração e suficiência em refutar os heréticos e falsas doutrinas em geral. É fácil pensar que os Pais foram defensores da Sola Scriptura se seus ensinamentos sobre a Tradição Apostólica e a Autoridade da Igreja forem suprimidos ou ignorados pelos protestantes. Uma "meia-verdade" às vezes pode ser pior que uma mentira completa, pois quem a ensina deveria conhecer melhor do assunto, ou pelo menos conhece "metade" dele...
Podemos dizer que a Trindade não é uma doutrina clara nas Escrituras. A verdade é que esta doutrina foi o resultado de uma discussão de cerca de 400 anos. Tal fato não pode ser ignorado. Se a Trindade fosse demonstrada nas Escrituras com a claridade que os protestantes alegam que possui, tal doutrina, definida em Calcedônia, já deveria ser seguida e transmitida muito antes.
As Escrituras, isoladas, são suficientes para refutar o arianismo? Creio que sim. Apesar disso, creio que também seja verdade que alguém, em uma situação hipotética, que não conheça nada sobre história da Igreja ou teologia, sem saber como se chegou à definição formal da doutrina da Trindade, começasse a ler uma Bíblia, a doutrina ariana parecia tão plausível para ele como também pareceria a doutrina da Trindade. Isso porque esta doutrina não é imediatamente acessível à razão humana. É uma revelação e um mistério que precisa ser aceito pelos olhos da fé (sem reduzir suas provas Bíblicas).
Eu conheço casos semelhantes devido a minha experiência em diálogos com Testemunhas de Jeová. Eles lêem a Bíblia de maneira liberal e racionalista, chegando a conclusões tais como "três não pode ser igual a um" (que é matematicamente verdadeiro, mas não em relação aos mistérios de Deus).
Um outro exemplo vem da minha vida pessoal. Fui criado como protestante metodista, e os metodistas são trinitarianos, mas eu não conhecia nada de teologia. Era tão ignorante nesse assunto que ao assistir a um filme sobre a vida de Jesus, aos 17 anos, com meu irmão mais velho, fiquei chocado quando ele disse que Jesus era Deus. Eu respondi "não, ele é o filho de Deus". Então meu irmão me ensinou um pouco do básico da cristologia cristã.
Em outras palavras, se alguém conhece muito pouco de teologia, ele pode facilmente abrir sua Bíblia, ler que Jesus é o filho de Deus, ou "meu Pai é maior que eu", e muitas outras passagens semelhantes, concluir que Jesus é menor que Deus. Arianismo. Ou como os TJs fazem, ao ler Ap 3,14 ("Eis o que diz o Amém...o Princípio da criação de Deus") e concluir que Jesus fora criado. Estes são exemplos de como nascem as heresias ao longo dos tempos.
Com relação aos Padres, tudo o que é preciso para demonstrar que eles não ensinavam a Sola Scriptura é verificar se as afirmações abaixo se aplicam a um Padre em particular.
1. A Bíblia
possui autoridade
2. A Tradição Apostólica possui autoridade
3. A Igreja possui autoridade
Aceitando estes três itens, é impossível que alguém também aceite a Sola Scriptura, porque nesta doutrina, a Bíblia (e a consciência individual) possui a autoridade sobre a Tradição e a Igreja (Lutero, em Worms, foi o defensor deste mesmo princípio), com a garantia de que a Bíblia é sempre - supostamente - "clara" em seus ensinamentos.
Os
protestantes, claro, não aceitam os itens 2 e 3, simplesmente. Os Padres afirmam que compõem um tripé, atuando juntas, não contradizendo uma à outra, porque Deus não permitiria tal confusão. É aqui que entra a fé.
A Igreja Católica afirma a suficiência material das Escrituras (assim como os Padres). Porém rejeita a sua suficiência formal, que na realidade é o núcleo do dogma protestante Sola Scriptura.
A autoridade da Igreja é uma necessidade prática, dada a tendência do homem de subverter a Tradição Apostólica como está nas Escrituras, seja ela clara ou não. O fato é que quando uma controvérsia aparece, uma autoridade fora da Bíblia deve encerrar todas as dúvidas e confirmar a ortodoxia. Isto não quer dizer que a Bíblia, apropriadamente entendida, não seja suficiente para refutar erros. Ela apenas não é formalmente suficiente por si só.
Já escrevi livros e vários artigos onde cito extensivamente a Bíblia. Isto não significa que não respeito a autoridade da Igreja ou que eu seja um defensor da Sola Scriptura. Santo Atanásio escreveu extensos argumentos bíblicos. Ótimo, com isso, estudando a Bíblia, fazendo exegese, discutindo suas páginas, pregando, etc., etc., são atos maravilhosos e bons (e os católicos concordam plenamente), mas nenhum destes gestos nos reduz a uma necessidade lógica de adotar a Sola Scriptura como princípio formal.
Heiko Oberman, historiador protestante, afirma:

Em relação à Igreja pré-augustiniana, há recentemente uma tendência convergente entre os estudiosos da Bíblia de que a Escritura e a Tradição na Igreja Primitiva não eram excludentes: kerygma, Escritura e Tradição coincidiam perfeitamente.
A tradição não deve ser entendida como uma adição ao kerygma, mas como a sua pregação de forma viva: em outras palavras, tudo que é encontrado na Sagrada Escritura está presente na Tradição.
Ela está presente no corpo visível de Cristo, inspirado e vivificado pela obra do Espírito Santo...A Escritura e a Tradição derivam de uma única fonte: a Palavra de Deus. Somente na Igreja este kerygma pode ser transmitido sem falhas...

The Harvest of Medieval Theology, Grand Rapids,
MI
: Eerdmans, rev. ed., 1967, 366-367

Jaroslav Pelikan, historiador luterano, afirma:

Claramente há um anacronismo em supor que as discussões dos séculos 2 e 3 derivam das controvérsias do século 16 em relação à Escritura e Tradição, pois 'na Igreja ante-nicena não havia a noção de Sola Scriptura, como também não havia a Sola Traditio.'[1]
A Tradição apostólica era pública...tão palpável que mesmo se os apóstolos não estivessem com a Escritura em mãos para demonstrar uma norma de suas doutrinas, a igreja ainda assim seguiriam 'a estrutura da tradição que eles traziam a quem confiaram as igrejas'[2]. Isto foi, de fato, o que a igreja fez nos territórios bárbaros onde o material escrito não era disponível aos ouvintes, conservando o conteúdo da fé transmitida pelos apóstolos e sumarizada no credo...
O termo "regra de fé" ou "regra de verdade"...parece algumas vezes ter pertencido à Tradição, outras à Escritura, outras à mensagem do Evangelho...
Na Reforma...os advogados da autoridade final das Escrituras ignoraram a função da Tradição em conservar o que se conhecia como correta exegese das Escrituras contras as alternativas heréticas.

The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine: Vol. 1 of 5: The Emergence of the Catholic Tradition (100-600), Chicago: Univ. of Chicago Press, 1971, 115-117, 119; citações: [1]. In Cushman, Robert E. & Egil Grislis, eds., The Heritage of Christian Thought: Essays in Honor of Robert Lowry Calhoun, New York: 1965, citado em Albert Outler, "The Sense of Tradition in the Ante-Nicene Church," 29. [2]. St. Irineu, Contra as Heresias, 3:4:1

 

14. A INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

Muitos escritores não levam em conta o sentido original, o gênero literário e a intenção dos autores sagrados; interpréta-os como se fossem textos modernos, que podem ser entendidos segundo as categorias de pensamento do homem de hoje. Os autores parecem mesmo desconfiar da exegese dita "científica".
Eis, porém, que é regra de sadia exegese procurar, antes do mais, o significado preciso do texto original; é necessário entender o texto como o autor sagrado o entendia e daí depreender a mensagem que ele queria transmitir. A inspiração do texto bíblico por parte do Espírito Santo não equivale a ditado mecânico; supõe sempre as categorias de pensamento do escritor oriental, antigo. Estas, portanto, têm que ser, primeiramente, detectadas e reconhecidas para que se possa compreender genuinamente a página bíblica. Este procedimento exegético tem sido enfaticamente recomendado pela Igreja desde Pio XII (encíclica Divino Afflante Spiritu, 1943) até o Concílio do Vaticano li, que em sua Constituição Dei Verbum ditou as normas seguintes: `Já que Deus falou na Sagrada Escritura através de homens e de modo humano, deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que os hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras.
Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem-se levar em conta, entre outras coisas, também os gêneros literários Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos históricos, proféticos ou poéticos ou nos demais gêneros de expressão. Ora é preciso que o Intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e de sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio dos gêneros literários então em uso. Pois, para entender devidamente aquilo que o autor sagrado quis afirmar por escrito é necessário levarem conta sejam aquelas usuais maneiras nativas de sentir, de dizer e de narrar que eram vigentes nos tempos do hagiógrafo, sejam as que em tal época se costumavam empregar nas relações dos homens entre si".
Verdade é que muitos dos exegetas científicos desde o fim do século XVIII têm cedido ao racionalismo, a ponto de esvaziarem por completo o texto bíblico. É o que vem provocando a réplica do chamado "Fundamentalismo" que se apega à letra do texto como ele soa em suas versões vernáculas e se fecha aos estudos de lingüística, arqueologia, história antiga... Ora o Fundamentalismo é posição extremada, errônea, como o racionalismo, pois ignora o mistério da condescendência divina, que assume as modalidades da linguagem e da cultura dos homens antigos para falar à humanidade. Assim se lê num documento da Pontifícia Comissão Bíblica intitulado "A Interpretação da Bíblia na Igreja" e datado de 15/4/1993: "O problema de base da leitura fundamentalista é que, recusando levar em consideração o caráter histórico da revelação bíblica, ela se toma incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O Fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus Ele se recusa a admitir que a Palavra de Deus inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, ele tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado, palavra por palavra, pelo Espírito e não chega a reconhecer que apalavra de Deus foi formulada numa linguagem e numa fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Ele não dá atenção ás formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e leva a marca de situações históricas muito diversas.
O Fundamentalismo insiste também de maneira indevida sobre a inerrância dos pormenores nos textos bíblicos, especialmente em matéria de história ou de pretensas verdades científicas. Muitas vezes ele toma histórico aquilo que não tinha a pretensão de historicidade, pois ele considera como histórico tudo aquilo que é narrado ou contado com os verbos em tempo pretérito, sem a necessária atenção à possibilidade de um sentido simbólico ou figurativo". Por conseguinte, nem racionalismo nem fundamentalismo... Mas é necessário que o exegeta proceda sempre em duas etapas:
- procure, mediante os recursos da lingüística, da arqueologia, da história antiga... definir claramente o sentido do texto original ou aquilo que o autor humano queria dizer;
- a seguir, coloque esses resultados no conjunto das proposições da fé. A Sagrada Escritura é um longo discurso de Deus, homogêneo, que tem suas linhas centrais e seus acordes, que devem projetar luz sobre cada secção desse discurso. É o que São Paulo chamava "a analogia da fé ou a proporção da fé" (Rm 12,6). Esta fé é vivida e proclamada pela Igreja, cujo magistério recebeu de Cristo a garantia da autenticidade (cf. Jo 14, 26; 16,13-15). Assim o estudioso católico chega ao entendimento exato do texto sagrado. Não incute suas idéias ao texto (o que seria fazer in-egese), mas deduz do texto a mensagem objetiva (faz ex-egese). Quem assim não procede, corre o risco do subjetivismo ou de interpretações pessoais, semelhantes às que ocorrem no protestantismo.
As Revelações Particulares
Nenhuma revelação particular é endossada oficialmente pela Igreja. Esta não pode colocar no mesmo plano a revelação feita por Jesus Cristo e pelos autores bíblicos e qualquer revelação ocorrida em caráter particular após a era dos Apóstolos. A revelação oficial e pública termina com a geração dos Apóstolos; cf. Lumen Gentium n°- 25; Dei Verbum nº 4. Em conseqüência torna-se difícil crer que Deus queira continuar e explicitar a revelação outrora feita pelas Escrituras servindo-se de revelações não oficiais ou fazendo destas o complemento daquelas.
As revelações particulares, quando genuínas, geralmente corroboram o Evangelho, incutindo duas notas importantes: oração e penitência. Assim em La Salette, em Lourdes, em Fátima... Qualquer outra predição, principalmente se é muito minuciosa, torna-se suspeita. É não raro a satisfação que os "videntes" dão à sua própria curiosidade de saber o decurso do futuro; imaginam-no como se fosse revelado por Deus. Independentemente dessas minúcias, ficará sempre válida a exortação à conversão e à oração, tão recomendada pelo Evangelho e corroborada pelos sinais dos tempos atuais; estes pedem que os cristãos muito especialmente sejam o sal da terra, a luz do mundo (cf. Mt 5,13s), o fermento na massa (cf. Mt 13,33). A consideração dos nossos tempos, portanto, deve levar ao afervoramento da vida dos cristãos, abstração feita de predições sinistras.

 

15. SOBRE O CÂNON BÍBLICO

Quantas vezes você já ouviu de algum protestante a afirmação de que a Igreja Católica teria acrescentado vários livros apócrifos à Bíblia durante o Concílio de Trento, no séc. XVI? Quando eles falam isso, estão querendo se referir a sete livros do Antigo Testamento que não se encontram em suas bíblias: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os dois livros dos Macabeus (além de alguns trechos dos livros de Daniel e Ester). Porém, a própria História - que é imutável - desmente tal argumento, vistos os testemunhos abaixo:

·        "Cânon 36 - Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos1, dois livros dos Paralipômenos2, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão3, doze livros dos Profetas4, Isaías, Jeremias5, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras6 e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos7, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo8, uma do mesmo aos Hebreus9, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João.10 Sobre a confirmação deste cânon se consultará a Igreja do outro lado do mar11. É também permitida a leitura das Paixões dos mártires na celebração de seus respectivos aniversários12" (Concílio de Hipona, 08.Out.393).

·        "Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos, dois livros dos Paralipômenos, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão, doze livros dos Profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo, uma do mesmo aos Hebreus, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João. Isto se fará saber também ao nosso santo irmão e sacerdote, Bonifácio, bispo da cidade de Roma, ou a outros bispos daquela região, para que este cânon seja confirmado, pois foi isto que recebemos dos Padres como lícito para ler na Igreja" (Concílio de Cartago III (397) e Concílio de Cartago IV (419)).

·        "Tratemos agora sobre o que sente a Igreja Católica universal, bem como o que se dever ter como Sagradas Escrituras: um livro do Gênese, um livro do Êxodo, um livro do Levítico, um livro dos números, um livro do Deuteronômio; um livro de Josué, um livro dos Juízes, um livro de Rute; quatro livros dos Reis13, dois dos Paralipômenos; um livro do Saltério; três livros de Salomão: um dos Provérbios, um do Eclesiastes e um do Cântico dos Cânticos; outros: um da Sabedoria, um do Eclesiástico. Um de Isaías, um de Jeremias com um de Baruc e mais suas Lamentações, um de Ezequiel, um de Daniel; um de Joel, um de Abdias, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias, um de Malaquias. Um de Jó, um de Tobias, um de Judite, um de Ester, dois de Esdras, dois dos Macabeus. Um evangelho segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas, um segundo João. [Epístolas:] a dos Romanos, uma; a dos Coríntios, duas; a dos Efésios, uma; a dos Tessalonicenses, duas; a dos Gálatas, uma; a dos Filipenses, uma; a dos Colossences, uma; a Timóteo, duas; a Tito, uma; a Filemon, uma; aos Hebreus, uma. Apocalipse de João apóstolo; um, Atos dos Apóstolos, um. [Outras epístolas:] de Pedro apóstolo, duas; de Tiago apóstolo, uma; de João apóstolo, uma; do outro João presbítero, duas14; de Judas, o zelota, uma. (Catálogo dos livros sagrados, composto durante o pontificado de São Dâmaso [366-384], no Concílio de Roma de 382)

·        "Quais os livros aceitos no cânon das Escrituras, o breve apêndice o mostra: Cinco livros de Moisés, isto é, Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Um livro de Josué, filho de Num; um livro dos Juízes; quatro livros dos Reinos; e Rute. Dezesseis livros dos Profetas; cinco livros de Salomão; o Saltério. Livros históricos: um de Jó, um de Tobias, um de Ester, um de Judite, dois dos Macabeus, dois de Esdras, dois dos Paralipômenos. Do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos; quatorze epístolas do apóstolo Paulo, três de João, duas de Pedro, uma de Judas, uma de Tiago; os Atos dos Apóstolos; e o Apocalipse de João" (papa Inocêncio I, 20.02.405; Carta "Consulenti Tibi" a Exupério, bispo de Tolosa).

·        "Devemos agora tratar das Escrituras Divinas. Vejamos o que a Igreja Católica universalmente aceita e o que deve ser evitado: (1) Começa a ordem do Antigo Testamento: um livro da Gênese, um do Êxodo, um do Levítico, um dos Números, um do Deuteronômio, um de Josué (filho de Nun), um dos Juízes, um de Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, um livro de 150 Salmos, três livros de Salomão (um dos Provérbios, um do Eclesiastes, e um do Cântico dos Cânticos). Ainda um livro da Sabedoria e um do Eclesiástico. (2) A ordem dos Profetas: um livro de Isaías, um de Jeremias com Cinoth (isto é, as suas Lamentações), um livro de Ezequiel, um de Daniel, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Joel, um de Abdias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias e um de Malaquias. (3) A ordem dos livros históricos: um de Jó, um de Tobias, dois de Esdras, um de Ester, um de Judite e dois dos Macabeus. (4)A ordem das escrituras do Novo Testamento, que a Santa e Católica Igreja Romana aceita e venera são: quatro livros dos Evangelhos (um segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas e um segundo João). Ainda um livro dos Atos dos Apóstolos. As 14 epístolas de Paulo Apóstolo: uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Efésios, duas aos Tessalonicenses, uma aos Gálatas, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon e uma aos Hebreus. Ainda um livro do Apocalipse de João. Ainda sete epístolas canônicas: duas do Apóstolo Pedro, uma do Apóstolo Tiago, uma de João Apóstolo, duas epístolas do outro João (presbítero) e uma de Judas Apóstolo (o zelota)" (papa S. Gelásio, ~495; Decreto Gelasiano; repetido em 520 pelo papa S. Hormisdas. Seguido também pelo Concílio Ecumênico de Florença15 [1438-1445], e novamente ratificado pelos Concílio de Trento16 [1546-1563] e Vaticano I [1870])).

·        Outras Fontes:
Concílio Regional de Trulos, realizado no ano 692.

1 Trata-se dos dois livros de Samuel (1Rs/2Rs) e os dois livros de Reis (3Rs/4Rs).
2 Isto é, os dois livros das Crônicas (1Cr/2Cr).
3 Ou seja: Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico.
4 A saber: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
5 Incluindo as "Lamentações" e "Baruc", segundo a Septuaginta.
6 Isto é, o livro de Esdras e o livro de Neemias.
7 Mateus, Marcos, Lucas e João.
8 Aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, a Tito e a Filemon.
9 Curiosa distinção resultada, provavelmente, dos escrúpulos que a Igreja Africana tinha a respeito da autenticidade literária paulina dessa epístola.
10 Percebe-se, assim, que o cânon coincide perfeitamente com o cânon definido pelo Concílio de Trento.
11 Trata-se da Igreja de Roma.
12 Alusão ao culto dos santos mártires.
13 Os Concílios regionais de Cartago simplesmente repetem, com as mesmas palavras, o conteúdo do cânon 36 do Concílio regional de Hipona. A diferença está somente na conclusão.
14 Interessante distinção, já que antiquíssima tradição de Éfeso distinguia o João Apóstolo de um João Presbítero, da mesma região.
15 cf. Decreto "Pro Iacobitis" (da Bula "Cantate Domino", de 04.02.1441): "...O Sacrossanto Concílio professa que um e o mesmo Deus é o autor do Antigo e do Novo Testamento, isto é, da Lei, dos Profetas e do Evangelho, pois os santos de ambos os Testamentos falaram sob a inspiração do mesmo Espírito Santo. Este Concílio aceita e venera os seus livros que vêm indicados pelos títulos seguintes: Cinco livros de Moisés (isto é, Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, Jó, o Saltério de Davi, as Parábolas (Provérbios), Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico, Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze Profetas menores (isto é, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias) e dois livros dos Macabeus. Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), catorze epístolas de Paulo (uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos Efésios, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon, uma aos Hebreus), duas epístolas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas, os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse de João".
16 cf. Decreto sobre o Cânon (sessão IV, de 08.04.1546).

 

16. COMO ESTÁ DEFINIDO O CÂNON BÍBLICO

A Bíblia é formada pelos seguintes livros:

·        Antigo Testamento: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1Samuel, 2Samuel, 1Reis, 2Reis, 1Crônicas, 2Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, 1Macabeus, 2Macabeus, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes (ou Coélet), Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sirácida), Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

·        Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1Coríntios, 2Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1Tessalonicenses, 2Tessalonicenses, 1Timóteo, 2Timóteo, Tito, Filêmon, Hebreus, Tiago, 1Pedro, 2Pedro, 1João, 2João, 3João, Judas e Apocalipse.

Portanto, o Antigo Testamento é formado por 46 livros e o Novo Testamento reúne 27 livros.

A Bíblia foi escrita em três línguas diferentes: o hebraico, o aramaico e o grego (Koiné). Quase a totalidade do Antigo Testamento foi redigida em hebraico, embora existam algumas palavras, trechos ou livros em aramaico e grego. Quanto ao Novo Testamento, este foi completamente redigido em grego - a única exceção parece ser o livro de Mateus, originariamente escrito em aramaico, contudo esse original foi perdido de maneira que resta-nos hoje a versão em grego.

Quanto ao Antigo Testamento, a Bíblia protestante possui sete livros a menos que a Bíblia católica. Ocorre que a Igreja Católica, desde o início, utilizou a tradução grega da Bíblia chamada Septuaginta ou Versão dos Setenta (LXX). Essa tradução para o grego foi feita no séc. III aC, em Alexandria (Egito), por setenta e dois sábios em virtude da existência de uma grande comunidade judaica nessa cidade que já não mais compreendia a língua hebraica. Na época em que foi feita essa tradução, a lista (cânon) dos livros sagrados ainda não estava concluída, de forma que essa versão acabou abrigando outros livros, ficando mais extensa. Essa foi a Bíblia adotada pelos Apóstolos de Jesus em suas pregações e textos: das 350 citações que o Novo Testamento faz dos livros do Antigo Testamento, 300 concordam perfeitamente com a versão dos Setenta, inclusive quanto às diferenças com o hebraico.

Por volta do ano 100 dC, os judeus da Palestina se reuniram em um sínodo na cidade de Jâmnia e estabeleceram alguns critérios para formarem o seu cânon bíblico. Esses critérios eram os seguintes:

1.     O livro não poderia ter sido escrito fora do território de Israel.

2.     O livro não poderia conter passagens ou textos em aramaico ou grego, mas apenas em hebraico.

3.     O livro não poderia ter sido redigido após a época de Esdras (458-428 aC).

4.     O livro não poderia contradizer a Lei de Moisés (Pentateuco).

Assim, os livros escritos por aquela enorme comunidade judaica do Egito não foram reconhecidos pelo sínodo de Jâmnia, por causa de seus critérios ultranacionalistas. Também em virtude desses critérios, o livro de Ester - que em parte alguma cita o nome de Deus - foi reconhecido como inspirado mas somente a parte escrita em hebraico; os acréscimos gregos, que incluíam orações e demonstravam a real presença de Deus como condutor dos fatos narrados, foram completamente desprezados, deixando uma lacuna irreparável.

Os livros não reconhecidos pelo sínodo da Jâmnia e que aparecem na tradução dos Setenta são tecnicamente chamados de deuterocanônicos, em virtude de não terem sido unânimemente aceitos. São, portanto, deuterocanônicos no Antigo Testamento os seguintes livros: Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, 1Macabeus e 2Macabeus, além das seções gregas de Ester e Daniel.

Com a dúvida levantada pelo sínodo de Jâmnia, alguns cristãos passaram a questionar a inspiração divina dos livros deuterocanônicos. Os Concílios regionais de Hipona (393), Cartago III (397) e IV (419), e Trulos (692), bem como os Concílios Ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870), confirmaram a validade dos deuterocanônicos do Antigo Testamento, baseando-se na autoridade dos Apóstolos e da Sagrada Tradição.

Da mesma forma como existem livros deuterocanônicos no Antigo Testamento, também o Novo Testamento contém livros e extratos que causaram dúvidas até o séc. IV, quando a Igreja definiu, de uma vez por todas, o cânon do Novo Testamento. São deuterocanônicos no Novo Testamento os livros de Hebreus, Tiago, 2Pedro, Judas, 2João, 3João e Apocalipse, além de alguns trechos dos evangelhos de Marcos, Lucas e João.

Com o advento da Reforma Protestante, os evangélicos - a partir do séc. XVII1 - passaram a omitir os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento. Alguns grupos mais radicais chegaram - sem sucesso - a tentar retirar também os livros deuterocanônicos do Novo Testamento. É de se observar, dessa forma, que caem em grande contradição por não aceitarem os deuterocanônicos do Antigo Testamento enquanto aceitam, incontestavelmente, os deuterocanônicos do Novo Testamento.

1 O próprio Lutero (fundador da Reforma) traduziu e publicou, para a língua alemã, os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento

 

17. OS LIVROS DEUTEROCANÔNICOS FAZEM PARTE DA BÍBLIA?

O texto abaixo é um debate promovido pelo site "Agnus Dei", defendendo o canôn bíblico definido pela Igreja Católica. As partes escritas em azul mostram as argumentações de um irmão sobre a visão protestantes do canôn bíblico. As respostas à todas estas argumentações são mostradas logo abaixo, nos textos escritos em preto.

Caro, irmão:

Achei este texto de ataque ao cânon católico. Quando possível, gostaria de receber observações suas sobre o texto.

·        Prezado Fabiano,

Vamos lá...

"No que diferem as Bíblias Católicas das Protestantes"

·        De fato, existem diferenças entre as Bíblias Católicas e as Bíblias Protestantes...

Nas Católicas há os livros chamados Apócrifos. Apócrifo antigamente no tempo dos Persas tinha um sentido esotérico, depois passou a significar Coisas Escondidas, Ocultas ou Secretas. Mais tarde esse termo foi sendo aplicado a livros de autenticidade incerta e hoje se aplica a livros religiosos não inspirados tais como esses que encontramos nas Bíblias Católicas;

·        Há uma meia verdade neste parágrafo. Realmente o termo "apócrifo" tem significado pejorativo, desde meados do séc IV dC, indicando autenticidade incerta. Porém, o termo não se aplica aos livros e acréscimos indicados pelo autor deste artigo no parágrafo seguinte, mas sim aos livros que não foram considerados inspirados pela Igreja primitiva (ex.: Evangelho de Tomé; Apocalipse de Paulo; 3Macabeus; etc.) - veja uma lista bem mais completa dos livros apócrifos no artigo "Quais são os livros apócrifos?"

São chamados mais apropriadamente de "deuterocanônicos" por se tratar de livros que não se encontram na Bíblia Palestinense (definida pelos judeus da Palestina em 90 dC), mas na Bíblia Alexandrina (dos judeus que habitavam nesta cidade do Egito). Os livros que coincidiam nas duas Bíblias são chamados de "protocanônicos".

Foi Lutero quem começou a chamar estes livros de apócrifos no séc XVI dC e, para complicar mais ainda, passaram a chamar de "pseudoepígrafos" aqueles livros de autenticidade evidentemente falsa, que nós, católicos (e também ortodoxos), chamamos de "apócrifos". O motivo disso é que os protestantes têm certas dificuldades teológicas se admitirem a autenticidade destes livros, pois apresentam de forma bem clara certas doutrinas refutadas por eles, como, por exemplo, o purgatório, a oração em favor dos mortos e a intercessão dos santos.

Os livros apócrifos são: Tobias, Judite, Sabedoria de Jesus ben Sirach ou Eclesiástico, Sabedoria de Salomão, Baruque, I Macabeus, II Macabeus, Acréscimos a Daniel, Acréscimos a Ester.

·        A informação aqui está correta com a única ressalva de que não são livros e acréscimos apócrifos, mas sim deuterocanônicos...

Qual a sua origem?

a) Ptolomeu Filadelfo rei do Egito ordenou que traduzissem os escritos dos hebreus para o Grego, língua oficial do mundo de então, para assim enriquecer a sua biblioteca;

·        A tradução dos livros dos hebreus para o grego se deu entre os anos 300 e 150 aC na Alexandria (Egito) e passou a ser chamada de Septuaginta (ou "LXX"), pois a tradição afirma de que foi realizada por 72 tradutores. A razão da tradução, entretanto, não foi simplesmente "enriquecer" a biblioteca do rei, mas tinha como principal propósito tornar acessível a Palavra de Deus aos judeus que viviam ali, numa enorme e próspera colônia, e que, com o passar dos anos, já não mais reconheciam a língua hebraica, embora guardassem plenamente a sua fé e identidade, como judeus que realmente eram.

O autor deste artigo reconhece isto - ainda que timidamente, pra variar - no item imediatamente a seguir...

b) O afrouxamento dos Judeus da grande colônia hebraica de Alexandria quanto ao estudo da sua própria língua;

·        Não se trata precisamente de um "afrouxamento" mas sim de um fator natural, que ocorre com qualquer língua minoritária em certa região onde a esmagadora maioria fala uma outra língua. Por exemplo, o português tem origem no latim, mas hoje, no Brasil (e até mesmo em Portugal), é muito difícil encontrar alguém que conheça plenamente a língua latina. Foi afrouxamento nosso? Certamente que não... trata-se de um processo de desenvolvimento lento e contínuo, estritamente natural e sem qualquer ligação com relaxamento...

c) A grande influência helenista nos judeus alexandrinos;

·        Isto de modo algum "manchou" a fé dos judeus, bastando lembrar que Jesus também era judeu e nunca fez ressalva alguma sobre tal questão; muito pelo contrário...

d) O grande desejo do mundo grego de conhecer os escritos dos judeus.

·        Esta afirmação parece-me um tanto quanto esvaziada, porque o mundo grego, na verdade, desprezava o conhecimento dos hebreus, pois não contavam com filósofos. É justamente por essa razão que São Paulo fala das vãs filosofias (Col 2,8) e diz que pregar a cruz de Cristo é escândalo para os judeus (já que o Messias seria o libertador de Israel) e loucura para os gregos (porque é contrário à filosofia); entretanto, o próprio São Paulo não abre mão da razão (=filosofia) para pregar o Evangelho pelo mundo grego (v. Atos dos Apóstolos)...

Em outras palavras: não eram os gregos que tinham interesse de conhecer os escritos judaicos, mas eram os judeus - e mais tarde também os cristãos - que tinham o interesse de propagar a Palavra de Deus; os judeus por puro proselitismo; os cristãos, pela Salvação de toda criatura humana.

Data 200 A.C. até 100 A.C. foram eles escritos.

·        A crítica moderna (inclusive protestante) sugere as seguintes datas de composição para os livros em debate:

o        Tobias: 200 aC (em hebraico ou aramaico)

o        Judite: 150 aC (em hebraico ou aramaico)

o        1Macabeus: 100 aC (em hebraico ou aramaico)

o        2Macabeus: 100 aC (em grego)

o        Eclesiástico: 200 (em hebraico) e 130 (tradução grega)

o        Sabedoria: 100 aC (em grego)

o        Baruc: 200 aC (em grego, talvez tradução do hebraico)

o        acréscimos a Ester: 160 aC (em grego)

o        acréscimos a Daniel: 100 aC (em grego)

Entretanto, o fato de terem sido os últimos livros a serem escritos no Antigo Testamento, de forma alguma reduz-lhes o valor. Também o fato de alguns terem sido escritos fora do território da Palestina não significa que não sejam inspirados porque, ainda assim, foram escitos por representantes legítimos do Povo de Deus!

IV - Erros ensinados pelos apócrifos, que estão em contradição com o restante da Bíblia

·        Alguns desses "erros" foram com certeza retirados de um livretinho de autoria de Jaime Reda, chamado "Assim Diz a Bíblia". Embora não o afirme, o autor certamente é adventista e, como qualquer protestante, tem dificuldade em explicar doutrinas tão claras que se opõem ao que prega a sua seita...

Vamos analisar os "erros" e "refutar a refutação" do autor: primeiro, demonstrando que a Bíblia possui (nos livros que o autor aceita como inspirados, isto é, os "protocanônicos" do Antigo Testamento e todo o Novo Testamento) outros exemplos daquilo que o autor considera errado; segundo, apresentando a contradição do autor com o ensinamento bíblico...

A-1. Dar esmolas purifica o pecado

a) Tobias 12:9 - "Porque a esmola livra da morte e é a que apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna.";
b) Tobias 4:10 - "Porque a esmola livra de todo o pecado e da morte e não deixará, cair a alma nas trevas.";
c) Eclesiástico 3:33 - "As esmolas resgatam o pecado.";
d) II Macabeus 12:43-46 - "E tendo feito uma coleta, mandou 12 mil dracmas de prata, a Jerusalém, para serem oferecidas em sacrifício pelos pecados dos mortos, sentindo bem e religiosamente da ressurreição... Se Judas não tivesse esperança de que se erguessem de novo os que caíram teria sido supérfluo orar pelos mortos... É pois um santo e salutar pensamento orar pelos mortos para que sejam livres de seus pecados".

·        "Porquanto qualquer um que vos der a beber um copo de água em meu nome, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa"(Mc 9,41).

·        "Dai, porém, de esmola o que está dentro do copo e do prato, e eis que todas as coisas vos serão limpas" (Lc 11,41)

·        "Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2,26)

2. Refutação:

a) Oferta em dinheiro para perdão do pecado não encontramos em nenhum lugar da Bíblia, isto é coisa diabólica, pois assim somente os ricos teriam o perdão dos pecados;
b) I Pedro 1:18-19 - não foi com ouro ou prata que fomos comprados;
c) Atos 10:4-6 - não somente dar esmolas mas conhecer e praticar a verdade;
d) Efésios 2:8-9 - somos salvos pela graça de Deus e não por dinheiro;
e) Isaías 55:1 - compra sem dinheiro.

·        O que importa não é se a esmola é oferecida em dinheiro ou em espécie, mas com a intenção de querer fazer o bem, por amor a Jesus. É dar a quem precisa, sem guardar o sentimento de retribuição. Isto agrada ao Senhor (até um pequeno e simples copo de água!!) e O levará a considerar tal feito no Dia do Juízo; portanto, não há dúvidas de que a esmola apaga pecados, não no sentido de torná-los inexistentes, mas compensados... Foi justamente por isso que a pobre viúva que deu tudo o que tinha foi elogiada por Cristo, em detrimento aos ricos (cf. Lc 21,3); mesmo assim, estes ricos, que deram do que tinha de sobra, também não foram condenados - a diferença é que estes terão uma recompensa menor do que aquela viúva (haverá, portanto, uma compensação). Jesus confirma também o valor da esmola juntamente com outras formas de piedade (Mt 6,2-18), que cobrem "uma multidão de pecados" (1Ped 4,8).

B-1. Ensino de Crueldade e do Egoísmo

a) Eclesiástico 12:6 - "Não favoreças aos ímpios; retém o teu pão e não o dê a ele".

·        "Deste modo extirparás o mal do teu meio, para que os outros ouçam, fiquem com medo e nunca mais tornem a praticar o mal no meio de ti. Que teu olho não tenha piedade. Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé" (Dt 19,19-20).

2. Refutação:

a) Eclesiastes 11:1-2 - lança o teu pão;
b) Provérbios 25:21-22 - dá-lhe pão para comer e água para beber;
c) Romanos 12:20;
d) Mateus 5:44-48 - amar os nossos inimigos.

·        É mais do que claro que o autor do Eclesiástico segue rigorosamente o ensino do Antigo Testamento (v. especialmente Êxodo e Deuteronômio). Se lermos Eclo 12,4-7, perceberemos que não se trata de esmola dada aos necessitados, mas sim de benefícios o que, certamente, é melhor concedê-los a gente honesta do que a pessoas malvadas. Santo Agostinho escreveu sobre esta passagem de Eclo: "Não dês ao pecador enquanto pecador, dá-lhe enquanto homem". Logo, a referida passagem não se refere à crueldade, muito menos se refere ao egoísmo.

C-1. Pecados perdoados pela oração

a) Eclesiástico 3:4 - "Quem amar a Deus receberá perdão de seus pecados pela oração".

2. Refutação:

a) Os pecados não se perdoam pela oração, se fosse assim, não teríamos necessidade de Jesus. Todos os povos pagãos fazem orações, mas os pecados não se perdoam somente pela oração;
b) Provérbios 28:13 - o que confessa e deixa alcançará misericórdia;
c) I João 1:9 - renúncia do pecado;
d) I João 2:1-2 - Cristo é quem perdoa.

·        Tal refutação é, no mínimo, ridícula. O livro do Eclesiástico - de onde foi tirado o exemplo dos pecados perdoados pela oração - pertence ao AT e, como todos os demais, são apenas um preparativo para a nova Aliança em Cristo. Além do mais, a confissão não deixa de ser uma oração - seja no ponto de vista católico, através do Ato de Contrição, seja no ponto de vista protestante, onde o pecador tentar obter seu perdão diretamente de Deus. Portanto, o autor cai em contradição consigo mesmo.

D-1. O Ensino do Purgatório

a) Sabedoria 3:1-4 - "Mas as almas dos justo estão nas mãos de Deus; e o tormento da morte não as tocará. Aos olhos dos ignorantes pareciam eles morrer e sua partida foi considerada desgraça. E, sua separação de nós, por uma extrema perda. Mas eles estão em paz. E embora aos olhos dos homens sofram tormentos, sua esperança está plenamente na imortalidade.";
b) Isto é a doutrina do Purgatório.

·        "Em verdade te digo que de maneira nenhuma [sairás] dali enquanto não pagares o último ceitil" (Mt 5,26)

·        "Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mt 12,32)

·        "Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo" (1Cor 3,15).

2. Refutação:

a) I João 1:7 - esse ensino aniquila completamente a expiação de Cristo. Se o pecado, pudesse ser extinguido pelo fogo, não teríamos necessidade de um Salvador;
b) Eclesiastes 9:6 - os mortos não sabem coisa nenhuma - Isaías 38:18-19;
c) I Tessalonissenses 4:13-16 - na ressurreição os justos serão galardoados.

·        A doutrina do Purgatório de forma alguma aniquila a obra de Cristo; muito pelo contrário... Sabemos muito bem que nada de impuro pode entrar no céu (Mt 5,8); por outro lado sabemos que aquele que disser que não tem pecados é um mentiroso (1Jo 1,10). No entanto, o Senhor é justo juiz (2Tim 4,8) e recompensa até um copo d'água que é dado em seu nome (Mt 9,41). Logo, embora o purgatório não seja mencionado com este nome na Escritura (a Santíssima Trindade também não é e todos os cristãos a professam como verdade revelada!), a sua realidade é incontestável. Observe-se, ainda, que o purgatório é somente para os que estão salvos mas ainda possuem pecados não expiados, tornando necessária a purificação para ver a Deus. Quem for julgado para a perdição, não tem como passar pelo purgatório para expiar seus pecados...

No site do Agnus Dei existem diversos artigos sobre o Purgatório, explicando-o com mais detalhes. Utilize a ferramenta de busca interna, existente no Índice de Assuntos, para localizá-los mais facilmente...

E-1. O Ensino da Vingança

a) Judite 9:2 - "O Senhor Deus, do meu pai Simeão, a quem deste a espada para executar vingança contra os gentios".

·        "Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé..." (Ex 21,24)

·        "Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado algum homem, assim lhe será feito." (Lv 24,20)

·        "O teu olho não terá piedade dele; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé." (Dt 19,21)

2. Refutação:

a) Gênesis 34:30 - o aborrecimento de Jacó pela vingança de Simeão contra os cananitas;
b) Gênesis 49:5-7 - a maldição de Jacó porque eles usaram de vingança;
c) Romanos 12:17-19 - minha é a vingança do Senhor.

·        Será que os exemplos que citei acima, tirados do Êxodo, Levítico e Deuterônimo são exemplos de amor ao próximo? Também não é necessário falar das mortes efetivadas pelos hebreus durante a Conquista da Terra Prometida... O autor do presente artigo não poderia ser mais infeliz para refutar alguma coisa dos deuterocanônicos...

F-1. Suicídio

a) II Macabeus 12:41 - "... quando ele se viu a ponto de ser preso, feriu-se com a sua espada, preferindo morrer nobremente a ver-se sujeito a pecadores, e padecer ultrajes indignos de seu nascimento".

·        A citação acima é tirada de 2Mc 14,41-42 e não de 2Mc 12,41!

·        "Sansão invocou a Javé e exclamou: 'Senhor Javé, eu te suplico, vem em meu auxílio; dá-me forças ainda esta vez, ó Deus, para que, de um só golpe, eu me vingue dos filisteus por causa dos meus dois olhos'. E disse: 'Morra eu com os filisteus!'". (Jz 16,28.30).

2. Refutação:

a) morrer nobremente é a frase perigosa. A Bíblia nos conta de alguns suicídios, mas nunca os qualifica de cousa ou ato nobre;
b) a vida e morte dependem de Deus e nós, não podemos desertar da vida para nos livrar de dificuldades. Cristianismo quer dizer paciência, abnegação. Tudo sofre, tudo suporta;
c) Transgressão do mandamento "Não matarás".

·        A Bíblia possui diversos casos de suicídio - principalmente entre guerreiros - além do registrado pelo autor deste artigo: Jz 9,54; 16,28-29; 1Sm 31,4-5; 2Sm 17,23; 1Rs 16,18. O suicídio de Sansão (Jz 16,28-29) embora não seja classificado explicitamente como "morte nobre", é tido como grandioso pelo autor do livro dos Juízes, pois ele deu a sua vida pelo seu povo, utilizando contra os seus inimigos a força final recebida de Deus. Poderíamos, por isto, dizer que o suicídio é algo grandioso?? Que Deus aprova? Ou estaria Sansão ardendo no Inferno?

Se fosse algo sempre nobre ou grandioso, a Igreja Católica, por conseguinte, não condenaria o suicídio como sempre o fez. Ensina o Catecismo da Igreja: "Cada um é responsável por sua vida diante de Deus que lha deu e que dela é sempre o único soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para sua honra e salvação das nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela". Entretanto, a Igreja reconhece: "Não se pode desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida".

G-1. O Ensino de Artes Mágicas

a) Tobias 6:8 - "Se tu puseres um pedacinho do seu coração (do peixe que ele havia apanhado) sobre brasas acesas, o seu fumo afugenta toda a casta de demônios, tanto do homem como da mulher, de sorte que não tornam mais chegar a eles". Verso 9 - "E o fel é bom para untar os olhos que tem algumas névoas, e sararão.".

·        "Dito isto, cuspiu no chão e com a saliva fez lodo, e untou com lodo os olhos do cego e lhe disse: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' [...] O cego foi. lavou-se e voltou vendo" (Jo 9,6)

·        "Está doente algum de vós? Chame os anciãos da igreja, e estes orem sobre ele, ungido-o com óleo em nome do Senhor" (Tg 5,14)

2. Refutação:

a) não encontramos tal coisa em nenhum lugar da Bíblia;
b) não precisamos de truques para enfrentar o diabo;
c) maneiras de enfrentar o diabo e os demônios: Mateus 4:4-10;
d) Tiago 4:7 - resisti ao diabo e ele fugirá;
e) maneiras de expulsar demônios: Marcos 16:17 e Atos 16:18.

·        Também não encontramos em qualquer outro lugar da Bíblia que a lama oriunda do cuspe misturada com a terra cura os cegos. Seria então Jesus um feiticeiro? :)

Torna-se claro, portanto, que existe um interesse oculto na referida passagem de Tobias, que só será desvendado em 8,3, quando o próprio Anjo Rafael expulsa o demônio (e não Tobias através do coração, fel e fígado do peixe). O interesse, portanto, é ocultar a identidade do Anjo para Tobias até a efetiva expulsão do demônio...

H-1. Mentiras

a) Judite 11:13-17 - Judite mentindo para Holofernes;
b) Tobias 5:15-19 - o anjo Rafael mentindo.

·        "Abraão disse de sua mulher Sara: 'É minha irmã' e Abimelec, rei de Gerara, mandou buscar Sara (Gen 20,2)

·        "Jacó disse: 'eu sou o teu filho primogênito, Esaú, fiz como me ordenaste...' Disse [Isaac]: 'Tu és o meu filho Esaú?' Respondeu: 'Eu o sou'. E logo que sentiu a fragrância de seus vestidos, abençoou-o." (Gen 27,19)

2. Refutação:

a) Deus nunca sancionou a mentira nem mesmo nos seus servos;
b) O mal começou com a mentira no céu;
c) Gênesis 3:4 - certamente morrerás;
d) João 8:44 - quem é o originador e pai de todas as mentiras, portanto não pode um anjo de Deus mentir;
e) João 14:6 - Jesus diz ser o caminho, a Verdade e a vida. Todos os seguidores, de Cristo devem ser verdadeiros.

·        Também os grandes patriarcas hebreus mentiram e não foram abandonados por Deus; muito pelo contrário... Abraão foi pai de muitas nações (Gen 17,5); Jacó manteve a bênção de Deus e teve seu nome mudado para Israel (Gen 35,10).

É certo que a mentira atenta contra a verdade e é sempre proposital; entretanto, não se pode igualar os graus de mentira (generalizando-a) ou desconhecer-lhe a intenção (para prejudicar ou beneficiar alguém com ou sem prejuízo de outrem).

I-1. Tolices

a) Tobias 2:10 - as fezes de uma andorinha, caindo nos olhos de Tobias que estava dormindo junto a um muro deixa-o cego;

·        Os médicos também afirmam que o esterco de andorinha pode queimar os olhos... A observação também é feita na Bíblia Sagrada versão de Matos Soares (ed. Paulinas), na pág. 484.

b) Judite 8:5-6 - uma mulher jejuando a vida inteira, menos aos sábados;

·        A mulher em questão é a própria Judite.O fato de jejuar todos os dias não significa que não bebesse água, que é o elemento fundamental para o corpo humano. Também Jesus jejuou por 40 dias e 40 noites seguidos e não morreu (Mt 4,2). Certamente aos sábados Judite se alimentava bem, pelo menos com o suficiente para se manter firme... Vários santos também impuseram sobre si rigorosa rotina de jejum, principalmente os ermitões que viviam no deserto. Não há, neste caso, nenhuma "tolice" em Judite...

c) II Macabeus 15:40 - "beber sempre água é coisa prejudicial".

·        A frase completa é: "Assim como é nocivo beber somente vinho ou somente água, enquanto que é agradável beber água misturada com vinho...". A frase encerra, portanto, uma verdade, que é o abuso; tudo que é feito em excesso é prejudicial, rompendo um equilíbrio que deve ser mantido. Mesmo assim, o que o autor se refere neste versículo é quanto à agradabilidade da narração de sua obra, que deve encantar os ouvidos. Você já bebeu água sem vontade? É horrível, não? Já bebeu vinho sem gostar? É ruim também porque queima a garganta... Misturando os dois fica agradável, saboroso, porque alcança um equilíbrio ao gosto do degustador. Assim deve ser qualquer obra literária: deve agradar o leitor!

V - Razões interessantes

Roma não pode chamar as outras Bíblias de falsas por não conterem os Apócrifos, assim como não pode se chamar uma nota de falsa por não ter ela uns acréscimos que alguém julgue que ela deva ter;

·        Pode sim! Pode porque foi a Igreja que definiu o cânon bíblico no séc. IV, selecionando os livros do Novo Testamento e confirmando todos os livros do Antigo Testamento segundo a versão da Septuaginta, incluindo os 7 livros aqui debatidos, bem como os acréscimos a Ester e Daniel. E a autoridade da Igreja para estabelecer o cânon é indiscutível, pois ela é a "coluna e o fundamento da Verdade" (1Tim 3,15).

E pode também porque a Igreja Católica foi fundada sobre os Apóstolos, que usaram a Septuaginta para escrever o Novo Testamento: das 350 citações do AT, 300 obedecem a versão dos LXX! Se o autor segue a autoridade dos judeus de Jâmnia para definir o seu cânon, deve deixar de lado todos os livros do Novo Testamento; porém, se aceita a autoridade da Igreja, fundada por Cristo, não tem como deixar de lado os livros deuterocanônicos, pois estaria (como de fato está) em contradição.

Em II Macabeus encontramos o autor do livro pedindo perdão pelas suas falhas como escritor. Se crêssemos que estes livros estão no mesmo pé de igualdade com os inspirados, ficaríamos então admirados de ver agora o Espírito Santo pedindo desculpas por algumas falhas, o que é inconcebível;

·        Não tem nada a ver! Também São Paulo afirma em 1Cor 7,12: "Aos outros sou eu quem digo e não o Senhor: se algum irmão tem uma mulher sem fé e esta consente em habitar com ele, não a repudie". Será que esta passagem também não é inspirada? Se não é, por que ainda se encontra na Bíblia??? Por que não foi simplesmente riscada?? E se fosse riscada, o que impediria de riscar toda a 1Coríntios?

O Senhor Jesus e os Apóstolos fazem 205 citações do V.T. e mais 304 alusões ao mesmo e não dizem nenhuma palavra sequer a respeito de um dos livros Apócrifos;

·        Não é verdade. Veja-se, por exemplo, o seguinte caso: em Hebreus 11,35 lemos que "Algumas mulheres reencontraram os seus mortos pela ressurreição. Outros foram esquartejados, recusaram o resgate para chegar a uma ressurreição melhor". A quem o Apóstolo se refere ao falar de algumas mulheres? Certamente ao filho da viúva ressuscitado por Elias (1Rs 17,22-23) e ao filho da sunanita ressuscitado por Eliseu (2Rs 4,35-36). Até aí tudo bem... Porém pergunte a um protestante:

Onde você encontra na Bíblia alguém que aceitou ser esquartejado crendo na esperança da ressurreição?

Ele poderá revirar todo o Antigo Testamento da sua Bíblia protestante, do Gênese ao profeta Malaquias, mas nada encontrará... O Apóstolo estaria mentindo? Não! Ele se refere ao martírio dos sete irmãos que lemos em 2Mac 7! Isto é indiscutível!!

Fora esta passagem, existem pelo menos mais 344 referências no NT aos livros deuterocanônicos... Veja a lista em "O Novo Testamento e os Deuterocanônicos", na área da Bíblia do site do Agnus Dei.

Jerônimo, o tradutor da Vulgata declarou que os Apócrifos não eram canônicos;

·        Por volta do ano 90 dC, vários anos após a destruição de Jerusalém pelos romanos, os judeus (fariseus) se reuniram em um sínodo na cidade de Jâmnia e definiram um cânon usando de critérios meramente nacionalistas (v. o artigo "Como está definido o cânon bíblico" na área de Apologética), deixando de fora os 7 livros em questão, pois não atendiam a tais requisitos.

São Jerônimo, até o ano 390 aceitava os livros deuterocanônicos como inspirados mas, indo para a Terra Santa e passando a traduzir a Bíblia para o latim diretamente do hebraico, foi influenciado pelos rabinos a considerar somente os livros aceitos pelos judeus da Jâmnia. Ainda assim, é possível encontrar mais de 200 referências aos deuterocanônicos nas obras do Santo. Fora isso, a questão do cânon bíblico para a Igreja cristã ainda não estava definida, o que torna compreensível e justificada a posição de Jerônimo.

Porém, a Igreja Católica resolveu a situação a partir dos Concílios regionais de Hipona (393), Cartago III (397) e Cartago IV (418). Em 450, o papa Inocêncio I reafirmou o cânon bíblico com todos os deuterocanônicos numa carta ao bispo Exupério de Tolosa. Para maiores detalhes, ler o artigo "Testemunhos Cristãos Primitivos - O Cânon Bíblico", na área de Patrística.

Somente em 8 de Abril de 1546 é que a Igreja Católica se lembrou que esses livros deveriam estar canonizados; Nesse concílio que declarou os Apócrifos como autorizados, não havia nenhuma autoridade entre eles. Havia somente 53 prelados italianos e espanhóis na sua maioria. Nenhum alemão. Era mais um concílio religioso do que ecumênico, portanto não tinha autoridade;

·        Papo furado! A Igreja Católica usa os deuterocanônicos desde a era apostólica. A definição de sua inspiração já se dera oficialmente em Hipona (393) e Cartago (397 e 418), como vimos acima. Também o concílio ecumênico de Florença (1441) professou solenemente o católogo completo dos livros sagrados, pelo menos 1 século antes de Trento. A Bíblia de Guttemberg, o primeiro livro a ser impresso no mundo por volta de 1450 , também continha os deuterocanônicos.

Foi o herege Martinho Lutero, apenas em 1534, que colocou os referidos livros em apêndice, com o título de apócrifos, em sua tradução alemã da Bíblia. Pelo menos teve a decência de deixá-los por considerá-los bons e de utilidade (segundo palavras usadas pelo próprio "rerformador" no prólogo).

A Igreja Católica Ortodoxa sempre fez restrições aos Apócrifos;

·        Outra inverdade, que demonstra desconhecimento histórico e eclesiológico. O Concílio de Trulos, reunindo padres da Igreja Oriental em 692, também considerou os livros deuterocanônicos como inspirados. O mesmo ocorreu nos sínodos de Constantinopla (1638), de Yassi (1642) e de Jerusalém (1672) - após a Reforma Protestante.

Também a Sociedade Bíblica Unida (representada no Brasil pela Sociedade Bíblica do Brasil), instituição protestante que produz Bíblias, afirma em sua Agenda de Oração-1996, pág. 5: "Deuterocanônicos: As Bíblias para as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa contêm livros extras, que não fazem parte da Bíblia usada pelas Igrejas Protestantes". A única exceção entre os ortodoxos trata-se da Igreja Ortodoxa Russa; ainda assim, é livre entre estes aceitar ou não os deuterocanônicos.

Católicos Scholars rejeitam os Apócrifos:

a) Bede e John of Salisbury - 1180 A.D.;
b) William Ockham - 1347;
c) Cardeal Ximenes mandou editar na Espanha a Bíblia Poliglota e não continha os Apócrifos - 1514-17;
d) Após o Concílio de Trento em 1546 ter pronunciado os livros Apócrifos canônicos Sixtus de Siena em 1566 insistiu em separar os livros Apócrifos da Bíblia."

·        "Scholars"? Acho que este artigo tem origem americana... Seria bom que o tradutor pelo menos disfarçasse, traduzindo o termo ou pelo menos indicando a fonte...

Não conheço a opinião destes senhores e sinceramente pouco me importa... São meras opiniões huimanas, sem a autoridade oficial da Igreja, "fundamento e coluna da verdade" (1Tim 3,15). Nem todo aquele que se diz "católico" é católico de verdade, infelizmente. Jesus deu autoridade aos seus Apóstolos, à sua Igreja... Os apóstolos usaram a Septuaginta com os deuterocanônicos; a Igreja sempre os reconheceu como inspirados, havendo aqui ou ali poucas vozes destoantes, quase sempre influenciadas por judeus... Eu aceito a autoridade da Igreja, dos Apóstolos e, por consequência, de Jesus - que prometeu estar com sua Igreja até a consumação dos séculos (Mt 28,20). Dizer que a Igreja errou ao definir o cânon é chamar Jesus de mentiroso, por não cumprir sua promessa de permanecer conosco. Tal proposição, entretanto, é absurda!

E, pelo que vimos até aqui, existem muito mais argumentos em favor da inspiração dos deuterocanônicos do que contra... Em outras palavras: quem é contra os deuterocanônicos ainda não conseguiu provar que estes não fazem parte da Bíblia... Estão em maus lençóis!

 

18. A VERSÃO DA SEPTUAGINTA

A Septuaginta foi a primeira tradução do Antigo Testamento hebraico, feita em grego popular antes da Era Cristã. Este artigo tratará do seguinte:

1.     Sua importância;

2.     Sua origem;

1.      Segundo a Tradição;

2.      Segundo o ponto de vista comumente aceito.

3.     Sua história subseqüente, recensões, manuscritos e edições;

4.     Seu valor crítico e linguagem.

1. Importância Histórica da Septuaginta
A importância da versão da Septuaginta é representada pelas seguintes considerações:

1.     A Septuaginta é a mais antiga tradução do Antigo Testamento e, consequentemente, de valor incalculável para os críticos compreenderem e corrigirem o texto hebraico (Massorético), que é posterior - aquele que chegou até nós - pois foi estabelecido pelos massoretas no séc. VI d.C.. Muitas corrupções textuais, adições, omissões ou transposições foram incorporadas ao texto hebraico entre os séculos III-II a.C. e VII d.C.; assim, os manuscritos da Septuaginta colocados à disposição dos críticos podem ser bem melhor compreendidos em alguns pontos que os manuscritos massoréticos.

2.     A versão da Septuaginta - primeiramente aceita pelos judeus de Alexandria e, mais tarde, por todas as nações de língua grega - auxiliou na expansão, entre os gentios, da idéia e expectativa do Messias, e introduziu a terminologia teológica no grego, tornando-a o melhor instrumento para a propagação do Evangelho de Cristo.

3.     Os judeus a usaram muito antes da Era Cristã e, no tempo de Cristo, foi reconhecida como texto legítimo, tendo sido inclusive empregada na Palestina pelos rabinos. Os apóstolos e evangelistas a usaram também e fizeram citações do Antigo Testamento a partir dela, especialmente no que diz respeito às profecias. Os padres e outros escritores eclesiásticos da Igreja primitiva citavam-na diretamente - no caso dos padres gregos - ou indiretamente - no caso dos padres e escritores latinos e outros que empregavam as versões latinas, siríacas, etíopes, árabes e góticas. Seguramente, era tida em grande estima por todos, chegando alguns a acreditar de que era inspirada. Consequentemente, o conhecimento da Septuaginta auxilia na perfeita compreensão dessas literaturas [da Igreja primitiva].

4.     Atualmente, a Septuaginta é o texto oficial da Igreja grega e as antigas versões latinas usadas pela Igreja ocidental também foram feitas a partir dela; a mais antiga tradução adotada pela Igreja latina - a Vetus Ítala - foi preparada diretamente sobre a Septuaginta: as idéias adotadas nela, os nomes e palavras gregas empregadas (tais como: Gênese, Êxodo, Levítico, Números [Arithmoi], Deuteronômio) e, finalmente, a pronúncia dada ao texto hebraico, passaram freqüentemente para a Ítala e, a partir desta, às vezes, para a Vulgata, que não raramente, apresenta sinais da influência da Vetus Ítala (principalmente nos Salmos: a tradução da Vulgata é meramente o texto da Vetus Ítala corrigido por São Jerônimo conforme o texto da Septuaginta encontrado na Hexápla [de Orígenes]).

2. Origem da Septuaginta

1.     Segundo a Tradição
A versão da Septuaginta é primeiramente mencionada na Carta de Aristéias a seu irmão Filócrates. Aqui está, substanciamente, o que lemos sobre a origem de tal versão: Ptolomeu II Filadélfo, rei do Egito (287-247 a.C.) tinha estabelecido recentemente uma valiosa biblioteca em Alexandria. Ele foi persuadido por Demétrio de Fálaro - responsável pela biblioteca - a enriquecê-la com uma cópia dos livros sagrados dos judeus. Para conquistar as boas graças deste povo, Ptolomeu, por conselho de Aristéias - oficial da guarda real, egípcio de nascimento e pagão por religião - emancipou 100 mil escravos de diversas regiões de seu reino. Ele, então, enviou representantes - entre os quais Aristéias - a Jerusalém e pediu a Eliazar - o sumo-sacerdote dos judeus - para que fornecesse uma cópia da Lei e judeus capazes de traduzi-la para o grego. A embaixada obteve sucesso: uma cópia da Lei ricamente ornamentada foi enviada para o Egito, acompanhada por 72 israelitas - seis de cada tribo - para atender o desejo do rei. Estes foram recebidos com grande honra e durante sete dias surpreenderam a todos pela sabedoria que possuíam, demonstrada em respostas que deram a 72 questões; então, eles foram levados para a isolada ilha de Faros e ali iniciaram os seus trabalhos, traduzindo a Lei, ajudando uns aos outros e comparando as traduções conforme iam terminando. Ao final de 72 dias, a tarefa estava concluída. A tradução foi lida na presença de sacerdotes judeus, príncipes e povo reunidos em Alexandria; a tradução foi reconhecida por todos e declarada em perfeita conformidade com o original hebraico. O rei ficou profundamente satisfeito com a obra e a depositou na sua biblioteca.
Ainda que possua características lendárias, a narrativa de Aristéias ganhou crédito: Aristóbulo (170-50 a.C.), em uma passagem preservada por Eusébio, afirma que "através dos esforços de Demétrios de Fálero, uma tradução completa da legislação judaica foi realizada nos dias de Ptolomeu"; o relato de Aristéias é repetido quase que literalmente por Flávio Josefo (Ant.Jud. XII,2) e substancialmente - com a omissão do nome de Aristéias - por Filo de Alexandria (De Vita Moysis II,6). A carta e o relato foram aceitos como genuínos por muitos padres e escritores eclesiásticos até o início do séc. XVI; outros detalhes que serviram para enfatizar a extraordinária origem da versão foram acrescentados ao relato de Aristéias: os 72 intérpretes foram inspirados por Deus (Tertuliano, Santo Agostinho, o autor de "Exortação aos Gregos" [Justino?], entre outros); durante a tradução eles não consultaram uns aos outros, pois foram mantidos em celas separadas - quer individuais, quer em duplas - e suas traduções, quando comparadas, estavam em perfeita concordância com o sentido e expressões empregadas no texto original e, inclusive, de umas com as outras ("Exortação aos Gregos", Santo Ireneu, São Clemente de Alexandria - São Jerônimo rejeitou o relato das celas isoladas afirmando que era fantasioso e falso (Praef. in Pentateuchum; Adv. Rufinum II, 25), bem como a alegada inspiração da Septuaginta); e, finalmente, de que os 72 intérpretes traduziram não apenas os cinco livros do Pentateuco mas todo o Antigo Testamento hebraico. A autenticidade da Carta, posta em dúvida primeiramente por Louis Vivès (1492-1540), professor em Louvain (Ad S. August. Civ. Dei XVIII, 42), e, depois, por Jos Scaliger (+1609) e, especialmente, por H. Hody (+1705) e Dupin (d. 1719), é atualmente negada por todos.
Críticas

1.      A Carta de Aristéias é certamente apócrifa. O escritor, que chama a si mesmo de Aristéias e declara-se grego e pagão, mostra, no decorrer de toda a sua obra, que, na verdade, é um judeu piedoso e zeloso: ele reconhece o Deus dos judeus como o único Deus; ele declara que Deus é o autor da Lei Mosaica; ele é um admirador entusiástico do Templo de Jerusalém, da terra e do povo judeu e de suas leis sagradas e homens cultos.

2.      A narrativa da Carta deve ser considerada como fantasiosa e lendária, no mínimo em várias partes. Alguns detalhes, como a intervenção oficial do rei ao sumo-sacerdote, o número de 72 tradutores, as 72 questões que tiveram que responder e os 72 dias que levaram para traduzir a Lei são, claramente, afirmativas arbitrárias; além disso, é difícil de se admitir que os judeus alexandrinos tenham adotado para o seu culto público uma tradução da Lei feita a pedido de um rei pagão; finalmente, a linguagem da versão da Septuaginta denuncia, em vários pontos, um conhecimento imperfeito do hebraico e da topografia da Palestina, correspondendo muito mais ao idioma vulgar da Alexandria. Já que não é certo que todo o conteúdo da Carta seja lendário, os estudiosos questionam se não existe algum fundamento histórico disfarçado sob os detalhes lendários. Realmente isso pode ser possível - como se depreende da natureza peculiar da linguagem bem como sobre o que sabemos a respeito da origem e história da versão - já que o Pentateuco foi mesmo traduzido em Alexandria. Também parece verdadeiro que a versão date do tempo de Ptolomeu Filadélfo, isto é, de meados do séc. III a.C.. Mas se, como comumente se acredita, a Carta de Aristéias foi escrita por volta de 200 a.C., 50 anos após a morte de Filadélfo, com vistas a aumentar a autoridade da versão grega da Lei, poderia ter sido aceita tão facilmente e rapidamente difundida caso fosse fictícia ou se o tempo de sua composição não correspondesse à realidade? E mais: é possível que Ptolomeu tenha realmente alguma espécie de relacionamento com a preparação ou publicação da tradução, embora como e porque não possa ser determinado agora. Teria sido com o objetivo de enriquecer sua biblioteca, como declara o pseudo-Aristéias? Isto é possível, mas não pode ser provado, como será demonstrado abaixo; mas podemos muito bem descrever a origem da versão independentemente do rei.

3.      Os pequenos detalhes acrescidos durante o passar dos anos ao relato de Aristéias não podem ser aceitos; tais acréscimos são: a estória das celas (explicitamente rejeitada por São Jerônimo); a inspiração dos tradutores (uma opinião certamente baseada na lenda das celas); o número de tradutores (72 - v. abaixo); a afirmativa de que todos os livros hebraicos foram traduzidos ao mesmo tempo (Aristéias fala da tradução da Lei (nomos), da legislação (nomothesia), dos livros do legislador - estas expressões, especialmente as duas últimas, certamente se referem ao Pentateuco e excluem os outros livros do Antigo Testamento, e São Jerônimo (Comment. in Mich.) declara: "Josefo escreveu, e os hebreus nos informaram, que apenas os cinco livros de Moisés foram traduzidos por eles (os 72) e dados ao rei Ptolomeu". Por outro lado, as versões dos diversos livros do Antigo Testamento diferem muito no vocabulário, estilo, forma e características, às vezes seguem uma tradução livre, outras vezes, extremamente literal, o que demonstra que elas não seriam obra dos mesmos tradutores. Apesar disso e de todas as divergências, o nome de "versão da Septuaginta" é universalmente dado à coleção completa dos livros do Antigo Testamento existentes na Bíblia grega adotada pela Igreja oriental.

2.     Origem segundo o ponto de vista comumente aceito Como para o Pentateuco o seguinte ponto de vista parece plausível, podemos também aceitar em linhas gerais: os judeus, nos dois últimos séculos antes de Cristo, eram tão numerosos no Egito, especialmente em Alexandria, que, em certo momento, passaram a constituir 2/5 da população total. Pouco a pouco a maioria deles deixou de usar ou esqueceu a língua hebraica em grande parte, caindo no perigo de esquecer a Lei. Consequentemente, tornou-se costumeiro interpretar na língua grega a Lei que era lida nas sinagogas e, naturalmente, após certo tempo, alguns homens zelosos pela Lei resolveram compilar uma tradução grega do Pentateuco. Isto ocorreu por volta de meados do séc. III a.C.. Para os demais livros hebraicos - os proféticos e históricos - foi natural que os judeus alexandrinos, fazendo uso do Pentateuco traduzido em suas reuniões litúrgicas, desejassem também a tradução destes; então, gradualmente, todos os livros foram sendo traduzidos para o grego, que se tornara a língua maternal destes judeus; tal exigência aumentava conforme o seu conhecimento de hebraico ia reduzindo dia a dia. Não é possível determinar com precisão o tempo ou os eventos que levaram a estas diferentes traduções; mas é certo que a Lei, os Profetas e, ao menos, parte dos outros livros (i.é, os Hagiógrafos) existiam antes do ano 130 a.C., como aparece no prólogo do Eclesiástico, que não data abaixo deste ano. É difícil determinar também onde as diversas traduções foram feitas pois as informações são muito escassas. A julgar pelas palavras e expressões egípcias que ocorrem na versão, a maioria dos livros deve ter sido traduzida no Egito, muito provavelmente na Alexandria. Ester, entretanto, foi traduzido em Jerusalém (XI, 1). Quem e quantos eram os tradutores? Existe algum fundamento para o número de 72, como declara a lenda (Brassac-Vigouroux, nº 105)? Parece impossível responder essas questões; os talmudistas dizem que o Pentateuco foi traduzido por cinco intérpretes (Sopherim, c.1.). A história não nos oferece outros detalhes, mas um exame do texto mostra que, em geral, os autores não eram judeus palestinenses enviados ao Egito; diferenças de terminologia, método etc. provam claramente que os tradutores não eram os mesmos para os diferentes livros. É impossível também dizer se a obra foi executada oficial ou privativamente, como parece ser o caso de Eclesiástico; contudo, os diferentes livros, após traduzidos e dispostos em conjunto (o autor de Eclesiástico conhecia a coleção), foi recebida como oficial pelos judeus de língua grega.

3. História Subseqüente
Recensões
A versão grega, conhecida como Septuaginta, foi bem acolhida pelos judeus alexandrinos, que logo a difundiu pelas nações onde o grego era falado; foi usada por diferentes escritores e suplantou o texto original nas cerimônias litúrgicas. Filo de Alexandria a utilizou em seus escritos e considerava os tradutores profetas inspirados; finalmente, ela foi acolhida pelos judeus da Palestina e foi notavelmente empregada por Josefo, historiador judeu palestinense. Sabemos também que os escritores do Novo Testamento fizeram uso dela, utilizando-a na maioria de suas citações. Ela tornou-se o Antigo Testamento da Igreja e foi altamente estimada pelos cristãos primitivos, de modo que muitos escritores e padres declararam-na inspirada. Os cristãos recorriam à ela constantemente em suas controvérsias com os judeus; estes logo reconheceram suas imperfeições e, finalmente, a rejeitaram em favor do texto hebraico ou de traduções mais literais (Áquila e Teodocião).
Correções críticas de Orígenes, Luciano e Hesíquio
Em razão de sua difusão entre os judeus helenizantes e cristão primitivos, as cópias da Septuaginta passaram a se multiplicar e, como seria de se esperar, muitas alterações - algumas propositais, outras involutárias - foram surgindo. Logo sentiu-se a necessidade de restaurar o texto à sua pureza original. Eis um brevíssimo relato das tentativas de correção:

1.     Orígenes reproduziu o texto da Septuaginta na quinta coluna de sua Hexápla. Marcou com obeli os textos que ocorriam na Septuaginta e que não se encontravam no original; adicionou de acordo com a versão de Teodocião e distinguiu com asteriscos e metobeli os textos do original que não se encontravam na Septuaginta; adotou das variantes da versão grega os textos que eram mais próximos ao hebraico; e, finalmente, transpôs o texto onde a ordem da Septuaginta não correspondia à ordem do texto hebraico. Sua recensão, copiada por Pânfilo e Eusébio, foi chamada de Hexápla para distingui-la da versão previamente empregada, chamada comum, vulgar, koiné ou antehexápla. Foi adotada na Palestina.

2.     São Luciano, sacerdote de Antioquia e mártir, no início do séc. IV, publicou uma edição corrigida de acordo com o hebraico; tal edição reteve o nome de koiné, edição vulgar, e, às vezes, é chamada de Loukianos após o nome de seu autor. No tempo de São Jerônimo, estava sendo usada em Constantinopla e Antioquia.

3.     Finalmente, Hesíquio, um bispo egípcio, publicou, quase que ao mesmo tempo, uma nova recensão, difundida principalmente no Egito.

Manuscritos
Os três manuscritos mais conhecidos da Septuaginta são: o Vaticano (Codex Vaticanus), do séc. IV; o Alexandrino (Codex Alexandrinus), do séc. V, atualmente no Museu Britânico de Londres; e o do Monte Sinai (Codex Sinaiticus), do séc. IV, descoberto por Tischendorf no convento de Santa Catarina, no Monte Sinai, em 1844 e 1849, sendo que parte se encontra em Leipzig e parte em São Petersburgo. Todos foram escritos em unciais. O Codex Vaticanus é o mais puro dos três; é geralmente tido como o texto mais antigo, embora o Codex Alexandrinus carregue consigo o texto da Hexápla e tenha sido alterado segundo o texto massorético. O Codex Vaticanus é referido pela letra B; o Codex Alexandrinus, pela letra A; e o Codex Sinaiticus, pela primeira letra do alfabeto hebraico (aleph) ou S. A Biblioteca Nacional de Paris possui também um importante palimpsesto manuscrito da Septuaginta, o Codex Ephraemirescriptus (designado pela letra C) e dois manuscritos de menor valor (64 e 114), em cursivas, um pertencente ao séc. X ou XI e o outro, ao séc. XIII (Bacuez e Vigouroux, 12ª ed., nº 109).
Edições Impressas
Todas as edições impressas da Septuaginta são derivadas das três recensões acima citadas.

·        A Editio Princeps é a da Complutensiana ou de Alcalá. Provém da Hexápla de Orígenes. Impressa em 1514-18, não foi publicada até aparecer na Poliglota do card. Ximenes, em 1520.

·        A edição Aldine (iniciada por Aldo Manúcio) apareceu em Veneza em 1518. O texto é mais puro que a edição Complutensiana e está mais próxima do Códice B. O editor diz que colecionou manuscritos antigos mais não os especifica. Foi reimpressa várias vezes.

·        A mais importante edição é a Romana ou Sixtina, que reproduz quase que exclusivamente o Codex Vaticanus. Foi publicada sob a direção do card. Caraffa, com o auxílio de vários sábios, em 1586, sob a autoridade de Sixto V, com o objetivo de socorrer os revisores que preparavam a nova edição da Vulgata latina ordenada pelo Concílio de Trento. Tornou-se, assim, o textus receptus do Antigo Testamento grego e teve diversas novas edições, tais como a de Holmes e Pearsons (Oxford, 1798-1827), as sete edições de Tischendorf, que apareceram em Leipzig entre 1850 e 1887 (as duas últimas publicadas após a morte do autor e revisadas por Nestle), as quatro edições de Swete (Cambridge, 1887-95, 1901, 1909), etc.

·        A edição de Grabe, publicada em Oxford de 1707 a 1720, reproduzindo, imperfeitamente, o Codex Alexandrinus de Londres.

Para edições parciais, v. Vigouroux, "Dicionário da Bíblia", pp. 1643ss.
4. Valor Crítico e Linguagem
Valor Crítico
A versão da Septuaginta, embora ofereça exatamente em forma e substância o verdadeiro sentido dos Livros Sagrados, difere consideravelmente do atual texto hebraico (Massorético). Essas discrepâncias, porém, não são de grande importância, mas apenas assunto de interpretação. Podem ser assim classificadas: algumas são oriundas dos tradutores que tiveram à sua disposição recensões hebraicas diferentes daquelas que são conhecidas como massoréticas; às vezes os textos variam, outras vezes, os textos são idênticos, mas lidos em ordem diferente. Outras discrepâncias devem-se à personalidade dos tradutores; para não se falar da influência exercida em suas obras em razão de seus métodos de interpretação, as dificuldades inerentes da tarefa, seus maiores ou menores conhecimentos de grego e hebraico: eles acabaram traduzindo diferentemente dos massoretas justamente porque liam os textos de forma diferente; é pois natural que o hebraico, escrito em caracteres quadrados, e certas consoantes bem similares na forma fossem vez ou outra confundidos, ocasionando erros de tradução; mais: o texto hebraico era escrito sem qualquer espaçamento entre as palavras e os tradutores facilmente poderiam confundir a separação das palavras; finalmente, como o texto hebraico não dispunha de vogais, eles poderiam suprir as palavras com vogais diversas daquelas que foram usadas mais tarde pelos massoretas. Novamente, não devemos achar que possuímos atualmente o exato texto grego como foi escrito pelos tradutores; as freqüentes transcrições feitas durante os primeiros séculos, assim como as correções e edições de Orígenes, Luciano e Hesíquio danificaram a pureza do texto: voluntária ou involuntariamente, os copistas permitiram a ocorrência de muitas corrupções textuais, transposições, adições e omissões no texto primitivo da Septuaginta. Em particular, podemos notar a adição de passagens paralelas, notas explanatórias ou traduções duvidosas causadas pelas notas marginais. A este respeito, v. "Dicionário da Bíblia" art. cit., e Swete, "Uma Introdu ção ao Antigo Testamento em Grego".
Linguagem
Todos
admitem que a versão da Septuaginta foi redigida em grego popular, a koine dislektos. Mas o grego do Antigo Testamento era um idioma especial? Muitas autoridade garantem que sim, embora discordem quanto à sua real característica. O "Dicionário da Bíblia", em seu verbete "Grego bíblico", assegura que era "o grego hebraizante falado pela comunidade judaica de Alexandria", o grego popular de Alexandria "com uma larga mistura de hebraísmos". O mesmo dicionário, no verbete "Septante", menciona a mais recente opinião de Deissmann de que o grego da Septuaginta é meramente o grego vernacular ordinário, a pura koine daquela época. Deissmann baseia sua teoria na semelhança perfeita da linguagem da Septuaginta com a dos papiros e inscrições do mesmo período; ele acredita que as peculiaridades sintáticas da Septuaginta, que a princípio parecem favorecer a teoria de uma linguagem especial (um grego hebraicizado), são suficientemente explicadas pelo fato da Septuaginta ser a tradução grega de livros hebraicos.

 

19. A ACEITAÇÃO DO CÂNON AMPLO DA LXX NA PALESTINA SO SÉCULO I

Não é incomum ouvirmos o seguinte argumento protestante:

"A Septuaginta e os livros 'apócrifos' nunca foram aceitos ou usados pelos judeus na Judéia do primeiro século"

No entanto, partes da Septuaginta foram encontradas na Judéia, entre os manuscritos do Mar Morto, sendo anteriores ao ano 70 d.C.. Alguns exemplares foram encontrados na caverna 4 (119LXXLev.; 120papLXXLev.; 121 LXXNum.; 122LXXDeut.). Há também um texto não identificado da Septuaginta grega, encontrado na caverna 9 (Q9).
Em acréscimo a esses fragmentos, existe um fragmento de papiro, escrito em grego, encontrado na caverna 7 (LXXExod.). A caverna 7 produziu ainda muitos pequenos fragmentos em grego (da Septuaginta), cujas identificações permanecem em discussão ou sem classificação. O dr. Emanuel Tov sugere as seguintes identificações para alguns destes fragmentos gregos do primeiro século antes de Cristo:
7Q4. Números 14,23-24;
7Q5. Êxodo 36,10-11; Números 22,38;
7Q6. 1 Salmo 34,28; Provérbios 7,12-13;
7Q6. 2 Isaías 18,2
7Q8. Zacarias 8,8; Isaías 1,29-30; Salmo 18,14-15; Daniel 2,43; Eclesiastes 6,3.
No meio destas porções da Septuaginta, foram encontrados manuscritos parciais contendo alguns termos dos livros "apócrifos":

4Q478 [Tobias], 4Q383 e 7QLXXEpJer. [Epístola de Jeremias], para citar apenas alguns.

É importante notar que nas cavernas de Qumran (de onde provêm os "manuscritos do Mar Morto"), foi encontrada uma cópia do livro do "Eclesiástico" na língua hebraica [manuscrito 2QSir.], bem como um fragmento de "A História de Suzana" (correspondente ao capítulo 13 do livro de Daniel), também em hebraico [manuscrito 4Q551]. Já na caverna 4 de Qumran, foram encontrados fragmentos do livro "apócrifo" de Tobias, nas línguas aramaica [manuscrito 4Q196-9] e hebraica [manuscrito 4Q200].
Deve-se observar, também, que as cavernas de Qumran não são o único lugar na Judéia em que se encontraram livros "apócrifos". Outro exemplo é a cópia do livro do "Eclesiástico" (ou "A Sabedoria do Filho de Sirá"), em hebraico, encontrada nas ruínas de Massada. Este fragmento manuscrito data do início do século I a.C..
Alguns, porém, poderão argumentar que:

"Os ebionitas (ou seita de Qumran) eram um grupo estranho, que nunca veio a fazer parte do ramo principal do judaísmo"

Mas se lermos o Novo Testamento, verificaremos que naquele tempo não existia nenhum "ramo principal do judaísmo", como, ao contrário, existe hoje. Nesse sentido, explica o pesquisador protestante dr. Martin Abegg:

"Tanto no judaísmo moderno quanto no cristianismo, uma 'seita' é, geralmente, um ramo de um tronco religioso maior e é freqüentemente vista com excêntrica ou desviada nas suas crenças. Mas os pesquisadores e leigos deveriam recordar que durante todo o período de existência de Qumran, os fariseus e os saduceus eram 'seitas', assim como eram os essênios! Foi apenas a partir do século II d.C. que passou a se formar um tipo de judaísmo - aquele dos fariseus, dos rabis - que veio a se tornar padrão para o povo judeu como um todo.
Tais matérias são de menor importância se comparadas com os manuscritos bíblicos. Primeiro, porque todos os pesquisadores concordam que nenhum dos textos bíblicos (tais como Gênese ou Isaías) foi composto em Qumran; ao contrário, todos eles se originaram antes do período de Qumran. Também é aceito que muitos ou a maioria desses manuscritos foram trazidos de fora para Qumran e, depois, aí reproduzidos. Isto significa que o valor da maioria dos manuscritos bíblicos enganam, não em estabelecer precisamente onde foram escritos ou copiados, mas especificamente quanto ao estudo das formas textuais que encerram" [The Dead Sea Scrolls Bible (=A Bíblia nos Manuscritos do Mar Morto), (C) 1999, pg. XVI]

Encontramos um bom exemplo do uso da Septuaginta (a qual contém os "apócrifos") entre os judeus da Judéia quando lemos os capítulos 6 e 7 dos Atos dos Apóstolos. Aí lemos que Santo Estêvão, cheio do Espírito Santo (At. 6,10), foi levado ao Sinédrio pela multidão (At. 6,12); Estêvão, então, se dirigiu aos judeus e contou-lhes como Jacó trouxe seus 75 descendentes para o Egito:

Atos 7,14-15: "Então José mandou buscar Jacó, seu pai, e toda sua parentela, em número de setenta e cinco pessoas. Desceu Jacó para o Egito e aí morreu, ele e também nossos pais".

Mas os manuscritos hebraicos nos dizem que Jacó trouxe 70 descendentes para o Egito (cf. Gên. 46,26-27; o texto hebraico também recorda "70" em Deut. 10,22 e Ex. 1,5). Ora, o Sinédrio judaico e os sacerdotes bem sabiam que Deut. 4,2; 12,32; Sal. 12,6-7 e Prov. 30,6 proíbem que se acrescente ou retire algo da Palavra de Deus. Com efeito, por que o Sinédrio e os sacerdotes não se escandalizaram com a afirmativa feita por Estêvão, de que Jacó trouxera 75 descendentes? Por que não o acusaram de "perverter a Escritura"? Quando lemos esses versículos, notamos que os judeus pareciam nem mesmo piscar. Em ponto algum desta passagem encontramos qualquer sugestão de que a raiva nutrida pelos judeus contra Estêvão havia se originado de uma possível "perversão das Escrituras". Ao contrário, eles mataram Estêvão porque foram por este confrontados com a pessoa do Senhor Jesus - que era realmente o Cristo, e, ao contrário de ser por eles recebido, foi assassinado do mesmo modo que seus predecessores, os profetas (At. 7,51-53)!
A explicação para a discrepância numérica na história de Jacó narrada por Estêvão é simples: ele está citando Gênese (46,26-27) a partir da versão grega da Septuaginta, a qual possui cinco nomes a mais (total de 75 nomes) que o texto massorético hebraico. Os cinco nomes que faltam no texto hebraico foram preservados na Septuaginta, em Gên. 46,20, onde Makir, filho de Manassés, e Makir, filho de Galaad (=Gilead, no hebraico), são apontados, posteriormente, como os dois filhos de Efraim, Taam (=Tahan, no hebraico) e Sutalaam (Shuthelah, no hebraico) e seu filho Edon (Eran, no hebraico).
O Sinédrio certamente teria contestado a afirmação de Estêvão se a Septuaginta não fosse usada ou aceita pelos judeus da Judéia. Com efeito, o fato de a Septuaginta ter sido encontrada entre os manuscritos do Mar Morto bem demonstra que esse era o caso.
Sendo, pois, uma realidade que ambas as versões (a Septuaginta e a hebraica) eram de uso comum na Judéia do primeiro século, o Sinédrio não se surpreendeu ou se escandalizou com a declaração de Estêvão. Afinal, o fato de serem 70 ou 75 o número de descendentes de Jacó não se revelava doutrina importante para os judeus e, ao que parece, também havia muitos judeus no outro lado da questão.

Eis alguns dos papiros e manuscritos primitivos da Septuaginta:
Século II a.C.:
1. 4QLXXDeut [#819] (rolo em pergaminho, Deut. 11)("couro");
2. PRyl 458 [#957 = vh057] (rolo em papiro, Deut. 23-28).
Séculos II/I a.C.
3. 7QLXXEx [#805 = vh038] (rolo em papiro, Ex. 28);
4. 4QLXXLev\a [#801 = vh049] (rolo em pergaminho, Lev. 26) ("couro");
5. 7QLXX EpJer [#804 = vh312] (rolo em papiro, EpJer/Bar6);
6. 7Q4, 7Q8, 7Q12 (rolo em pergaminho, Epístola de Enoque = "1Enoque" 103).
Século I a.C.
7. 4Q127 (rolo em papiro, paráfrase grega de Êxodo?);
8. PFouad266a [#942] (rolo em papiro, Gên.);
9. 4QLXXLev\b [#802 = vh046] (rolo em papiro, Lev. 2-5);
10. PFouad 266b [#848 = vh56] (rolo em papiro, Deut. 17-33);
11. PFouad 266c [#847 = vh56] (fins do séc. I a.C., rolo em papiro, Deut. 10-33).
Entre Eras a.C. e d.C
12. 4QLXXNu [#803 = vh051] (rolo em pergaminho, Núm. 3-4).
Século I d.C.
13. POxy 3522 [#??] (rolo em papiro, Jó grego 42).
Séculos I/II d.C.
14. POxy 4443 [#??] (rolo em papiro, Ester grego, Est. 8-9); 15. PBodl 5 [#2082] (código em pergaminho, Salmo grego, Sal. 48-49).

 

20. PALAVRA DE DEUS = BÍBLIA + TRADIÇÃO + MAGISTÉRIO

Desde o princípio, Deus fala com sua Igreja através da Bíblia e da Sagrada Tradição. Para garantir que sejam compreendidas por nós, Deus guia a autoridade de ensino da Igreja - o Magistério - para que esta possa interpretar perfeitamente a Bíblia e a Sagrada Tradição. Eis a dádivá da infalibilidade! Esses três elementos - a Bíblia, a Sagrada Tradição e o Magistério - são todos necessários para que haja a estabilidade da Igreja e para garantir a segurança da doutrina.

1.     A Sagrada Tradição (Catec.Igr.Cat. 75-83)
A Sagrada Tradição não deve ser confundida com a simples tradição humana, geralmente chamada de costume ou disciplina. Algumas vezes Jesus condenou os costumes ou disciplinas, mas somente quando estes contradiziam os Mandamentos de Deus (cf. Mc 7,8). Jesus nunca condenou a Sagrada Tradição e nem todas as tradições humanas.
A Sagrada Tradição e a Bíblia não são diferentes, nem são revelações concorrentes. Na verdade, são dois modos de como a Igreja segue o Evangelho. Os ensinamentos apostólicos como a Santíssima Trindade, o batismo das crianças, a infalibilidade da Bíblia, o purgatório e a virgindade perpétua de Maria têm sido, de forma muito clara, demonstrada pela Sagrada Tradição, ainda que estejam implicitamente presentes (e não em contradição) na Bíblia. A própria Bíblia nos remete à Tradição, tanto na forma oral quanto escrita (cf. 2Ts 2,15; 1Cor 11,2).
Como dissemos, a Sagrada Tradição não deve ser confundida com os costumes e as disciplinas, como o rosário, o celibato sacerdotal e a proibição de comer carne nas sextas-feiras da Quaresma; tais costumes são bons e úteis, mas não doutrinas. A Sagrada Tradição preserva as doutrinas pregadas por Jesus primeiro aos seus Apóstolos e, mais tarde, repassadas aos sucessores dos Apóstolos, isto é, aos bispos.

2.     As Sagradas Escrituras (Catec.Igr.Cat. 101-141)
As Sagradas Escrituras, que englobam o Antigo e o Novo Testamento, foram inspiradas por Deus (2Tm 3,16). Foi o Espírito Santo que guiou os autores bíblicos a escreverem aquilo que Ele desejava revelar. Já que Deus é o principal autor da Bíblia e Deus é Verdade (cf. Jo 14,6), não pode Ele ensinar algo errado e, assim, a Bíblia está isenta de qualquer erro, em tudo que ela defende como Verdade.
Alguns cristão dizem: "A Bíblia é tudo do que preciso", contudo, tal afirmativa não se encontra na própria Bíblia. Na verdade, a Bíblia ensina justamente o contrário, como lemos em 2Pd 1,20-21 e 2Pd 3,15-16). Além disso, a teoria de que "somente a Bíblia basta" nunca foi professada pela Igreja primitiva.
Trata-se, assim, de um conceito novo, surgido durante a Reforma Protestante do séc. XVI. Tal teoria é "tradição dos homens" que anula a Palavra de Deus, distorcendo a verdadeira regra bíblica e excluindo a autoridade da Igreja estabelecida por Jesus (cf. Mc 7,1-8).
Ainda que seja popular em muitas igrejas cristãs, a teoria de que "somente a Bíblia basta" simplesmente não funciona na prática. A experiência histórica desaprova essa idéia pois a cada ano vemos surgir mais e mais religiões, cada qual com uma interpretação bíblica diferente.
Existem hoje dezenas de milhares de denominações, cada qual afirmando que sua interpretação particular da Bíblia é a correta. As divisões que geram causam confusões indescritíveis entre milhões de cristãos sinceros, mas desorientados.
[Para se ter uma idéia,] basta abrir as páginas amarelas da lista telefônica para verificarmos quantas denominações diferentes estão catalogadas, cada uma dizendo que "somente a Bíblia basta", mas nenhuma concordando exatamente com a interpretação bíblica de todas as demais.
Porém, podemos ter a certeza de uma coisa: o Espírito Santo não pode ser o autor de toda essa confusão (cf. 1Cor 14,33). Deus não pode conduzir as pessoas através de crenças contraditórias já que a Verdade é uma só. Que conclusão podemos então tirar? De que a teoria que diz que "somente a Bíblia basta" [para o cristão] é falsa.

3.     O Magistério (Catec.Igr.Cat. 85-87; 888-892)
Juntos, o papa e os bispos compõem a autoridade de ensino da Igreja, que é chamada de "Magistério" (do latim Magisterium que significa Mestre). O Magistério, guiado e protegido contra o erro pelo Espírito Santo, nos dá a certeza da doutrina. A Igreja defenda e proclama a mensagem da Bíblia fiel e precisamente. Trata-se de uma tarefa da Igreja, autorizada por Deus.
Devemos ter em mente que a Igreja nasceu antes da redação do Novo Testamento; e não o inverso! Os membros da Igreja, inspirados por Deus, escreveram os livros que formam o Novo Testamento da mesma maneira como os escritores do Antigo Testamento também eram divinamente inspirados; e é a Igreja que é guiada pelo Espírito Santo para guardar e interpretar toda a Bíblia, tanto o Novo quanto o Antigo Testamento.
Assim, torna-se absolutamente necessário um intérprete oficial quando precisamos compreender a Bíblia apropriadamente (ora, todos nós sabemos o que diz a Constituição Federal, porém, cabe ao Supremo Tribunal Federal interpretá-la realmente).
O Magistério é infalível quando ensina oficialmente já que Jesus prometeu enviar o Espírito Santo para guiar os Apóstolos e seus sucessores no conhecimento de toda a Verdade (cf. Jo 16,12-13).

 

21. DEFENDENDO OS DEUTEROCANÔNICOS

Quando católicos e protestantes falam sobre a Bíblia, os dois grupos atualmente possuem dois livros diferentes
No século 16, os reformadores protestantes removeram uma parte do Antigo Testamento que não era compatível com a sua teologia. Diziam que estes livros não eram inspirados e os chamaram de "apócrifos".
Os católicos se referem a eles como "deuterocanônicos" (pois foram disputados por alguns autores e sua canonicidade foi estabelecida mais tarde que o resto), enquanto que os demais livros são chamados de "protocanônicos" (sua canonicidade foi estabelecida primeiro).
Seguindo o argumento protestante sobre a integridade da Bíblia, a Igreja Católica reafirmou a inspiração divina dos livros deuterocanônicos no Concílio de Trento em 1546. Fazendo isto, ela reafirmou o que já havia sendo crido desde os tempos primitivos.
Quem organizou o Antigo Testamento?
A Igreja não nega que aqui existem alguns livros que são realmente "apócrifos". Durante a era da igreja primitiva, existiam manuscritos que supunham ser inspirados, mas não eram. Muitos chegaram até nós, como o "Apocalipse de Pedro" e o "Evangelho de Tomé", cujas igrejas cristãs rejeitaram como não pertencendo às Escrituras.
Durante o primeiro século, os judeus discordavam sobre a constituição do cânon das Escrituras. De fato, havia muitos "cânons" sendo usados, incluindo livros usados por cristãos. Para combater a disseminação do rito cristão, os rabinos se encontraram na cidade de Jâmnia em 90 d.C. para determinar quais os livros que continham as verdadeiras palavras de Deus. Pronunciaram-se afirmando que muitos livros, incluindo os Evangelhos, eram impróprios para serem considerados Escritura Sagrada. Este cânon também excluiu 7 livros (Baruc, Sirácida, 1 e 2 Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, e algumas porções de Daniel e Esther) que os cristãos consideravam como parte do Antigo Testamento.
O grupo de judeus que estavam em Jâmnia tornou-se o grupo dominante no decorrer da história judaica, e hoje muitos judeus aceitam tal cânon. Entretanto, alguns judeus, como os da Etiópia, seguiam um cânon diferente, e idêntico ao cânon Católico do Antigo Testamento, pois incluíam os sete livros deuterocanônicos (cf. Enciclopédia Judaica, vol 6, p. 1147).
Não é necessário dizer que a Igreja não aderiu ao resultado de Jâmnia. Primeiro, um Concílio judaico após a época de Cristo não guarda ligações com os seguidores de Cristo. Segundo, Jâmnia rejeitou precisamente os documentos que constituíam a base da Igreja Cristã - os Evangelhos e outros documentos do Novo Testamento. Terceiro, rejeitando os deuterocanônicos, Jâmnia rejeitou livros que foram usados por Jesus e os apóstolos e que estavam contidos na edição da Bíblia que os apóstolos usaram no dia-a-dia - a Septuaginta.
Os apóstolos e os deuterocanônicos
A aceitação pelos cristãos dos deuterocanônicos era lógica porque estes estavam incluídos na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento que os apóstolos usaram para evangelizar. Dois terços das citações do Antigo Testamento no Novo são oriundos da Septuaginta. Em nenhuma parte os apóstolos falaram aos seus discípulos ou convertidos para evitar estes sete livros ou alguma doutrina contida nele. Assim como os judeus pelo mundo que usam a versão da Septuaginta, os primeiros cristãos aceitaram os livros encontrados nela. Sabiam que os apóstolos não iriam engana-los ou arriscar suas almas colocando falsas Escrituras em suas mãos - especialmente não os avisando contra isto.
Mas os apóstolos não colocaram os deuterocanônicos nas mãos de seus convertidos simplesmente como parte da Septuaginta. Eles regularmente citavam-nos em seus escritos. Por exemplo, Hebreus 11 nos encoraja a imitar os heróis do Antigo Testamento e no Antigo Testamento "mulheres houve, até, que receberam ressuscitados os seus mortos. Alguns foram torturados, rejeitados, não querendo o seu resgate, para alcançarem melhor ressurreição" (Hb 11,35).
Existem alguns exemplos de mulheres recebendo de volta seus mortos pela ressurreição no Antigo Testamento protestante. Você pode achar Elias ressuscitando o filho da viúva de Sarepeta em 1 Reis 17, e você pode achar seu sucessor Eliseu ressuscitando o filho da mulher sunamita em 2 Reis 4, mas uma coisa não se poderá achar - em nenhum lugar no Antigo testamento protestante, do começo ao fim, de Gênesis a Malaquias - alguém é torturado e rejeita o seu resgate para alcançarem melhor ressurreição. Querendo achar tal fato, deve procurar no Antigo Testamento da Bíblia católica - justamente nos livros deuterocanônicos que Martinho Lutero Retirou de sua Bíblia.
Esta história é encontrada em 2 Mac 7, onde lemos que durante a perseguição dos Macabeus, "Aconteceu também que, tendo sido presos sete irmãos com sua mãe, o rei os queria obrigar a comer carne de porco contra a lei...os outros irmãos exortavam-se mutuamente com sua mãe, a morrerem corajosamente, dizendo: 'O Senhor Deus vê e consola-se em nós'...Morto deste modo o primeiro, levaram o segundo ao suplício...respondendo na língua dos seus pais, disse: Não! Pelo que este também padeceu os mesmos tormentos que o primeiro. Estando já para dar o último suspiro, disse desta maneira: 'tu ó malvado, faze-nos perder a vida presente, mas Deus, o Rei do universo, nos ressuscitará para a vida eterna, a nós que morremos, por fidelidade às suas leis" (2 Mac 7,1.5-9).
Os filhos morreram um por um, proclamando que eles serão recompensados pela ressurreição. "Entretanto a mãe deles, sobremaneira admirável e digna de memória, vendo morrer os seus sete filhos em um só dia, suportou heroicamente a sua morte, pela esperança que tinha no Senhor. Cheia de nobres sentimentos, exortava, na língua dos seus pais, a cada um deles em particular, dando firmeza... Dizia-lhes: 'não sei como fostes formados em meu ventre; não fui eu quem vos deu o espírito e a vida, ou que formei os membros do vosso corpo. O criador do mundo, que formou o homem no seu nascimento e deu a origem a todas as coisas, vos tornará a dar o espírito e a vida, por sua misericórdia, em recompensa do quanto agora vos desprezais a vós mesmos, por amor das suas leis", Diz o último irmão, "Não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos, aceita a morte, para que eu te encontre com eles no dia da misericórdia" (2 Mac 7,20-23.29).
Este é uma das referências do Novo Testamento aos deuterocanônicos. Os primeiros cristãs reconheciam amplamente estes livros como Escrituras Sagradas, não somente porque os apóstolos os colocaram em suas mãos, mas porque também se referiram a eles no próprio Novo Testamento, citando o que recordavam como exemplos a serem seguidos.
Os Pais falam
A aceitação dos deuterocanônicos é evidente ao longo da história da Igreja. O historiador protestante J.N.D. Kelly escreve:

"Deveria ser observado que o Antigo Testamento admitido como autoridade na Igreja era algo maior e mais compreensivo que o Antigo Testamento protestante...ela sempre incluiu, com alguns graus de reconhecimento, os chamados apócrifos ou deuterocanônicos. A razão para isso é que o Antigo Testamento que passou em primeira instância nas mãos dos cristãos era... a versão grega conhecida como Septuaginta... a maioria das citações nas Escrituras encontradas no Novo Testamento são baseadas nelas preferencialmente do que a versão hebraica... nos primeiros dois séculos... a Igreja parece ter aceitado a todos, ou a maioria destes livros adicionais, como inspirados e trataram-nos sem dúvida como Escritura Sagrada. Citações de Sabedoria, por exemplo, ocorrem em 1 Clemente e Barnabé... Policarpo cita Tobias, e o Didache cita Eclesiástico. Irineu se refere a Sabedoria, a história de Susana, Bel e o dragão (livro de Daniel), e Baruc. O uso dos deuterocanônicos por Tertuliano, Hipólito, Cipriano e Clemente de Alexandria é tão freqüente que referências detalhadas são necessárias" (Doutrina Cristã Antiga, 53-54).

O reconhecimento dos deuterocanônicos como parte da Bíblia dada pessoalmente pelos pais também foi conferida por esses mesmos pais como uma regra, quando se encontravam nos Concílios da Igreja. Os resultados dos Concílios são especialmente úteis porque não representam a visão de uma só pessoa, mas o que fora aceito pelos líderes da Igreja de todas as regiões.
O cânon das Escrituras, Antigo e Novo Testamento, foi fixado definitivamente no Concílio de Roma em 382, sob a autoridade do Papa Damaso I. E foi logo reconhecido por sucessivos Concílios, tanto regionais como gerais. O mesmo cânon foi firmado no Concílio de Hipona em 393 e no de Cartago em 397. O fato destes Concílios não serem "ecumênicos" não rejeita o fato de suas decisões não serem aceitos como baseadas em verdade de fé. Em 405 o Papa Inocêncio I reafirmou o cânon em uma carta ao bispo Exuperius de Toulouse. Outro Concílio de Cartago, este no ano de 419, reafirmou o cânon como os seus predecessores e pediu ao papa Bonifácio que "confirme este cânon, pois estas são as que recebemos de nossos pais para serem lidos na Igreja". Todos estes canos formavam a mesma Bíblia católica atual, todos eles incluindo os deuterocanônicos.
Este mesmo cânon foi implicitamente confirmado no sétimo Concílio Ecumênico, o de Nicéia II (787), que aprovou os resultados do Concílio de Cartago de 419, e explicitamente reafirmou nos Concílios Ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546), Vaticano I (1870) e Vaticano II (1965).
As acusações protestantes
Os deuterocanônicos mostram doutrinas da Igreja Católica, e por esta razão eles foram retirados do Antigo Testamento por Lutero e colocados como apêndice sem números de páginas! Lutero também retirou livros do Novo Testamento - Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse - e os colocou como apêndice, sem páginas, da mesma forma que os outros. Estes foram mais tarde recolocados de volta no Novo Testamento por outros protestantes, mas os 7 livros do AT foram deixados. Em 1827, o British and Foreign Bible Society retirou também este apêndice, sendo este o motivo pelo qual não são encontrados nas Bíblias protestantes mais contemporâneas, apesar de ainda serem encontradas em traduções protestantes clássicas, como a King James Version.
A razão porque eles foram retirados é que ensinam doutrinas católicas que os protestantes rejeitam. Acima citamos um exemplo onde a carta aos Hebreus nos mostra um exemplo do Antigo Testamento contido em 2 Mac 7, um incidente não encontrado em nenhuma Bíblia protestante, mas facilmente localizada na Bíblia católica. Porque Lutero teria retirado este livro se ele claramente serviu de fonte para aquela parte do Novo Testamento? Simples: alguns capítulos mais adiante o livro apóia a prática da oração às almas dos mortos para que sejam purificados das conseqüências dos seus pecados (2 Mac 12,41-45); em outras palavras, a doutrina católica do purgatório. Desde que Lutero rejeitou o ensino histórico do purgatório (que data de antes de Cristo, como mostra o livro de Macabeus), ele teve que retirar este livro da Bíblia e coloca-lo como apêndice. (Note que ele também retirou Hebreus, o livro que cita 2 Macabeus, e o colocou também como apêndice)
Para justificar esta rejeição a livros que estavam na Bíblia desde tempos antes dos apóstolos (a Septuaginta foi escrita antes dos apóstolos), os primeiros protestantes recorreram ao fato de que os judeus daqueles dias não honraram tais livros, retornando assim ao Concílio de Jâmnia. Mas os reformadores estavam atentos apenas aos judeus europeus; não prestando a devida atenção aos judeus africanos, como os etíopes, que aceitavam os deuterocanônicos como parte de sua Bíblia. Eles censuraram as referências ao deuterocanônicos no Novo Testamento, assim como seu uso da Septuaginta. Ignoraram o fato de que existiam múltiplos cânnos judaicos circulando no primeiro século, apelando a um Concílio judaico pós-cristão que não possuía nenhuma autoridade para com os cristãos para se falar que "os judeus não aceitaram estes livros". Na verdade, foram longe tentar buscar algo que suportasse a rejeição a estes livros da Bíblia.
Reescrevendo a história da Igreja
Anos mais tarde eles até iniciaram a propagação do mito de que a Igreja Católica "adicionou" estes sete livros à Bíblia no Concílio de Trento.
Os protestantes também tentaram distorcer as evidências patrísticas em favor do deuterocanônicos. Alguns superficialmente afirmam que os Pais da Igreja não os aceitavam, enquanto outros fazem reivindicações comedidas que certos importantes pais, como Jerônimo, também não os aceitava.
É verdade que Jerônimo, e poucos e isoladas escritores, não aceitavam alguns deuterocanônicos como inspirados. Entretanto, Jerônimo fora persuadido, contra sua convicção original, a incluir os deuterocanônicos em sua edição Vulgata pelo fato de que os livros eram comumente aceitos e era esperado que fossem incluídos em todas as edições da Bíblia.
Além do mais, deve ser documentado que em anos mais tarde Jerônimo de fato aceitou certos deuterocanônicos como inspirados. Em sua resposta a Rufino, ele defendeu bravamente as partes deuterocanônicas de Daniel mesmo que os judeus de seu tempo não o fizessem.
Ele escreveu, "Que pecado eu cometi se segui o julgamento da Igreja? Mas ele que traz acusações contra mim por relatar as objeções a que os judeus estavam acostumados a formar contra a história de Susana... e a história de Bel e o dragão, que não se acham nos volumes hebraicos, provam que ele é apenas um bajulador insensato. Eu não estava relatando minha própria visão, mas antes as questões que eles (os judeus) estavam acostumados a fazer contra nós" (Contra Rufinus 11,33 [402 d.C.]). Desta forma Jerônimo reconheceu o princípio pelo qual o cânon foi fixado - o julgamento da Igreja, não dos judeus.
Outros escritores protestantes citam como objeção aos deuterocanônicos, que Atanásio e Orígenes não os aceitavam. Ora, Atanásio aceitava o livro de Baruc (Festal Letter 39) e Orígenes aceitava todos os deuterocanônicos, mas simplesmente recomendava não os usar nos debates com os judeus.
Contudo, apesar de alguns disparates e hesitações de alguns escritores como Jerônimo, a Igreja permaneceu firme em sua afirmação histórica sobre os deuterocanônicos como inspirados e vindos com os apóstolos. O protestante J.N.D. Kelly afirma isto apesar da dúvida de Jerônimo:

"Pela grande maioria, porém, os escritos deuterocanônicos atingiram o grau de inspirados com o máximo de senso. Agostinho, por exemplo, cuja influência no ocidente foi decisiva, não fazia distinção entre eles e o resto do Antigo Testamento... a mesma atitude com os apócrifos foi demonstrada nos Sínodos de Hipona e Cartago em 393 e 397, respectivamente, e também na famosa carta do papa Inocêncio I ao bispo de Toulouse Exuperius, em 405" (Doutrina Cristã Antiga, 55-56).

Este é, portanto, um grande mito pelo qual os protestantes acusam os católicos de terem "adicionado" os deuterocanônicos à Bíblia no Concílio de Trento. Estes livros estavam na Bíblia antes de o cânon pretender ser definido, o que ocorreu só em 380 d.C. tudo o que Trento fez foi reafirmar, em face dos ataques protestantes à Bíblia católica, o que tem sido a histórica Bíblia da Igreja - a edição padrão seria a Vulgata de Jerônimo, incluindo os deuterocanônicos!
Os deuterocanônicos do Novo Testamento
É irônico que os protestantes rejeitem a inclusão dos deuterocanônicos pelos Concílios de Hipona e Cartago, porque nestes Concílios da Igreja antiga também foram definidos os livros do Novo Testamento. Principalmente pelo ano 300 havia uma ampla discussão sobre quais livros exatamente deveriam pertencer ao Novo Testamento. Alguns livros, como os Evangelhos, Atos e a maioria das cartas de Paulo foram rapidamente aceitos. Contudo alguns livros, mais notavelmente Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, e Apocalipse permaneceram em ardente disputa até que o cânon foi fixado. São, de fato, "deuterocanônicos do Novo Testamento".
Enquanto os protestantes aceitam o testemunho dos Concílios de Hipona e Cartago (os Concílios que eles mesmos mais citam) para a canonicidade dos deuterocanônicos do Novo Testamento, não estão dispostos a aceitar o testemunho dos mesmos Concílios para a canonicidade dos deuterocanônicos do Antigo Testamento. Realmente irônico!

 

22. REFERÊNCIAS DO NOVO TESTAMENTO AOS DEUTEROCANÔNICOS DO ANTIGO TESTAMENTO

1. REFERÊNCIAS POR ORDEM DO NOVO TESTAMENTO

·        Evangelho segundo Mateus
Mt 4,4 = Sb 16,26; Mt 4,15 = 1Mc 5,15; Mt 5,18 = Br 4,1; Mt 5,28 = Eclo 9,8; Mt 5,2-4 = Eclo 25,7-12; Mt 5,4 = Eclo 48,24; Mt 6,7 = Eclo 7,14; Mt 6,9 = Eclo 23,1.4; Mt 6,10 = 1Mc 3,60; Mt 6,12 = Eclo 28,2; Mt 6,13 = Eclo 33,1; Mt 6,20 = Eclo 29,10-11; Mt 6,23 = Eclo 14,10; Mt 6,33 = Sb 7,11; Mt 7,12 = Tb 4,15 / Eclo 31,15; Mt 7,16 = Eclo 27,6; Mt 8,11 = Br 4,37; Mt 8,21 = Tb 4,3; Mt 9,36 = Jdt 11,19; Mt 9,38 = 1Mc 12,17; Mt 10,16 = Eclo 13,17; Mt 11,14 = Eclo 48,10; Mt 11,22 = Jdt 16,17; Mt 11,25 = Tb 7,17 / Eclo 51,1; Mt 11,28 = Eclo 24,19 / Eclo 51,23; Mt 11,29 = Eclo 6,24-25 / Eclo 6,28-29 / Eclo 51,26-27; Mt 12,4 = 2Mc 10,3 ; Mt 12,5 = Eclo 40,15; Mt 13,44 = Eclo 20,30-31; Mt 16,18 = Sb 16,13; Mt 16,22 = 1Mc 2,21; Mt 16,27 = Eclo 35,22; Mt 17,1 = Eclo 48,10; Mt 18,10 = Tb 12,15; Mt 20,2 = Tb 5,15; Mt 22,13 = Sb 17,2; Mt 23,38 = Tb 14,4; Mt 24,15 = 1Mc 1,54 / 2Mc 8,17; Mt 24,16 = 1Mc 2,28; Mt 25,35 = Tb 4,17; Mt 25,36 = Eclo 7,32-35; Mt 26-38 = Eclo 37,2; Mt 27,24 = Dn 13,46; Mt 27,43 = Sb 2,13 / Sb 18-20.

·        Evangelho segundo Marcos
Mc 1,15 = Tb 14,5; Mc 4,5 = Eclo 40,15; Mc 4,11 = Sb 2,22; Mc 5,34 = Jdt 8,35; Mc 6,49 = Sb 17,15; Mc 8,37 = Eclo 26,14; Mc 9,31 = Eclo 2,18; Mc 9,48 = Jdt 16,17; Mc 10,18 = Eclo 4,1; Mc 14,34 = Eclo 37,2; Mc 15,29 = Sb 2,17.

·        Evangelho segundo Lucas
Lc 1,17 = Eclo 48,10; Lc 1,19 = Tb 12,15; Lc 1,19 = Tb 12,15; Lc 1,42 = Jdt 13,18; Lc 1,52 = Eclo 10,14; Lc 2,29 = Tb 11,9; Lc 2,37 = Jdt 8,6; Lc 6,35 = Sb 15,1; Lc 7,22 = Eclo 48,5; Lc 9,8 = Eclo 48,10; Lc 10,17 = Tb 7,17; Lc 10,19 = Eclo 11,19; Lc 10,21 = Eclo 51,1; Lc 12,19 = Tb 7,10; Lc 12,20 = Sb 15,8; Lc 13,25 = Tb 14,4; Lc 13,27 = 1Mc 3,6; Lc 13,29 = Br 4,37; Lc 14,13 = Tb 2,2; Lc 15,12 = 1Mc 10,29[30] / Tb 3,17; Lc 18,7 = Eclo 35,22; Lc 19,44 = Sb 3,7; Lc 21,24 = Tb 14,5; Lc 21,24 = Eclo 28,18; Lc 21,25 = Sb 5,22; Lc 24,4 = 2Mc 3,26; Lc 24,31 = 2Mc 3,34; Lc 24,50 = Eclo 50,20-21; Lc 24,53 = Eclo 50,22-23.

·        Evangelho segundo João
Jo 1,3 = Sb 9,1; Jo 3,8 = Eclo 16,21; Jo 3,12 = Sb 9,16 / Sb 18,15-16; Jo 3,13 = Br 3,29; Jo 3,28 = 1Mc 9,39; Jo 3,32 = Tb 4,6; Jo 4,9 = Eclo 50,25-26; Jo 4,48 = Sb 8,8; Jo 5,18 = Sb 2,16; Jo 6,35 = Eclo 24,21; Jo 7,38 = Eclo 24,40 / Eclo 43,30-31; Jo 8,44 = Sb 2,24; Jo 8,53 = Eclo 44,19; Jo 10,20 = Sb 5,4; Jo 10,22 = 1Mc 4,59; Jo 14,15 = Sb 6,18; Jo 15,9-10 = Sb 3,9; Jo 17,3 = Sb 15,3; Jo 20,22 = Sb 15,11.

·        Atos dos Apóstolos
At 1,10 = 2Mc 3,26; At 1,18 = Sb 4,19; At 2,4 = Eclo 48,12; At 2,11 = Eclo 36,7; At 2,39 = Eclo 24,32; At 4,24 = Jdt 9,12; At 5,2 = 2Mc 4,32; At 5,12 = 1Mc 12,6; At 5,21 = 2Mc 1,10; At 5,39 = 2Mc 7,19; At 9,1-29 = 2Mc 3,24-40; At 9,2 = 1Mc 15,21; At 9,7 = Sb 18,1; At 10,2 = Tb 12,8; At 10,22 = 1Mc 10,25 / 1Mc 11,30.33 etc.; At 10,26 = Sb 7,1; At 10,30 = 2Mc 11,8; At 10,34 = Eclo 35,12-13; At 10,36 = Sb 6,7 / Sb 8,3 etc.; At 11,18 = Sb 12,19; At 12,5 = Jdt 4,9; At 12,10 = Eclo 19,26; At 12,23 = Jdt 16,17; At 12,23 = Eclo 48,21 / 1Mc 7,41 / 2Mc 9,9; At 13,10 = Eclo 1,30; At 13,17 = Sb 19,10; At 14,14 = Jdt 14,16-17; At 14,15 = Sb 7,3; At 15,4 = Jdt 8,26; At 16,14 = 2Mc 1,4; At 17,23 = Sb 14,20 / Sb 15,17; At 17,24 = Tb 7,17 / Sb 9,9; At 17,24-25 = Sb 9,1; At 17,26 = Sb 7,18; At 17,27 = Sb 13,6; At 17,29 = Sb 13,10; At 17,30 = Eclo 28,7; At 19,7 = Sb 3,17; At 19,28 = Dn 14,18.41; At 20,26 = Dn 13,46; At 20,32 = Sb 5,5; At 20,35 = Eclo 4,31; At 21,26 = 1Mc 3,49; At 22,9 = Sb 18,1; At 24,2 = 2Mc 4,6; At 26,18 = Sb 5,5; At 26,25 = Jdt 10,13.

·        Epístola aos Romanos
Rm 1,19-32 = Sb 13-15; Rm 1,21 = Sb 13,1; Rm 1,23 = Sb 11,15 / Sb 12,24; Rm 1,28 = 2Mc 6,4; Rm 2,4 = Sb 11,23; Rm 2,11 = Eclo 35,12-13; Rm 2,15 = Sb 17,11; Rm 4,13 = Eclo 44,21; Rm 4,17 = Eclo 44,19; Rm 5,5 = Eclo 18,11; Rm 5,12 = Sb 2,24; Rm 9,4 = Eclo 44,12 / 2Mc 6,23; Rm 9,19 = Sb 12,12; Rm 9,21 = Sb 15,7; Rm 9,31 = Eclo 27,8 / Sb 2,11; Rm 10,7 = Sb 16,13; Rm 10,6 = Br 3,29; Rm 11,4 = 2Mc 2,4; Rm 11,15 = Eclo 10,20-21; Rm 11,33 = Sb 17,1; Rm 12,15 = Eclo 7,34; Rm 13,1 = Eclo 4,27; Rm 13,1 = Sb 6,3-4; Rm 13,10 = Sb 6,18; Rm 15,4 = 1Mc 12,9; Rm 15,8 = Eclo 36,20.

·        1ª Epístola aos Coríntios
1Cor 1,24 = Sb 7,24-25; 1Cor 2,9 = Eclo 1,10; 1Cor 2,16 = Sb 9,13; 1Cor 4,13 = Tb 5,19; 1Cor 4,14 = Sb 11,10; 1Cor 6,2 = Sb 3,8; 1Cor 6,12 = Eclo 37,28; 1Cor 6,13 = Eclo 36,18; 1Cor 6,18 = Eclo 23,17; 1Cor 7,19 = Eclo 32,23; 1Cor 9,19 = Eclo 6,19; 1Cor 9,25 = Sb 4,2; 1Cor 10,1 = Sb 19,7-8; 1Cor 10,20 = Br 4,7; 1Cor 10,23 = Eclo 37,28; 1Cor 11,7 = Eclo 17,3 / Sb 2,23; 1Cor 11,24 = Sb 16,6; 1Cor 15,29 = 2Mc 12,43-44; 1Cor 15,32 = Sb 2,5-6; 1Cor 15,34 = Sb 13,1.

·        2º Epístola aos Coríntios
2Cor 5,1.4 = Sb 9,15; 2Cor 12,12 = Sb 10,16.

·        Epístola aos Gálatas
Gl 2,6 = Eclo 35,13; Gl 4,4 = Tb 14,5; Gl 6,1 = Sb 17,17.

·        Epístola aos Efésios
Ef 1,6 = Eclo 45,1 / Eclo 46,13; Ef 1,17 = Sb 7,7; Ef 4,14 = Eclo 5,9; Ef 4,24 = Sb 9,3; Ef 6,12 = Sb 5,17; Ef 6,14 = Sb 5,18; Ef 6,16 = Sb 5,19.21.

·        Epístola aos Filipenses
Fl 4,5 = Sb 2,19; Fl 4,13 = Sb 7,23; Fl 4,18 = Eclo 35,6.

·        Epístola aos Colossenses
Cl 2,3 = Eclo 1,24-25.

·        1ª Epístola aos Tessalonicenses
1Ts 3,11 = Jdt 12,8; 1Ts 4,6 = Eclo 5,3; 1Ts 4,13 = Sb 3,18; 1Ts 5,1 = Sb 8,8; 1Ts 5,2 = Sb 18,14-15; 1Ts 5,3 = Sb 17,14; 1Ts 5,8 = Sb 5,18.

·        2ª Epístola aos Tessalonicenses
2Ts 2,1 = 2Mc 2,7.

·        1ª Epístola a Timóteo
1Tm 1,17 = Tb 13,7.11; 1Tm 2,2 = 2Mc 3,11 / Br 1,11-12; 1Tm 6,15 = Eclo 46,5 / 2Mc 12,15 / 2Mc 13,4.

·        2ª Epístola a Timóteo
2Tm 2,19 = Eclo 17,26 / Eclo 23,10 (vl) / Eclo 35,3; 2Tm 4,8 = Sb 5,16; 2Tm 4,17 = 1Mc 2,60.

·        Epístola a Tito
Tt 2,11 = 2Mc 3,30; Tt 3,4 = Sb 1,6.

·        Epístola aos Hebreus
Hb 1,3 = Sb 7,25-26; Hb 2,5 = Eclo 17,17; Hb 4,12 = Sb 18,15-16 / Sb 7,22-30; Hb 5,6 = 1Mc 14,41; Hb 7,22 = Eclo 29,14-16; Hb 11,5 = Eclo 44,16 / Sb 4,10; Hb 11,6 = Sb 10,17; Hb 11,10 = Sb 13,1 / 2Mc 4,1; Hb 11,17 = 1Mc 2,52 / Eclo 44,20; Hb 11,27 = Eclo 2,2; Hb 11,28 = Sb 18,25; Hb 11,35 = 2Mc 6,18-7,42; Hb 12,4 = 2Mc 13,14; Hb 12,9 = 2Mc 3,24; Hb 12,12 = Eclo 25,23; Hb 12,17 = Sb 12,10; Hb 12,21 = 1Mc 13,2; Hb 13,7 = Eclo 33,19 / Sb 2,17.

·        Epístola de Tiago
Tg 1,1 = 2Mc 1,27; Tg 1,2 = Eclo 2,1 / Sb 3,4-5; Tg 1,13 = Eclo 15,11-20; Tg 1,19 = Eclo 5,11; Tg 1,21 = Eclo 3,17; Tg 2,13 = Tb 4,10; Tg 2,23 = Sb 7,27; Tg 3,2 = Eclo 14,1; Tg 3,6 = Eclo 5,13; Tg 3,9 = Eclo 23,1.4; Tg 3,10 = Eclo 5,13 / Eclo 28,12; Tg 3,13 = Eclo 3,17; Tg 4,2 = 1Mc 8,16; Tg 4,11 = Sb 1,11; Tg 5,3 = Jdt 16,17 / Eclo 29,10; Tg 5,4 = Tb 4,14; Tg 5,6 = Sb 2,10 / Sb 2,12 / Sb 2,19.

·        1ª Epístola de Pedro
1Pd 1,3 = Eclo 16,12; 1Pd 1,7 = Eclo 2,5; 1Pd 2,25 = Sb 1,6; 1Pd 4,19 = 2Mc 1,24 etc.; 1Pd 5,7 = Sb 12,13.

·        2ª Epístola de Pedro
2Pd 2,2 = Sb 5,6; 2Pd 2,7 = Sb 10,6; 2Pd 3,9 = Eclo 35,19; 2Pd 3,18 = Eclo 18,10.

·        1ª Epístola de João
1Jo 5,21 = Br 5,72.

·        Epístola de Judas
Jd 1,13 = Sb 14,1.

·        Livro do Apocalipse
Ap 1,18 = Eclo 18,1; Ap 2,10 = 2Mc 13,14; Ap 2,12 = Sb 18,16[15]; Ap 2,17 = 2Mc 2,4-8; Ap 4,11 = Eclo 18,1 / Sb 1,14; Ap 5,7 = Eclo 1,8; Ap 7,9 = 2Mc 10,7; Ap 8,1 = Sb 18,14; Ap 8,2 = Tb 12,15; Ap 8,3 = Tb 12,12; Ap 8,7 = Eclo 39,29 / Sb 16,22; Ap 9,3 = Sb 16,9; Ap 9,4 = Eclo 44,18 etc.; Ap 11,19 = 2Mc 2,4-8; Ap 17,14 = 2Mc 13,4; Ap 18,2 = Br 4,35; Ap 19,1 = Tb 13,18; Ap 19,11 = 2Mc 3,25 / 2Mc 11,8; Ap 19,16 = 2Mc 13,4; Ap 20,12-13 = Eclo 16,12; Ap 21,19-20 = Tb 13,17.

2. REFERÊNCIAS POR ORDEM DE DEUTEROCANÔNICOS

·        Acréscimos de Daniel
Dn 13,46 = Mt 27,24 / At 20,26; Dn 14,18.41 = At 19,28.

·        Profeta Baruc
Br 1,11-12 = 1Tm 2,2; Br 3,29 = Jo 3,13 / Rm 10,6; Br 4,1 = Mt 5,18; Br 4,7 = 1Cor 10,20; Br 4,35 = Ap 18,2; Br 4,37 = Mt 8,11 / Lc 13,29; Br 5,72 = 1Jo 5,21.

·        Eclesiástico (ou Sirácida)
Eclo 1,8 = Ap 5,7; Eclo 1,10 = 1Cor 2,9; Eclo 1,24-25 = Cl 2,3; Eclo 1,30 = At 13,10; Eclo 2,1 = Tg 1,2; Eclo 2,2 = Hb 11,27; Eclo 2,5 = 1Pd 1,7; Eclo 2,18 = Mc 9,31; Eclo 3,17 = Tg 1,21 / Tg 3,13; Eclo 4,1 = Mc 10,18; Eclo 4,27 = Rm 13,1; Eclo 4,31 = At 20,35; Eclo 5,3 = 1Ts 4,6; Eclo 5,9 = Ef 4,14; Eclo 5,11 = Tg 1,19; Eclo 5,13 = Tg 3,6 / Tg 3,10; Eclo 6,19 = 1Cor 9,19; Eclo 6,24-25 = Mt 11,29; Eclo 6,28-29 = Mt 11,29; Eclo 7,14 = Mt 6,7; Eclo 7,32-35 = Mt 25,36; Eclo 7,34 = Rm 12,15; Eclo 9,8 = Mt 5,28; Eclo 10,14 = Lc 1,52; Eclo 10,20-21 = Rm 11,15; Eclo 11,19 = Lc 10,19; Eclo 13,17 = Mt 10,16; Eclo 14,1 = Tg 3,2; Eclo 14,10 = Mt 6,23; Eclo 15,11-20 = Tg 1,13; Eclo 16,12 = 1Pd 1,3; Eclo 16,12 = Ap 20,12-13; Eclo 16,21 = Jo 3,8; Eclo 17,3 = 1Cor 11,7; Eclo 17,17 = Hb 2,5; Eclo 17,26 = 2Tm 2,19; Eclo 18,1 = Ap 1,18 / Ap 4,11; Eclo 18,10 = 2Pd 3,18; Eclo 18,11 = Rm 5,5; Eclo 19,26 = At 12,10; Eclo 20,30-31 = Mt 13,44; Eclo 23,1.4 = Mt 6,9 / Tg 3,9; Eclo 23,10 (vl) = 2Tm 2,19; Eclo 23,17 = 1Cor 6,18; Eclo 24,19 = Mt 11,28; Eclo 24,21 = Jo 6,35; Eclo 24,32 = At 2,39; Eclo 24,40; 43,30-31 = Jo 7,38; Eclo 25,7-12 = Mt 5,2-4; Eclo 25,23 = Hb 12,12; Eclo 26,14 = Mc 8,37; Eclo 27,6 = Mt 7,16; Eclo 27,8 = Rm 9,31; Eclo 28,2 = Mt 6,12; Eclo 28,7 = At 17,30; Eclo 28,12 = Tg 3,10; Eclo 28,18 = Lc 21,24; Eclo 29,10 = Tg 5,3; Eclo 29,10-11 = Mt 6,20; Eclo 29,14-16 = Hb 7,22; Eclo 31,15 = Mt 7,12; Eclo 32,23 = 1Cor 7,19; Eclo 33,1 = Mt 6,13; Eclo 33,19 = Hb 13,7; Eclo 35,3 = 2Tm 2,19; Eclo 35,6 = Fl 4,18; Eclo 35,12-13 = At 10,34; Eclo 35,12-13 = Rm 2,11; Eclo 35,13 = Gl 2,6; Eclo 35,19 = 2Pd 3,9; Eclo 35,22 = Mt 16,27 / Lc 18,7; Eclo 36,7 = At 2,11; Eclo 36,18 = 1Cor 6,13; Eclo 36,20 = Rm 15,8; Eclo 37,2 = Mt 26,38; Eclo 37,2 = Mc 14,34; Eclo 37,28 = 1Cor 6,12 / 1Cor 10,23; Eclo 39,29 = Ap 8,7; Eclo 40,15 = Mt 12,5 / Mc 4,5; Eclo 44,12 = Rm 9,4; Eclo 44,16 = Hb 11,5; Eclo 44,18 etc. = Ap 9,4; Eclo 44,19 = Jo 8,53 / Rm 4,17; Eclo 44,20 = Hb 11,17; Eclo 44,21 = Rm 4,13; Eclo 45,1 = Ef 1,6; Eclo 46,5 = 1Tm 6,15; Eclo 46,13 = Ef 1,6; Eclo 48,5 = Lc 7,22; Eclo 48,10 = Mt 11,14 / Mt 17,11 / Lc 1,17 / Lc 9,8; Eclo 48,12 = At 2,4; Eclo 48,21 = At 12,23; Eclo 48,24 = Mt 5,4; Eclo 50,20-21 = Lc 24,50; Eclo 50,22 = Lc 24,53; Eclo 50,25-26 = Jo 4,9; Eclo 51,1 = Mt 11,25 / Lc 10,21; Eclo 51,23 = Mt 11,28; Eclo 51,26-27 = Mt 11,29.

·        Livro da Sabedoria
Sb 1,6 = Tt 3,4 / 1Pd 2,25; Sb 1,11 = Tg 4,11; Sb 1,14 = Ap 4,11; Sb 2,5-6 = 1Cor 15,32; Sb 2,10 = Tg 5,6; Sb 2,11 = Rm 9,31; Sb 2,12 = Tg 5,6; Sb 2,13 = Mt 27,43; Sb 2,16 = Jo 5,18; Sb 2,17 = Hb 13,7; Sb 17-18 = Mc 15,29; Sb 2,18-20 = Mt 27,43; Sb 2,19 = Fl 4,5 / Tg 5,6; Sb 2,22 = Mc 4,11; Sb 2,23 = 1Cor 11,7; Sb 2,24 = Jo 8,44 / Rm 5,12; Sb 3,4-5 = Tg 1,2; Sb 3,7 = Lc 19,44; Sb 3,8 = 1Cor 6,2; Sb 3,9 = Jo 15,9-10; Sb 3,17 = At 19,27; Sb 3,18 = 1Ts 4,13; Sb 4,2 = 1Cor 9,25; Sb 4,10 = Hb 11,5; Sb 4,19 = At 1,18; Sb 5,4 = Jo 10,20; Sb 5,5 = At 20,32 / At 26,18; Sb 5,6 = 2Pd 2,2; Sb 5,16 = 2Tm 4,8; Sb 5,17 = Ef 6,12; Sb 5,18 = Ef 6,14; Sb 5,18 = 1Ts 5,8; Sb 5,19.21 = Ef 6,16; Sb 5,22 = Lc 21,25; Sb 6,3-4 = Rm 13,1; Sb 6,7 = At 10,36; Sb 6,18 = Jo 14,15 / Rm 13,10; Sb 7,1 = At 10,26; Sb 7,3 = At 14,15; Sb 7,7 = Ef 1,17; Sb 7,11 = Mt 6,33; Sb 7,18 = At 17,26; Sb 7,22-30 = Hb 4,12; Sb 7,23 = Fl 4,13; Sb 7,24-25 = 1Cor 1,24; Sb 7,25-26 = Hb 1,3; Sb 7,27 = Tg 2,23; Sb 8,3 etc. = At 10,36; Sb 8,8 = Jo 4,48 / 1Ts 5,1; Sb 9,1 = Jo 1,3 / At 17,24-25; Sb 9,3 = Ef 4,24; Sb 9,9 = At 17,24; Sb 9,13 = 1Cor 2,16; Sb 9,15 = 2Cor 5,1.4; Sb 9,16 = Jo 3,12; Sb 10,6 = 2Pd 2,7; Sb 10,16 = 2Cor 12,12; Sb 10,17 = Hb 11,6; Sb 11,10 = 1Cor 4,14; Sb 11,15 = Rm 1,23; Sb 11,23 = Rm 2,4; Sb 12,10 = Hb 12,17; Sb 12,12 = Rm 9,19; Sb 12,13 = 1Pd 5,7; Sb 12,19 = At 11,18; Sb 12,24 = Rm 1,23; Sb 13-15 = Rm 1,19-32; Sb 13,1 = Rm 1,21 / 1Cor 15,34 / Hb 11,10; Sb 13,6 = At 17,27; Sb 13,10 = At 17,29; Sb 14,1 = Jd 1,13; Sb 14,20 = At 17,23; Sb 15,1 = Lc 6,35; Sb 15,3 = Jo 17,3; Sb 15,6 = Rm 9,21; Sb 15,8 = Lc 12,20; Sb 15,11 = Jo 20,22; Sb 15,17 = At 17,23; Sb 16,6 = 1Cor 11,24; Sb 16,9 = Ap 9,3; Sb 16,13 = Mt 16,18 / Rm 10,7; Sb 16,22 = Ap 8,7; Sb 16,26 = Mt 4,4; Sb 17,1 = Rm 11,33; Sb 17,2 = Mt 22,13; Sb 17,11 = Rm 2,15; Sb 17,14 = 1Ts 5,3; Sb 17,15 = Mc 6,49; Sb 17,17 = Gl 6,1; Sb 18,1 = At 9,7 / At 22,9; Sb 18,14 = Ap 8,1; Sb 18,14-15 = 1Ts 5,2; Sb 18,15-16 = Jo 3,12 / Hb 4,12; Sb 18,16[15] = Ap 2,12; Sb 18,25 = Hb 11,28; Sb 19,7-8 = 1Cor 10,1; Sb 19,10 = At 13,17.

·        Tobias
Tb 2,2 = Lc 14,13; Tb 3,17 = Lc 15,12; Tb 4,3 = Mt 8,21; Tb 4,6 = Jo 3,32; Tb 4,10 = Tg 2,13; Tb 4,14 = Tg 5,4; Tb 4,15 = Mt 7,12; Tb 4,17 = Mt 25,35; Tb 5,15 = Mt 20,2; Tb 5,19 = 1Cor 4,13; Tb 7,10 = Lc 12,19; Tb 7,17 = Mt 11,25 / Lc 10,17 / At 17,24; Tb 11,9 = Lc 2,29; Tb 12,8 = At 10,2; Tb 12,12 = Ap 8,3; Tb 12,15 = Mt 18,10 / Lc 1,19 / Ap 8,2; Tb 13,7.11 = 1Tm 1,17; Tb 13,17 = Ap 21,19-20; Tb 13,18 = Ap 19,1; Tb 14,4 = Mt 23,38 / Lc 13,25; Tb 14,5 = Mc 1,15 / Lc 21,24 / Gl 4,4.

·        Judite
Jdt 4,9 = At 12,5; Jdt 8,6 = Lc 2,37; Jdt 8,26 = At 15,4; Jdt 8,35 = Mc 5,34; Jd 9,12 = At 4,24; Jdt 10,13 = At 26,25; Jdt 11,19 = Mt 9,36; Jdt 12,8 = 1Ts 3,11; Jdt 13,18 = Lc 1,42; Jdt 14,16-17 = At 14,14; Jdt 16,17 = Mt 11,22 / Mc 9,48 / At 12,23 / Tg 5,3.

·        1º Livro dos Macabeus
1Mc 1,54 = Mt 24,15; 1Mc 2,21 = Mt 16,22; 1Mc 2,28 = Mt 24,16; 1Mc 2,52 = Hb 11,17; 1Mc 2,60 = 2Tm 4,17; 1Mc 3,6 = Lc 13,27; 1Mc 3,49 = At 21,26; 1Mc 3,60 = Mt 6,10; 1Mc 4,59 = Jo 10,22; 1Mc 5,15 = Mt 4,15; 1Mc 7,41 = At 12,23; 1Mc 8,16 = Tg 4,2; 1Mc 9,39 = Jo 3,28; 1Mc 10,25 = At 10,22; 1Mc 10,29[30] = Lc 15,12; 1Mc 11,30.33 etc. = At 10,22; 1Mc 12,6 = At 5,12; 1Mc 12,9 = Rm 15,4; 1Mc 12,17 = Mt 9,38; 1Mc 13,2 = Hb 12,21; 1Mc 14,41 = Hb 5,6; 1Mc 15,21 = At 9,2.

·        2º Livro dos Macabeus
2Mc 1,4 = At 16,14; 2Mc 1,10 = At 5,21; 2Mc 1,24 etc.
= 1Pd 4,19; 2Mc 1,27 = Tg 1,1; 2Mc 2,4 = Rm 11,4; 2Mc 2,4-8 = Ap 2,17 / Ap 11,19; 2Mc 2,7 = 2Ts 2,1; 2Mc 3,11 = 1Tm 2,2; 2Mc 3,24 = Hb 12,9; 2Mc 3,24-40 = At 9,1-29; 2Mc 3,25 = Ap 19,11; 2Mc 3,26 = Lc 24,4; 2Mc 3,26 = At 1,10; 2Mc 3,30 = Tt 2,11; 2Mc 3,34 = Lc 24,31; 2Mc 4,1 = Hb 11,10; 2Mc 4,6 = At 24,2; 2Mc 4,32 = At 5,2; 2Mc 6,4 = Rm 1,28; 2Mc 6,18-7,42 = Hb 11,35; 2Mc 6,23 = Rm 9,4; 2Mc 7,19 = At 5,39; 2Mc 8,17 = Mt 24,15; 2Mc 9,9 = At 12,23; 2Mc 10,3 = Mt 12,4; 2Mc 10,7 = Ap 7,9; 2Mc 11,8 = At 10,30 / Ap 19,11; 2Mc 12,15 = 1Tm 6,15; 2Mc 12,43-44 = 1Cor 15,29; 2Mc 13,4 = 1Tm 6,15 / Ap 17,14 / Ap 19,16; 2Mc 13,14 = Hb 12,4 / Ap 2,10.

 

23. CRONOLOGIA DA ERA APOSTÓLICA E O DESENVOLVIMENTO DO CÂNON

Esta cronologia apresenta uma seqüência dos eventos bíblicos e extrabíblicos que refletiram sobre a formação do cânon da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Afirma-se por aí que dois pesquisadores da Bíblia não conseguem concordar sobre uma cronologia apostólica... Com efeito, a cronologia que apresentamos aqui é aceitável para alguns, mas não pode ser considerada "universal". Serve apenas para fornecer pontos de referência para os eventos que se sucederam e suas conseqüências [sobre o cânon das Escrituras].

EVENTO

DATA

OBRA

Pregação de João Batista

27

 

Vinda do Espírito Santo sobre a Igreja

30

 

Estêvão é martirizado por lapidação

36/37

 

Conversão de Paulo e sua primeira viagem missionária

45/49

 

Concílio [Apostólico] de Jerusalém

50

 

Segunda viagem missionária de Paulo

50/52

 

 

51

1ª e 2ª Epístolas aos Tessalonicenses

Terceira viagem missionária de Paulo

53/58

 

 

54-57

Epístola aos Gálatas

 

57

1ª e 2ª Epístolas aos Coríntios

 

58

Epístola aos Romanos

Viagem [de Paulo] a Roma

59/60

 

1ª prisão de Paulo em Roma

61-63

 

 

 

Epístola a Filemon

 

 

Epístola aos Colossenses

 

 

Epístola aos Efésios

 

 

Epístola aos Filipenses

 

 

Epístola de Tiago

 

65

Evangelho de Marcos

 

 

1ª Epístola a Timóteo

 

 

Epístola a Tito

O apóstolo Tiago é martirizado. Paulo é levado para Roma

63/64

 

Pedro em Roma (Pedro é o primeiro Bispo de Roma)

64

1ª Epístola de Pedro

2ª prisão de Paulo e martírio

67

2ª Epístola a Timóteo

Morte de Pedro. Lino é Bispo de Roma

 

Epístola aos Hebreus

Destruição de Jerusalém

68-70

 

 

70s

Evangelho de Mateus

 

 

Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos

Anacleto é Bispo de Roma

78

 

 

70s/90s

Epístola de Judas

 

90s

Evangelho de João

 

 

1ª, 2ª e 3ª Epístolas de João

 

 

Livro do Apocalipse

Clemente é Bispo de Roma

92-101

1ª Epístola de Clemente

Morte do [apóstolo] João em Éfeso

98

 

Sínodo dos rabinos/judeus em Jâmnia

99-100

Cânon palestinense em hebraico

1º Cânon Cristão do Antigo Testamento

c. 100

Cânon alexandrino em grego

 

100-125

2ª Epístola de Pedro

 

 

Didaqué

Melitão, bispo de Sardes

c. 170

Primeira tentativa cristã conhecida de relacionar o cânon do Antigo Testamento. Melitão lista os livros do AT segundo a ordem da Septuaginta, mas apresenta apenas os protocanônicos do AT, com exceção de Ester.

Ireneu, bispo de Lião

185

Apresenta um cânon do Novo Testamento (sem 3João, Tiago e 2Pedro)

 

c. 200

Fragmento de Muratori apresenta um cânon semelhante ao do [Concílio de] Trento

Eusébio, bispo de Cesaréia

c. 325

Escreve a "História Eclesiástica"; refere-se a Tiago, Judas, 2Pedro e 2-3João como "controversos, ainda que aceitos pela maioria"

Concílio [Regional] de Laodicéia

c. 360

Apresenta um cânon de livros semelhante ao de Trento

Papa Dâmaso

382

Decreto listando os livros canônicos, da mesma forma que em Trento

Concílio [Regional] de Roma

382

Aceitação do decreto de Dâmaso

Concílio [Regional] de Hipona (norte da África)

393

Aprovado um cânon do Antigo e do Novo Testamento (igual ao de Trento)

Concílio [Regional] de Cartago (norte da África)

397

Aprovado um cânon do Antigo e do Novo Testamento (igual ao de Trento)

Exupério, bispo de Toulouse

405

Escreve ao papa Inocêncio I pedindo uma lista dos livros canônicos. Papa Inocêncio oferece uma lista idêntica ao cânon de Trento

 

24. PEQUENA CONCORDÂNCIA BÍBLICA

Baseada na "Catholic Doctrinal Concordance"

SOBRE DEUS

·        A Natureza de Deus

o        É Amor: 1Jo 4,8.

o        É Espírito: Jo 4,24.

o        É fonte de vida e santidade: Rm 6,23; Gl 6,8; Ef 1,4-5; 1Ts 4,3; 2Ts 2,13-17.

o        É ilimitado: 1Rs 8,27; Jr 23,24; At 7,48-49.

o        É misericordioso: Ex 34,6; 2Cr 30,9; Sl 25,6; 51;1; Is 63,7; Lc 6,36; Rm 11,32; Ef 2,4; Tg 5,11.

o        É o Criador: Gn 1,1; Jó 26,13; Sl 33,6; 148,5; Pv 8,22-31; Eclo 24,8; 2Mc 7,28; Jo 1,3; Cl 1,16; Hb 11,3.

o        É o Juiz do universo: 1Sm 2,10; 1Cr 16,33; Ez 18,30; Mt 16,27; At 17,31; Rm 2,16; 2Tm 4,1; 1Pd 4,5.

o        É o único Deus: Dt 32,39; Is 43,10; 44,6-8; Os 13,4; Ml 2,10; 1Cor 8,6; Ef 4,6.

o        É onipotente: Gn 17,1; 28,3; 35,11; 43,14; Ex 6,3; Ap 1,8; 4,8; 11,17; 16,14; 21,22.

o        É onipresente: Sl 139,7; Sb 1,7; Eclo 16,17-18; Jr 23,24; Am 9,2-3; Ef 1,23.

o        É todo-poderoso: Gn 39,24; Sl 24,8; 50,1; Is 10,21; Jr 32,18; 2Mc 11,13.

·        A Santíssima Trindade

o        Batismo ministrado em nome da Trindade: Mt 28.19.

o        Bênção dada em nome da Trindade: 2Cor 13,14.

o        Manifestação da Trindade no NT: Mt 3,16-17; Lc 1,35; 3,21-22.

o        Pluralidade de Pessoas mencionada no NT: Jo 14,15.26; 15,26; At 1,6-8; Rm 8,9; 1Cor 6,10-11; Ef 4,4-6; 1Pd 1,2; 1Jo 5,6-7; Jd 20,21.

o        Prefiguração da pluralidade de Pessoas no AT: Gn 1,26; 3,22; 11,7; 18,1-5.9-10.16.

·        Jesus Cristo

o        É a glória de Deus: 1Cor 2,8; Hb 1,3; Tg 2,1; Ap 21,23.

o        É chamado "o alfa e o ômega": Ap 1,8; 21,6; (Cf.) Ap 22,13-16.

o        É chamado "o primeiro e o último": Is 41,4; 44,6; (Cf.) Ap 1,17; 2,8.

o        É eterno: Mq 5,2; Jo 1,1; Cl 1,17; Hb 1,10.

o        É imutável: Ml 3,6; (Cf.) Hb 1,12; 13,8.

o        É o Filho de Deus: Mt 16,16; 26,63-64; 1Jo 4,15.

o        É o Messias (Cristo [gr.]): Is 7,14; 9,6; Jr 23,5; 30,9; Ez 34,23; Mq 5,2; Zc 9,9; (Cf.) Jo 1,41; 4,25-26.

o        É o poder e a sabedoria de Deus: 1Cor 1,24.

o        É o Rei dos reis: Ap 1,5; (Cf.) Ap 17,14; 1Tm 1,17; (Cf.) Ap 15,3.

o        É o Senhor de todos: At 10,36; Rm 10,12.

o        É onisciente: Sl 139; (Cf.) Lc 6,8; Jo 6,64; 13,11; 16,13; 21,17.

o        É verdadeiro Deus: Jo 1,1; 5,18; 8,58; 20,28; Fl 2,6; Cl 1,15-19; 2,9; Tt 2,13.

o        É verdadeiro Homem (provado por seu sofrimento): Mt 26,38; 27,50; Mc 15,37; Lc 23,46; Jo 1,14; 19,30; At 2,22; 3,22; Fl 2,7; 1Tm 2,5; Hb 2,17; 1Jo 1,2.

o        Provém do Pai: Jo 1,14; 3,16.18; 1Jo 4,9.

·        A Morte de Cristo

o        Morreu para a nossa Salvação: Is 53,4-10; Mt 20,28; Lc 24,46; Jo 12,24; Rm 5; Ef 5,2; 1Pd 1,18; 2,24; 1Jo 2,2; 1Ts 5,10.

o        Prevista no AT: Sl 22,69; Sb 2,10-20; Is 1,5-6.53; Jr 11,19; Lm 1,12; Zc 1,12-13; (Cf.) Lc 24,46.

·        A Ressurreição de Cristo

o        É a certeza da nossa própria ressurreição: Rm 6,5; 1Cor 15,49; 2Cor 4,14; Fl 3,21.

o        Garantia da nossa Fé: 1Cor 15,17.

o        Prevista no AT: Sl 16,10; (Cf.) At 13,35.

o        Prevista por Jesus: Mt 17,23; 20,19; Mc 9,9; 14,28; Lc 9,22; 18,33; Jo 2,19; 10,18.

o        Provada pelas manifestações aos seus discípulos: Mt 28,9; Mc 16,9; Lc 24,13-35; Jo 20,26; 21,1; At 1,3; 1Cor 15,6.

o        Significa nosso novo nascimento: Rm 6,4; Cl 2,12; 1Pd 1,3.

·        Outros Dados sobre Jesus

o        Jesus ascendeu aos céus: Mc 16,19; Lc 24,50; Jo 20,17; At 1,3-9; Ef 4,10; 1Tm 3,16; 1Pd 3,22.

o        Jesus completará a salvação dos justos: Rm 2,7; 1Cor 1,8; Fl 3,21; Hb 9,28; 1Pd 1,5.

o        Jesus foi exaltado na glória: Jo 12,16; At 2,32-33; 4,10-11; 7,55; Rm 8,34; Ef 1,20; Fl 2,9; Cl 3,1.

o        Jesus julgará os vivos e os mortos: At 10,42; Rm 2,16; 2Tm 4,1; 1Pd 4,5.

o        Jesus retornará na glória: Dn 7,13; Mt 24,30; 25,31; 26,64; 1Ts 4,16; Ap 1,7.

o        Jesus retornará como Juiz: Jo 5,22; At 10,42; 17,31; 2Tm 4,1;1 Pd 4,5; Ap 20,12-13.

o        Ninguém sabe o dia e a hora em que Jesus retornará: Mt 24,44; 25,13; Mc 13,35; Lc 12,40-46; 1Ts 5,2; 2Pd 3,10; Ap 3,3; 16,15.

o        Nós devemos ficar atentos para o seu retorno: Rm 8,23; 1Cor 1,7; Fl 3,20; Cl 3,1-4; 1Tm 1,1; Hb 10,37; 2Pd 3,12.

·        O Espírito Santo

o        Concede vários dons: Is 11,1-3; 61,1-2; Lc 4,18-19.

o        É chamado Espírito da Verdade: Jo 15,26; 1Jo 5,7.

o        É chamado Paráclito, Consolador ou Conselheiro: Jo 14,16.26; 15,26; 16,7.

o        É dado durante o Batismo: Mt 3,11-16; Lc 3,16; Jo 1,33; At 1,5; 2,38; 11,16.

o        É dado durante o Crisma (separado do batismo): At 1,8; 8,15; 10,44; 19,6.

o        É dado pelo Pai: Lc 11,13; Jo 3,34; 15,26; 1Ts 4,8; 1Jo 3,24.

o        É o Mestre e o Revelador da Verdade: Jo 14,26; 16;13; At 5,32; 9,31; 1Cor 2,10; Ef 3,5.

o        É transmitido pela imposição das mãos: At 8,17; 9,17; 13,2-4; 19,6.

o        Inspira os homens: At 4,8; 6,10; 7,55.

o        Inspirou as Sagradas Escrituras: At 3,21; 2Tm 3,16; Pd 1,21.

o        Habita em nós: Jo 14,17; At 2,33; Rm 5,5; 1Cor 3,16; 6,19; Gl 3,14; Ef 1,13; 2Tm 1,14.

o        Procede do Pai e do Filho: Jo 15,26; 16,7; 16,13.

SOBRE AS CRIATURAS DE DEUS

·        Os Anjos

o        Acompanharão Cristo no seu retorno (Parusia): Mt 16,27; 25,31; Mc 8,38; 1Ts 4,16.

o        Anjos da guarda: Tb 12,12; Mt 18,10; At 12,11.15.

o        Deus se manifestou como Anjo do Senhor: Gn 16,7.13; 18,1-33; 21,17-18; 22,11; 31,11-13; Ex 3,2; Jz 2,1; 6,11-24; 13,21-22.

o        Foram criados por Deus: Ne 9,6; Jo 1,3; Rm 11,36; Cl 1,16; 1Cor 8,6.

o        O homem é pouca coisa inferior aos anjos: Gn 1,26.28; 3,5; Sl 8,5-6; Sb 2,23; Eclo 17,1-14.

o        Preanunciarão o retorno de Cristo: Mt 24,31; Mc 13,27; 1Cor 15,52.

o        São chamados "Filhos de Deus": Dt 32,8; Jó 1,6; 2,1; 38,7; Sl 29,1; 82,1; 89,6.

o        São chamados "Santos de Deus": Jó 5,1; 15,15; Sl 89,7; Dn 4,13; 8,13.

o        São espíritos confortadores: Sl 91,11; Dn 7,10; Mt 4,11; Mc 1,13; Lc 22,43; Hb 1,14.

o        São mensageiros de Deus: Gn 24,7; Nm 20,16; 1Cr 21,15; 2Cr 32,21; Dn 3,28; 6,22; Lc 1,19.26; At 12,11.

o        São servos de Deus: Jó 4,18; Sl 103,20.

o        Três deles têm seus nomes expressamente citados: Rafael - Tb 3,16-17; 5,4; 12,11-15; Gabriel - Dn 8,16; 9,21; Lc 1,19.26; e Miguel - Dn 10,13.21; 12,1; Jd 1,9; Ap 12,7.

·        Satanás e os Demônios

o        Alguns podem ser exorcizados por oração e jejum: Mt 17,21; Mc 9,20.

o        Costumam a tentar os homens: Gn 3; 1Rs 22,19-23; Jó 1,6-8; Sb 2,24; Zc 3,1-2.

o        É chamado de "Senhor deste mundo": Jo 12,31; 14;30; 16,11; 2Cor 4,4; Ef 2,2; 6,12; 1Jo 5,19.

o        Os demônios são anjos caídos: Is 14,12; Lc 10,18; Jd 1,6; Ap 12,7-9.

o        Podem aparecer como anjos de luz: 2Cor 11,14; Ap 2,2; 16,14.

o        Podem se apossar de nossos corpos: Mt 8,28; 9,32; 12,43-45; 15,22; Mc 5,1-13; 9,14; Lc 4,33; 8,2; 11,24-26; At 8,7.

o        Podem ser exorcizados pelos poder de Deus: Mt 8,29; 9,33; 10,1; Mc 1,25-26; 6,7.13; 9,38; 16,17; Lc 8,2; 9,1; 9,49; At 5,16; 10,38; Tg 2,19.

o        Ronda como um leão: Sl 22,13; 1Pd 5,8.

o        Será solto da prisão: Ap 20,7.

o        Seus poderes foram quebrados pelo sacrifício de Cristo: Mt 12,28; Lc 8,31; 10,17; Jo 3,35; 12,31; Ef 6,11; Cl 1,13; 1Jo 3,8; Ap 12,11.

o        Sofrerão tormentos eternos: Mt 25,41; Ap 14,10-11; 19,20; 20,10.

o        Têm liberdade para tentar os homens: 1Rs 22,22; Jó 1,12; Mt 4,1; Mc 1,13; Lc 4,2; Jo 13,2; At 5,3; 1Cor 7,5; 2Cor 2,11.

o        Temem o Evangelho: Mt 8,29; Tg 2,19.

o        Tentam nos afastar de Deus: Ef 4,27-6,11; 1Tm 5,15; Tg 4,7.

·        O Homem

o        Está inclinado à tentação: Rm 7,15-23; 1Cor 7,5; Ef 6,11; 1Ts 3,5; 2Tm 3,12; Tg 4,2; 1Pd 2,11; 5,8.

o        Está sujeito à morte: 2Sm 14,14; Jó 14,5; Sb 2,24; Eclo 25,24; Rm 5,12-14; 6,23; 1Cor 15,21-22; Hb 9,27.

o        Foi castigado por ter pecado:Gen 3; Sb 2,24; Eclo 25,24; Ez 28,12-17; Rm 5,12; 1Cor 15,21; 1Tm 2,14.

o        Foi criado homem e mulher: Gn 1,27; Mt 19,4; Mc 10,6; 1Cor 11,8.

o        Foi criado por Deus: Gn 1,26-27; 2,7; Jó 33,4; Sl 8,5; Ecl 12,7; Sb 2,23; 10,1; Eclo 17,1; 2Mc 7,28; Mt 19,4; Mc 10,6.

o        Já foi exaltado anteriormente: Gn 1,26; 2,8.

o        Ofendeu a Deus pelo pecado: 2Sm 12,13; Sl 32,5; Is 1,2; Jr 2,29; Os 7,13; Rm 1,18-32; 6,1; Gl 5,17; Ef 4,30; 5,3; Cl 3,5.

o        Será julgado pelos seus méritos: At 17,31; Rm 2,6.11; 14,10; 2Cor 5,10; 11,15; Cl 3,25; Hb 11,6; 1Pd 1,17; Ap 20,13.

o        Tem a promessa da ressurreição: Jo 6,54; 2Cor 4,13-14; Fl 3,11; 1Ts 4,14; 2Tm 2,1.

o        Tem o paraíso como recompensa por sua justiça: Mt 5,12; Cl 1,5; Hb 10,34.

o        Teve sua dignidade resgatada por Cristo: Rm 5,8; 8,9-11; Ef 2,6; Cl 2,12; 3,1.

·        A Alma e sua Imortalidade

o        A salvação: Tg 1,21; 5,20; 1Pd 1,9.

o        A tentação durante a vida sujeita a alma: 1Pd 2,11; 2Pd 2,14.

o        As almas dos justos herdam os céus: Sb 3,1; Ap 6,9; 8,3; 20,4.

o        Confiada aos cuidados de Deus após a morte: Sl 31,5; At 7,59; 1Pd 4,19.

o        É distinta do corpo material: Mt 10,28; At 2,27; 1Ts 5,23; Hb 4,12.

o        Foi criada à imagem de Deus: Gn 1,26-27; 1Cor 11,7; Cl 3,10.

o        Foi criada por Deus: Gn 2,7; Ecl 12,7; Is 57,16; Zc 12,1.

o        Nada compensa a perda da alma: Mt 16,26; Mc 8,36.

o        Se separa do corpo na hora da morte: Gn 35,18; Ecl 12,7; Lc 12,20.

o        Sobrevive à morte do corpo: Gn 35,18; 1Sm 28,19; 1Rs 17,22; Mt 10,28; Lc 8,55.

·        Maria Santíssima

o        Anunciação: Lc 1,28.

o        Bendita entre as mulheres: Lc 1,42-48.

o        Cheia de Graça: Lc 1,28.48.

o        Concebida sem pecado: Gn 3,15; Lc 1,28.

o        Devotava-se à oração: At 1,14.

o        Foi nos dada como mãe: Jo 19,25-27.

o        Guardava as palavras de Jesus: Lc 2,19.

o        Mãe de Deus: Is 9,6; Mt 1,23; Lc 1,32.35.43; 2,11; Gl 4,4.

o        Meditava sobre as palavras de Jesus: Lc 2,51.

o        Permaneceu sempre virgem: (tipificado em) Ez 44,2; Lc 1,34.

o        Possibilidade da assunção aos céus, como Enoque e Elias: Gn 5,24; Hb 11,5; 2Rs 2,1-13.

o        Prevista no AT: Is 7,14; Mq 5,2-3.

o        Responsável pelo 1º milagre de Jesus: Jo 2,1-12.

o        Sofreu muita tristeza: Lm 1,12; Lc 2,34-35.48; Jo 19,25.

o        Virgem: Is 7,14; Mt 1,18-25; Lc 1,27.34.

·        Filhos

o        A falta de filhos é considerada uma reprovação: Gn 16,4; 30,1; 1Sm 1,6.11; Is 4,1; Lc 1,25.

o        As crianças são abençoadas por Jesus: Mt 19,13; Mc 10,13.16; Lc 18.15.

o        Devem honrar os seus pais: Ex 20,12; Lv 19,3; Dt 5,16; Eclo 3,1-16; Mt 15,4; Mc 7,10; 10,19; Lc 18,20; Ef 6,2-3.

o        Devem ser disciplinados: Dt 8,5; Pv 3,12; 13,24; 22,15; 23,13-14; 29,15.17; Sb 11,9-10; Eclo 30,1-3; Ef 6,4.

o        Jesus era obediente aos seus pais: Lc 2,51.

o        Não devem ser escandalizadas: Mt 18,6; Mc 9,42; Lc 17,2.

o        Os cristãos devem ser inocentes como as crianças: Sl 131,1-2; Mt 18,3; Mc 10,15; Lc 18,17; 1Jo 2,1.12; 4,4.5-21. / Mas adultos em seus pensamentos: 1Cor 3,1-3; 13,11; Hb 5,11-14; 1Pd 2,2.

o        Receber bem a uma criança é receber bem o próprio Jesus: Mt 18,5.10; Mc 9,37; Lc 9,48.

o        São uma bênção de Deus: Sl 115,14; 127,3-5; 128,3-6; 144,17; Pv 17,6.

·        O Pecado

o        A blasfêmia contra o Espírito Santo (atribuir a obra de Deus ao diabo) é um pecado imperdoável: Mt 12,31-32; Lc 12,10.

o        Alguns pecados nos exclui do reino de Deus: 1Cor 6,9-10; Gl 5,19-21; Ef 5,3-5; Cl 3,5-10; Hb 13,4-5; Ap 21,8-9.27.

o        Apenas Deus pode perdoar o pecado: Mc 2,7; Lc 5,21.

o        Cristo perdoa os pecados: Mt 9,2-6; Mc 2.10; Lc 5,24; 7,48; Jo 5,14.

o        Deus deseja a conversão do pecador: Is 49,14-16; Jr 3,12; 31,20; Ez 18,23; 33,11; Lc 15,20-24.32; 18,13; 19,10; Jo 8,11; Rm 11,32; 2Pd 3,9.

o        É delegado o poder de perdoar aos Apóstolos: jo 20,23; 2Cor 5,18.

o        É causa da morte: Gn 3,17-19; Sb 1,12; 2,24; Eclo 25,24; Rm 5,12; 6,11; 1Cor 15,21.

o        É prejudicial para obtermos a glória de Deus: Rm 3,23; (Cf.) Rm 5,2.

o        É uma rebelião contra Deus: Nm 15,30; Dt 32,5; 2Sm 12,9; Jó 35,6; Is 1,2; 48,8; Br 4,8.

o        Pode ser mortal ou venial (grau): 1Jo 5,16-17.

o        Nos afasta de Deus: Rm 1,18-32; Ef 4,18; Cl 1,21; 1Pd 1,18.

o        Provém do diabo: Jo 8,44; At 13,10; 1Jo 3,8-10.

o        Torna-nos escravos: Jo 8,34; Rm 6,16-19; 2Pd 2,19.

SOBRE OS INTRUMENTOS DE DEUS

·        A Graça

o        A graça de Deus é inexaustível: Rm 5,17, 2Cor 4,15; 9,8; Ef 1,7; 2,7; 1Tm 1,14.

o        Demanda um efeito: 1Cor 15,10; 2Cor 11,23; Ef 2,10; Fl 2,12-13.

o        É concedida através de Cristo: Jo 1,17; Rm 1,5; Gl 1,6; Ef 2,7; 1Tm 1,14; 2Tm 1,9.

o        É concedida por Deus ao humilde: Pv 3,34; Tg 4,6; 1Pd 5,5.

o        É desejada com a paz nas saudações: Rm 1,7; 1Cor 1,3; 2Cor 1,2; Gl 1,3; Ef 1,2; Fl 1,2; Cl 1,2; 1Ts 1,1; 2Ts 1,2; Fm 3,1; 1Tm 1,2; 2Tm 1,2; Tt 1,4; Hb 13,25.

o        É mais abundante que o pecado: Rm 5,15.20; 6,1; 2Cor 12,9.

o        É oferta gratuita de Deus: Sl 84,11; Zc 12,10; Jo 1,16; 3,27; Rm 3,24; 4,2-5.16; 5,15-17; 9,14-18; 11,6; 1Cor 4,7; 1Pd 5,10.

o        Jesus é graça de Deus: Mt 21,37; Jo 3,16-17; Rm 3,24; 2Cor 8,9; Gl 4,4; Tt 2,11; Hb 2,11.

o        Maria é cheia de graça: Lc 1,28.42.

o        Necessária para difundir a fé: At 18,27; Rm 1,5.

o        Nos prepara para a vida eterna: Rm 5,2; 6,23; Tt 1,2; 1Pd 1,13.

o        Nos torna fortes na fé: At 4,22; 6,8; 14,3; 20,32; Rm 1,11; 16,25; 1`Cor 1,7-8; 2Ts 2,16-17; 3,3.

o        O trono da graça: Ef 3,12; Hb 4,16.

o        Pode ser perdida: Hb 12,15; Jd 1,4.

o        Por ela, crescemos no conhecimento de Cristo: 2Pd 3,18.

·        A Igreja

o        Chamada "Igreja de Deus": 1Tm 3,15.

o        Comprada pelo sangue de Cristo: At 20,28; Ef 5,25; Hb 9,12.

o        Cristo amou a Igreja: Ef 5,25-26.

o        Cristo é a cabeça da Igreja: Ef 1,22; 5,23; Cl 1,18.

o        Cristo é a pedra angular: Sl 118,22; Mt 21,42; Mc 12,10; Lc 20,17; At 4,11; Ef 2,20; 1Pd 2,4.7.

o        Cristo protege a Igeja: Mt 16,18; 20,20.

o        Doutrina, comunidade e rito sagrado (pão): At 2,42.

o        É a coluna e fundamento da verdade: 1Tm 3,15.

o        É infalível: Mt 16,18; 28,20; Mc 16,16; Lc 10,16; 1Tm 3,15.

o        É o Corpo de Cristo: Rm 12,4; 1Cor 12,12; Ef 1,22-23; 5,22; Cl 1,18.

o        É perpétua: Mt 16,18; 28,20.

o        É visível: Mt 5,14; Mc 4,30-32; Ef 2,19-22.

o        Edificada sobre os Apóstolos: 1Cor 3,10; Ef 2,20; Ap 21,14.

o        Expansão no mundo: At 2,41; 2,47; 5,14; 6,7; 11,24.

o        Fundada por Cristo: Mt 16,18; 28,19; Mc 16,15; 1Cor 3,11; Ef 2,20; 1Pd 2,4-6.

o        Presbíteros são ordenados, cuidam do rebanho e administram os sacramentos: At 15,6.23; 1Tm 4,14; 5,22; 1Tm 5,17; Tg 5,13-15; Rm 15,16.

o        Prevista no AT: Tb 13,11-18; Is 2,2-3; Br 5,3; Os 2,14-24; Mq 4,1-3.

o        Seus membros são chamados à santidade: 1Cor 1,2; Cl 3,12.

o        Sucessão apostólica: At 1,15-26; 2Tm 2,2; Tt 1,5.

o        Tem autoridade: Mt 16,18-19; 18,18; Jo 20,23.

o        Tem bons e maus membros: Mt 13,41-48; 22,10.

·        A Comunhão dos Santos

o        Intercessão dos Santos: Tb 12,12; 2Mc 15,14; Ap 5,8; 8,4.

o        Milagres operados por intermédio de relíquias: At 5,15; 19,11-12.

o        Orar uns pelos outros: Jr 15,1; At 12,5; Rm 15,30; 2Cor 13,7; Ef 6,18; Cl 4,3; 1Ts 5,25; 2Ts 3,1; Hb 13,18; Tg 5,16.

o        Os Santos estão nos céus: 1Ts 3,13; Hb 11,40; 12,23; 1Pd 3,19; Ap 6,9.

o        Somos rodeados pelos Santos: Hb 12,1.

o        Todos são chamados a serem santos: Ef 1,4-6.12.14.

o        Unidade de todos os cristãos: Jo 15,5; Rm 12,4; 1Cor 6,12-20; 10,17; 12,4-27; Ef 2,19; 5,30; Cl 1,18.24; 2,19; 3,15.

·        O Batismo

o        A preparação do batismo de João: Mc 1,4.8; At 1,5; 11,16; 19,4.

o        Abrange todo gênero humano: Mt 28,19; Mc 16,15-16; Lc 24,47; At 2,38.

o        Administrado em nome da Santíssima Trindade: Mt 28,19.

o        Administrado em nome de Jesus: At 2,38; 8,16; 10,48; 19,5; Ap 14,1; 22,4.

o        Batizado em Cristo: 1Cor 12,13; Gl 3,27.

o        Batizado na morte de Cristo: Rm 6,3.

o        Batizado para uma nova vida: Rm 6,4; Tt 3,5.

o        Com água e o Espírito Santo: Jo 3,5; Ef 5,26; Tt 3,5.

o        É administrado pelos discípulos de Cristo: Jo 4,2.

o        É necessário: Mc 16,16; Jo 3,5.

o        É nossa garantia de ressurreição: Rm 6,3-5; 1Cor 15,29.

o        É para nossa justificação: 1Cor 6,11.

o        É para nossa redenção: 1Jo 5,6.

o        É para nossa santificação: 1Cor 6,11; Ef 5,26.

o        É um presente gratuito de Deus: Tt 3,5.

o        Há um só batismo: Ef 4,5.

o        Perdoa o pecado: At 2,38; 22,16; 1Pd 3,21.

o        Prefigurado no AT: Ez 36,25; 1Pd 3,20-21.

·        Confirmação

o        É conferido pela imposição das mãos: At 8,17; 19,6.

o        É distinto do Batismo: At 8,15.

o        Envolve o Espírito Santo: Jo 14,17; At 2,4; 10,44.

o        Foi prometido por Cristo: Jo 14,16.26; 15,26.

o        Recebido antes do Batismo: At 10,44.

o        Recebido após o Batismo: At 2,38; 8,14-17; 19,5-6.

·        Reconciliação (Confissão e Penitência)

o        A Penitência reconcilia o pecador com a comunidade de crentes: 2Cor 2,5-8.

o        A Reconciliação foi instituída por Cristo: Jo 20,22-23.

o        A Reconciliação provém de Cristo Rm 5,11; Cl 1,20; Hb 1,3.

o        Cristo tem o poder de perdoar os pecados: Mt 9,6; Mc 2,10; Lc 5,24; Cl 3,13.

o        Deus perdoa os pecados: Mc 2,7; Lc 5,21.

o        Há graus de pecado (mortal e venial): 1Jo 5,16.

o        Liga/desliga no céu e na terra: Mt 18,18.

o        Ministério da Reconciliação: 2Cor 5,18.

o        O perdão é dado através de Cristo: 2Cor 2,10.

o        O poder de perdoar é delegado por Cristo: Jo 20,23; 2Cor 5,18.

o        Perdão dos pecados, unção dos enfermos e confissão: Tg 5,14-16.

o        Reconcilia com Cristo: 2Cor 5,18.

o        "Se vocês perdoarem os pecados... serão perdoados": Jo 20,22-23.

·        A Eucaristia

o        Apenas as espécies do pão e do vinho podem ser consagradas: Lc 24,30; Jo 6,51.57-58; At 20,7; 1Cor 10,17; 11,27.

o        Chamada "a Ceia do Senhor": 1Cor 11,20.

o        Chamada "ágape" (=festa do amor): Jd 1,12.

o        Chamada "Fração do Pão": At 2,42.

o        Comemoração do Calvário: Mt 26,28; Lc 22,19-20; 1Cor 10,16; 11,25-26.

o        Cristo está realmente presente nela: Mt 26,26; Lc 22,19-20; Jo 6,35.41.51-58; 1Cor 11,27-29.

o        Discurso sobre a Eucaristia: Jo 6,32-58.

o        Fonte de vida divina: Jo 6,27.33.50-51.58; 1Cor 11,30.

o        Instituída por Cristo: Mt 26,26-29; Mc 14,22; Lc 22,15-20; 1Cor 11,23-25.

o        "Isto É o meu Corpo... Isto É o meu Sangue": Mt 26,26-27; Mc 14,22.24; Lc 22,19-20; 1Cor 10,24-25.

o        Jesus é o Pão da Vida: Jo 6,35.41.48.51.

o        Nos une a Cristo: At 2,42; Rm 12,5; 1Cor 10,17.

o        Prometida por Cristo: Jo 6,27-59.

o        Sérias consequências de pecar contra a eucaristia: 1Cor 11,26-30.

·        Unção dos Enfermos

o        Administrado em nome do Senhor: Tg 5,14.

o        Recebido com oração de fé: Tg 5,15.

o        Restaura a saúde do doente: Mc 6,13; Tg 5,15.

o        Também perdoa os pecados: Tg 5,15.

o        Uso de óleo: Mc 6,13; Tg 5,14.

·        Sagradas Ordens

o        Consagração dos Apóstolos: Jo 20,22.

o        Deveres e funções dos sacerdotes no AT: Dt 33,7-11.

o        Funções dos sacerdotes: Ml 1,11; Mt 28,19; Jo 20,23; 1Cor 11,24; Tg 5,14.

o        É o chamado dos Apóstolos: Mt 10,1; 16,16-19; Lc 6,13; 22,32; Jo 21,15-17.

o        Graus de autoridade: 1Cor 12,28; Ef 4,11; 1Ts 5,12; Tg 3,1.

o        Melquisedec se aproximava de Cristo: Sl 110,4; Hb 5,6.10; 6,20.

o        O sacerdócio de Cristo foi perfeito: Hb 3,1-4; 7,27; 8,4-6; 9,12-14.25; 10,5.

o        O sacerdócio de Melquisedec foi superior ao de Aarão: Hb 7,1-17; 8,1-13.

o        Orar para despertar vocações sacerdotais: Mt 9,37-38; Lc 10,2.

o        Os Apóstolos são enviados: Mt 28,19; Mc 16,15; Lc 24,47; Jo 20,21.

o        Sacerdócio dos fiéis: Ef 2,19-20; 1Pd 2,5.9.

o        Sacerdócio no NT: Rm 15,16.

o        Transmissão do sacerdócio: 1Tm 4,14; 5,22; 2Tm 1,6; Tt 1,5.

·        Matrimônio

o        A continência é aconselhada para curtos períodos: 1Cor 7,1-5.

o        A morte dissolve o matrimônio: Rm 7,2; 1Cor 7,39.

o        A união é sagrada: 1Cor 7,13-14; Ef 5,25-26.

o        Duas pessoas em uma só carne: Gn 2,23-24; Mt 19,3-6; Ef 5,31.

o        É para a procriação de filhos: Gn 1,28.

o        O casamento é como Cristo e sua Igreja: Ef 5,21-23.

o        O celibato é superior: Mt 19,12; 1Cor 7,8.25.38.

o        O divórcio não é permitido: Mt 5,32; 19,9; Mc 10,2-12; Lc 16,18; 1Cor 7,10.

o        Ordenado por Deus: Gn 1,28; 2,18; Tb 8,5-7; Mt 19,6.

o        Os filhos são a bênção de Deus: Gn 24,60; 30,1-3; Sl 127,3: 1Sm 1,6; Lc 1,25.

o        Respeito mútuo: 1Cor 7,4; Ef 5,21-25.33; Cl 3,18-19.

·        A Bíblia

o        Bênção por crer na Palavra de Deus: Lc 11,28; Ap 22,7.

o        É aprendida desde a infância: Dt 6,7; 11,19; 31,12-13; 2Tm 3,15.

o        É chamada espada de dois gumes: Sl 149,6; Hb 4,12; Ap 1,16.

o        É chamada "Palavra de Deus": 1Ts 2,13; Hb 4,12.

o        É inspirada por Deus: At 1,16; Rm 1,2; 2Tm 3,16; 1Pd 1,10; 2Pd 1,21.

o        Não está sujeita a particular interpretação: 2Pd 1,20-21.

o        Necessita de um intérprete: At 8,30-31; 2Pd 3,16.

o        Propósito e usos das Escrituras: Rm 15,4; 16,26; 1Cor 10,11; 2Tm 3,15-17.

o        Tem coisas difíceis de se compreender: 2Pd 3,16.

·        Os Apóstolos

o        A Igreja foi erguida sobre os Apóstolos: Mt 16,18; Ef 2,20; Ap 21,14.

o        A primazia foi dada a Pedro: Mt 16,18; Lc 22,31-32; Jo 1,42; 21,15-17.

o        Chamados por Cristo: Mt 10,2-4; Mc 3,13-19; Lc 6,12-16; At 1,13.

o        Funções dos Apóstolos: At 2,42; 4,35; 6,2; 15,6; 1Cor 3,9; 4,1; 11,23; 15,1; 2Cor 5,20; 6,1.

o        O Espírito Santo pousou sobre os Apóstolos: At 1,8; 2,3-4.

o        Paulo apóstolo dos gentios: At 9,15; 22,15; Rm 11,13; Gl 2,8; 1Tm 2,7.

o        Paulo foi chamado a ser Apóstolo: At 9,15; Rm 1,1; 1Cor 9,1; 15,8-10; 2Cor 5,20; Gl 1,15.17.

o        São aqueles que foram enviados: Mt 28,19; Mc 6,7; 16,15; Lc 24,47; Jc 4,38; 17,18; 20,21.

o        São testemunhas de Cristo: Lc 24,48; Jo 15,27; At 1,8; 21-28; 2,32; 3,15; 4,33; 5,32; 10,39; 13,31; 22,15.

o        Também julgarão o mundo: Mt 19,28; Lc 22,30; 1Cor 6,2; Ap 20,4.

SOBRE OS DONS DE DEUS

·       

o        A caridade é superior à fé: 1Cor 13,13.

o        A fé é confirmada com o batismo: At 2,41; 8,12-13; 10,44-48; 16,14-15.31-33; 18,8; 19,2-5; 1Cor 1,14-17; Hb 10,22.

o        A fé é confirmada com o batismo e nos tornamos filhos de Deus: Jo 1,12; Gl 3,26; 4,5-7.

o        A fé é exigida por Cristo: Mt 9,28; Mc 4,40; Lc 8,25; Jo 6,35; 8,24; 9,35.

o        A fé é garantia das coisas esperadas: Rm 1,16; 4,20; 2Cor 4,13; Hb 11,1.

o        A fé pede obediência: At 6,7; Rm 1,5; 6,16-17; 15,18; 16,19.26; 2Cor 10,6; 2Ts 1,8; Hb 5,9; 11,8; 1Pd 1,22.

o        A fé vem pela pregação: At 4,1-4; 8,5-6.31.; 17,11; Rm 10,14-17; 2Cor 1,19; Cl 1,23; 1Tm 3,16; Hb 4,2-3.

o        Alguns heróis da fé: Eclo 44,1-15.21; Hb 11,1-40.

o        Deus é fiel e verdadeiro: Sl 89,33-37; Rm 3,3-4; 1Cor 1,9; 1Ts 5,24; 2Ts 3,3; 2Tm 2,13; Hb 10,23; 11,11; Ap 19,11.

o        Fé e boas obras são mutuamente complementares: Gl 5,6; 1Ts 1,3; 2Ts 1,1; Tg 2,17.20.26.

o        O justo vive pela fé: Hab 2,4; Rm 1,17; 3,21-22.26; Gl 3,11; Hb 2,4; 10,38.

o        Os cristãos são chamados "crentes" (=homens de fé): At 5,14; 9,42; 14,1; 15,7; Rm 4,24; 1Cor 1,21; 1Tm 4,12.

o        Sem fé não podemos agradar a Deus: Rm 2,7-8; Hb 11,6.

o        Tem poder para cumprir as promessas: Jr 32,17; Mt 19,26; Lc 1,37; 18,27; Rm 4,21; Hb 6,17; 11,19.

o        Vida para todos que crêem com fé: Rm 6,8; 10,10; 2Cor 4,13-14; Ef 1,19; Cl 2,12; 1Ts 4,14; 2Tm 1,10; 1Pd 1,5.

·        Esperança

o        A esperança conduz à santidade: 1Jo 3,3.

o        A esperança vem de Deus: Rm 15,13; 2Ts 2,16.

o        A esperança vem do Espírito Santo: At 1,8; 2,33; Rm 5,5; Gl 5,5.

o        Abraão é modelo de esperança: Rm 4,18.

o        Cristo é a nossa esperança de glória: Rm 5,1-2; Ef 2,13-17; Cl 1,27; Tt 3,7; 1Pd 1,3.

o        Deus clamou pela fé de Israel: Sl 130,7; 131,3; Jr 14,8; 17,13; 50,7; At 28,20.

o        Devemos esperar com paciência: Rm 8,25; 12,12; 15,4; 1Ts 1,3.

o        Devemos perseverar na esperança: Hb 3,6; 6,11.

o        Israel procurou uma esperança futura: Is 61,1-11; Jr 29,11; 31,17; Os 2,21-23.

o        Não há esperança para os incrédulos: 1Cor 15,14.19; Ef 2,12; 1Ts 4,13.

o        Os cristãos esperam em Deus: 1Tm 5,5; 6,17; 1Pd 1,21; 3,5.

o        Os cristãos esperam em Cristo: Gl 5,4-5; Cl 1,5; 1Ts 1,3; 1Tm 1,1; Tt 2,13; Hb 6,18-20.

o        Os cristãos esperam pela ressurreição: At 2,26; 23,6; 24,15; 26,6; Rm 8,23-24; Hb 11,1.

o        Os cristãos são salvos pela esperança: Rm 8,24; 1Ts 5,8.

o        Somos chamados para a esperança: Rm 5,2; Ef 1,18; 4,4; Cl 1,23; Hb 3,1.

·        Caridade (Amor)

o        Amar Jesus é seguir sua palavra: Dt 11,1; Jo 14,15.21.23; 1Jo 2,5; 3,24; 5,3.

o        Cristo se ofereceu à morte por amor a nós: Jo 15,13; 2Cor 5,14; Gl 2,20; Ef 5,2.25.

o        Deus é Amor: 1Jo 4,8.16.

o        Deus nos amou primeiro: Ef 5,2; 1Jo 3,16; 4,9-10.19.

o        Devemos amar a Deus de todo o coração: Dt 6,5; Mt 22,37; Mc 12,30.33; Lc 10,27; 1Jo 5,2.

o        Devemos amar uns aos outros: Lv 19,18.34; Dt 10,19; Mt 19,19.22-39; Mc 12,31.33; Lc 10,27; Jo 13,34-35; At 4,32; Rm 13,9; Gl 5,14; Tg 2,8; 1Jo 4,20-21.

o        Devemos amar também aos inimigos: Jó 31,29-30; Mt 5,43-47; Lc 6,27-36; 10,29-37; Rm 12,14-21.

o        O amor de Deus é incomparável: Mt 6,24; Lc 16,13; 1Jo 2,15.

o        O amor perfeito não sente receio: Rm 8,15; 2Tm 1,7; 1Jo 2,28; 4,18.

o        O amor é a maior virtude: Rm 13,8-10; 1Cor 13,13; Gl 5,6.

o        O amor se manifesta na caridade: Dt 15,7.11; Mt 25,34-45; Mc 12,41-44; Lc 21,1-4; 1Cor 13,3; 2Cor 8,1-8; 9,7; Tg 2,16; 1Jo 3,17-18.

o        O Espírito Santo é canal de amor: Rm 5,5; 8,16; 15,30; Gl 4,6.

o        O marido e a mulher devem se amar: Ef 5,25; Cl 3,19; 1Pd 3,7.

o        Por ter nos amado tanto, Deus enviou seu Filho: Zc 12,10; Mt 21,37; Jo 3,16; Rm 8,32; 1Jo 4,9-10.14.

o        Sem o amor, nenhuma virtude ou dom tem valor: 1Cor 13,1-10; Gl 5,6.

·        A Oração

o        A oração é a glorificação de Deus: 1Cr 29,13; 2Cr 20,21-22; Sl 21,13; 22,23; 89,5; 113,1; 148; 149; 150; Lc 19,37; Ap 19,5.

o        A oração desenvolve a vida espiritual: Ef 3,14-19; Fl 1,9-11.

o        A oração deve ser feita com fé: Lc 11,9; 18,1-8; Jo 14,13; 15,7.

o        A oração deve ser feita com fé no nome de Jesus: Jo 14,13; 15,7; At 3,16; 1Jo 3,22; 5,14.

o        A oração deve ser feita com perseverança: Mt 15,22-28; Lc 11,5-8; 18,1-8; Rm 12,12; Ef 6,18; Cl 4,2.

o        A oração pode ser oferecida por um ministro especial: At 13,3; 14,23.

o        A oração pode ser rezada de joelhos: 2Cr 6,13; Sl 95,6; Dn 6,10; Lc 22,41; At 9,40; 20,36.

o        A oração pode ser rezada de pé: 1Cr 23,30; Ne 9,5; Mc 11,25; Lc 18,11.

o        A oração pode ser rezada em comunidade: Sl 42,4; 122,1; Mt 18,19; Lc 24,53; At 1,14; 3,1; 4,24; 6,4; 20,36; 1Tm 2,8.

o        A oração pode ser rezada em particular: 2Rs 4,33; Tb 3,11; Is 26,20; Dn 6,11; Mt 6,6; At 9,11.40; 10,9.

o        Agradecimento a Deus: Ne 12,8; 46; Tb 13,1ss; Jd 16,1ss; Sl 35,18; 109,30; Eclo 51,1ss; 2Cor 4,15; Fl 4,4-6; Ap 7,12.

o        O Pai-Nosso (Oração do Senhor): Mt 6,9; Lc 11,2.

o        O templo é chamado "casa de oração": Is 56,7; Mt 21,13; Mc 11,17.

o        Oração pelos mortos: 2Mc 12,42-45.

o        Oração pelos outros: At 12,5; Rm 15,30; 2Cor 1,11; Ef 6,18; Cl 4,3; 1Ts 5,25; 2Ts 3,1; 1Tm 2,1; Hb 13,18.

o        Pedido a Deus: Ex 32,11-13; 33,17; 34,9; Js 7,6; Mt 7,7-11; Mc 11,24.

SOBRE AS ÚLTIMAS COISAS

·        Morte

o        A morte deve ser temida: 2Rs 20,2; Is 38,2; Mc 14,33; Lc 22,44; Jo 11,33.38; 12,27; 13,21; Hb 5,7.

o        A morte é o destino comum do homem: 2Sm 12,23; 14,14; 1Rs 2,2; Sl 49,8-9; Ecl 3.

o        A morte encerra a nossa existência mortal: Jó 7,8-9.21; 14,10; Sl 39,13; 88,5; 102,23-24; Ecl 3,19-22; 6,1-12; Lc 12,20.

o        A morte física é conseqüência do pecado: Gn 3; Sb 1,13; 2,24; Eclo 25-24; Rm 5,12; 1Cor 15,22.

o        A morte traz sofrimento: Gn 23,2; 50,1; 2Sm 19,1; 2Rs 13,14; Lc 7,12,13; Jo 11,19.35.

o        Cristo venceu a morte: At 13,34; Rm 6,9; 1Cor 15,25-27; 2Tm 1,10; Hb 2,14; Ap 1,18.

o        Todos aqueles que morrem em Cristo viverão com Ele: Rm 6,5.8; 8,17; 2Tm 2,11.

·        Purgatório

o        A oração pode ajudar: 2Mc 12,45.

o        A purificação é necessária para adentrar ao céu: Hb 12,14; Ap 21,27.

o        Agonia temporária: 1Cor 3,15; Mt 5,25-26.

o        Cristo pregou para seres espirituais: 1Pd 3,19.

o        É um estado intermediário de purificação: Mt 5,26; Lc 12,58-59.

o        É uma realidade entre o céu e a terra: Mt 18,23-25; Lc 23,42; 2Cor 5,10; Fl 2,10; Ap 5,2-3.23.

o        Graus de expiação dos pecados: Lc 12,47-48.

o        Não será perdoado nem aqui nem no mundo vindouro: Mt 12,32.

o        Nada de impuro pode entrar no céu: Ap 21,27.

o        Sacrifício para os mortos: 2Mc 12,43-46.

o        Salvação, mas como pelo fogo: 1Cor 3,15.

o        Sofrimento extra: 2Sm 12,14; Cl 1,24.

·        Inferno (Geena)

o        Chamado de abismo: Jó 26,5-6; Sl 88,6; 2Pd 2,4.

o        Chamado de prisão: Jó 38,17; Is 24,22.

o        Exclusão da presença de Deus: Mt 5,20; 7,21-23; Lc 13,24-25; 1Cor 6,9-11; Gl 5,21; 2Ts 1,9.

o        Lugar de fogo: Mt 5,22; 18,9; 25,41; Mc 9,43; Lc 3,17; Tg 3,6; Jd 1,7; Ap 19,20; 20,10; 21,8.

o        Lugar de miséria e tormento: Dn 12,2; Mt 8,11-12; 13,42; 22,13; Lc 13,24-28; Rm 2,8; Ap 14,9-11; 19,20.

o        Lugar de trevas e silêncio: Sl 88,6; 115,17; Mt 8,12; 22,13; 25,30; 2Pd 2,17; Jd 1,13.

o        Neste lugar não há chance para arrependimento: Hb 12,17.

o        O inferno é o salário do pecado: Is 3,11; Rm 2,6; 6,21-23; 1Cor 6,9-10; Gl 6,7; Tg 1,15; Ap 21,8.

o        Preparado para o diabo e seus anjos: Mt 25,41; Ap 14,9-11.

o        Punição para a rejeição voluntária da graça de Deus: Jo 12,48; Rm 2,5; 2Ts 1,8; Hb 2,2-3; 6,4-6; 10,26-29.

·        Céu

o        Cristo nos levará ao céu: Mt 24,31; Jo 14,2-3; 1Ts 4,16-17; 2Ts 2,1.

o        Devemos tentar ir para o céu: Cl 3,1; Hb 13,14.

o        É o local de residência de Deus: Gn 19,24; Dt 10,14; 1Rs 22,19; Sl 11,4; Mt 5,16.45; 6,1.

o        Graus de alegria no céu: Mt 20,21; Jo 14,1-3.

o        Jesus ascendeu ao céu: Mc 16,19; Lc 24,50; Jo 20,17; At 1,3-9; Ef 4,10; 1Pd 3,22.

o        Jesus desceu do céu: Jo 3,13.31; 6.38; 1Cor 15,47.

o        Jesus voltará do céu: Mt 10,23; 16,27; 19;28; 35,31; At 1,11; 1Ts 4,13-18; 2Ts 1,7; 2Pd 1,16; Ap 1,7; 20,11; 22,20.

o        Não é fácil entrar no céu: Pr 11,28; Mc 10,23-25; 1Cor 6,9; 1Pd 4,18.

o        Nosso corpo deve primeiro ser transformado: 1Cor 15,50-51; 1Ts 4,13-17.

o        O céu é o nosso lar: Mt 5,12; 2Cor 5,1-5; Fl 3,20; Cl 1,5; 1Pd 1,4.

o        O céu é para todos os homens: 1Tm 2,4.

o        São Paulo foi levado ao terceiro céu: 2Cor 12,2.

SOBRE AS QUESTÕES APOLOGÉTICAS

·        Sola Scriptura (Somente a Bíblia)
A idéia fundamental da reforma protestante é a de que apenas a Bíblia é a única regra de fé. Entretanto, a própria Bíblia não suporta essa crença...

o        Jesus fala ou revela verdades que não se encontram na Escritura: Mt 2,23; At 20,35; Tg 4,5.

o        Nem tudo está na Bíblia: Jo 21,25.

o        O grande mandamento de Cristo é pregar e não escrever: Mt 28,19-20.

o        Os cristãos primitivos seguiam a tradição apostólica: At 2,42.

o        São Paulo reconhece autoridade à tradição oral: 1Ts 2,13; 2Ts 2,15; 2Tm 2,2; 1Cor 11,2.

·        Sola Fide (Somente a Fé)
Martinho Lutero, querendo evitar a importância de se fazer boas obras, promoveu a idéia de que apenas a fé é responsável pela salvação. A Igreja, porém, sempre ensinou que a fé, a esperança e o amor (caridade) são necessários para a salvação. O único lugar em que a expressão "apenas a fé" aparece na Bíblia está em Tg 2,24, onde o autor declara que Abraão não foi salvo apenas por sua fé.

o        As obras têm méritos: Fl 2,12; 2Cor 5,10; Rm 2,6; Mt 25,32-46; Gl 6,6-10.

o        Devemos evitar o pecado: Hb 10,26.

o        Devemos fazer o desejo de Deus: Lc 6,46; Mt 7,21; 19,16-21; 1Tm 5,8.

o        Devemos guardar os mandamentos: 1Jo 2,3-4; 3,24; 5,3.

o        Obtém o perdão dos pecados: Tg 5,20.

o        Que proveito tem a fé sem as obras?: Tg 2,14-26.

o        São Paulo se auto-disciplina para evitar perder a salvação: 1Cor 9,27.

·        Livros Deuterocanônicos (chamados de "Apócrifos" pelos protestantes)

o        Os deuterocanônicos foram usados no Novo Testamento: 2Mc 6,18-7,42 : Hb 11,35; Sb 3,5-6 : 1Pd 1,6-7; Sb 13,1-9 : Rm 1,18-32.

o        A versão da Septuaginta (Antigo Testamento grego com os deuterocanônicos) é citada em partes onde difere da versão hebraica: Is 7,14 : Mt 1,23; Is 40,3 : Mt 3,3; Jl 2,30-31 : At 2,19-29; Sl 95,7-9 : Hb 3,7-9.

·        Batismo de Crianças

o        A Bíblia sugere o batismo de toda uma casa, o que inclui as crianças: At 2,38-39; 16,15.33; 1Cor 1,16.

o        A circuncisão (normalmente feita em crianças) foi substituída pelo batismo: Cl 2,11-12.

o        O batismo é necessário para a salvação: Jo 3,5.

·        Papado/Infalibilidade

o        A cátedra de Moisés como autoridade de ensino: Mt 23,2.

o        A igreja edificada sobre os apóstolos e profetas: Ef 2,20.

o        As chaves são símbolo de autoridade: Is 22,22; Ap 1,18.

o        Pedro é sempre mencionado em primeiro, antes dos dos demais apóstolos: Mt 10,1-4; Mc 3,16-19; Lc 6,14-16; At 1,13; Lc 9,32.

o        Pedro fala pelos apóstolos: Mt 18,21; Mc 8,29; Lc 12,41; Jo 6,69.

o        Pedro foi o primeiro a pregar durante o Pentecostes: At 2,14-40.

o        Pedro realizou a primeira cura: At 3,6-7.

o        Pedro recebeu a revelação de que os gentios deveriam ser batizados: At 10,46-48.

o        Simão é chamado de Cefas (aramaico: Kepha = Pedra): Jo 1,42.

o        Vicário de Cristo: Lc 10,1-2.16; Jo 13,20; 2Cor 5,20; Gl 4,14; At 5,1-5.

o        "Apascenta as minhas ovelhas": Jo 21,17.

o        "Simão, confirma os teus irmãos": Lc 22,31-32.

o        "Sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja; [...] Te darei as chaves do céu; [...] Tudo que ligares e desligares: Mt 16,18-19.

·        Irmãos de Jesus?
O Cristianismo tradicional afirma que Jesus é o único filho de Maria. As citações aos "irmãos do Senhor" se referem a outros membros da família e, em alguns casos, aos seus próprios discípulos.

o        Maria, esposa de Cléofas e irmã da Virgem Maria (Jo 19,25) é a mãe de Tiago e José (Mc 15,47; Mt 27,56), que são chamados de "irmãos do Senhor" (Mc 6,3).

o        Em At 1,12-15, vemos que os Apóstolos, Maria, algumas mulheres e os irmãos de Jesus totalizam aproximadamente 120 pessoas, o que é um número muito alto de irmãos.

o        Gn 14,14: Lot, sobrinho de Abraão (cf. Gn 11,26-28), é chamado de irmão de Abraão.

o        Gn 29,15: Labão, tio de Jacó, chama Jacó de seu irmão.

o        Jo 19-26-27: Jesus entrega Maria aos cuidados de seu discípulo João e não a um de seus supostos irmãos.

·        Os Santos

o        A transfiguração - onde está descrita a morte de Moisés e Elias?: Mt 17; Mc 9.

o        Corpo de Cristo: 1Cor 12,25-27; Rm 12,4-5.

o        Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos: Mc 12,26-27.

o        Intercessão de Moisés e Samuel: Jr 15,1.

o        O aviso é para não evocar os mortos, mas os santos podem ser invocados pois estão vivos para Deus: Dt 18,10.

o        Oração intercessória: Ef 6,18; Rm 15,30; Cl 4,3; 1Ts 1,11.

o        Os falecidos Onias e Jeremias intercedem pelos judeus: 2Mc 15,11-16.

o        Os santos estão unidos com Deus: 1Cor 13,12; 1Jo 3,2.

o        Os santos são reerguidos na ressurreição e circulam por Jerusalém: Mt 27,52; Ef 2,19.

o        Veneração de anjos unidos com Deus: Js 5,14; Dn 8,17; Tb 12,16; Mt 18,10.

·        As Imagens

o        Deus ordena a confecção de imagens: Ex 25,18-22; Nm 21,8-9.

o        Salomão constrói o Templo com estátuas e imagens: 1Rs 6,23-29.35; 7,29.

·        Você já está salvo?

o        1Cor 10,12 - "Assim, pois, aquele que julga estar de pé, tome cuidado para não cair".

o        Mt 19,16-17 - "Aí alguém se aproximou dele e disse: 'Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?' Respondeu [Jesus]: 'Por que me perguntas sobre o que é bom? O Bom é um só. Mas se queres entrar para a Vida, guarda os mandamentos'".

o        Lc 10,25-28 - "E eis que um doutor da lei se levantou e disse para experimentá-lo: 'Mestre, que farei para herdar a vida eterna?' Ele disse: 'Que está escrito na Lei? Como lês?'. Ele então respondeu: 'Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo'. Jesus disse: 'Respondeste corretamente; faze isso e viverás'".

o        Jo 5,24 - "Em verdade, em verdade vos digo: quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento, mas passou da morte à vida".

o        Jo 6,54 - "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia".

o        Mt 10,22 - "E sereis odiados por todos por causa do meu nome. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo".

o        Mc 16,16 - "Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado".

o        Jo 3,5 - "Respondeu-lhe Jesus: 'Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus".

 

25. SOMENTE A BÍBLIA? – 21 RAZÕES PARA REJEITAR A SOLA SCRIPTURA

O QUE É Sola Scriptura?

"Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica"
(St. Agostinho - Contr. Epist. Manichaei. v, 6)

Nós cremos somente na Bíblia, e a Bíblia inteira é a única regra de fé para o cristão.
Talvez você já tenha ouvido esta frase ou algo parecido de um protestante evangélico. Ela é, em essência, o significado da doutrina da Sola Scriptura, ou Somente a Escritura, que alega que a Bíblia - interpretada individualmente pelo crente - é a única fonte de autoridade religiosa e é a única regra ou o único critério em quê o crente deve acreditar. Por esta doutrina, que é uma das fundamentais doutrinas do protestantismo, o protestante nega que exista qualquer outra fonte de autoridade religiosa ou revelação divina à humanidade.
A Igreja Católica, por outro lado, afirma que a regra imediata ou direta de fé é o ensino da Igreja. Este, por sua vez, tem suas Fontes da Revelação Divina - A Palavra Escrita, a Sagrada Escritura, e a Palavra não-Escrita, conhecida como Tradição. A autoridade do Magistério da Igreja Católica (chefiado pelo Papa), apesar de não ser ela própria uma fonte de revelação divina, possui a missão de interpretar e ensinar tanto a Escritura como a Tradição. Estas duas formas são as fontes da doutrina cristã, a regra de fé cristã remota ou indireta.
Obviamente, estas duas visões apresentadas são opostas, e aquele que busca seguir Cristo deve ter a certeza de que está seguindo a verdadeira.
A doutrina da Sola Scriptura se originou com Martinho Lutero, um monge alemão do século 16 que quebrou sua união com a Igreja Católica Romana e iniciou a Reforma Protestante [1]. Em resposta a alguns abusos que ocorriam na Igreja, Lutero tornou-se um grande oponente de certas práticas. Como tais abusos de fato ocorriam, Lutero estava correto em se revoltar. Contudo, houve uma série de confrontos entre ele e a hierarquia católica. E à medida que foram evoluindo, as disputas foram se centrando na questão da autoridade da Igreja e - pelo ponto de vista de Lutero - se o ensino da Igreja deveria ser considerado regra de fé legitima para os cristãos.
Crescendo as disputas entre Lutero e a hierarquia da Igreja, ele a acusava de haver corrompido a doutrina cristã e distorcido as verdades bíblicas, e cada vez, mais e mais, ele acreditava que a Bíblia, interpretada por cada indivíduo, era a única regra de fé religiosa para o cristão. Rejeitou a Tradição assim como a autoridade do ensino da Igreja Católica (com o Papa como sua cabeça) como tendo legítima autoridade religiosa.
Um observador honesto poderia perguntar, portanto, se a doutrina de Lutero sobre a Sola Scriptura seria uma restauração genuína das verdades bíblicas ou a promulgação de uma visão pessoal acerca da autoridade da Igreja. Lutero era um apaixonado pelas suas crenças, e foi bem-sucedido em divulgá-las, mas estes fatos por si só não são garantia alguma de que o que ensinou esteja correto. Pelo fato de o bem-estar, e mesmo o destino eterno das pessoas, ser uma aposta de confiança, o fiel cristão precisa estar precisamente seguro neste assunto.
Nos parágrafos seguintes declaramos vinte e uma considerações que ajudarão você, leitor católico ou protestante, a analisar cuidadosamente a doutrina luterana da Sola Scriptura de um ponto de vista bíblico, histórico e lógico, e que mostrará que de fato esta não é uma doutrina bíblica genuína, mas somente uma doutrina de homens.

NÃO É ENSINADA EM PARTE ALGUMA DA BÍBLIA

Talvez a razão que mais chame a atenção para rejeitar esta doutrina é que não existe nem mesmo um só versículo onde esta seja ensinada, e isto, portanto, torna esta doutrina auto-refutada.
Os protestantes comumente citam versículos tais como 2 Tm 3,16-17 ou Ap 22,18-19 em defesa da Sola Scriptura, mas um exame minucioso destas duas passagens facilmente irá demonstrar que na verdade estas não suportam tal doutrina.
Em 2 Tm 3,16-17 lemos: Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, refutar, corrigir, educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para qualquer boa obra. Existem aqui cinco considerações que enfraquecem a interpretação protestante desta passagem:

1.     A palavra grega ophelimus utilizado no v.16 significa útil e não suficiente. Um exemplo desta diferença seria dizer que a água é útil para nossa existência - mesmo necessária - mas não é suficiente; isto é, ela não é o único componente que nos manteria vivos. Também precisamos de alimentos, medicamentos, etc. Da mesma forma, a Escritura é útil na vida do cristão, mas isto nunca quis dizer que ela é a única fonte de ensino cristão e a única coisa que cada o necessita.

2.     A palavra grega pasa, que geralmente é traduzida como toda, na realidade significa qualquer, e seu sentido se refere a cada uma ou qualquer uma das classes denotadas pelo substantivo a que está conectado [2]. Em outras palavras, a forma grega indica que toda e qualquer Escritura é útil. Se a doutrina da Sola Scriptura fosse verdadeira, baseada no verso grego 16, todo e qualquer livro da Bíblia poderia, isoladamente, ser considerado a única regra de fé, uma posição que é obviamente absurda.

3.     A Escritura a que Paulo se refere é o Antigo Testamento, um fato que é claramente referido pelo fato de as Escrituras serem conhecidas desde a tenra infância (v.15) por Timóteo. O Novo Testamento como conhecemos ainda nem mesmo existia, ou na melhor das hipóteses estava incompleto, então não poderia estar incluído no que Paulo quis dizer com o termo Escritura. Se aceitarmos as palavras de Paulo sem analisarmos o que realmente significam, a Sola Scriptura, então, significaria que a única regra de fé do cristão é o Antigo Testamento. Esta é uma conclusão que todos os cristãos rejeitariam. Os protestantes responderiam a este argumento dizendo que Paulo não está tratando do cânon da Bíblia (os livros inspirados que constituem a Bíblia), mas sim da natureza da Escritura. Ainda que haja alguma validade nesta afirmação, a questão do cânon também é relevante aqui, pelas seguintes razões: antes que falemos da natureza das Escrituras como sendo theopneustos, ou seja, inspirados (literalmente "soprados por Deus"), é imperativo que identifiquemos com segurança os livros que queremos listar como Escritura; de outra forma, livros errados poderia ser chamados de inspirados. Obviamente, as palavras de São Paulo aqui tomaram uma nova dimensão quando o Novo Testamento foi completado, e os cristãos eventualmente as consideravam, também, como sendo Escritura. Deve ser dito, então, que o cânon bíblico também entra na questão, pois Paulo - escrevendo sob a inspiração do Espírito Santo - enfatiza o fato de que toda (e não somente alguma) Escritura é inspirada. A questão que deve ser discutida, entretanto, é esta: como podemos ter a certeza de que temos todos os livros corretos? Obviamente, somente poderemos conhecer a resposta se soubermos qual é o cânon da Bíblia. Tal questão guarda um problema para os protestantes, mas não para os católicos, pois estes possuem uma autoridade infalível que pode responder.

4.     A palavra grega artios, aqui traduzida como perfeito, à primeira vista pode fazer crer que a Escritura é de fato tudo o que é necessário. "Logo", alguém poderia perguntar, "se as Escrituras tornam o homem de Deus perfeito, que mais seria preciso? Por acaso a palavra 'perfeito' não significa que nada mais é necessário?". Bem, a dificuldade com esta interpretação é que o texto não diz que somente pelos meios da Escritura o homem de Deus é tornado perfeito. O texto indica precisamente o oposto, pois é verdadeiro que a Escritura opera em conjunção com outras coisas. Note que não é qualquer um que se torna perfeito, mas o homem de Deus - que significa um ministro de Deus (cf. 1 Tm 6,11), um sacerdote. O fato deste indivíduo ser um ministro de Cristo pressupõe que ele já estava acompanhando um estudo que o prepararia para exercer tal ofício. Sendo assim, a Escritura poderia ser mais um instrumento dentro de uma série de outros que tornam o homem de Deus perfeito. As Escrituras poderiam complementar sua lista de itens necessários ou poderiam ser o item mais proeminente da lista, mas seguramente não eram a única ferramenta de sua lista nem pretendia ser tudo o que necessitaria. Por analogia, considere um médico. Neste contexto, poderíamos dizer algo como "O Tratado de Medicina Interna do Harrison (livro texto de referência na prática médica mundial) torna nossa prática médica perfeita, logo estamos aptos a qualquer procedimento médico". Obviamente tal afirmativa não pode significar que tudo o que o médico precisa seja o TMIH. Este é um item entre vários outros, ou o mais proeminente. O médico também necessita de um estetoscópio, um tensiômetro, um otoscópio, um oftalmoscópio, técnicas cirúrgicas, etc. Estes outros itens são pressupostos pelo fato de estarmos falando de um médico, e não de um leigo. Logo, seria incorreto presumir que somente o TMIH torna o médico perfeito, a única ferramenta necessária.
Além disso, considerar que a palavra perfeito significa o único item necessário resulta em contradição bíblica, pois em Tg 1,4 lemos que a paciência - sem citar as Escrituras - torna os homens perfeitos e íntegros, livres de todo defeito. É verdade que aqui uma palavra grega diferente - teleios - é usada para perfeitos, mas permanece o fato de que o entendimento básico é o mesmo. Então, se alguém certamente entende que a paciência não é a única ferramenta que o cristão precisa para ser perfeito, um método interpretativo consistente levaria-nos a reconhecer da mesma forma que as Escrituras não são a única coisa que o homem de Deus necessita para ser perfeito.

5.     A palavra grega exartio no v.17, traduzida por qualificado (outras Bíblias trazem algo como equipado ou plenamente qualificado) é tida como uma prova pelos protestantes da Sola Scriptura pois esta palavra - novamente - implica em dizer que nada mais é necessário ao homem de Deus. Contudo, ainda que o homem de Deus seja qualificado ou plenamente equipado, este fato por si mesmo não garante que este homem saiba interpretar e aplicar corretamente uma passagem bíblica. O sacerdote deve também aprender como usar corretamente as Escrituras, mesmo que ele já esteja equipado com elas. Considere de novo a analogia do médico. Pense num estudante de medicina no início de seu internato. Ele deve dispor de todo seu arsenal necessário para os procedimentos cirúrgicos, ou seja, ele deve estar qualificado, plenamente equipado para qualquer procedimento de emergência, mas a menos que ele passe boa parte do tempo junto a médicos mais experientes, observe suas técnicas, aprenda suas habilidades, e pratique algum procedimento ele próprio, os instrumentos cirúrgicos que possui são completamente inúteis. Sem dúvida, se não aprender a usar tais instrumentos apropriadamente, estes mesmos podem se tornar armas perigosas em suas mãos. Quem se habilitaria a submeter-se a um cirurgião que aprendeu cirurgias por cursos de correspondência?

Da mesma forma ocorre entre o homem de Deus e a Escritura. Estas, como os instrumentos cirúrgicos, são preciosos apenas quando bem manipulados. Do contrário, os resultados são o oposto do esperado. Mal usados, um pode trazer a dor e a morte física, a outra, a dor e a morte espiritual. Devido a Escritura nos advertir a mantermos a retidão da palavra da verdade ( cf. 2 Tm 2,15), é óbvio, portanto, que a palavra da verdade pode ser desviada de seu correto caminho - da mesma forma que um estudante de medicina destreinado que usa incorretamente seu instrumental.
Com relação ao Ap 22,18-19, há duas considerações que desqualificam a Sola Scriptura. A passagem - quase a última da Bíblia - diz: Eu atesto a todo o que ouvir as palavras proféticas deste livro: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhes acrescentará as pragas escritas nesse livro. E se alguém tirar qualquer coisa das palavras deste livro profético, Deus lhe retirará a sua parte da árvore da vida e da cidade santa, que estão descritas neste livro.

1.     Quando os versos desta passagem afirmam que nada deve ser acrescentado ou retirado das palavras deste livro profético, não estão se referindo à Sagrada Tradição sendo acrescentada à Sagrada Escritura. É óbvio pelo contexto que o livro aqui referido é o do Apocalipse, e não a Bíblia inteira. Sabemos disso porque São João diz que o que for culpado por acrescentar a este livro será penalizado com as pragas escritas neste livro, as pragas que ele mesmo descreveu em seu próprio livro, o Apocalipse. Afirmar algo diverso disso é atentar contra o texto e distorcer seu claro significado, especialmente devido a Bíblia que conhecemos ainda não existir quando esta passagem foi escrita, sendo assim não poderia significar o compêndio cristão [3].
Na defensiva de sua interpretação, os protestantes trarão o argumento de que Deus vê adiante, vê qual seria o cânon da Bíblia, sendo o Apocalipse o último livro da Bíblia, e portanto Ele definiu o cânon com as palavras dos vv.18-19. Mas esta interpretação necessita que busquemos o significado do texto. Além do mais, se tal afirmação for correta, como o cristão pode saber inquestionavelmente que Ap 22,18-19 está selando o cânon a menos que um intérprete infalível lhe confirme que este é, inquestionavelmente, o único sentido deste verso? Porém, se tal autoridade existe, então a doutrina da Sola Scriptura - ipso facto - torna-se nula e a ser evitada.

2.     A mesma advertência de não acrescentar ou subtrair palavras é vista em Dt 4,2, que diz: Nada acrescentareis às palavras dos mandamentos que vos dou, e nada tirareis; assim guardareis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos dou. Se aplicarmos uma interpretação paralela com este verso, logo tudo o que está na Bíblia além dos decretos das leis do Antigo Testamento deveria ser considerado apócrifo ou não-canônico - incluindo o Novo Testamento! Mais uma vez, todos os cristãos rejeitam, imediatamente, esta conclusão. A proibição de Ap 22,18-19 contra a adição, portanto, não pode significar que os cristãos estão proibidos de buscar algum guia fora da Bíblia.

A BÍBLIA INDICA QUE DEVEMOS ACEITAR A TRADIÇÃO ORAL

São Paulo recomenda e ordena a manutenção da Tradição Oral. Em 1 Cor 11,2, por exemplo, lemos: Eu vos felicito por vos lembrardes de mim em toda ocasião e conservardes as tradições tais como eu vo-las transmiti [4]. São Paulo está claramente recomendando que mantenham a tradição oral, e deve ser notado em particular que ele congratula os fiéis por fazê-lo (Eu vos felicito...). Também é explícito no texto o fato de que a integridade desta Tradição oral apostólica era claramente mantida, da mesma forma como Nosso Senhor havia prometido, sob o auxílio do Espírito Santo (cf. Jo 16,13).
Talvez o mais claro apoio bíblico para a Tradição oral seja 2 Ts 2,15, onde os cristãos são enfaticamente advertidos: Assim, pois, irmãos, ficai inabaláveis e guardai firmemente as tradições que vos ensinamos, de viva voz ou por carta. Esta passagem é significante porque: a) mostra uma tradição oral apostólica vivente, b) diz que os cristãos estarão firmemente fundamentados na fé se aderirem a estas tradições e c) claramente afirma que estas tradições eram tanto escritas como orais. A Bíblia distintamente mostra aqui que as tradições orais - autênticas e apostólicas em sua origem - deveriam ser seguidas como componente válido do Depósito da Fé, então por quais razões ou desculpas os protestantes a rejeitam? Com qual autoridade podem rejeitar uma exortação clara de Paulo?
Além do mais, devemos considerar o texto desta passagem. A palavra grega krateite, traduzida aqui como guardar, significa estar firme, forte, prevalecer [5]. Esta linguagem é enfática, e demonstra a importância da manutenção destas tradições. Obviamente, devemos diferenciar o que seja Tradição (com T maiúsculo), que é parte da revelação divina, das tradições da Igreja (com t minúsculo) que, mesmo que sejam boas, desenvolveram-se tardiamente na Igreja e não fazem parte do Depósito da Fé. Um exemplo de algo que seja parte da Tradição seria o batismo infantil; um exemplo de tradições da Igreja seria o calendário das festas dos santos. Tudo que venha da Sagrada Tradição é de origem divina e são imutáveis, enquanto que as tradições da Igreja são cambiáveis pela Igreja. A Sagrada Tradição serve-nos como regra de fé por mostrar no quê a Igreja tem consistentemente crido através dos séculos e como ela sempre entendeu uma determinada parte Bíblica. Uma das principais formas pelo qual a Sagrada Tradição foi transmitida a nós está nas doutrinas dos textos litúrgicos antigos, o serviço divino da Igreja.
Todos já notaram que os protestantes acusam os católicos de promoverem doutrinas novas e anti-bíblicas baseadas na Tradição, por afirmarem que tal Tradição contém doutrinas que são estranhas à Bíblia. Entretanto, esta acusação é profundamente falsa. A Igreja Católica ensina que a Tradição Oral não contém nada que seja contrário à Tradição Escrita. Alguns pensadores católicos afirmam, inclusive, que não há nada na Tradição Oral que não seja encontrado na Bíblia, mesmo que implicitamente ou em formas seminais. Certamente as duas estão em perfeita harmonia e complementam uma à outra. Para algumas doutrinas, a Igreja faz uso da Tradição mais que pelas Escrituras para seu entendimento, mas mesmo estas doutrinas estão incluídas nas Sagradas Escrituras. Por exemplo, as doutrinas seguintes são preferencialmente baseadas na Sagrada Tradição: batismo infantil, o cânon das Escrituras, o domingo como Dia do Senhor, a virgindade perpétua de Maria e a assunção de Maria.
A Sagrada Tradição complementa nossa compreensão da Bíblia ao mesmo tempo que não constitui uma fonte extra-bíblica de revelação, com doutrinas novas ou estranhas a ela. Muito pelo contrário: a Sagrada Tradição age como a memória viva da Igreja, relembrando-a constantemente o que criam os cristãos antigos, como entendiam e interpretavam as passagens bíblicas [6]. De certa forma, é a Sagrada Tradição que diz ao leitor da Bíblia: Você está lendo um livro muito importante, que contém a revelação de Deus aos homens. Agora deixe-me explicá-lo como ela sempre foi entendida e praticada pelos cristãos desde o início dos tempos.

A BÍBLIA QUALIFICA A IGREJA COLUNA E FUNDAMENTO DA VERDADE

É muito interessante que em 1 Tm 3,15 vemos não a Bíblia, mas a Igreja - isto é, a comunidade viva de crentes fundada sob Pedro e os apóstolos e mantida pelos seus sucessores - sendo chamada de coluna e fundamento da verdade. Claramente esta passagem de modo algum significa diminuir a importância da Bíblia, mas sua intenção é de mostrar que Jesus Cristo de fato estabeleceu um magistério autorizado que foi enviado a ensinar todas as nações (cf. Mt 28,19) Em outro lugar esta mesma Igreja recebeu de Cristo a promessa de que os portões do inferno não prevaleceriam contra ela (cf. Mt 16,18), pois Ele sempre estaria presente (cf. Mt 28,20) e enviaria o Espírito Santo para ensiná-la todas as verdades (cf. Jo 16,13). Ao chefe visível de sua Igreja, São Pedro, Nosso Senhor disse: Te darei as chaves do Reino dos Céus. Tudo que ligares na terra será ligado no céu; e tudo que desligares na terra será desligado no céu (Mt 16,19). É evidente a partir destas passagens que Nosso Senhor enfatiza a autoridade de Sua Igreja e a norma que deveria seguir para salvaguardar e definir o Depósito da Fé.
Também é evidente destas passagens que esta mesma Igreja seria infalível, pois se em algum lugar de sua história a Igreja ensinou o erro em matéria de fé e moral - ainda que temporariamente - cessaria de ser esta coluna e fundamento da verdade. Pelo fato de todo fundamento existir para ser firme e permanente, e de que as passagens acima não permitem a possibilidade da Igreja ensinar algo contrário à reta fé e moral, a única conclusão plausível é que Nosso Senhor foi muito preciso em estabelecer a sua infalibilidade quando chamou-a de coluna e fundamento da verdade.
O protestante, entretanto, vê aqui um dilema quando afirma que a Bíblia é a única regra de fé para seus crentes. Qual a capacidade, então, da Igreja - coluna e fundamento da verdade - se não deve servir para estabelecer autoridade alguma? Como a Igreja pode ser coluna e fundamento da verdade se não é palpável, habitualmente prática para servir como autoridade na vida do cristão? O protestante efetivamente nega que a Igreja seja o fundamento da verdade por negar que ela possua qualquer autoridade para ensinar.
Além disso, os protestantes entendem o termo Igreja como sendo algo diferente do que entende a Igreja Católica. Os protestantes vêem a igreja como uma entidade invisível, e para eles ela é a coletividade de todos os cristãos ao redor do mundo unidos na fé em Cristo, apesar das grandes variações nas doutrinas e alianças denominacionais. Os católicos, por outro lado, entendem que não somente os cristãos unidos na fé em Cristo formam seu corpo místico, mas entendemos simultaneamente que esta seja - e somente uma - a única organização que possa traçar uma linha ininterrupta até os próprios apóstolos: a Igreja Católica. É esta Igreja e somente esta Igreja que foi estabelecida por Cristo e que tem mantido uma consistência absoluta em doutrina através de sua existência, e, portanto, é somente esta Igreja que pode requerer ser a coluna e fundamento da verdade.
O protestantismo, por comparação, tem conhecido história de fortes vacilos e mudanças doutrinárias, e nem mesmo duas denominações concordam entre si completamente - mesmo quanto a doutrinas importantes. Tais mudanças e alterações não permitem que sejam consideradas fundamento da verdade. Quando os fundamentos de uma estrutura alteram-se ou são dispostos inapropriadamente, este mesmo fundamento é fraco e sem suporte firme (Mt 7,26-27). Pelo fato de o protestantismo ter experimentado mudanças tanto intradenominacional quanto entre as diversas denominações que surgem continuamente, estas crenças são como uma fundação que muda constantemente. Tais credos então cessam de prover o suporte necessário para manter a estrutura que sustentam, e a integridade dessa estrutura fica comprometida. Nosso Senhor claramente não pretendeu que seus discípulos e seguidores construíssem suas casas espirituais em tal fundamento instável.

CRISTO NOS FALA PARA SUBMETERMO-NOS À AUTORIDADE DA IGREJA

Em Mt 18,15-18 vemos Cristo orientar seus discípulos em como corrigir um companheiro. É dito neste exemplo que Nosso Senhor identifica melhor a Igreja que as Escrituras como sendo a autoridade final a se apelar. Ele mesmo diz que se o irmão pecador não ouvir a própria Igreja, seja para ti como o pagão e o coletor de impostos (v.17) - isto é, como um excluído. Além do mais, Nosso Senhor re-enfatiza solenemente a autoridade infalível da Igreja no v.18 repetindo Seu pronunciamento anterior sobre o poder de ligar e desligar (Mt 16,18-19), dirigido desta vez aos apóstolos como um colégio, um grupo, e não somente a Pedro: Em verdade eu vos declaro: tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu (Mt 18,18).
Claro que existem exemplos na Bíblia onde Nosso Senhor apela às Escrituras, mas nestes casos Ele, como aquele que possui a autoridade, estava ensinando as Escrituras; Ele não estava permitindo que as Escrituras ensinassem a si mesmas. Por exemplo, Ele preferiu responder aos escribas e fariseus usando as Escrituras precisamente porque estes tentavam apanhá-lo usando as mesmas Escrituras. Nestes exemplos, Jesus geralmente demonstra como os escribas e fariseus tinham más interpretações, então corrigia-os mediante uma melhor interpretação escriturística.
Suas ações não servem de argumento para que a Escritura seja Sola, ou uma autoridade por si mesma e, de fato, a única autoridade do cristão. Muito pelo contrário: em todo lugar que Jesus leva seus ouvintes às Escrituras, Ele também fornece o Seu entendimento infalível, uma interpretação com autoridade, demonstrando que as Escrituras não podem interpretar a si mesmas.
A Igreja Católica prontamente reconhece a inerrância e autoridade da Escritura. Porém a doutrina católica diz que a regra imediata de fé dos cristãos é a autoridade do ensino da Igreja - uma autoridade para ensinar e interpretar a Escritura e a Tradição, como mostra Mt 18,17-18.
Também deve-se notar que está implícita (ou talvez até explícita) nesta passagem de Mateus o fato de que a Igreja deve ser visível, uma entidade palpável estabelecida sob uma linha hierárquica. De outro modo, como alguém saberia a quem encaminhar o pecador? Se a definição protestante de igreja fosse correta, então o pecador deveria escutar todos os cristãos que existem, desejando que haja uma unanimidade entre eles acerca do objeto da discussão. Transborda aos olhos o absurdo que esta interpretação causaria. O único modo de tornar a afirmação de Nosso Senhor plausível é reconhecendo que lá havia uma organização definida, com ofícios hierárquicos definidos, a quem um apelo poderia ser feito e de onde um julgamento decisivo poderia ser dado.

A ESCRITURA AFIRMA QUE É INSUFICIENTE COMO ORIENTADORA

A Bíblia mostra em 2 Tm 3,17 que o homem de Deus é perfeito, qualificado para qualquer boa obra. Como percebemos acima, este versículo prova somente que o homem de Deus é plenamente suprido com as Escrituras; isto não é garantia de que ele automaticamente saiba como interpretá-la da maneira correta. Este versículo chama a atenção à suficiência material das Escrituras, uma opinião que alguns pensadores católicos sustentam atualmente.
Suficiência material significaria que a Bíblia de certo modo contém todas as verdades que o cristão precisa saber; em outras palavras, os materiais estão todos presentes ou no mínimo implícitos. Suficiência formal, por outro lado, significaria que a Bíblia não somente contém todas as verdades que são necessárias, mas que ela também apresenta estas mesmas verdades e um sentido perfeitamente claro e de pronto entendimento. Em outras palavras, estas verdades estariam em uma forma prática tamanha que não haveria necessidade de uma Sagrada Tradição para clarificar e complementar o entendimento da Palavra de Deus com uma interpretação infalível.
Devido a Igreja Católica afirmar que a Bíblia não é suficiente por si mesma, naturalmente ensina que esta necessita de um intérprete. São duas as razões pelas quais a Igreja ensina tal coisa: primeiro, porque Cristo estabeleceu uma Igreja viva para ensinar com Sua autoridade. Ele simplesmente não deu uma Bíblia aos seus discípulos, completa e encadernada, e lhes disse para ir e fazer cópias para a multidão, para distribuir, e deixar que cada um interprete-a do seu jeito. Segundo, a própria Bíblia afirma que precisa de um intérprete.
Sobre a segunda assertiva, lemos em 2 Pd 3,16 que São Paulo escreveu passagens difíceis, cujo sentido pessoas ignorantes e sem formação deturpam, como também fazem para as demais Escrituras, para a própria condenação.
Neste único versículo podemos ver três pontos muito importantes sobre a Bíblia e sua interpretação: a) A Bíblia contém passagens que não são facilmente compreendidas ou suficientemente claras, um fato que demonstra a necessidade de um orientador infalível e com autoridade suficiente para tornar as passagens claras e compreensíveis [8], b) não é somente possível que algumas pessoas deturpem o significado da Escritura, mas isto, de fato, já estava sendo feito desde o começo da era da Igreja, c) distorcer o significado da Escritura pode resultar na condenação de um indivíduo, realmente um destino desastroso. É óbvio destas considerações que Pedro não acredita que a Bíblia deva ser a única regra de fé. Mas há mais.
Em At 8,26-40 lemos o encontro do diácono Felipe com o eunuco etíope. Neste cenário, o Espírito Santo leva Felipe a se aproximar do etíope. Quando Felipe percebe que o etíope está lendo o profeta Isaías, faz uma importante pergunta: será que compreendes verdadeiramente o que está lendo? Mais importante é a resposta dada pelo eunuco: e como poderia eu compreender, respondeu ele, se não tenho guia?
Mesmo que este Felipe (conhecido como o Evangelista) não seja um dos apóstolos, ele fora comissionado pelos apóstolos (cf. At 6,6) e pregou o Evangelho com autoridade (cf. At 8,4-8). Conseqüentemente, sua pregação refletiria o legítimo ensino dos apóstolos. A questão aqui é que as declarações do etíope verificam o fato de que a Bíblia não é suficiente por si mesma como orientadora de doutrina cristã, e as pessoas que ouvem a Palavra precisam de uma autoridade que as oriente corretamente para que possam entender o que a Bíblia quer dizer. Se a Bíblia fosse de fato suficiente por si mesma, então o eunuco compreenderia claramente a passagem de Isaías.
Também há 2 Pd 1,20, que afirma: nenhuma profecia da Escritura é objeto de interpretação pessoal. Aqui vemos a própria Bíblia afirmar de forma inequívoca que suas profecias não são objeto pelos quais o indivíduo deva compreender pelos seus próprios meios. Também é de grande importância que este verso seja precedido por uma seção sobre o testemunho apostólico (vv.12-18) e seguido por uma seção sobre falsos mestres (2,1-10). Pedro está contrastando o ensino apostólico genuíno com os falsos profetas e falsos mestres, e faz a referência à interpretação pessoal como o pivô entre os dois. A implicação imediata e clara é que a interpretação pessoal é um caminho por onde o indivíduo perde-se do autêntico ensino dos apóstolos e passa a seguir falsos mestres.

OS PRIMEIROS CRISTÃOS NÃO TINHAM UMA BÍBLIA COMPLETA

Estudiosos bíblicos nos revelam que o último livro da Bíblia não havia sido escrito até o final do primeiro século, isto é, até meados do ano 100 d.C. [9]. Este fato demonstra um intervalo inexato de cerca de 65 anos entre a ascensão de Cristo aos céus e o término da redação da Bíblia como a conhecemos. A pergunta que deve ser feita é a seguinte: Quem ou o quê serviu como autoridade final e infalível durante este tempo?
Se a doutrina protestante da Sola Scriptura fosse verdade, então houveram disputas e discussões dentro das comunidades que não tiveram a oportunidade de ser resolvidas definitivamente, até que os livros do Novo Testamento fossem escritos, mesmo já existindo uma Igreja antes que a Bíblia estivesse completa. O barco ficou sem comandante, por assim dizer, pelo menos por um determinado tempo. Porém isto vai de encontro às afirmações e promessas que Jesus fez à sua Igreja: Eis que estarei convosco todos os dias, até a consumação dos tempos (Mt 28,20), sem mencionar que Ele garantiu a seus discípulos: não vos deixarei órfãos (Jo 14,18)
Este é um assunto de particular importância, pois as primeiras décadas da existência da Igreja foram repletos de tumultos. As perseguições já haviam começado, cristãos estavam sendo martirizados, a nova fé estava lutando para crescer, e alguns falsos mestres já haviam aparecido (cf. Gl 1,6-9). Se a Bíblia fosse a única regra de fé dos cristãos, sendo que ela ainda não havia tomado forma - muito menos definido seu cânon - durante pelo menos 65 anos depois da ascenção de Jesus, como a Igreja primitiva poderia resolver questões doutrinárias sem uma autoridade que a conduzisse?
Neste momento os protestantes buscam oferecer duas possíveis respostas: 1) Os apóstolos eram temporariamente a última autoridade enquanto o Novo Testamento estava sendo escrito, e 2) que o Espírito Santo foi dado à Igreja e que a sua direta orientação foi o que preencheu o lacuna entre a ascenção e a definição do Novo Testamento.
Sobre a primeira resposta, é verdadeiro que Jesus revestiu aos apóstolos da Sua autoridade; contudo, a Bíblia em local algum indica que esta autoridade dentro da Igreja iria cessar com a morte dos apóstolos. Pelo contrário, a Bíblia é bastante clara quando: 1) em lugar algum diz que uma vez morto o último apóstolo, a Palavra de Deus escrita tornaria-se a autoridade final e; 2) os apóstolos claramente escolheram sucessores que, por sua vez, possuíram a mesma autoridade de ligar e desligar. A substituição de Judas Iscariotes por Matias (cf. At 1,15-26) e a transmissão da autoridade apostólica de Paulo a Timóteo e Tito (cf. 2 Tm 1,6; Tt 1,5) são exemplos de sucessão apostólica.
Sobre a segunda resposta - que o auxílio direto do Espírito Santo preencheu a lacuna - o problema com este entendimento é que o auxílio direto do próprio Espírito Santo é uma conclusão extra-bíblica. Naturalmente, a Bíblia nos fala da clara presença do Espírito Santo entre os cristãos e sua missão de ensinar aos apóstolos toda a verdade, porém se a direção direta do Espírito Santo foi, de fato, a autoridade final durante estes 65 anos, então a história da Igreja conheceu duas autoridades finais sucessivas: primeiro, o Espírito Santo, sendo que esta autoridade foi substituída pela Escritura, que então tornaria-se sola, ou a única autoridade final. E se esta situação de uma autoridade final extra-bíblica é permissiva pelos protestantes, não o é pelos católicos, que afirma que a autoridade do ensino da Igreja é a autoridade final direta - derivando sua autoridade de Cristo e seu ensino da Escritura e da Tradição, guiada pelo Espírito Santo.
O Espírito Santo foi dado à Igreja por Jesus Cristo, e é exatamente este mesmo Espírito que protege o chefe visível da Igreja, o Papa, e a autoridade do ensino da Igreja jamais permitindo que ele ou ela caiam em erro. O católico acredita que Cristo de fato enviou seu Espírito Santo à Igreja e que este Espírito esteve sempre presente na Igreja, ensinando toda a verdade (Jo 16,13) e continuamente protegendo sua integridade doutrinal, particularmente pelo ofício do Papa. Com isso o Evangelho pode continuar sendo pregado - com autoridade e infalivelmente - mesmo sem um só versículo do Novo Testamento.

A IGREJA PRODUZIU A BÍBLIA, E NÃO O CONTRÁRIO

A doutrina da Sola Scriptura não dá importância - ou pelo menos grosseiramente desmerece - ao fato de que a Igreja surgiu antes da Bíblia, e não o contrário. Foi a Igreja, com efeito, que escreveu a Bíblia sob a inspiração do Deus todo-poderoso: os israelitas como a Igreja do Antigo Testamento (ou pré-católicos) e os católicos da Igreja do Novo Testamento.
Nas passagens do Novo Testamento notamos que Nosso Senhor dá certa primazia à autoridade do ensino de Sua Igreja e sua proclamação em Seu nome. Por exemplo, em Mateus 28,20 vemos Jesus ordenando os apóstolos a ir e ensinar em Seu nome, fazendo discípulos em todas as nações. Em Marcos 16,15 vemos que os apóstolos são enviados a pregar a todo o mundo. E em Lucas 10,16 vemos que aquele que escuta os setenta e dois escuta o Senhor. Estes fatos são muito importantes, pois em lugar algum vemos Nosso Senhor ordenando que seus apóstolos evangelizem o mundo escrevendo em Seu nome. A ênfase está sempre na pregação do Evangelho, não na sua impressão e distribuição escrita.
Então segue que o comando e a autoridade do ensino da Igreja são elementos indispensáveis como meios pelos quais a mensagem do Evangelho deve alcançar os confins do mundo. Pelo fato de a Igreja ter escrito a Bíblia, é lógico e racional dizer que somente a Igreja detém a autoridade para interpretá-la e aplicá-la. E sendo assim, por causa de sua natureza e origem, a Bíblia não pode servir como
única
regra de fé para os fiéis cristãos. Em outras palavras, por ter produzido a Escritura, a Igreja não elimina a necessidade de ela mesma servir como mestre e intérprete destas Escrituras.
Além do mais, não é errado dizer que somente por colocar a autoridade apostólica no papel, a Igreja de alguma forma faz com que esta mesma autoridade seja superior ao ensino oral? Semelhantemente à organização que Nosso Senhor estabeleceu, Sua palavra é autoridade, mas porque esta palavra está posta em uma forma diferente da outra não significa que uma forma seja superior à outra. Pelo fato de a única Palavra de Deus ser dimórfica em sua organização, negar a autoridade de uma é negar a autoridade da outra. As formas da Palavra de Deus são complementares, não excludentes. Portanto, se há necessidade das Escrituras, também há necessidade da autoridade que a produziu.

É COMPLETAMENTE ESTRANHA À IGREJA PRIMITIVA

A idéia da autoridade da Escritura existindo separada da autoridade do ensino da Igreja é completamente estranha à Igreja Primitiva
Se buscarmos os escritos dos Pais da Igreja Primitiva, encontraremos referências à Sucessão Apostólica [10], aos bispos como guardiões do Depósito da Fé [11], e ao primado e autoridade de Roma [12]. O precioso valor destas referências torna claro o fato de que a igreja primitiva entendeu a si própria como uma hierarquia necessária para proteger a integridade da fé. Em lugar algum encontramos alguma indicação de que os primeiros fiéis cristãos discordavam da autoridade da Igreja e a consideravam inválida como regra de fé. Do contrário, vemos nestes escritos que a Igreja, desde a sua mais longínqua origem, entendeu sua autoridade para ensinar como uma combinação inseparável entre Escritura e Tradição Apostólica - sendo ambas ensinados e interpretados com autoridade pelo Magistério da Igreja, cuja cabeça é o bispo de Roma.
Dizer que a Igreja primitiva acreditava na noção de somente a Bíblia, seria o mesmo que dizer que homens e mulheres poderiam alegar que as leis civis não necessitam de um Congresso que as legisle, ou de uma corte que as interprete e de polícia alguma que as execute. Tudo que seria necessário seria o livro de Direito Civil em todas as casas para que cada cidadão possa determinar por si mesmo como entender e aplicar as leis. Tal afirmação, claro, é absurda, pois ninguém esperaria que as leis civis funcionassem bem deste modo. A conseqüência de tal escândalo inadvertidamente levaria à anarquia total.
Quão mais absurdo, então, é pretender que a Bíblia pode funcionar por si mesma sem a Igreja que a organizou? É somente esta Igreja - e não somente qualquer cristão - que possui a autoridade divinamente transmitida para a interpretar corretamente, assim como legislar sobre os problemas decorrentes da conduta de seus membros. Se este não fosse o caso, qualquer nível de situação - local, regional ou global - rapidamente desenvolver-se-ia em anarquia espiritual, onde cada cristão pode formular um sistema teológico e desenvolver uma moral simplesmente baseadas em sua própria interpretação da Bíblia.
E desde a tão chamada Reforma não é isto que estamos vendo? De fato, um exame do escândalo na Europa que imediatamente seguiu a gênese da reforma - particularmente na Alemanha - irá demonstrar que o resultado das doutrinas da reforma são uma desordem tanto espiritual quanto social [13]. Mesmo Lutero se mostrou desapontado pelo fato de que infelizmente, é de nossa costumeira observação que agora sob o Evangelho o povo está mais amargo, invejoso e avarento que antes sob o papado [14].

OS HERESIARCAS BASEIAM-SE NA INTERPRETAÇÃO SEM O MAGISTÉRIOOs heresiarcas e os movimentos heréticos baseiam suas doutrinas na interpretação da Bíblia separada do Magistério e da Tradição.
Ao longo da história da Igreja primitiva, vemos que ela lutou continuamente contra as heresias e contra quem as promovia. Vários foram os concílios que responderam aos desafios dos detratores [15] e recorreram à Roma para dar um fim às disputas doutrinárias e disciplinares. Por exemplo, o Papa Clemente interveio em uma discussão na comunidade de Corinto no fim do primeiro século e acabou com um cisma por lá. No segundo século, o Papa Vitor excomungou uma grande parte da Igreja no Oriente por motivos de divisões sobre quando a páscoa deveria ser celebrada. No início do século três, o Papa Calixto condenou a heresia sabeliana.
Nestes casos, quando estas heresias ou conflitos disciplinares ocorrem, as pessoas envolvidas defendem seus erros através de sua própria interpretação das Escrituras, excluindo a participação da Tradição e do Magistério da Igreja. Um bom exemplo disto é o caso de Ário, sacerdote do quarto século que declarou que o Filho de Deus era uma criatura e não co-substancial ao Pai.
Ário e todos os seus seguidores citavam versículos da Bíblia para provar seus argumentos [15]. Os debates que chegaram por causa desta doutrina tornaram-se tão volumosos que foi convocado o primeiro Concílio Ecumênico, em Nicéia, em 325 d.C. O Concílio, sob a autoridade do Papa, declarou serem as doutrinas arianas heréticas e elaborou declarações definitivas quanto à pessoa de Jesus, e fez isso baseada no que a Sagrada Tradição tinha a dizer sobre os versículos bíblicos em questão.
Aqui vemos a autoridade da Igreja sendo utilizada como última e extremamente importante palavra em matéria doutrinária. Caso não existisse autoridade alguma a quem apelar, a heresia de Ário poderia ter se apossado da Igreja. A maioria dos bispos daquela época foi seduzida pela heresia ariana [17]. Apesar de Ário ter fundamentado sua doutrina nas Escrituras - e provavelmente comparou a Escritura pela Escritura - o fato é que chegou a uma conclusão herética. Foi somente a autoridade do ensino da Igreja - hierarquicamente constituída - que o freou e declarou que estava errado.
A implicação é óbvia. Se você perguntar a algum protestante se Ário estava ou não correto em sua doutrina de que o Filho fora criado, ele irá, claro, responder que não. Enfatize, então, que mesmo que ele tenha utilizado as Escrituras pelas Escrituras, mesmo assim ele chegou a uma conclusão errada. Se isto foi verdadeiro para Ário, o que garante ao protestante que este não é o caso acerca de sua interpretação de uma dada passagem bíblica? O fato de os protestantes reconhecerem que a interpretação de Ário estava errada implica dizer que de fato houve uma base bíblica para seus argumentos. Este fato, portanto, transforma-se em um questionamento acerca do que seja uma verdadeira interpretação bíblica. A única explicação possível é que deve haver, por necessidade, uma autoridade infalível que no-la diga. Esta autoridade infalível, a Igreja Católica, declarou Ário um herege. Se a Igreja Católica jamais foi infalível ou possuiu alguma autoridade em suas declarações, então os cristãos não teriam razão alguma em rejeitar Ário e aceitar a autoridade da Igreja, e a maioria do cristianismo atual seria baseado nos ensinamentos de Ário.
É evidente, portanto, que usar somente a Bíblia não é garantia de se chegar a uma doutrina verdadeira. O resultado acima descrito é o que acontece quando a falsa doutrina da Sola Scriptura é utilizada como princípio guia, e a história da Igreja e das inúmeras heresias que teve de combater são testemunhas inegáveis deste fato.

O CÂNON DA BÍBLIA NÃO ESTAVA FORMADO ATÉ O SÉCULO IV

Um dos fatos históricos que é um extremo inconveniente aos protestantes é o fato de que o cânon da Bíblia - a lista sagrada dos livros que fazem parte das Escrituras inspiradas - não fora definido até o final do século 4. Até esta data, havia larga discórdia sobre quais seriam os livros considerados inspirados e de origem apostólica. O cânon bíblico antigo variava de local a local: algumas listas continham livros que mais tarde foram reconhecidos como apócrifos, enquanto outras listas não traziam livros que hoje constam entre os livros canônicos. Por exemplo, existiam livros cristãos que eram considerados por alguns inspirados e apostólicos e que eram lidos nos cultos públicos, mas que foram mais tarde omitidos do Novo Testamento, entre eles, O Pastor de Hermas, Epístola de Barnabé, Didaché [18].
Somente nos Concílio de Roma (382), Hipona (393) e Cartago (397) podemos encontrar uma lista definitiva dos livros canônicos sendo descrita, e cada um destes concílios reconheceu a mesma lista do anterior [19]. A partir de então, não houveram mais disputas sobre o cânon bíblico, a única exceção ficando a cargo dos reformadores protestantes, que entraram em cena em 1517, inacreditáveis 11 séculos depois.
Mais uma vez, mais duas questões fundamentais porque alguém não deve buscar respostas que sejam consoantes com a Sola Scriptura: a) Quem ou o quê serviu como autoridade cristão final durante o tempo em que o Novo Testamento não tomou forma? b) E se havia alguma autoridade final que os protestantes reconhecem antes da definição do cânon, com que bases esta autoridade desapareceu uma vez que o cânon bíblico tenha sido fechado?

O CÂNON FOI DEFINIDO POR UMA AUTORIDADE "EXTRA-BÍBLICA"

Devido a Bíblia não vir com um índice inspirado, a doutrina da Sola Scriptura criou um outro dilema: como alguém pode saber quais são os livros que pertencem à Bíblia - principalmente, ao Novo Testamento? Um fato inquestionável é que ninguém pode saber disso, a menos que alguma coisa fora da Bíblia mostre a resposta. E sem dúvida, este detalhe a mais deve ser, por necessidade, infalível, pois a possibilidade haver erro na definição dos livros inspirados [20] significa que todos os cristãos estariam correndo o risco de estar lendo livros não-inspirados, uma situação que tornaria a Sola Scriptura defeituosa. Porém, se houve tal autoridade "extra-bíblica", a doutrina da Sola Scriptura desaba da mesma forma.
Outro fato histórico que dificulta ainda mais a aceitação desta doutrina é que não houve qualquer outra instituição que tenha identificado e ratificado o cânon da Bíblia. Os três Concílios mencionados anteriormente, todos, eram concílios católicos. A Igreja Católica deu a sua definição final do cânon da Bíblia no Concílio de Trento em 1546 - nomeando os mesmos 73 livros que já haviam sido incluídos desde o século 4. Se a Igreja Católica é capaz, então, de conceder uma definição autoritária e infalível de tão importante assunto sobre quais livros deve conter a Bíblia, logo com que bases alguém pode questionar sua autoridade em outros assuntos acerca de fé e moral?
Os protestantes, no mínimo, devem, assim como o seu fundador, Martinho Lutero, reconhecer que a Igreja Católica protegeu e organizou a Bíblia: Somos obrigados a reconhecer muitas coisas aos católicos - (como por exemplo), que eles possuem a Palavra de Deus, que nós recebemos deles; de outro modo, não saberíamos nada sobre ela [21].

CRER QUE A BÍBLIA É "AUTO-AUTENTICÁVEL" NÃO TEM BASES

Procurando uma resposta satisfatória ao problema de como fora determinado o cânon bíblico, os protestantes costumeiramente apelam para o fato de que a Bíblia é auto-autenticável, ou seja, os próprios livros da Bíblia testemunham que eles são inspirados. O grande problema com esta afirmação é que uma boa excursão pela história da Igreja demonstra que esta teoria é falha.
Por exemplo, vários livros do Novo Testamento - Tiago, Judas, 2 Pedro, 3 João e Apocalipse - receberam questionamentos acerca de seu status canônico por algum tempo. Em alguns lugares eram aceitos, enquanto simultaneamente em outros eram rejeitados. Mesmo grandes pensadores, como Santo Atanásio (297-373), São Jerônimo (342-420) e Santo Agostinho (354-430) apresentaram listas de livros do Novo Testamento que refletiam o que era reconhecido como inspirado em seus tempos e lugares, porém nenhuma destas listas correspondia ao Novo Testamento que fora identificado pela Igreja Católica no fim do século 4 e que até hoje corresponde à Bíblia que os católicos possuem [22].
Se a Bíblia é auto-autenticável, porque, então, havia tamanha discórdia e incerteza sobre tantos livros? Porque a disputa? Porque o cânon não foi identificado logo do início, já que os livros são prontamente discerníveis? A única resposta a estes questionamentos é que o cristão deve aceitar que a Bíblia não seja auto-autenticável.
Mais interessante também é o fato de que alguns livros da Bíblia não identificam seu próprio autor. A idéia de auto-autenticação - se fosse verdade - seria mais plausível se cada um dos autores bíblicos identificassem a si mesmos, pois examinaríamos mais facilmente suas credenciais, ou, no mínimo, quem era que alegava falar em nome de Deus. Mas quanto a isso a Bíblia nos deixa ignorantes, com poucos exemplos.
Tome o Evangelho de Mateus como exemplo: não há indicação de que fora Mateus, o cobrador de impostos, quem o escreveu. Há duas possibilidades, então, para conhecermos o autor deste livros: 1) através da Tradição; 2) por estudiosos bíblicos. Em ambos os casos, a fonte da conclusão é "extra-bíblica", e, portanto, condena a doutrina da Sola Scriptura à completa incompetência e fracasso.
Mas os protestantes respondem a este argumento dizendo que não é necessário conhecer se Mateus escreveu ou não este Evangelho, pois a salvação não depende de conhecer se foi ele ou outro quem o escreveu. Porém, tal ponto de vista guarda uma dificuldade. O que os protestantes estão dizendo é que, enquanto um Evangelho autêntico é a Palavra de Deus e é o meio pelo qual o cristão adquire um conhecimento salvífico de Jesus Cristo, o mesmo cristão não tem como saber com certeza, no caso do Evangelho de Mateus, se este é de origem apostólica e, conseqüentemente, não possui meios para saber se este Evangelho é autêntico (ou seja, a Palavra de Deus) ou não. E se a autenticidade deste Evangelho é questionável, então porque está incluído na Bíblia? Se sua autenticidade é certa, como se pôde saber com a ausência do autógrafo de Mateus? A única saída coerente é admitir que a Bíblia não é auto-autenticável.
O protestante então recorrerá à asserção bíblica de auto-inspiração, citando a passagem de 2 Tm 3,16 - Toda Escritura é inspirada por Deus, e útil... - Contudo, a alegação de inspiração não é por si só garantia de inspiração. Considere o fato de que os escritos de Mary Baker Eddy, a fundadora da seita Ciência Cristã, aleguem ser inspirados. Os escritos de Joseph Smith, o fundador da seita Mórmon, afirmem ser inspirados. São apenas dois exemplos, entre muitos, que demonstram que qualquer escrito particular pode reclamar a autoridade sobre qualquer coisa. Obviamente, para reconhecermos se um escrito é inspirado de verdade ou não necessitamos mais do que tal afirmação escrita no papel. A garantia de inspiração de algum escrito deve vir de fora deste escrito, senão será um eterno argumento circular. No caso da Bíblia, a garantia deve vir de uma fonte fora da Bíblia. Porém a autenticação extra-bíblica é uma possibilidade excluída pela Sola Scriptura.

NENHUM DOS ESCRITOS BÍBLICOS ORIGINAIS EXISTE MAIS

Uma importante consideração - talvez uma das mais fatais à doutrina da Sola Scriptura - é a de que não possuímos ao menos um manuscrito original de nenhum livro da Bíblia. Claro que existem milhares de manuscritos que são cópias dos originais - e mais provável é que sejam cópias das cópias -, e este fato em nada auxilia a Sola Scriptura pela simples razão de que sem os originais, ninguém pode garantir que possuímos atualmente a Bíblia real, completa e sem corrupções [23]. Os autógrafos originais são inspirados, as cópias não...
Os protestantes argumentam que não há problema em não ter os escritos originais, pois Deus protegeu a Bíblia protegendo sua duplicação ao longo dos séculos [24]. Entretanto, existem dois problemas com esta linha de pensamento. Primeiro, que afirmar que a providência de Deus manteve a integridade das cópias é afirmar algo que não encontra nem de longe suporte nas Escrituras, logo não pode ser tomada como regra de fé, pela própria definição de Sola Scriptura. Em outras palavras, não se encontra versículo algum que demonstre que Deus protegeria a transmissão dos manuscritos, logo esta conclusão está excluída. A Bíblia nada diz a respeito.
Segundo, se você afirmar que Deus protegeu a transmissão da Sua Palavra escrita, então podemos concluir que também protegeu a transmissão de Sua Palavra oralmente (releia 2 Ts 2,15 e a dimórfica estrutura da Palavra de Deus). Até porque a pregação do Evangelho começou pela Tradição Oral (cf. Lc 1,1-4 e Rm 10,17). Somente muito tempo depois uma parte da Tradição oral fora posta na forma Escrita - tornando-se a Sagrada Escritura - e somente muito tempo após este mesmo evento os escritos foram reconhecidos e definidos com canônicos. Uma vez que você possa reconhecer que Deus protegeu a transmissão oral de Sua mensagem, você automaticamente admite as bases da Sagrada Tradição e já começou a compreender a posição católica.

OS MANUSCRITOS BÍBLICOS POSSUEM MILHARES DE VARIAÇÕES

Percebeu-se que, existindo milhares de manuscritos da Bíblia, estes manuscritos continham milhares de variações textuais; um autor estima que devam existir mais de 200.000 variações [25]. Apesar de muitas destas variações referirem-se a temas menores - tais como escrita, ordem das palavras e etc. - também existem variações das mais importantes naturezas: a) os manuscritos demonstram que algumas vezes os escribas modificavam o texto para harmonizar passagens, acomodá-las a fatos históricos, e para estabelecer uma correta conduta doutrinária [26]; b) existem partes de versículos (isto é, mais que simples palavras) que possuem leitura diferente em diferentes manuscritos, como Jo 7,39, At 6,8, Cl 2,2 e 1 Ts 3,2 [27]. Estes fatos levam o protestante a não saber se a Bíblia que possui é a mesma Bíblia que foi escrita pelo autor inspirado. E se este é o caso, então como o protestante pode professar a base de sua crença somente na Bíblia quando ele não consegue determinar com certeza a autenticidade textual desta mesma Bíblia? [28].
Mais importante, existem muito mais variações entre os manuscritos do Novo Testamento. Os dois exemplos seguintes ilustrarão este ponto:
Primeiro, de acordo com os manuscritos que possuímos, existem quatro possíveis finais para o Evangelho de Marcos: o menor, que inclui os vv.1-8 do capítulo 16, o longo, que inclui os vv.1-8 mais os vv.9-20; o intermediário, que inclui duas ou três linhas entre o v.8 e o final longo, e o final longo expandido, que inclui vários versículos após o v.14 do final longo [29]. O melhor que podemos concluir sobre estas diferenças é que não podemos saber, apenas pela Bíblia, onde termina o Evangelho de Marcos, e, dependendo de qual final está (ou estão) incluído(s) na Bíblia protestante, o publicador corre o risco de estar distribuindo Bíblias acrescentando ou omitindo versículos do texto original - portanto violando a doutrina da Sola Scriptura, que requer que somente a Bíblia, e a Bíblia inteira seja a única regra de fé. Mesmo se uma Bíblia protestante incluir todos os quatro finais com notas de rodapé e comentários, mesmo assim não terão a certeza de qual final é o genuíno.
Segundo, há algumas evidências para leituras alternadas de alguns textos centrais da Bíblia, tal como Jo 1,18, onde ocorrem dois possíveis significados [30]. Algumas Bíblias (como a King James Version) trazem este versículo como está na Douay-Rheims: Nenhum homem viu a Deus em qualquer tempo, o filho único que está no seio do Pai o revelou. Outras acompanham a New Internacional Version: Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está à direita do Pai, foi quem o revelou. Ambas as formas estão sustentadas por manuscritos, e você encontrará exegetas bíblicos debruçarem seus mais preciosos julgamentos à que crêem seja a "correta". Uma situação similar ocorre em At 20,28, onde os manuscritos mostram que Paulo poderia estar se referindo tanto à Igreja do Senhor (gr. Kurion) ou à Igreja de Deus (gr. Theou) [31].
Este assunto pode parecer simplório à primeira vista, mas suponha que você esteja tentando evangelizar um membro de uma seita que nega a divindade de Jesus Cristo. Ainda que Jo 1,18 e At 20,28 não sejam as únicas passagens que possam defender a divindade de Nosso Senhor, você ficará incapacitado de utilizá-los com esta pessoa, dependendo de qual manuscrito sua Bíblia foi reproduzida. Isto levaria-o a uma possibilidade reduzida de defender uma doutrina bíblica fundamental, e este fato tornaria problemática a perspectiva da doutrina da Sola Scriptura.

EXISTEM CENTENAS DE VERSÕES BÍBLICAS

Como mencionado no tópico anterior, existem milhares e milhares de variações nos manuscritos bíblicos. Acrescentado a isto o fato de histórico de que existiram centenas de versões bíblicas, variando cada uma tanto em tradução quanto em fontes textuais. A questão é: qual é a versão correta? ou qual é a versão mais fidedigna ao original? A possível resposta dependerá de qual lado você estiver, ou de católicos ou de protestantes. Outra saída dependerá de qual especialista bíblico você depositará sua confiança e credibilidade.
É fato que algumas versões são inferiores a outras. Os avanços nos campos arqueológicos possibilitaram descobertas (como os manuscritos do Mar Morto) que alteraram nosso conhecimento sobre locais e linguagens bíblicas antigas. Sabemos mais hoje pelos avanços dos estudos bíblicos que nossos antepassados de 100, 200, 1000 anos atrás. Deste ponto de vista, versões bíblicas contemporâneas provavelmente possuem certa superioridade em relação às suas versões mais antigas. Por outro lado, Bíblias transcritas a partir da Vulgata latina de São Jerônimo (quarto século) - em língua inglesa, a Douay-Rheims - são baseadas em textos originais que não existem mais, portanto estas versões passaram por dezesseis séculos de possíveis corrupções.
Isto causa um problema considerável aos protestantes, pois significa que os protestantes modernos possuem, por assim dizer, uma versão bíblica melhor ou mais acurada que a Bíblia de seus antecessores, que, portanto, possuíram Bíblias de menor qualidade - que por sua vez leva a concluir que os protestantes modernos possuem uma bíblia "mais completa" como autoridade final que a bíblia "menos completa" que dos antigos protestantes. Só que esta discrepância entre autoridades começa a diminuir a doutrina da Sola Scriptura, pois esta significa que uma bíblia não é mais ou menos autoritária que outra, e se uma não é autêntica e completa, a probabilidade de produzir doutrinas erradas é imensa, logo a função particular da bíblia como autoridade final falha, pois não pode mais ser uma autoridade final.
Outro ponto a considerar é que traduções bíblicas, como produtos humanos, não são completamente objetivas e imparciais. Um pode se sentir mais à vontade de incluir notas a uma passagem de uma maneira que corresponda melhor à doutrina que deseja transmitir. Um exemplo disto é a ocorrência da palavra grega paradoseis nas bíblias protestantes. Como negam a existência da Sagrada Tradição, algumas traduções trazem esta palavra como ensinamentos ou costumes e não tradições, sendo que esta última é a que mais se encaixa na tradução correta e à posição católica.
Ainda outra consideração é que algumas versões são corrupções bíblicas notáveis, como é o caso da Bíblia dos Testemunhas de Jeová, a New World Translation. Nela os "tradutores" manusearam passagens bíblicas para propagar doutrinas erradas [32]. Agora, a menos que haja uma autoridade fora da Bíblia para declarar tais traduções como falsas e perigosas, com qual autoridade e revelação divina os protestantes podem considerar esta ou aquela tradução como falsa? Com qual autoridade os protestantes podem impedir os Testemunhas de usar esta tradução para difundir suas doutrinas? Os protestantes responderiam que este caso pode ser encontrado na Bíblia, através dos estudos de pesquisadores bíblicos. Contudo isto ignora o fato dos Testemunhas também basearem sua tradução em estudos "especialistas". Forma-se um jogo de vai-e-volta, colocando as conclusões de um especialista contra outro, uma autoridade humana contra outra.
Este problema somente pode ser resolvido pela intervenção de um magistério infalível e com autoridade de falar por Cristo. O católica sabe que esta autoridade é a Igreja Católica e a autoridade de seu magistério. No exercício desta autoridade, os bispos católicos conferem o imprimatur ("Imprima-se") que deve constar nas primeiras páginas de certas versões bíblicas e outros tipos de literatura religiosa para alertar os leitores que aquele livro não contém nada contrário ao ensinamento de Cristo ou dos apóstolos [33].

A BÍBLIA NÃO ESTAVA DISPONÍVEL A TODOS ATÉ O SÉCULO XV

Essencial à doutrina da Sola Scriptura é a idéia de que o Espírito Santo guia cada crente na interpretação infalível de qualquer passagem bíblica. Esta idéia, no mínimo, requer que todos possuam Bíblias ou acesso a ela. A dificuldade de tal pensamento está no fato de que a Bíblia não era um produto de massas disponível para todo mundo até o advento da imprensa no século 15 [34]. Mesmo depois disso, custava certo tempo até que um número ideal de Bíblias fosse impressa para suprir a população.
A difícil situação que esta idéia coloca é que milhões e milhões de cristãos ficaram sem uma autoridade final até o século 15, na total confusão espiritual, a menos que eles pudessem possuir uma Bíblia manuscrita. Qualquer um consideraria Deus um tanto cruel por causa disto, pois teria revelado sua mensagem de salvação para a humanidade por Cristo, mesmo sabendo que esta mensagem não estaria disponível a esta mesma humanidade por quinze séculos.
Porém sabemos que Deus não é cruel, mas tem um amor infinito por nós. Por esta razão não nos deixaria na escuridão. Nos enviou Seu único Filho para nos mostrar o Reino de Deus, como deveríamos agir e crer, e este Filho estabeleceu uma Igreja para promover esses ensinos através da pregação aos letrados e iletrados: assim a fé vem da pregação, e a pregação é o anuncio da Palavra de Cristo (Rm 10,17). Cristo também deu à Sua Igreja a garantia de que Ele sempre estaria com ela, nunca permitindo que ensine o erro. Deus, por essa razão, não abandonou Seu povo e fez com que antes da invenção da imprensa estes chegassem ao conhecimento de Seu Filho. De fato, deu-nos um mestre infalível, obra divina, a Igreja Católica, para nos dar toda a informação necessária sobre a Boa Nova - e da forma certa.

A Sola Scriptura NÃO EXISTIA ANTES DO SÉCULO XIV

É uma realidade dura, mas deve ser encarada pelos protestantes, o fato de que esta doutrina não surgiu antes do século 14 e não se difundiu antes do século 16 - um tempo longo, muito longo, desde a era dos apóstolos e da fundação da Igreja de Cristo. Este fato, claro, é simplesmente ignorado pelos protestantes, mas sozinho é razão para refutar a Sola Scriptura. Esta doutrina não existia antes de John Huss (precursor do protestantismo) no século 14 e somente ganhou difusão quando Martinho Lutero, no século 16, veio trazer suas "tradições de homens" para por no lugar da autêntica doutrina cristã. Esta doutrina, portanto, não somente surgiu do nada, mas também representa uma mudança abrupta e radical no ensino dos apóstolos.
Claro, os protestantes afirmam que a própria Bíblia ensina a Sola Scriptura e por isso esta doutrina é tão antiga quanto a Igreja. Contudo, como mostramos nos primeiros tópicos, a Bíblia não ensina esta doutrina em lugar algum. A insistência nesta afirmação é uma tentativa de forçar um contexto bíblico que mais se adeque ao que se pretende. Um exame acurado da história revela se uma crença foi ou não originada por Jesus e pelos apóstolos ou se apareceu em algum outro lugar no tempo. O fato é que, apesar dos esforços protestantes, os registros históricos são silenciosos quanto à doutrina da Sola Scriptura antes do 14º século.

PRODUZ MAUS FRUTOS, COMO DIVISÕES E DISPUTAS

Se esta doutrina fosse correta e santa, então todos os protestantes deveriam concordar em todos os pontos doutrinários, pois a Bíblia não pode ensinar doutrinas contraditórias simultaneamente. Mas a realidade é que existem milhares [35] de seitas protestantes, cada uma proclamando ser a Bíblia sua única regra de fé, cada uma garantindo que está pregando a verdade do Evangelho, embora muitas preguem assuntos totalmente diferentes umas das outras. Os protestantes, mestres da fuga, dizem que tais doutrinas discordantes não são essenciais, são secundárias, porém é realidade também que em assuntos, então, centrais, mesmo estes, os protestantes discordam. A salvação do homem, os sacramentos e a justificação são somente alguns exemplos.
Exemplificando: algumas seitas pregam que Jesus está simbolicamente presente na Eucaristia. Outros, como os luteranos, crêem o contrário, que Jesus está realmente presente na Eucaristia. Algumas denominações pregam que uma vez salvo, o crente não poderá jamais perder a sua salvação, não importa se faça o bem ou o mal. Outros pregam que o pecado pode causar a condenação do homem, mesmo após justificado. Algumas seitas afirmam que o ser justificado é apenas declarado justo, enquanto outras afirmam que o ser justificado é tornado justo.
Jesus jamais quis que seus discípulos estivessem divididos, desunidos, mergulhados num caos doutrinário como está o protestantismo desde a sua origem [36]. Jesus, pelo contrário, pediu a união de seus seguidores: para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós (Jo 17,21). E São Paulo exorta aos cristãos a unidade doutrinária com estas palavras: um só corpo e um só Espírito...um só Senhor, uma só fé, um só batismo (Ef 4,4-5). Como, então, as milhares de seitas protestantes podem ser denominadas de "Igrejas verdadeiras" quando as suas simples existências já refutam tal presunção? Como doutrinas tão heterodoxas e contraditórias podem servir de instrumento divino de união, desejada por Jesus? Sobre isto, o leitor deve lembrar das palavras de Jesus: pela árvore se conhece os frutos (Mt 12,33). Por este versículo, vemos que a árvore da história do protestantismo e da Sola Scriptura está recheada de maus frutos.

NÃO PERMITE A INTERPRETAÇÃO DEFINITIVA DA BÍBLIA

A doutrina da Sola Scriptura não permite a interpretação definitiva de nenhuma passagem bíblica
Como temos visto, a Sola Scriptura supõe que basta uma Bíblia como regra de fé para se obter a verdadeira interpretação de qualquer passagem bíblica simplesmente comparando este verso com o restante da Bíblia. Na prática, contudo, o remendo saiu pior que a fratura, pois acaba por impedir que o crente possa chegar a uma certa e definitiva interpretação de qualquer passagem bíblica.
O protestante, na verdade, interpreta a Bíblia mais a partir de uma opinião subjetiva que de uma verdade objetiva. Por exemplo, digamos que o protestante A estudou a determinada passagem bíblica e chegou à conclusão X. O protestante B estudou a mesma passagem, mas concluiu Y. Então, o protestante C estudou a mesma passagem dos outros dois, mas chegou a uma interpretação Z [37]. As interpretações X, Y e Z são contraditórias, entretanto cada um acha que chegou à verdadeira interpretação bíblica porque cada um estudou e comparou a Bíblia pela Bíblia.
Existem, agora, somente duas saídas para estes três protestantes: 1) todos estão errados; 2) somente um está correto. Três interpretações contraditórias jamais podem estar simultaneamente corretas [38]. O problema aqui é que, sem haver uma autoridade infalível que diga qual das três interpretações é a verdadeira (objetivamente verdadeira), não há meios para se saber qual das três é a correta seguramente. Cada protestante está, portanto, em meio a uma interpretação pessoal baseada meramente em opinião pessoal. Estudos e mais estudos são vãos. Cada protestante torna-se, com isso, sua própria autoridade final, ou seja, seu próprio Papa.
Na prática o próprio protestantismo nos mostra que este raciocínio é verdadeiro. Pelo fato de somente a Bíblia não ser suficiente como regra de fé (se fosse, todos os protestantes concordariam em interpretação), cada denominação têm que se render e aderir fixamente às suas próprias interpretações bíblicas. Logo, se existem várias possíveis interpretações da Bíblia, nenhuma é de fato definitiva. E se não há interpretação definitiva da Bíblia o protestante não têm como saber se sua interpretação é verdadeira ou falsa.
Uma boa comparação seria com a lei moral. Se cada um pudesse determinar por sua própria opinião o que é certo e errado, não restaria nada mais que um relativismo moral, e cada uma fixaria seus próprio padrões morais. Entretanto, Deus definiu leis morais absolutas para nós (em adição às que conhecemos pelas leis naturais), e por isso podemos analisar cada ato e reconhecer se é moralmente bom ou mal. O mundo seria impraticável sem moral absoluta.
Cada denominação protestante afirma, lógico, que possui a verdadeira interpretação bíblica. Todas fazem isso. Se não fizessem, perderiam membros. Entretanto, se afirmam que possuem a verdadeira interpretação bíblica, em detrimento às demais, então está se auto-proclamando autoridade final. O problema aqui, se os leitores ainda não notaram, é que este detalhe viola o princípio da Sola Scriptura, que rejeita qualquer autoridade final que não seja a própria Bíblia. Cheque-mate.
Por outro lado, se uma denominação reconhece que sua interpretação bíblica não é mais correta que a de outra, então voltamos ao eterno dilema: qual interpretação está correta? existe alguma, então, que está correta? e se todas são falsas?. Nosso Senhor disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). O problema aqui é que cada denominação, na prática, afirma possuir a única interpretação correta. Conclusão, milhares de interpretações corretas diferentes, que resultam em uma total impossibilidade de se conhecer a real e definitiva interpretação a uma passagem bíblica qualquer. Em outras palavras, nenhum seita protestante pode dizer a autoridade está aqui em relação a uma interpretação bíblica.

FALTAM SETE LIVROS NA BÍBLIA PROTESTANTE

Para sua decepção, os protestantes são culpados de violar sua própria doutrina. A Sola Scriptura proíbe que algo seja acrescentado ou subtraído das Escrituras, porém os protestantes retiraram sete livros das Escrituras do Antigo Testamento, assim como porões de outros dois. Estes são erroneamente chamados de Apócrifos (não-autênticos) pelos protestantes, e de deuterocanônicos (segundo cânon) pelos católicos: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, partes de Daniel e Ester.
Defendendo seu cânon incompleto, os protestantes apresentam alguns argumentos, tais como: 1) O cânon menor, chamado cânon farisaico ou palestinense do Antigo Testamento, foi aceito por Jesus e seus apóstolos, pois eles nunca citaram nenhuma fonte dos livros deuterocanônicos; 2) O Antigo Testamento foi fechado no tempo de Jesus, e este era composto pelo cânon menor; 3) Os próprios judeus aceitaram o cânon menor no sínodo de Jâmnia (ou Javneh) em 90 d.C.; 4) Os livros deuterocanônicos contém doutrinas anti-bíblicas.
Vejamos cada um destes argumentos:
1) Sobre este, que Jesus e seus apóstolos aceitaram o cânon menor, um exame das citações neotestamentárias do Antigo Testamento demonstrará a falácia. O Novo Testamento cita o Antigo cerca de 350 vezes, e em aproximadamente 300 destas (86%!) foram retiradas da septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, largamente usada no tempo de Cristo. Esta versão, a septuaginta, continha os deuterocanônicos. Não há razão para dizer que Jesus e os seus discípulos aceitaram o cânon menor, quando na maioria das vezes utilizaram fontes do Antigo Testamento que continham os deuterocanônicos.
Tomemos o exemplo de Paulo, cujas cartas missionárias eram dirigidas a regiões fora da palestina. Deve-se notar, por exemplo, que seu sermão em Antioquia na Pisídia presumiu um conhecimento, entre seus ouvintes, da Septuaginta e uma vez que a comunidade fora formada, o conteúdo de suas cartas a estas era baseado na Septuaginta [40] Obviamente, Paulo assim não rejeitava, mas se utilizava do cânon maior, com os livros deuterocanônicos.
Além do mais, é errado dizer que estes livros não foram citados no Novo Testamento [41] e que tal citação deve ser pré-requisito para a canonicidade de um livro bíblico. Algumas fontes dizem que os deuterocanônicos são citados no Novo Testamento, no mínimo, 150 vezes [42]. Acrescido a isto, livros do cânon menor, como Eclesiastes, Abdias e Ester não são citados por Jesus ou seus apóstolos, e nem por isso os protestantes retiraram-nos do seu cânon. Obviamente este argumento não serve para determinar a canonicidade de um livro.
2) A evidência histórica mostrará que o argumento protestante de que o cânon do Antigo Testamento foi fechado no tempo de Jesus é falso. Primeiro que não havia nenhum cânon palestino oficial, pois existia neste tempo três cânons em circulação [43], além da Septuaginta. Segundo, as evidências mostram que o judaísmo durante os últimos dois séculos antes de Cristo e o primeiro século depois de Cristo não era uniforme em seu entendimento sobre quais livros deveriam ser considerados sagrados. Existiam muitas opiniões dentro e fora de Israel sobre esta questão [44].
3) Usar o sínodo de Jâmnia para justificar o cânon menor é problemático por algumas razões: a) tal decisão, tomada cerca de 50 anos após a morte de Cristo, não tem relação alguma com o cânon dos livros cristãos, pois os rituais veterotestamentários (como não comer carne de porco) não têm relação com o cristianismo; b) é questionável se de fato este sínodo possuiu uma visão definitiva e autoritária sobre o cânon do Antigo Testamento das Escrituras, pois a lista continuou a variar dentro judaísmo até o século 4 d.C. [45]; c) o sínodo foi, de certo modo, formado devido a polêmica contra a seita dos cristãos, portanto em total oposição ao cristianismo. Estes judeus aceitaram o cânon menor porque os cristãos aceitavam o cânon maior da Septuaginta; d) as decisões deste sínodo representaram a decisão de apenas um ramo do judaísmo farisaico, o da palestina, e não do judaísmo como um todo.
4) Por fim, para os protestantes afirmarem que os deuterocanônicos possuem doutrinas anti-bíblicas é decididamente um caso de insegurança dogmática. Esta conclusão foi tomada porque os reformadores, claramente em antagonismo com a Igreja Católica, tomavam a Bíblia a priori como um livro de doutrinas protestantes. Descartaram os deuterocanônicos porque continham doutrinas católicas, como 2 Mac 12,42-46, que claramente baseia a oração pelas almas do purgatório: santo foi e piedoso o seu pensamento, e foi essa a razão por que mandou que se celebrasse pelos mortos um sacrifício expiatório, para que fossem absolvidos de seus pecados. Lutero, claramente, quis retirar também do Novo Testamento livros como Apocalipse, Hebreus e Tiago, este merecendo o nome de epístola de palha, onde nada de evangélico é encontrado [46], isso devido, sem dúvidas, o fato de que Tiago afirmava que somos salvos pela fé e pelas boas obras (Tg 2,14-26), refutando a doutrina recém-criada por Lutero de que somos salvos somente pela fé, sem participação das obras. Lutero foi convencido por seus correligionários a não retirar mais este livro da Bíblia.
Além deste fato acima, existe o testemunho histórico da continuidade do cânon bíblico. enquanto vimos que existiam disputas em relação ao cânon bíblico, duas considerações são evidentemente verdadeiras: a) com certeza os deuterocanônicos eram usados pelos cristãos do primeiro século, a começar por Jesus e seus apóstolos; b) desde que foi definido o cânon no século 4, não vemos mudança alguma em relação ao conteúdo da Bíblia. Na prática, a única disputa que surgiu após este evento veio com a reforma protestante, somente no século 16, que decidiram que poderiam simplesmente lançar no lixo a continuidade de 11 séculos do cânon bíblico em sua existência formal, e 15 séculos de existência prática.
O fato de que qualquer pessoa possa vir e simplesmente alterar a continuidade de um tema tão central como o conteúdo dos livros da Escritura deveria levar o cristão a pensar seriamente sobre um detalhe. Este cristão deveria se perguntar: com que autoridade esta pessoa pôde fazer esta alteração? Tanto a história como os próprios escritos de Lutero mostram que suas ações foram baseadas em nada mais que sua opinião pessoal. Certamente, tal "autoridade final" falha grosseiramente no que se requer para que alguma alteração canônica seja feita, especialmente quando se considera que o processo de identificar o cânon bíblico envolveu um processo guiado pelo Espírito Santo, levou séculos, e envolveu algumas das maiores mentes do cristianismo assim como alguns Concílios da Igreja. Mais interessante é o fato de que outros chamados reformadores - e desde então todos os protestantes - aceitaram a alteração do cânon de Lutero, mesmo que todos dissessem que eram fiéis à Bíblia e insistiam que nada deveria ser acrescentado ou retirado de suas páginas.

SE ORIGINOU DOS PROBLEMAS EMOCIONAIS DE LUTERO

Se algo deve ser dito com relação a Martinho Lutero é o fato de que ele era cronicamente assolado por uma combinação de dúvidas e inseguranças quanto a sua própria salvação e uma sensação de extrema impotência em face as tentações do pecado. Ele próprio escreveu: meu espírito está completamente partido e estou em eterno estado de melancolia; pois, faça o que fizer, minha retidão e minhas boas obras não me trazem ajuda ou consolação alguma [47].
À luz desta realidade, pode-se acessar o perfil emocional e psicológico do pensamento de Lutero e seu impacto na origem de sua Sola Scriptura. Uma pequena análise pode mostrar que esta doutrina nasceu da necessidade que Lutero tinha de se ver livre de seus sentimentos de culpa, insegurança e tentação que o "torturavam".
Considerando que o próprio Lutero admite uma tendência obsessiva ao pecado, assim como uma inabilidade de resistir a ele, fica claro que ele sofreu de "escrupulosidade", e todos os estudiosos luteranos admitem isso [48]. Escrupulosidade significa que uma pessoa fica extremamente ansiosa quanto a ter cometido um pecado quando na verdade não há razão para tal, e uma pessoa escrupulosa é aquela que geralmente supervaloriza seu pecado, com uma correspondente confiança em Deus. Também é relevante notar que a escrupulosidade parece ser baseada em alguma disfunção psicológica [49].
Em outras palavras, Lutero provavelmente nunca desfrutou de paz espiritual e psicológica, pois a voz de sua "consciência" sempre o alcançava sobre qualquer assunto, real ou imaginário. É natural que alguém tão atordoado busque refúgio nesta voz, e para Lutero este refúgio foi encontrado na doutrina da Sola Fide, ou a salvação somente pela fé.
Mas desde que resistir ao pecado e praticar boas obras são componentes essenciais para nossa salvação, e desde que estes fatos são satisfatoriamente componentes e defendidos pela Igreja Católica, Lutero se encontrou diametricamente oposto à doutrina da Igreja. Pelo fato de a Igreja ensinar a necessidade de algo que ele exatamente não podia fazer, tomou uma decisão drástica - uma que "resolveria" sua escrupulosidade: rejeitou a autoridade da Igreja, contida no seu Magistério cujo Papa é o chefe, e afirmou que era algo contrário à Bíblia. Em outras palavras, por dizer que a Sola Scriptura deveria ser a verdadeira doutrina cristã, Lutero repugnou a autoridade que o fazia reconhecer que sua própria espiritualidade era disfuncional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por todas estas razões, então, é evidente que a doutrina protestante da Sola Scriptura é uma extremamente anti-bíblica, humana e errônea crença que deve ser desacreditada e rejeitada completamente. Todos os que são genuinamente cristãos e seguem as verdades que Jesus ensinou - mesmo que contradiga o seu sistema religioso atual - devem reconhecer a falha desta doutrina, falha esta óbvia pelas Escrituras, pela história e pela lógica.
A plenitude da verdade cristã, sem erro, é encontrada somente na Igreja Católica, a mesma Igreja que o próprio Cristo estabeleceu sobre a terra. De acordo com esta Igreja, a Sola Scriptura é uma distorção da autoridade cristã. Na realidade, a verdadeira e direta regra de fé do cristão é a Igreja, que por sua vez absorve o que ensina da Revelação Divina - a Tradição Escrita e a Tradição Oral, que juntas formam a regra indireta de fé.
A Escritura e a Tradição são as fontes inspiradas da doutrina cristã, enquanto que a Igreja - entidade histórica e visível em sucessão ininterrupta desde Pedro e os demais apóstolos - é a intérprete infalível da doutrina cristã. Somente aceitando completamente esta regra de fé que os seguidores de Cristo podem aderir a todas as coisas que Ele ordenou aos seus apóstolos ensinar (Mt 28,20). Somente aceitando completamente esta regra de fé o cristão pode conhecer a verdadeira doutrina pregada por Cristo, e nada além da verdade.

REFERÊNCIAS

Nota: entre as referências estão citados alguns autores protestantes. Seus trabalhos não são obras recomendadas, porém mostram que os pontos apresentados neste trabalho são verdadeiros e válidos mesmo entre os protestantes.

1.     A reforma protestante não foi uma reforma no sentido verdadeiro da palavra, mas sim uma revolução - uma alteração violenta da legítima religiosidade e ordem civil.

2.     W.E. Vine [protestante], Vine's Expository Dictionary of New Testament Words (McLean, VA: McDonald Publishing House, n.d.), p. 387. Cf. St. Afonso de Liguóri, Exposição e defesa de todos os assuntos de fé discutidos e definidos pelo Santo Concílio de Trento; com a refutação dos erros dos pretensos reformadores, etc. (Dublin: James Duffy, 1846), p. 50.

3.     Apesar de todos os livros do Novo Testamento já terem sido escritos enquanto João finalizava o Apocalipse, ainda não estavam organizados como Sagrada Escritura.

4.     A palavra traduzida como ordenança é também traduzida como ensinamento ou tradição, por exemplo, a NIV traz ensinamento com uma nota dizendo: "ou tradição".

5.     Vine, op. cit., p. 564

6.     Um exemplo desta forma interpretativa envolve Ap 12. Os Padres da Igreja entenderam a mulher vestida de sol como referência à Assunção da Virgem Maria. Alguém afirmar que esta doutrina não existia até 1950 (o ano em que o Papa Pio XII definiu-o como dogma de fé) corresponde a uma grande ignorância de história eclesial. Essencialmente, a crença surgiu desde o início, mas não fora formalmente definida até o século 20. Deve-se saber que a Igreja geralmente não costuma definir uma doutrina formalmente a não ser que esta seja questionada por correntes heréticas perigosas. Tais ocasiões requerem uma necessidade oficial de definir parâmetros sobre a doutrina em questão.

7.     A Igreja Católica afirma que "o corpo dos bispos", os sucessores dos apóstolos, também goza de infalibilidade, quando, em união com o Papa, "exerce seu magistério supremo, sobretudo em um Concílio Ecumênico" (cf. CCE #891). "Ligar e desligar" é uma terminologia rabínica, e se refere à autoridade de seus ensinamentos e interpretações. Cristo claramente pretendeu, portanto, que seus apóstolos, sob a liderança de Simão Pedro (contudo somente Pedro recebeu o poder das chaves), possuíssem a autoridade para ensinar a correta interpretação.

8.     A afirmação protestante de que a Bíblia interpreta a si mesma nada mais é do que uma futilidade. Afirmam que cada pessoa pode chegar a uma correta interpretação bíblica comparando seus versículos com outros da Bíblia. O problema com este argumento pode ser assim demonstrado: peça a dez pessoas para darem sua interpretação sobre um certo versículo bíblico, e é provável que encontre dez interpretações diferentes. Se a Bíblia pudesse interpretar a si mesma, sempre se chegaria à mesma conclusão, independente da época em que se estuda, mesmo pelas mais diferentes pessoas. E se tal diferença de interpretações pode ser verdadeira para apenas dez pessoas, imagine então o resultado quando se multiplica este número por milhares ou milhões? A história já demonstrou tal resultado, e seu nome é Protestantismo.

9.     Existem alguns estudiosos que afirmam que 2 Pd foi o último livro escrito do Novo Testamento, datando do início do século dois. Pelo fato de não haver consenso entre os especialistas sobre a data acurada, é suficiente para nosso propósito aceitar a visão geral de que ao fim do século um todos os livros do Novo Testamento já haviam sido escritos.

10. Veja, por exemplo, Santo Irineu, Contra as Heresias 3,3; Tertuliano, Prescrição contra os hereges 32, Orígenes, Primeiros princípios, 1, prefácio.

11. Veja, por exemplo, Santo Inácio, Carta aos Esmirnenses 8-9; Carta aos Filadélfos, introdução e cap.1-4; Carta aos Magnésios, 7.

12. Veja, por exemplo, 1 Clemente 1,56,58,59; Santo Inácio, Carta aos Romanos, introdução e cap.3; Santo Irineu, Contra as Heresias 3,3; Tertuliano, Prescrição contra os hereges 22; Eusébio, História Eclesiástica 5,24,9.

13. Msr. Patrick F. O'Hare, LL.D, The Facts about Luther (Cincinnati: Pustet, 1916; Rockford, IL; TAN, 1987), pp. 215-255.

14. Walch, XIII, 2195, citado em The Facts about Luther, p. 15.

15. É relevante que os decretos de um Concílio Ecumênico não porta autoridade a menos que seja ratificados pelo Papa.

16. Dois versículos favoritos dos arianos para respaldar sua crença são Pv 8,22 e Jo 14,28.

17. John Henry Newman, Os arianos do quarto século.

18. Henry G. Graham, Where we got the Bible: our debt to the Catholic Church (St Louis: B. Herder, 1911; Rockford, IL: TAN, 1977, 17th edição), pp. 34-35.

19. É a mesma lista dada pela declaração final, explícita e infalível da Igreja sobre quais os livros a serem incluídos na Bíblia, feita pelo Concílio de Trento, na sessão IV, em 1546. Listas iniciais dos livros canônicos eram as listas do "Decreto Gelasiano", dado pela autoridade do Papa Dâmaso em 382, e o cânon do Papa Inocêncio I, enviada a um bispo franco em 405. Nenhum dos dois documentos pretendia compor uma afirmação infalível a toda a Igreja, mas ambos incluíam os mesmos 73 livros da lista de Trento 11 séculos antes. (The Catholic Encyclopedia [New York: The Encyclopedia Press, 1913], vol. 3, p. 272).

20. O leitor deve notar que a Igreja Católica não afirma que a identificação dos livros da Bíblia não os tornaram canônicos. Deus é quem é o autor da canonicidade. A Igreja Católica afirma, isto sim, que somente ela detém a autoridade e responsabilidade por identificar infalivelmente quais são os livros canonizados por Deus que devem compor a Bíblia cristã.

21. Commentary on John, cap. 16, como citado em Paul Stenhouse, Catholic Ansewrs to "Bible" Christians (Kensington: Chevalier Press, 1993), p. 31.

22. Graham, op. cit, p. 31.

23. Nem as primeiras cópias da Bíblia, o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, ambos datados do quarto século d.C., nem qualquer outra cópia contém a Bíblia inteira, pois partes dos manuscritos foram perdidos ou destruídos. A grande maioria dos manuscritos que existem atualmente são apenas fragmentos da Bíblia.

24. A ironia é que foi pelos esforços incansáveis e laboriosos dos monges católicos em suas clausuras que a Palavra de Deus escrita sobreviveu através dos séculos. A acusação de que os católicos fizeram de tudo para suprimir a Bíblia é uma das mais perniciosas falsidades, e é facilmente refutada pelo atento exame nas pesquisas da história da Igreja. Muito pelo contrário, a Igreja Católica, cuja única função é ser a guardiã do Depósito da Fé, protegeu a Bíblia das traduções falsas e espúrias, e foram estas versões que foram destruídas ou queimadas para evitar que falsos evangelhos circulasse.

25. Raymond F. Collins, Introduction to the New Testament (Garden City, NY: Doubleday & Company, Inc., 1983), p. 77.

26. Ibid., pp. 100-102.

27. Bruce M. Matzger [protestante], The Text of the New Testament: its transmission, corruption and restoration (Oxford University Press, 1992), pp. 221-225, 234-242.

28. Os protestantes argumentam que mesmo com as variações nos manuscritos bíblicos, nenhum aborda as doutrinas principais. Mesmo que fosse verdadeira esta afirmação, não altera o fato de que os protestantes estão verdadeiramente admitindo, ao menos indiretamente, que aceitam algumas doutrinas que são diferentes da Bíblia "real". E se isto é verdadeiro, então o próprio protestante começa a desmerecer a Sola Scriptura.

29. Metzger, op. cit., pp. 226-228.

30. Collins, op. cit., p. 102.

31. Metzger, op. cit., p. 234.

32. Entre os vários exemplos que poderiam ser citados, por motivos de espaço, vamos considerar somente algumas ilustrações sobre este assunto. Em Jo 1,1, a NWT traz, "...e a Palavra era um deus" e não "e a Palavra era Deus", isto porque os Testemunhas rejeitam a divindade de Cristo. Em Cl 1,15-20, a NWT acrescenta a palavra outro no texto quatro vezes porque crêem que Jesus era uma criatura. Em Mt 26,26 a NWT traz, "...isto significa meu corpo..." e não "...isto é o meu corpo", porque os Testemunhas negam a Real Presença de Jesus na Eucaristia.

33. Além do mais, a versão latina Vulgata recebeu uma aprovação particular pelo Concílio de Trento entre todas as demais versões latinas existentes na época. O Concílio declarou: ...esse mesmo sacrossanto Concílio determina e declara: que nas preleções públicas, nas discussões, pregações e exposições seja tida por legítima a antiga edição da Vulgata, que pelo longo uso de tantos séculos se comprovou na Igreja; e que ninguém, sob qualquer pretexto, se atreva ou presuma rejeitá-la. (Sessão IV [8-4-1546], A edição da Vulgata da Bíblia e o modo de interpretação, 785). Desde então, como afirmou o Papa Pio XII na Carta Encíclica Divino Afflante Spiritu ("Sobre a promoção dos estudos bíblicos"), a Vulgata, "quando interpretada no sentido que a Igreja sempre entendeu" é " livre de erro em matéria de fé e moral". Em 1970 o Papa Pio IX (1903-1914) iniciou a revisão da Vulgata para uma maior acurácia textual. Após sua morte, este enorme projeto está sendo continuado por outros. Em 1979 João Paulo II promulgou a "Nova Vulgata" como Editio typica ou "edição normativa".

34. Notemos que o inventor da imprensa - Johannes Gutenberg - era católico, e que o primeiro livro impresso foi a Bíblia (circa 1455). Também deve ser notado que esta primeira Bíblia continha os 73 livros que até hoje compõem a Bíblia católica. Portanto, os protestantes retiraram os 7 livros da Bíblia quando esta já existia em formato impresso.

35. Alguns estimam que existam cerca de 25 mil denominações protestantes diferentes. Contando-se a partir de 500 anos de história protestante, desde Lutero (1517), este número significa uma média de uma nova denominação protestante nova por dia! Sabemos, contudo, que estes dados são desatualizados, e existem muito mais de 25 mil denominações/seitas protestantes diferentes.

36. Mesmo os primeiros reformadores - Martinho Lutero, João Calvino e Ulrich Zwingli - não concordavam em assuntos doutrinários e classificaram as doutrinas uns dos outros como heréticas.

37. Três aqui é usado apenas como ilustração. A quantidade histórica (isto é, o número das variações nas interpretações de várias passagens) é imensamente maior.

38. Não é negado que uma passagem da Escritura possa ter diferentes níveis de interpretação ou que possa ter diferentes níveis de significado em termos de sua aplicação na vida do cristão. O que é negado aqui, contudo, é o fato de uma passagem possuir mais de um significado doutrinário ou teológico oposto a outro. Por exemplo, se duas pessoas afirmam, respectivamente, "X" e "não-X" para uma determinada interpretação, ambos não podem estar corretos. Tome a doutrina da Real Presença na Eucaristia. Se o primeiro afirma que Jesus está presente no pão e no vinho, mas a segunda pessoa afirma que Cristo não está presente no pão e no vinho, é impossível que ambas as doutrinas estejam corretas ao mesmo tempo.

39. O cânon farisaico, usado pelos judeus da Palestina, não continha os livros deuterocanônicos. O cânon alexandrino ou Septuaginta, usado largamente pelos judeus da diáspora (regiões helenísticas fora da Palestina), continha os livros deuterocanônicos.

40. W.H.C. Frend [protestante], The Rise of the Christianity (Philadelphia, PA: Fortress Press, 1984), pp. 99-100.

41. Para alguns exemplos, compare as seguintes passagens: Mt 6,14-15 e Eclo 28,2; Mt 6,7 e Eclo 7,15; Mt 7,12 e Tb 4,15-16; Lc 12,18-20 e Eclo 11,19; At 10,34 e Eclo 35,15; At 10,26 e Sb 7,1; Mt 8,11 e Br 4,37.

42. Lee Martin McDonald [protestante], The Formation of the Biblical Canon, Apêndice A (Nashville, TN: The Parthenon Press, 1988) (Lista entitulada "New Testament citations and allusions to apocryphal and pseudoeptgraphal writtings", adaptado de The Text of the New Testament, de Kurt Aland e Barbara Aland, dois famosos biblistas).

43. Incluem a) o cânon de Qumram, conhecido pelos Manuscritos do Mar Morto; b) o cânon farisaico e c) o cânon saduceu/samaritano, que inclui somente o Torah (os primeiros livros do Antigo Testamento).

44. McDonald, op. cit., p. 53.

45. Ibid, p. 60.

46. Hartmann Grisar, SJ, Marthin Luther: His life and work (B. Herder, 1930: Westminster, MD: The Newman Press, 1961), p. 426.

47. Jansen, Vol III, p. 84, como citado em O'Hare, op. cit., p. 51.

48. Cf. Fr William Most, "Somos salvos somente pela fé?" fita cassete da Catholic Answers, PO Box 174900, San Diego, CA 92177.

49. Fr. Peter Stravinskas, ed., Catholic Encyclopedia (Huntington, Indiana: Our Sunday Visitor, Inc. 1991), p. 873.)

 

26. VINTE E SETE LIVROS PERDIDOS CITADOS PELA BÍBLIA

No Antigo Testamento:

1.     Livro das Guerras de Javé: "Por isso se diz no Livro das Guerras de Javé: 'Assim como fez no Mar Vermelho, assim fará nas torrentes do Arnon. Os rochedos das torrentes se inclinaram, para descansar em Ar, e repousarem sobre os confins dos moabitas" (Num. 21,14-15) .

2.     Livro do Justo: "Foi então que Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus aos filhos de Israel. Disse Josué na presença de Israel: 'Sol, detém-te em Gabaão, e tu, lua, no vale de Ajalão!' E o sol e a lua pararam até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está isto escrito no Livro do Justo? Parou pois o sol no meio do céu, e não se apressou a pôr-se durante o espaço de um dia" (Jos. 10,12-13).
"E (Davi) ordenou que ensinassem aos filhos de Judá o (cântico chamado do) arco, conforme está escrito no Livro do Justo. E disse: 'Considera, ó Israel, os que morreram sobre os teus altos, cobertos de feridas'" (2Sam. 1,18).

3.     Provérbios e Cânticos de Salomão: "Proferiu ele (Salomão) três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Discorreu acerca das plantas, desde o cedro que está no Líbano até o hissopo que brota da parede. Também falou dos animais e das aves, e dos répteis, e dos peixes" (1Rs. 4,32-33).

4.     Livro dos Atos de Salomão: "Quanto aos demais atos de Salomão, e a tudo quanto fez, e à sua sabedoria, porventura não está escrito no Livro dos Atos de Salomão?" (1Rs. 11,41).

5.     Livro das Crônicas dos Reis de Israel: "Quanto ao restante dos atos de Jeroboão, como guerreou e como reinou, está escrito no Livro das Crônicas dos Reis de Israel" (1Rs. 14,19).

6.     Livro das Crônicas dos Reis de Judá: "Quanto ao restante dos atos de Roboão, e a tudo quanto fez, porventura não está escrito no Livro das Crônicas dos Reis de Judá?" (1Rs. 14,29).

7.     Livro do Profeta Natã: "Os atos do rei Davi, tanto os primeiros quanto os últimos, estão escritos no livro de Samuel, o vidente, no Livro de Natã, o profeta, e no Livro de Gade, o vidente" (1Cr. 29,29). "Quanto ao resto dos atos de Salomão, dos primeiros aos últimos, porventura não estão escritos no livro da história de Natã, o profeta, e nos livros de Aías, o silonita, e nas visões de Ado, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate?" (2Cr. 9,29).

8.     Livro de Samuel, o Vidente: "Os atos do rei Davi, tanto os primeiros quanto os últimos, estão escritos no livro de Samuel, o vidente, no Livro de Natã, o profeta, e no Livro de Gade, o vidente" (1Cr. 29,29).

9.     Livro de Aías, o Silonita: "Quanto ao resto dos atos de Salomão, dos primeiros aos últimos, porventura não estão escritos no livro da história de Natã, o profeta, e nos livros de Aías, o silonita, e nas visões de Ado, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate?" (2Cr. 9,29).

10. Livro de Ado, o Vidente: "Quanto ao resto dos atos de Salomão, dos primeiros aos últimos, porventura não estão escritos no livro da história de Natã, o profeta, e nos livros de Aías, o silonita, e nas visões de Ado, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate?" (2Cr. 9,29).
"Quanto ao resto dos atos de Roboão, dos primeiros aos últimos, está escrito nos livros de Semaias, o profeta, e de Ado, o vidente, e diligentemente registrado: 'houve guerra entre Roboão e Jeroboão durante todos os seus dias'" (2Cr. 12,15).
"Quanto ao resto dos atos de Abias, seu caráter e obras, está diligentemente escrito no Livro de Ado, o profeta" (2Cr. 13,22).

11. Livros de Semaias, o profeta: "Quanto ao resto dos atos de Roboão, dos primeiros aos últimos, está escrito nos livros de Semaias, o profeta, e de Ado, o vidente, e diligentemente registrado: 'houve guerra entre Roboão e Jeroboão durante todos os seus dias'" (2Cr. 12,15).

12. Livro dos Reis de Judá e Israel: "Mas os feitos de Asa, dos primeiros aos últimos, estão escritos no Livro dos Reis de Judá e Israel" (2Cr. 16,11).

13. Livro dos Reis de Israel e Judá: "Quanto ao resto dos atos de Joatão, e todas as suas guerras e obras, estão escritos no Livro dos Reis de Israel e Judá" (2Cr. 27,7).

14. Livro dos Reis: "O relato dos seus filhos, as muitas sentenças proferidas contra ele e o registro da restauração da casa de Deus, estão escritos diligentemente no Livro dos Reis. E Amasias, seu filho, reinou em seu lugar" (2Cr. 24,27).

15. Anais dos Reis de Israel: "Mas o resto dos atos de Manassés, sua oração ao seu Deus e as palavras dos videntes que falaram-lhe em nome do Senhor Deus de Israel, estão contidas nos Anais dos Reis de Israel" (2Cr. 33,18).

16. Comentários de Jeú, filho de Hanani: "Mas o resto dos atos de Josafá, dos primeiros aos últimos, estão escritos nos comentários de Jeú, filho de Hanani, que observou nos Livros dos Reis de Israel" (2Cr. 20,34).

17. A História de Osias, por Isaías, filho de Amós, o profeta: "Mas o resto dos atos de Ozias, dos primeiros aos últimos, foi escrito por Isaías, filho de Amós, o profeta" (2Cr. 26,22).

18. Palavras de Hozai: "A oração que ele (Manassés) fez, como foi ouvido, todos os seus pecados e o desprezo (de Deus), os lugares também em que mandou edificar altos, em que mandou plantar bosques, e colocar estátuas, antes de fazer penitência, encontra-se tudo escrito no Livro de Hozai" (2Cr. 33,19).

19. Livros dos Medos e dos Persas: "Ora, o rei Assuero tinha imposto tributo a toda terra e todas ilhas do mar. Nos Livros dos Medos e dos Persas se acha escrito qual foi o seu podere o seu domínio, a dignidade e a grandeza a que ele exaltou Mardoqueu" (Est. 10,1-2).

20. Anais do Pontificado de João: "O resto dos atos de João, das suas guerras, das empresas que valorosamente se portou, da reedificação dos muros que construiu e de todas as suas ações, tudo está escrito no Livro dos Anais do seu pontificado, começando desde o tempo em que foi constituído sumo-pontífice em lugar de seu pai" (1Mac. 16,23-24).

21. Descrições de Jeremias, o profeta: "Nos documentos referentes ao profeta Jeremias, lê-se que ele ordenou aos que eram levados para o cativeiro que tomassem o fogo, como já foi referido, e que lhe faz recomendações (...) Lia-se também nos mesmos escritos, que este profeta, por uma ordem particular recebida de Deus, mandou que se levassem com ele o tabernáculo e a arca, quando escalou o monte a que Moisés tinha subido para ver a herança de Deus. Tendo ali chegado, Jeremias achou uma caverna; pôs nela o tabernáculo, a arca e o altar dos perfumes, e tapou a entrada. Alguns dos que o seguiam voltaram de novo para marcar o caminho com sinais, mas não puderam encontrá-lo" (2Mac. 2,1.4-6).

22. Memórias e Comentários de Neemias: "Estas mesmas coisas se achavam nos comentários e memórias de Neemias, onde se lia que ele formou uma biblioteca, recolhendo os livros referentes aos reis e profetas, os de Davi e as cartas dos reis respeitantes às oferendas" (2Mac. 2,13).

23. Os Cinco Livros de Jasão de Cirene: "A história de Judas Macabeu e seus irmãos, a purificação do grande templo e a dedicação do altar, as guerras contra Antíoco Epífanes e seu filho Êupator, as manifestações do céu a favor dos que pelejaram pelo judaísmo com valentia e zelo, os quais, sendo poucos, se tornaram senhores de todo o país e puseram em fuga um grande número de bárbaros, recobraram o templo famoso em todo o mundo, livraram a cidade da escravidão, restabeleceram as leis que iam ser abolidas, graças ao Senhor que lhes foi propício com evidentes provas da sua bondade, tudo isto, que Jasão de Cirene escreveu em cinco livros, procuramos nós resumir num só volume".

No Novo Testamento:

1.     A Epístola Prévia de Paulo aos Coríntios: "Por carta vos escrevi que não tivésseis comunicação com os fornicadores; não certamente com os fornicadores deste mundo, ou com os avarentos, ou ladrões, ou com os idólatras; doutra sorte deveríeis sair deste mundo." (1Cor. 5,9-10).

2.     Epístola de Paulo aos Laodicenses: "Saudai os irmãos que estão em Laodicéia, e Ninfas e a igreja que se reúne em sua casa. Lida que for esta carta entre vós, fazei que seja lida também na Igreja dos Laodicenses; e vós, lede a dos laodicenses" (Col. 4,15-16).

3.     A Profecia de Enoque: "Também Enoque, o sétimo patriarca depois de Adão, profetizou destes, dizendo: 'Eis que vem o Senhor, entre milhares dos seus santos, a fazer juízo contra todos, e a argüir todos os ímpios de todas as obras da sua impiedade, que impiamente fizeram, e de todas as palavras injuriosas, que os pecadores ímpios têm proferido contra Deus'" (Jd. 1,14-15).

4.     A Disputa pelo Corpo de Moisés: "Quando o arcanjo Miguel, disputando com o demônio, altercava sobre o corpo de Moisés, não se atreveu a proferir contra ele a sentença da maldição, mas disse somente: 'Reprima-te o Senhor'" (Jd. 1,9)].

 

27. A TAREFA DO EXEGETA CATÓLICO

A tarefa dos exegetas católicos comporta vários aspectos. É uma tarefa de Igreja, pois ela consiste em estudar e explicar a Sagrada Escritura, de maneira a colocar todas as riquezas à disposição dos pastores e dos fiéis. Mas é ao mesmo tempo uma tarefa científica que coloca o exegeta católico em relação com seus colegas não-católicos e com vários setores da pesquisa científica. De outro lado, esta tarefa compreende ao mesmo tempo o trabalho de pesquisa e o de ensino. Tanto um como outro concluem-se normalmente em publicações.
1. ORIENTAÇÕES PRINCIPAIS

Aplicando-se às suas tarefas, os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do tempo delas, a revelação histórica que Deus fez, por diversos meios, dele mesmo e de seu plano de salvação. Conseqüentemente, os exegetas devem se servir do método histórico-crítico. Eles não podem, no entanto, atribuir-lhe a exclusividade. Todos os métodos pertinentes de interpretação dos textos são habilitados a dar sua contribuição à exegese da Bíblia.
No trabalho de interpretação que fazem, os exegetas católicos não devem nunca esquecer que o que eles interpretam é a Palavra de Deus. A tarefa comum que têm não está terminada após terem distinguido as fontes, definido as formas ou explicado os procedimentos literários. A finalidade do trabalho deles só é atingida quando tiverem esclarecido o sentido do texto bíblico como palavra atual de Deus. A esse efeito devem levar em consideração as diversas perspectivas hermenêuticas que ajudam a perceber a atualidade da mensagem bíblica e lhes permitem responder às necessidades dos leitores modernos das Escrituras.
Os exegetas têm também de explicar o alcance cristológico, canônico e eclesial dos escritos bíblicos.
O alcance cristológico dos textos bíblicos não é sempre evidente; deve ser posto em evidência cada vez que seja possível. Se bem que o Cristo tenha estabelecido a Nova Aliança em seu sangue, os livros da Primeira Aliança não perderam seu valor. Assumidos na proclamação do Evangelho, adquirem e manifestam seu pleno significado no "mistério do Cristo" Ef 3,4), do qual eles iluminam os múltiplos aspectos ao mesmo tempo que são iluminados por ele. Esses livros, efetivamente, preparavam o povo de Deus para sua vinda (cf. Dei Verbum, 14-16).
Se bem que cada livro da Bíblia tenha sido escrito com uma finalidade distinta e que tenha o seu significado específico, ele se manifesta portador de um sentido ulterior quando se torna uma parte do conjunto canônico. A tarefa dos exegetas inclui, então, a explicação da afirmação agostiniana: "Novum Testamentum in Vetere latet, et in Novo Vestus patet" (cf. S. Agostinho, Quaest in Hept., 2, 73: CSEL 28, III, 3, p. 141).
Os exegetas devem explicar também a relação que existe entre a Bíblia e a Igreja. A Bíblia veio à luz em comunidades de fiéis. Ela exprime a fé de Israel e a das comunidades cristãs primitivas. Unida à Tradição viva que a precedeu, a acompanha e da qual se alimenta (cf. Dei Verbum, 21), ela é o meio privilegiado do qual Deus se serve para guiar, ainda hoje, a construção e o crescimento da Igreja enquanto Povo de Deus. Inseparável da dimensão eclesial está a abertura ecumênica.
Pelo fato de que a Bíblia exprime uma oferta de salvação apresentada por Deus a todos os homens, a tarefa dos exegetas comporta uma dimensão universal, que requer uma atenção às outras religiões e aos anseios do mundo atual.
2. PESQUISA
A tarefa exegética é vasta demais para poder ser bem conduzida por um único indivíduo. Impõe-se uma divisão de trabalho, especialmente para a pesquisa, que requer especialistas em diferentes domínios. Os inconvenientes possíveis da especialização serão evitados graças a esforços interdisciplinares.
É muito importante para o bem da Igreja inteira e para sua irradiação no mundo moderno que um número suficiente de pessoas bem formadas consagrem-se à pesquisa em diferentes setores da ciência exegética. Preocupados com as necessidades mais imediatas do ministério, os bispos e os superiores religiosos são muitas vezes tentados a não levar suficientemente a sério a responsabilidade que lhes incumbe de prover a esta necessidade fundamental. Mas uma carência neste ponto expõe a Igreja a graves inconvenientes, pois pastores e fiéis arriscam-se a ficar à mercê de uma ciência exegética estranha à Igreja e privada de relações com a vida da fé. Declarando que "o estudo da Sagrada Escritura" deve ser "como a alma da teologia" (Dei Verbum 24), o II Concílio do Vaticano mostrou toda a importância da pesquisa exegética. Ao mesmo tempo também lembrou implicitamente aos exegetas católicos que suas pesquisas têm uma relação essencial com a teologia, da qual eles devem se mostrar conscientes.
3. ENSINAMENTO
A declaração do Concílio faz igualmente compreender o papel fundamental que é dado ao ensinamento da exegese nas Faculdades de Teologia, Seminários e Escolasticados. É evidente que o nível dos estudos não será uniforme nestes diferentes casos. É desejável que o ensinamento da exegese seja dado por homens e por mulheres. Mais técnico nas Faculdades, esse ensinamento terá uma orientação mais diretamente pastoral nos Seminários. Mas ele não poderá nunca esquecer uma dimensão intelectual séria. Proceder de outra maneira seria falta de respeito com a Palavra de Deus.
Os professores de exegese devem comunicar aos estudantes uma profunda estima pela Sagrada Escritura, mostrando o quanto ela merece um estudo atento e objetivo que permita apreciar melhor seu valor literário, histórico, social e teológico. Eles não podem se contentar em transmitir uma série de conhecimentos a ser registrados passivamente, mas devem dar iniciação aos métodos exegéticos, explicando suas principais operações para tornar os estudantes capazes de julgamento pessoal. Visto o tempo limitado de que se dispõe, convém utilizar alternativamente duas maneiras de ensinar: de um lado, por meio de exposições sintéticas, que introduzem o estudo de livros bíblicos inteiros e não deixam de lado nenhum setor importante do Antigo Testamento nem do Novo; de outro lado, por meio de análises aprofundadas de alguns textos bem escolhidos, que sejam ao mesmo tempo uma iniciação à prática da exegese. Tanto em um como em outro caso é preciso cuidar para não ser unilateral, isto é, não se limitar nem a um comentário espiritual desprovido de base histórico-crítica nem a um comentário histórico-crítico desprovido de conteúdo doutrinal e espiritual (cf. Divino Afflante Spiritu; E.B., 551-552; PC, De Sacra Scriptura recte docenda, E.B., 598). O ensinamento deve mostrar ao mesmo tempo as raízes históricas dos escritos bíblicos, o aspecto deles enquanto palavra pessoal do Pai celeste que se dirige com amor a seus filhos (cf. Dei Verbum, 21) e o papel indispensável que tem no ministério pastoral (cf. 2Tm 3,16).
4. PUBLICAÇÕES
Como fruto da pesquisa e complemento do ensino, as publicações tem uma função de grande importância para o progresso e a difusão da exegese. Em nossos dias, a publicação não se realiza mais somente pelos textos impressos, mas também por outros meios, mais rápidos e mais potentes (rádio, televisão, técnicas eletrônicas), dos quais convém aprender a se servir.
As publicaçôes de alto nível científico são o instrumento principal de diálogo, de discussão e de cooperação entre os pesquisadores. Graças a elas a exegese católica pode se manter em relação recíproca com outros ambientes da pesquisa exegética e também com o mundo dos estudiosos em geral.
A curto prazo, são as outras publicações que prestam grandes serviço pois se adaptam a diversas categorias de leitores, desde o público cultivado até as crianças dos catecismos, passando pelos grupos bíblicos, os movimentos apostólicos e as congregações religiosas. Os exegetas dotados para a divulgação fazem uma obra extremamente útil e fecunda, indispensável para assegurar aos estudos exegéticos a irradiação que devem ter. Neste setor, a necessidade de atualização da mensagem bíblica faz-se sentir de maneira mais premente. Isso significa que os exegetas levem em consideração as legítimas exigências das pessoas instruídas e cultas de nosso tempo e distingam claramente, para o bem delas, o que deve ser olhado como detalhe secundário condicionado pela época, o que é preciso interpretar como linguagem mítica e o que é preciso apreciar como sentido próprio, histórico e inspirado. Os escritos bíblicos não foram compostos em linguagem moderna nem em estilo do século XX. As formas de expressão e os gêneros literários que eles utilizam no texto hebraico, aramaico ou grego devem ser tornados inteligíveis aos homens e mulheres de hoje que, de outra maneira, seriam tentados ou a perder o interesse pela Bíblia ou a interpretá-la de maneira simplista: literalista ou fantasiosa.
Em toda a diversidade de suas tarefas, o exegeta católico não tem outra finalidade senão o serviço da Palavra de Deus. Sua ambição não é substituir aos textos bíblicos os resultados de seu trabalho, quer se trate de reconstituição de documentos antigos utilizados pelos autores inspirados ou de uma apresentação moderna das últimas conclusões da ciência exegética. Sua ambição é, ao contrário, pôr em maior evidência os próprios textos bíblicos, ajudando a apreciá-los melhor e a compreende-los com sempre mais exatidão histórica e profundidade espiritual.